Meu grito – Juliana Calafange

Precisava pular do peito e sair correndo. Urgia ganhar liberdade e ser ele mesmo, um grito com personalidade. Pulsava como uma borboleta querendo sair de seu casulo, como um jato de esperma tentando furar a camisinha, como um pássaro lutando para quebrar a casca do ovo. E depois de um esforço hercúleo, ganhou livre-arbítrio, me escapou da garganta, pulou dele mesmo, me fugiu da boca. Um grito rouco, profundo, histérico, grotesco. E tão logo conquistou o espaço externo do âmago e do corpo, saiu desembestado, atravessou as ruas, ultrapassou as paredes, se perdeu na multidão e me deixou sozinha, louca, muda e nua. Daquela janela do décimo primeiro andar eu procurava por ele e ele me ignorava, desaparecia no tempo e nas ondas sonoras, até deixar de ser meu e se tornar um grito da cidade.

No dia seguinte, o jornal dava notícia da gritaria ensandecida que tomara conta das ruas na noite passada. Era meu grito que tinha falado aos dos outros e de grito em grito todos ficaram roucos e loucos e houve quebra-quebra por todos os cantos. Não houve político, polícia ou porrada que fizesse calar todo esse berreiro alucinado. Médicos e psiquiatras tentaram em vão explicar a turba. Oportunistas levianamente tentaram assumir a autoria da confusão, mas como não tinham competência para gritar, foram logo desmoralizados. Só eu sabia que tudo começou com meu grito, minha agonia que quando berra me escapa.

A garganta ainda arranhava e ardia quando meu grito voltou pra casa. Pensei que já estivesse manso, mas antes que eu pudesse engolir um só trago quente de café, ele se jogou dentro mim, violento. Mesmo o querendo tanto, foi como um estupro goela adentro. Ele me possuiu, escorregou pelas paredes da traqueia com o gozo de quem tem sede e bebe um copo d’água, me bebeu de uma só vez. Ele não sabe viver sem se expressar. No mais fundo de mim, é ele quem melhor me conhece. É ele quem fala por minha voz e me dói muito contê-lo.

Mas é que desde aquele dia, pelo sim pelo não, ando meio calada.

18 comentários em “Meu grito – Juliana Calafange

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  1. Eu já tinha lido esse conto, Juliana, e gostei muito!! Dá uma sensação de liberdade, vontade de se libertar de certas amarras… Parabéns!!

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  2. Isso é um poema, em forma de prosa.
    É um daqueles textos que faz algo se remexer dentro de nós. Um daqueles textos que parece nos cutucar e empurrar para frente, para algum lugar, não sei. Porque é bem assim que somos, um grito, ora inseguro, ora raivoso, ora petulante, ora doce. Somos um grito de vida que não pode se calar.
    Parabéns. Grande e carinhoso abraço!

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  3. Não ande calada, continue gritando, isso liberta!! A sensação de alívio é lindamente apresentada por este texto, que demonstra de forma poética, o quanto as pessoas andam estressadas e com vontade de gritar para aliviar. Se todos fossem deixar de dar voz a razão, e sentir o próprio corpo, acredito que aconteceria exatamente isto, as pessoas enlouqueceriam no meio da rua, buscando pela liberdade que tanto necessitam.

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  4. Querida Juliana,
    Tudo bem?
    O grito, assim como o riso, são fenômenos coletivos e contagiantes. Quando alguém ri, automaticamente todos ao seu redor fazem o mesmo. Existem vários estudos sobre isso, é como se disséssemos uns para os outros, “tudo bem, isso é algo bom”. Com o grito se dá quase o mesmo. Podemos perceber isso em um show, por exemplo, ou em momentos de tragédia ou mesmo, histeria coletiva.
    Em seu trabalho, no entanto, o ato de gritar vai além e propõe ao leitor um verdadeiro ato de libertação. Ato este à que a própria autora se lança, ao colocar tanto de si mesma neste texto. Dá quase para ouvir sua voz daqui, do outro lado da tela. Um trabalho forte, poético e instigante. Uma bela estreia.
    Parabéns!
    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Olá, Juliana!!
    Que maravilha de conto, que força de viver suas palavras têm! O grito – seu – que de certa forma termina sendo nosso, porque você envolve o leitor, é sério, dá aqui uma vontade de gritar os nossos sapos, engolidos dia após dia, por vezes uma necessidade….
    Vigoroso e ao mesmo tempo poético, cada imagem que você utilizou coube perfeitamente em algum tempo, algum lugar, algum espaço da minha vida.
    O grito vive!
    Parabéns.
    Beijos

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  6. Foi o conto mais criativo que li dentre os contos de estreia. Um grito que se sobrepõe até a quem o emite. Gostei de ler. Parabéns pela ideia, grite-a pelo mundo.

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  7. Em suas mãos, Juliana, o grito ganhou um sopro poético dentro da realidade, ganhou vida e se rebelou. É a força da contista clamando por um mundo melhor. Um texto forte e contagiante (como o seu grito)! Parabéns! Beijos.

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  8. Xente, que é isso? Você conseguiu traduzir o grito, a histeria, em palavras. Muito doido, foi me dando uma gastura, “uns embrulho” no estômago de vontade de gritar também. Então vou gritar agora: Bravoooo!!! Parabéns, bjs.

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  9. O conto é em si mesmo um texto de libertação que contagia, que anda pelas goelas de todos e sai para nos ‘desengasgar’ dos políticos, dos problemas, das amarras, de tudo que nos oprime. Muito bom.

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  10. Olá Juliana. É o segundo texto seu que leio e sinto-me rendida à sua escrita. Você escreve tão bem que é quase pecado. A sua escrita tem a força e a premência do seu grito – e, tal como ele, é libertadora. Parabéns! Muito bom.

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  11. Olá, Juliana!

    Então, não sei muito bem o que comentar aqui. Gostei de imaginar a catarse do ato de gritar, mas acho que o sentido do todo me escapou. Em todo caso eu gostei da poesia.
    Abraço!

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