Do apê para…um passo de cada vez – Sabrina Dalbelo

Na época, eu morava num predinho mixuruca, num apê minúsculo, daqueles que não adianta esfregar, porque as cracas da fuligem que entravam da avenida que passa à frente do prédio não saíam.

Não que me importasse em conviver com as cracas. Não mesmo.

Já fazia um tempo que não saía de casa, a não ser para buscar o dinheiro que meu pai depositava na minha conta e, logo em seguida, passava no mercado pra pegar umas coisas: basicão mesmo.

Naquele dia eu olhei pela janela e o parque da Redenção estava mais iluminado. Acho que eu nunca tinha percebido aquelas cores e o movimento da gurizada.

Fui até lá, sentei num tronco e comecei a tomar um sol na cara. Achei bom. Só bom.

Estava ali sentado de touca de lã na cabeça, casacão pesado e um tênis furado, que fazia horas que eu não usava. Tava sujo, velho e até endurecido. Pensando bem, eu também.

Eu olhava o movimento dos carros na Osvaldo Aranha, quando ela se aproximou. Ela tava de casacão vermelho e bota de bico fino, segurava um microfone na mão. Mas eu me lembro bem mesmo é quando o ventinho batia nos cabelos dela. Pareciam fios de seda.

Ela foi se aproximando e eu ficando com medo. Eu todo bagunçado e com vergonha dela. Daí fiquei apavorado quando ela disse “boa tarde”. Putz, pensei: “que será que tem de boa? A mina deve tá maluca”.

Mas aí bateu mais um ventinho e as sedas esvoaçaram novamente e eu fiquei com cara de idiota e sorri igual a uma criança quando alguém lhe oferece um pirulito.

A mina só passou por mim e, por educação, me cumprimentou, mas ela – metida a chique – foi mesmo entrevistar o dono da confeitaria que fica atrás de onde eu tava sentado.

Eu passei a sair mais de casa, não só para sacar o dinheiro do pai. Até penteio os cabelos. Tô pensando em comprar um tênis tri que vi na vitrine duma lojinha. Mas tô louco mesmo pra encontrar a moça do cabelo de seda.

Se ela me cumprimentasse, eu diria “que sim, que o dia está bom e eu vou bem”. “E tu?”

16 comentários em “Do apê para…um passo de cada vez – Sabrina Dalbelo

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  1. Olá! Um conto curtinho e gostoso de ler.
    A maneira de falar do personagem nos faz imergir para dentro da história.
    Gostei da educação da mulher ao cumprimentá-lo, todos deveriam ser assim.
    Muito bom!

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  2. Conto curtinho como eu aprecio (preguiça me define). Tom de narrativa juvenil, com a identificação com o mundo adolescente. Leitura fácil, higiene mental como um bom gibi. Curti!

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  3. Legal, Sabrina!
    Que portoalegrices, hein?! hahaha
    Tenho um doce amigo que ganhava mesada tb pra morar em frente a Redenção, será esse um ritual de passagem do gaúcho?
    A historia é uma delícia com gosto de quero mais! Parabéns
    Abraço

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  4. Mas bah tchê, achei outra gaudéria. De cara, a foto da Redenção e eu pensei na Osvaldo, e não é que dali há pouco ela deu as caras no conto, muito legal essa familiaridade e os arroubos juvenis do texto, leitura fluída e gostosa de se ler. Amanhã é domingo, dia de chimas no Bom Fim. Bjs.

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  5. Um conto leve. Ficou com um gostinho de quero mais, saber mais da vida dos personagens, mergulhar no passado e na vida presente dos personagens. Você conseguiu usar a linguagem coloquial, falado no contexto no personagem e isso trouxe uma toque de veracidade ao conto. Muito bom. Quero mais!

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  6. Querida Sabrina,

    Tudo bem?

    Você criou um conto leve, despretensioso e com ares de literatura de formação. Uma narrativa que caberia muito bem em livros para jovens daquele tipo “Para Gostar de Ler”, você não acha?

    A história do menino que descobre na estranha que passa na rua o seu primeiro deslumbramento amoroso, é de muito bom gosto. Sempre vemos histórias como essas contadas da ótica das meninas, mas meninos também podem amar com delicadeza. Por que não? Gostei!

    O sotaque gaúcho é inconfundível e uma marca pessoal da autora. 😉

    Parabéns.

    Beijos

    Paula Giannini

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  7. Oi, Sabrina.

    Quando vi já acabou, nem vi a extensão do conto antes de ler.

    É despretensioso e bem natural, um dia comum na vida do jovem adolescente meu mau humorado que encontra sem pretender uma provável paixão juvenil. Achei bem legal a mudança de comportamento depois da guria dos cabelos de ceda. E mostra como o amor muda as pessoas muito rápido… ”amor” rs.

    Parabéns.

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  8. Conto gostoso que introduz bastante o personagem e o coloca em uma situação que o faz começar a mudar de vida. A gente fica querendo saber o desfecho, mas a trama toda se resume a este momento da vida dele. Transição. Sair do ovo. O leitor não sabe o que vai acontecer, mas sabe que tudo vai mudar a partir daquele ponto. Bastou um cumprimento de uma mulher bonita para que o rapaz desabrochasse para o mundo. Bem bolado. Parabéns, Sabrina.

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  9. Uma delícia de texto, moderno e ousado, que procura responder às inúmeras questões que os jovens fazem a si mesmo. O coloquial fez a leitura mais fluida e verossímil. O inconfundível jeans, os tênis traduzem os anseios do tão simpático protagonista. Parabéns! Excelente estréia. Abraços!

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  10. Oi Sabrina,

    Um ótimo momento de retratar em um conto é justamente esse em que a atração pelas meninas desperta nos meninos. Sua narrativa ficou na medida: leve precisa e envolvente.
    Parabéns!
    Beijo.

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  11. Oi, Sabrina!
    Trilegal teu conto hein guria? 🙂 Amei: curto, mas com muitas ideias nas entrelinhas…o rapaz que parece viver uma depressão e, numa tarde, inesperadamente, encontra uma saída, emerge para a vida.
    Muito bom!
    Beijos

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  12. Olá Sabrina. Um conto muito curto mas, no caso, na medida certa para a história que você quis contar. Notei uma falha na revisão em “toca”; na realidade é “touca”; toca é buraco de animal, para a cabeça escreve-se com “u” no meio. O menino que desperta para a vida embalado na saudação e no cabelo de uma menina está muito bom. Achei estranho ele viver sozinho, mas talvez no Brasil seja normal. Aqui não seria possível antes dos 18. Parabéns! um beijo.

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