Criação literária – Anorkinda Neide

Num contexto formado por textos, vivia a criação do Homem. Um castelo criado com sonhos, erigido por letras, que uma a uma levantaram as paredes da ficção. Voavam as inspirações, alimentando o ambiente numa atmosfera leve.

Os amigos brincavam com rimas sempre que o tempo estava bom. Se o ar tornava-se sombrio, sem luminosidade, eles se dedicavam à leitura das paredes. De onde vertiam histórias sem tempo ou identidade, ilustrando a criatividade da humanidade.

À noite, e somente no escuro, quando as palavras não podiam ser vistas por olhos mundanos, beijos e carícias se davam em idílios de amor. Romances imaginados agora vertiam-se, gozando plenos direitos de consumar o que fora antes vislumbrado.

Foi numa noite assim, de delícias, que algo extraordinário aconteceu. Um grito foi ouvido por todos daquela criação fantástica, pensou-se e sussurrou-se de ouvido a ouvido que fora um êxtase dos mais empolgados. Homem ou mulher? Não sabia-se dizer.

Porém, antes da aurora, a atmosfera estava densa e os habitantes do castelo dos sonhos, já saciados de prazeres, sentiram que algo estava errado. Lembraram-se do grito ouvido horas atrás. Uma intuição coletiva estava quase visível neste momento. E um cheiro de morte infectava o ar.

Vinha dos porões mais antigos e supostamente abandonados, toda esta aura cinza que pairava na expectativa de cada um. Murmurou-se à boca pequena que houve um tempo em que letras soturnas decoravam aquele lugar e foram relegadas ao esquecimento dos mais baixos porões do castelo. Trancafiadas, as letras teriam definhado na escuridão.

Mas, hoje neste pré-amanhecer era indiscutível: o lúgubre tom das notas do galo despertador, anunciava que o terror soltara-se. As cozinheiras, espavoridas pelos corredores da ala serviçal, gritavam a falta de uma companheira. A novata mais bonita que aqueles colegas já haviam conhecido. Era ela especialista nos recheios mais quentes dos degustes servidos na madrugada. Foi encontrada morta, num sorriso devastador em rosto angelical.

E toda a criação do Homem perdeu a leveza da imaginação. A fama que corria agora era a de que num recanto escondido de uma biblioteca havia um livro mal-assombrado, dele ouvia-se um grito por noite num exercício macabro de literatura.

30 comentários em “Criação literária – Anorkinda Neide

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  1. Que conto mais lindo, Anorkinda!! Eu amei esse mundo de imaginação cheio de letras e sonhos… Não sei o que dizer… eu queria ter escrito esse texto. Parabéns!!

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  2. Esse conto É para ser estendido. Sério mesmo! Porque, nesse mundo fantástico, onde as paredes contam histórias, e livros gritam quebrando o silêncio dos amantes, e onde em um tempo distante letras soturnas foram aprisionadas nos porões, tudo pode acontecer. Eu já fiquei aqui pensando em uma sequência de histórias, iguais àquelas que lia para os filhotes – uma história por dia. Apenas, essas, não poderiam ser histórias para crianças. Já pensou?
    Enfim, gostei de viajar nesse pedaço de fantasia. Parabéns.
    Grande e carinhoso abraço!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Hehehe legal, nunca pensei em continuar esta história,mas por que não?!
      Obrigada pela leitura e fico feliz que ela te ‘atiçou’!! \o/
      Abração

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  3. Oi, Anorkinda.
    Tudo bem?
    Imaginar o personagem e sua vida além da vida limitada à que o escritor o submete é uma premissa incrível. Você ousou descrever o momento quando se fecha um livro e, animadas e secretamente, as palavras vivem, os personagens sentem, terminam suas histórias. Mas, quando o autor muda de ideia e resolve aventurar-se pelo obscuro da alma humana, os pobre personagens sofrem as consequências.
    O conto, que a primeira vista pode parecer uma brincadeira sobre a premissa, é mais que isso. É uma reflexão que todo o autor faz ao matar, torturar e dar rumos às suas criações. Em algum momento, temos realmente a impressão de que esses seres vivem por conta própria, não é?
    Parabéns.
    Muito bom!
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Acho que eles tem vida própria, sim! ahha
      Obrigada pela leitura, Paula, sempre tão aprofundada, vc mergulha mesmo no texto e emerge com pérolas riquíssimas de interpretação!
      Um abraço, querida!

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  4. Anorkinda, seu texto me lembrou aquelas histórias onde, depois que a criança sai do quarto, as bonecas criam vida, só que, no caso do texto, as palavras, os personagens ganham vida, aliás, eles já as têm, apenas movimentam-se de forma própria. Um belo conto poetizado, de forma sublime com o toque de leveza e beleza de sua própria escrita.

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  5. Oi, Renata! Obrigada pelas palavras!
    Talvez mistério, é a resposta que posso dar! haha
    Feliz aqui! 🙂
    bj

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  6. Quando eu era pequena, pensava que as bonecas ganhavam vida se eu dormisse. Então eu tentava abrir os olhos muito rápido e fechar, para não quebrar essa magia, e conseguir pegar algum movimento suspeito. Seria maravilhoso se os personagens ganhassem vidas, mas não sei se ia gostar de ser personagem de alguma coisa. Obrigada por trazer estes pensamentos que vão além da simples literatura, para nós. Abraços, Kinda.

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  7. Oi, Anorkinda

    Puxa, que instigante! Eu pensei em Coração de tinta, quando terminei de ler. Só que aqui os personagens se mantém no livro. Acho que de fato é uma história que poderia se tornar algo bem maior, é o tipo de história que eu devoraria muito rápido.

    Me causou uma certa confusão, li mais de uma vez para ver se de fato estava no caminho que você queria levar, acho que fui… mas se tiver desviado um pouco, o passeio foi igualmente agradável.

    Gostei da maneira poética que foi escrito, quase como um quebra cabeça também. Li ele mais cedo e até agora ficou na minha cabeça, deveria mesmo libertar esses personagens =P

    Parabéns!

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    1. Hehe oi Amanda!
      Pois é, escrevi na vibe nonsense, então qualquer sentido fará sentido se fizer sentido pra vc…Me inspirei na imagem pra escrever.
      Acredita q nao vi este filme? Mas ja li algo parecido acho q foi num dos desafios de q já participei, vou assisti-lo agora!!!
      Abração
      Obrigada!!

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      1. É muito bom, Anorkinda. Um dos meus ” sessão da tarde” preferido. Embora os livros estejam é claro em um patamar inalcançável. Li faz muito tempo, e somente o primeiro.. ôoh trenzin caro.

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  8. Oi Kinda, que fantástico, o seu conto bem que poderia enfeitar a orelha de um livro, ou a apresentação aqui do Blog. Lembrou-me os filmes do Tim Burton, e isso é um puta de um elogio, sabe né? Sim, tu sabes sim. Beijos sua sabida.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, Rose!
      Numa antologia de terror, nao é? hehe Como a Evelyn falou introduzindo as mil e uma noites de historias de terror!
      Gostei da ideia e do seu elogio! Thanks!!!
      Bj bj

      Curtido por 1 pessoa

  9. Oi Kinda,

    Certamente dei uma boa viajada, mas para mim seu texto fala de uma forma metafórica do surgimento do terror como tema da literatura, com o Edgar Allan Poe, “Frankestein”, “O médico e o monstro”, esses super clássicos do gênero, no século XIX.
    Terei acertado??
    Adorei, garota! Beijo grande.

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    1. Oi!! Que bom que gostou!
      Olha, tô longe dos super classicos!! Mas bem que o texto remete a isto mesmo e que venham as histórias de terror!
      Abração

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  10. Kinda, gostei muito do seu conto. Quanta imaginação! Estranho sempre um pouco a construção frásica que vos é normal. Calculo que vos suceda o mesmo quando me lêem. Ainda assim, teria, em alguns momentos pontuado de forma diferente. não me agrada fazer as críticas aqui, mas parece que é o pretendido; assim “a criatividade da humanidade.” resulta numa cacofonia forte e, quanto a mim, indesejável. De resto, está muito bom. Parabéns.

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    1. Obrigada, Ana!
      Gostei de duas palavras e que venham as críticas, sem problemas!
      Que bom que gostou desta minha viagem literária. hehe
      Abraço

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  11. Uma alegoria em que é revelada, de maneira explícita, os recursos discursivos utilizados na “Criação Literária” – metalinguagem em que se pôs a nu as estratégias da comunicação: as palavras ganharam vida, sentimentos, praticaram ações e deram aos leitores prazer enorme. Parabéns pela engenhosa tecitura, Anorkinda. Beijos.

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    1. Nossa! Que delícia, Fátima!
      Que bom que sentistes um tanto de prazer aqui, tb me deliciei escrevendo.
      Um beijo!

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  12. A imagem para escrever, a imagem das palavras ganhando vida, suscitando terrores e amores, sonho e realidade. Muito instigante o seu texto e muito bem escrito também. É o oficio de escrever, a vida de sonhos que se cria delineada em um texto agradável e sincero. Parabéns!

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    1. Muito obrigada, Sandra!
      Viajei neste texto mas parece que a viagem foi boa para todos! menos pra moça da cozinha, coitada!
      Abração

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  13. Oi, Anorkinda!

    Não tenho certeza se já li ou não o seu texto. Em todo caso, achei-o bem inspirado e ele caberia como uma luva dentro o tema Nascer.
    É bem legal imaginar os universos, a mudança de estilo do criador, as palavras como personagens…
    Muito bom! Bjs.

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    1. Hhaha
      Textinho antigo de um desafio de terror, lá no Orkut!!!
      tinha q matar alguem e de preferencia, gerando medo.
      Obrigada pela leitura!

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