A caçada – Sandra Godinho

 

Tempo fechando. Sol sem rasgar nuvem, chuva branca arriando no céu. Diacho de inverno trazendo desgraça, dificultando peixe. Família minguando de bucho vazio, só na farinha com água. As águas invadindo as terras, os bichos fugindo pros igapós, os peixes sem morder anzol. Ariscos, homens e animais na terra disconforme. Mais um avanço do chuveiro, a mata se afoga nas águas. Nem a maromba aguenta, matando boi, vaca, boiada inteira. O cachorro pirento, já é um quase nada. Nem dá mais sinal de onça, anta, calango. Sem sinal de vida, no morre-não-morre. Canarana alta triscando a canela, dificultando passo.

Fosse verão, usava a terra de várzea, roçava, limpava terreiro para plantar maniva, agora, nem isso. O jeito era usar a canoa ronceira pra furar lago, botar mão no remo, com Deus no adjutório pra puxar algum surubim. Com fé, fisgava um que fosse. A mulher, cara amargosa e sem dois dentes na frente, azedou com a visagem do homem ajeitando a igarité na margem.

“Já esqueceu do dia que jacaré deu com o rabo na canoa?”

“Como podia esquecer o dia que o sangue do nosso filho bubuiou na água?”

“Foram jogar aninga, o bicho se alvoroçou e deu a rabada no casco levando nosso filho na boca!”

“Achamos a ossada na vazante e enterramos no aceiro da casa.”

“Agora tu quer o mesmo destino dele?”

“Tô nessa consumição de ajeitar o de comer, senão, assim, sumindo as carnes, acabamos com o mesmo destino do nosso menino. O jitinho já tá descaído, sem força de chupar teu peito seco! ”

“Pois então tome tua cartucheira, que da tua mira ninguém escapa!”

Ribeirinho concordou, triste de ver a mulher de olho inchado, nariz remelento de tanto chorar e amargar fome. Colocou a arma nas costas, pesando nos ombros. Não tinha lembrança de errar tiro. Espingarda de estimação, nunca negou fogo. Tiro certeiro na cabeça de mutum, anta, cotia, macaco, paca, tatu, jacu pra não estragar a carne. Fartura por muitos dias. A mulher salgava a carne e a família se ajeitava sem reclamar. Agora, a comida acabada.

No acordo acordado, matuto foi obrigado a enfiar a perna até o meio na beira do lago. Caldo de merda formando trilha na água, subindo na terra. Anta era bicho cagador, dispersando as sementes na mata. Na terra firme, o cagaço da bicha acabando. Copaíba tombada com raiz e tudo, cortando a trilha na terra fraca até pra segurar árvore. Matuto se embrenhando na mata, pensando na carne salgada, no quente da rede, na palafita aguardando a água do lago baixar. Na árvore buliçosa, macaco guariba fazendo cisma, criando caso, luxento. Tivesse perto, levava bala no olho. Mulher não ia gostar, sem chá do gogó do guariba macho pra curar doença. Matuto levando cagado nas vistas, o macaco fugindo desorientado, deixando o ardume nos olhos, raiva na alma, vazio no bucho. Mas não deixava o matuto só.

Mutuca, pium, borrachudo picando a pele do homem, braço e perna já lanhados de tiririca. Cheiro de sangue no ar. O matuto amofinando na mata, cansado, esmorecido, tonto de fraqueza. Sem rasto de anta, imaginando que a bicha tomou o rumo da beira, bebendo água pra matar a sede. Tivesse achado algum caititu, um inambu que fosse, não perdia a viagem. Mas anta é esperta, corre que nem gato maracajá, se não acompanhar com os olhos, fica só no vazio. Bicha arisca. E o vento açoitando, forrando o chão de galhada, cipó, raiz e folhas pra apodrecer no chão. Matuto tora o tabaco, enrola o cigarro nos dedos, fuma o tempo pensando na precisão. O lombo doendo de tanto cortar planta, abrindo picada na mata. Doendo do peso da arma, da barriga vazia. A água não toldada, limpa, sem rebuliço de pata ou focinho, dizendo que a anta não passou por ali. Nem anta nem onça, que essa pisa leve, mas em tempo de chuva não faz parada. Fome aperta, tonteira. Só na piedade de Deus. Desesperança tomando corpo no corpo doído do homem. Só falta agora aparecer sucuriju na picada aberta.

O matuto rompe marcha no caminho de volta. Tivesse cachaça, esquentava o peito, sem medo de onça, de fome, de panema do mato, chamando morto de volta à vida. Ticoã cantando, agourava a alma. Mas não era o único a barulhar perto do igapó. Tinha sapo, grilo, macaco, tudo na gemedeira da noite sem lamparina. A lua no céu, deixava a noite clara pra adivinhar o rumo de casa. Coisa linda de ver. O cigarro fazendo saliva no canto da boca. Até a chuva branca cair de novo, pra terminar de afugentar tudo que é bicho.

Em casa, a mulher amargosa não se conforma com o despacho da viagem. Reclama do tempo em que era cunhã jeitosa, de muito pretendente. Perguntou se o homem esquecia. Mas os anos não deixam ninguém esquecer. O matuto bem que tentava, mas lembrava da rapaziada, da cachaça farta de boca em boca, das farras com as caboclas, do bem-querer. Agora era só a precisão. No inverno, bicharada fugia. No verão, fartura de peixe até a água se acabar, seca no fundo do rio. Privação do matuto tinha de estiar, feito a água do rio.

Na gastura da noite, se embolando na rede, esperaram o dia rasgar no horizonte, o sol apontar no céu. Pegaram o de mais necessidade, farinha no saco, menino no braço, canoa na água pra fugir da desgraça. Rumaram pra cidade, secar a precisão que apertava no bucho roncador. Motor ligado, deslizaram no banzeiro rumo a Manaus. Compadre já esperava no Igarapé do Quarenta, quartinho que fosse. Abria a casa, abria a esperança: dente na boca, estudo, comida, doutor pra cuidar da saúde. Matuto e a família nem piaram de tanta alegria. Nem mesmo o jitinho no colo, na secura do peito, conformado com a fome. Comadre recebeu bem, leite morno na mamadeira pro coitadinho mamar. Parecia até que sorria, desdentado que fosse. Compadre arranjou trabalho pro matuto de vigilante na fábrica do Distrito. Coisa de responsabilidade. Matuto importante. Assim que desse, alugava um quartinho na zona Norte, ou invadia um terreno que na cidade tinha muito. Arribava na nova vida com jeito de gente.

De início, matuto confundia as ruas de asfalto. Não eram caminhos andantes, tinham nome e número, mas vivia perdido. Depois se achou. Na cidade, o matuto reparou logo na mulherada, tudo esperta, atirada na vida, penduricalho no pescoço, braço, orelha e dedo. Dente branco em fileira, bonito de ver. Sem buraco, nem mancha. Imaculado no sorriso. Saía pro trabalho, dele pros bares, dos bares pras camas. Uma nova a cada noite, pra experimentar a carne. Ódio da mulher que só fazia reclamar do pouco ganho, das querências muitas. Apegava numa e noutra. Nenhuma o deixava só. Bebia e bebia, cachaça da fina. Matuto aprendia fácil o que a cidade trazia. Salário do mês sumindo depressa, sem parar no bolso. Os amigos, um a um se foram. As damas também, sumindo quando sumia o dinheiro. Até a mulher do matuto não lhe quis mais, protegida na casa do compadre. Discussão sem fim, martelando na cabeça.

“Por que não morre?”

Não esquecia. Dormindo na praça, banco duro como a vida. Na cidade tanto quanto o interior. A noite mal dormida, no sobrosso de apertar o peito. Ticoã cantando, agourando a alma. E o vento açoitando, forrando o chão de galhada, cipó, raiz e folhas pra apodrecer no chão. Matuto tora o tabaco, enrola o cigarro nos dedos, fuma o tempo, Lombo doendo, de barriga vazia. A lua caindo nas árvores. Lua linda de aclarar a noite, não tanto quanto nas águas, perto do lago. Época de inverno, na chuva branca, não tinha anta nem onça, que essa pisa leve. Nem todo bicho tem pra onde fugir.

22 comentários em “A caçada – Sandra Godinho

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  1. Olá! Este é um conto muito bem escrito, mas essa é a realidade de muitos, infelizmente. O tipo de história que faz o coração chorar, e ao mesmo tempo refletir em como banal pode ser as escolhas das pessoas, não aproveitando as oportunidades que a vida oferece…

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    1. A realidade dos ribeirinhos do Amazonas. Muito triste. Infelizmente é mais um daquelas minorias que a sociedade e os governantes parecem ignorar!

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  2. Oi, Sandra!
    Um texto bem regional, bem geográfico, apesar dos muitos nomes aos quais desconheço,nomes de animais, ficou fácil de se entender. Mas, um tanto cansativo.
    Foi bem detalhada a realidade da família, a caçada propriamente dita, no entanto, quando eles foram para a cidade, vc lhes deu bem menos espaço e toda uma vida no asfalto foi contada em muito poucas linhas, a meu ver.. quis mais…
    Mas o clima, a miséria, a desgraça cotidiana estão bem ali, cutucando a consciência da gente.
    Abraços

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    1. Relendo agora, concordo com você, poderia ter desenvolvido o conflito da família um pouco mais quando foram viver na cidade. Agradeço a sugestão. Ajuda muito ter um retorno sincero sobre a nossa escrita! Valeu!

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  3. Uma prosa muito densa, forte, doída no coração. A temática regionalista, de uma região distante da minha vidinha de sulista, por vezes traduziu-se num linguajar estranho mas não menos interessante, o folclore e a cultura do país escancarado no seu texto. Tens uma verde muito boa para a contação, é só seguir contando. Parabéns, abçs.

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    1. Obrigada pelo comentário, Rose. A linguagem é seca, curta, sofrida, própria dos que vivem à beira das cheias e vazantes, isolados de tudo. Espero ter passado essa dureza no linguajar. Obrigada.

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  4. Querida Sandra,

    Tudo bem?

    Sua verve é forte e a premissa escolhida não fica atrás. Em uma pátria que nada tem de pai ou mãe, a vida do ribeirinho, do matuto, do retirante e de tantos outros classificados em nossa nomenclatura, não é nada fácil. Se por um lado, em sua terra só encontra a miséria, e a privação total de todo e qualquer recurso obriga-o a partir, por outro, na cidade, as condições de sobrevivência podem ser ainda piores. Uma triste realidade, um ciclo que parece não ter fim. Vidas desperdiçadas que fazem as vezes de caça, não só nessa história que você criou, mas também na vida real.

    Parabéns.

    Beijos

    Paula Giannini

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    1. Obrigada, Paula. É a terra em que vivo há 14 anos. Aqui eu me encantei, aqui eu consegui sair de mim, da minha vida e olhar para o outro. Foi a terra que me acolheu de braços abertos. Nem mesmo em São Paulo, minha terra, fui recebida tão bem assim. É meu jeito de agradecer, falar do povo, falar do rio, falar da floresta. Faz um bem danado para minha alma!

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  5. Eita! Conto forte, denso. E triste. Porque a realidade é triste e ninguém escapa. Apesar de ter ido buscar os significados no Aurélio, nada travou o entendimento e a leitura. Uma história cruel, porque é bem assim quando se perde o rumo, não porque se quer, mas porque a vida nos faz travar batalhas. Algumas, dentro de nós.
    Parabéns.
    Grande e carinhoso abraço!

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    1. Que bom que captou a densidade e a tristeza. Eles vivem bem isolados pelas beiras, uma vida muito simples e , ainda sim, às vezes mais felizes que nós. Obrigada pelo comentário.

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  6. Deu pena destas pessoas. Uma estação inteira lhes tirando as esperanças. Tantos sacrifícios e perdas. O conto nos traz fartura de elementos regionalistas que se espalham pelas falas, cenários, posturas dos personagens diante das tragédias. A sua escrita é muito pesada, mas isso não é uma crítica, ao contrário, precisa-se de muita densidade do escritor para se conseguir obter este efeito no texto. Percebi algumas tintas do recente Sina neste conto. Depois que vi que contista era você, essa impressão ficou mais patente. Você já viveu no Norte? Ou os dados tão precisos foram fruto de pesquisa? Parabéns, Sandra. Muito bom conto.

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    1. Oi Iolandinha. São as duas coisas: vivo no Norte agora e fiz pesquisa. Pesquisei os migrantes amazonenses por dois anos e resolvi dar a eles uma voz. Eles são preteridos até mesmo pela população manauara mais elitizada. Fazem questão de não lhes ver, ou reconhecer neles sua ancestralidade. Obrigada pelo comentário!

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  7. Oi Sandra, que conto denso, muito bem contado. A fome pode não parecer muito verossímel para quem nunca sentiu, mas você conseguiu dar uma realidade chocante para o seu conto. Parabéns!!

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    1. Obrigada pelo comentário, Priscila. Que bom que tenha gostado, sentido a vida dura, o que eles têm de enfrentar. É uma realidade difícil: seis meses de chuva e seis meses de seca. Não dá para plantar muita coisa porque a terra (sem sem várzea dos rios) é muito pobre. Um retrato, foi isso que quis passar e espero ter conseguido. Um beijo

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  8. Que texto intenso! Trocando as referências e os termos típicos da sua região, é o mesmo drama do nosso caipira retirante em São Paulo. É o nosso Brasil e suas desigualdades. Parabéns pela fusão perfeita de assunto e linguagem, pela sensibilidade da voz interpretadora do seu tempo, do seu meio e de seu povo. Ótima estreia! Beijos.

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Um país de desigualdades, sem dúvida. Sempre fico comovida ao lhes dar voz e visibilidade. Um povo sofrido que pena na época da chuva, pena na época da seca. Que bom que você pode sentir isso.

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  9. Olá, Sandra!
    Conto cheio de regionalismo, sempre me emociono, cada palavra (muitas desconhecidas para mim, aliás) remete à uma vida dura, agreste, bonita e triste, como a da história – tristeza e busca no interior, tristeza após a falsa alegria e a eterna busca, na cidade..
    As metáforas me fizeram sonhar, aquele sonho triste de noite de lua no mato.
    Você escreve muito bem, parabéns!
    Beijos

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    1. Obrigada RENATA pelo retorno positivo. Fico feliz que tenha passado essa vida dura, essa busca que não tem fim. Estamos em processo e aperfeiçoamento. Há uma longa estrada Ainda a percorrer, mas elogios como esse incentivam sempre! Beijos

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  10. Olá Sandra. Conto difícil de ler para mim que desconhecia boa parte das palavras. Mas deu para ir percebendo a trama sem recorrer a auxílio externo, pois teria sido excessivo e no final esqueceria de novo o significado de tanta palavra nova. A história,por si mesma, é bem real e ilustra, não apenas a pobreza extrema, como o facto iniludível com que termina: “Nem todo bicho tem pra onde fugir.”. É isso mesmo. Muitas vezes o deslumbramento toma conta daquele a quem sempre faltou tudo condenando-o a permanecer como anteriormente. os que não percebem nada disso que é ser-se pobre, apontam o dedo e criticam. É fácil. Como é fácil ter tudo o que é essencial. Difícil é desentranhar-se da pobreza. Muito bom, o seu conto. Parabéns.

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    1. Sou uma admiradora da tua escrita Ana Maria, que me encanta pela riqueza, semântica e fluidez. Fico feliz que tenha gostado. É um linguajar diferente de fato, bem regional dos ribeirinhos da Amazônia. O que eu queria passar era o sofrimento e, se você sentiu as agruras dos personagens, posso dizer que atingi o objetivo. Grata pelo retorno. Um abraço

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