Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira

Amanhã o espaço, não o tempo. Nutrirei meu corpo mais velho, com novas comidas, da roupa limparei o pó de cada dia, a mesma sede nos olhos, mais força. Em vão cansarei o corpo — andar, correr, dançar serão veículos de minha vibração, razão de meu pão. Existir por inteiro, ser capaz de atravessar o corredor com minhas pernas, com a energia de minha mente. Poderei… Eu quero.

— Florzinha, você nasceu pequenina, muito, muito miúda. Cabia em uma caixa de sapatos, das menores. Voltei para casa chorando… Sentia saudades da minha bebezinha que precisou ficar no hospital. Foi duro! Aqueles sessenta dias demoraram demais. — mamãe repetia a mesma fala a cada queda. Parecia querer justificar minhas dificuldades, sentia-se culpada pela hemorragia que a obrigou à cesariana na vigésima quarta semana de gestação.

Entendendo a situação, agradeço a vida. É simplesmente estupidez desperdiçá-la, agora, com tristeza, com raiva, com inveja. Já tive meus momentos ruins.

Quando papai contou-me que teria um irmãozinho foi bem complicado. Piorou quando ele começou a correr pela casa, subir nos móveis, andar de motoca… Eu, inerte, imóvel, a pedir atenção. Amava o menino. De início era meu boneco. Queria brincar com ele, mas que fosse debaixo da mesa, no tatame, na cama, no sofá, qualquer local, contanto que estivéssemos parados…

Depois, na escola. A professora constantemente recomendando:

— Nada de correria perto de Alicia. Ela cai. É amiga de vocês. — Foi pior, eu chegava e  a conversa entre os colegas mudava. Percebia os  olhares, o apontar para a ave rara. Não conseguia brincar, nada era natural, faltava algo que não conseguia captar. Por que as pernas tão endurecidas? Por que mal conseguia apenas me arrastar?

Aconteceu, certa vez, que ao abrir os olhos, encontrava-me no hospital. Não entendia porque estava ali, tudo muito vago. Tentei mover os braços, neles estava meu vigor. Então percebi o gesso e lembrei da bicicleta que, mesmo especialmente preparada para as minhas condições, fez-me cair. O instinto de autodefesa era inexistente, bati forte a cabeça e desmaiei, relataram-me depois. E veio a ladainha: “pernas raladas, braço direito quebrado, cuidado, atenção! Que ideia infeliz pedir ao meu irmão para a empurrar na bicicleta!”

Ortopedistas, neurologistas, fisiopediatras, cirurgias nos quadris, nos ligamentos, nos pés — minha infância… E o tempo vai se decompondo e criando um caminho de minúsculas rosas pálidas, despetalantes, sem pássaros e cantos, com lágrimas, com dores… Um encontro de frustrações!

O tempo arrastando-se… e se fica esperando, esperando… Como lidar com pelos? Com os seios?  Como participar da vida? Meu irmão e as amigas em festas, baladas e viagens, enquanto eu a amargurar-me na descoberta do sorriso fácil tão próximo, dos olhos piedosos. A cadeira de rodas  ocupava espaço demasiado, era empecilho enorme para qualquer um que de mim se aproximasse. Maior surpresa ainda era notar-me rindo, abrindo a guarda, recebendo até sem amargor as pessoas. Era uma castanha dura, só a violência poderia parti-la… Não ficaria à mostra, era assim mesmo e, em contrapartida havia sempre uma condução, um cumprimento, um abrir de portas, um alerta e um preocupar-se.

Sentia-me perdida, não havia pernas para abrir caminho na selva. Era literal. As pernas sempre em desacordo, se uma ia para frente, a outra ia para trás; se uma optasse pela esquerda, a outra escolhia, contraditoriamente, a direita. Eram tombos em sequência, que acabaram se tornando um aprendizado. Eles obrigavam-me erguer, ao menos a cabeça, que era o pouco que conseguia fazer por mim mesma. Prosseguia me partindo, passando por baixo das coisas, arrastando-me, insetos no meu caminho. Tropeços, desculpas desajeitadas. Inacreditavelmente ia sobrevivendo a graves acidentes motivados por dificuldades a que nunca vislumbrara superar.

O que me salvava era o amor, a beleza de minhas asas. A mente que voava como a libélula perambulava pelo espaço ou pelo tempo, a estranha capacidade de desprender-me do corpo, deixando minha cabeça desligada. Precisava sempre me lembrar de que a cabeça era minha morada e, agora, minha solução. Dialogar com as estrelas, viajar com as letras, observar o vento afagar as folhas do abacateiro, quase em silêncio. Flutuar sobre pétalas, como abelhas leves, no meu sonho, até que o poder das vozes trouxesse a luz das manhãs. E eu  somente não alcançava a mobilidade, como que para sempre.

A novidade, uma possibilidade. Agora, acostumada à dor, a esperança veio me incomodar, é uma torrente que brame por dentro. A tecnologia fez que o extraordinário fosse magicamente capturado.

O peso da possibilidade um pouco sobre mim veio sufocando e depois, devagarzinho foi diluindo-se ao longe, despertando sonhos. Todo um cenário móvel vai se construindo: braços em exercício, pernas em passo de dança, o rosto em luz e, dos lábios um sorriso que aflora. E vou rindo mundo afora como nunca ri e este meu riso é minha tão grande alegria nunca  sentida, que nasceu, não sei como nesta estupidamente imprevisível expectativa de poder andar. Cada atitude uma interpretação móbil, um mundo vibrátil por dentro. Cada minuto uma batida mais forte do coração convulso. Autonomia. Liberdade. Depois tudo volta ao movimento. Angústia seca estala sob os meus pés que não se retiram para nenhum lugar, mas para algum tempo, onde os sonhos vão nascendo e tomando forma e onde eu me deixo acompanhar pelo medo…

A ideia nasceu de uma reportagem no ano passado: “Pessoas paralisadas ou enfraquecidas por lesões da medula espinhal ou doenças neurológicas podem usar robôs, como uma roupa de Homem de Ferro que se veste. O exoesqueleto robótico impulsiona o usuário. Vários modelos disponíveis utilizam mecanismos diferentes para levar a pessoa aonde ela quiser, mas todos têm sensores para perceber a intenção de movimento: inclinar-se à frente e à esquerda pode fazer a perna esquerda do exoesqueleto dar um passo à frente. Numa mochila ficam um computador e uma bateria, cérebro e fonte de energia, mas, em breve, um novo modelo mais leve  será controlado por um aplicativo no celular ou tablete. Ainda está sendo aperfeiçoado um exoesqueleto cujo dispositivo de funcionamento recebe ordens diretas do cérebro do usuário, sem precisar de equipamentos intermediários. Implantes de microchips darão total autonomia ao usuário.”

Meus pais viram uma oportunidade ímpar. Fiquei subordinada a mais consultas e exames. Havia condições para a nova experiência. E foi dada a ignição para a maratona. Primeiro os implantes, a fisioterapia para preparar o corpo e a mente para comandos a que não era acostumada. Enfim, equilibrar-me sobre duas pernas, sem depender das forças dos braços para carregar aparelhos ou tocar a cadeira, os passos iniciais e o avançar por território desafiante. Cabeça e pernas em sincronia, um sonho que vai se concretizando no dia-a-dia.

Acena-me um futuro imprevisto-presente-jato. Fico amando essa ideia, iluminada e mágica. Vou passeando entre as flores, passo-a-passo, na manhã sem termo. As pernas são meu inédito instrumento — correr, correr e correr. Vou criando uma imagem, aperfeiçoando-a, tirada da matéria que me ofereceram.

29 comentários em “Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira

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  1. Fatima, seu conto é poetico, filosófico, cheio de sentimentos complexos. O desejo que algumas pessoas tem de coisas que são tão comuns e ordinárias para nós… me fez pensar… agradecer por tudo que tenho. Parabéns!!

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  2. Um conto muito sensorial e, ao mesmo tempo, intimista, sobre a menina encapsulada em si mesma. Faltando-lhe movimentos, sobrava aprofundar-se em seus anseios, em sua relação com o ambiente que a cerca. O fluxo de pensamentos e lembranças conta a história de modo muito eficiente, deixando tudo claramente imaginado. Parabéns, moça bonita. Beijos.

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      1. Estamos juntas, sim, sempre. Os gostos nos unem. A amizade se solidifica. A admiração só aumenta. Lindo conto. Beijos.

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  3. O conto nos deixa a certeza de que somos ingratos ao não perceber o milagre das pequenas coisas, das pequenas alegrias da vida, correr, pular e tantos outros que nos passam despercebidos. Muito bom!

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  4. Olá. Seu conto é de uma profunda e bela reflexão. Enquanto muitos reclamam por tão poucas coisas, outros tantos desejam apenas o básico da vida.
    Sabemos que há várias tecnologias que oferecem uma vida melhor para deficientes em diversas situações, mas sabemos também, que a minoria tem condições para tal “luxo”, infelizmente.
    Muito bom, abraço.

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    1. Otimismo, amiga! Afinal, a vida tem que valer a pena ser vivida! A situação apresentada no conto é futurista. Quem sabe um dia todos que precisarem terão acesso à tecnologia. Vamos torcer. Obrigada pelo comentário gratificante. Beijos.

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  5. Olá, o seu conto é muito poético, e dá vontade de sair correndo com a Alícia, encontrar por aí uma menina de cabelos esvoaçantes, livre, liberta de sua condição. Gostei também da forma como o sentimento de aceitação foi tratado no texto, e acredito ser esse sentimento, junto com a gratidão, molas propulsoras de sucesso na vida. Aliás a protagonista também demonstrou gratidão, apesar da deficiência, no início do texto. Parabéns, bjs.

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  6. Hoje mesmo eu estava pensando sobre as pessoas que nascem doentes e assim seguem toda uma vida.. que grandiosidade de espírito elas tem, que fortaleza que a nós, os normais, não nos foi agraciada.
    O texto é bastante sensível e esperançoso. Parabéns
    Abração

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  7. Olá, Fátima!
    Magistral, seu conto.
    Repleto de (duras) realidades que são muito mais frequentes do que, por vezes, imaginamos, e muito bem encaminhado neste sentido de esperança no dia a dia de uma menina portadora de necessidades especiais, que bem poderia ser uma vítima do destino (que destino?), mas que se apresenta como portadora da visão muito acima da média que, no fundo, a maior parte dos deficientes têm.
    Ao mesmo tempo, cada frase é um convite à reflexão, um conto filosófico que remete ao questionamento de cada pensamento de Alicia.
    Quantos de nós temos as pernas em perfeito funcionamento, e ainda assim precisamos ousar sonhar como Alicia, e simplesmente, correr?
    Muito bom!
    Beijos
    Renata

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  8. Olá, Fhelyany

    Um conto que nos permite analisar mais nossas dificuldades e o quão tolas elas parecem comparadas a tantas outras. Poder entrar na mente da personagem e ver sua angustia, desde menina até hoje, é ao mesmo tempo doce e angustiante. É complicado escrever uma história real…uma em que grades milagres podem não acontecer, onde a esperança é quase esmagada pelo peso da realidade.

    Fico contente que teve um final digno para a personagem, que mesmo já tendo se conformado em sua condição, não deixou de ter esperança, e esta foi atendida.

    Reflexão muito bem construída.

    Parabéns.

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  9. O conto revela muita sensibilidade e destreza na construção da personagem/narradora. Consegui sentir o contraste entre a imobilidade física da mocinha e a expansão sem limites da sua imaginação. Embora presa pelos movimentos engessados, ela consegue viajar e dançar com a vida como ninguém.Esperança estampada em cada palavra.
    Parabéns pelo seu trabalho.

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  10. Querida Fátima,

    Tudo bem?

    Seu conto é de uma delicadeza linda e, para completar, me pegou em um dia em que estou especialmente sensível sobre a maternidade. Coisas de mães e filhos, bobagens do dia a dia, mas que nos tocam e eis que seu conto surge nesse dia e me pega de jeito. Isso, obviamente, me leva à reflexão do papel do texto e da arte na vida das pessoas. Refletir vidas, tocar almas, corações, fazer a catarse para que o leitor também assim o faça.

    Suas palavras falam de aprisionamento. Não só o físico, que prende a personagem em seu mundo de movimentos limitados, mas o da alma, aquele que não nos permite romper as tais barreiras. Gostei muito da sensação de “mãos atadas” à que o conto nos leva. Mais do que um problema físico, a personagem se vê diante da total irreversibilidade dos fatos, de sua realidade. Ela é o que é e ponto, está presa dentro do próprio corpo, dentro da própria vida e de todas as implicações de tal impossibilidade em seu destino.

    Mas, eis que a autora, piedosamente, coloca uma possibilidade de redenção na vida de sua personagem, fazendo o leitor viajar com ela por esse caminho. Essa reviravolta é algo hábil, mas ainda mais interessante é o final que você deixa aberto. Uma lufada de esperança, uma possível solução até pra o mais difícil dos problemas.

    Parabéns.

    Beijos

    Paula Giannini

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  11. Pequenos prazeres que nos dão o ânimo necessário para enfrentar o dia-a-dia. Este texto fala do amor à vida que pulsa em todos nós. Você leu e sentiu a mensagem que quis passar. Obrigada pala sua energia. Beijos.

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  12. Olá Fheluany,

    Um ótimo conto com uma personagem densa, muito bem construída, que nos cativa e emociona com sua vontade de viver. Narrado com muita competência, emoção na medida, sem apelos ao sentimentalismo. Uma pitada de SciFi e um final otimista. Belo trabalho, como sempre, amiga.
    Parabéns!

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  13. Olá Fátima. Um conto que aborda de forma particular um problema que toca a muitos. Não imaginamos a quantidade de pessoas que nascem com limitações físicas. Deduzo que a protagonista seja ainda jovem, pois é esse o espírito que emana do que li. Já vi muitas crianças presas em situações limite a nível de saúde e há muito que deixei de me interrogar sobre a inquestionável capacidade que têm para viver com a adversidade. A essa força, por assim dizer, os adultos costumam chamar de heroísmo. Pessoalmente não vejo nada de heróico nesse comportamento, interpreto-o antes como sabedoria. Se é certo que ao longo da vida “crescemos” em muitos aspectos, não o é menos de que desaprendemos e tornamo-nos estupidamente insatisfeitos e exigentes. A menina discorre sobre a sua situação, tal e qual uma criança a encara: algo com que tem de viver. E resigna-se. e faz o que tem de ser feito. É isso mesmo que as crianças nos recordam a cada momento: não somos heróis, somos humanos permanentemente postos à prova pela própria vida. As crianças costumam aceitar tudo como natural, até o que sabem não sê-lo; os adultos tendem a empedernir e reclamar de tudo, até do insignificante. O conto está bem conduzido e não tem falhas narrativas ou estruturais. Parabéns.

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    1. Muitas pessoas se esforçam demais apenas para conseguir o que é , ás vezes, um instinto para as outras. É preciso que aprendamos a ser felizes de verdade com coisas pequenas e simples. Minha gratidão pela leitura e comentário tão delicado e atencioso. Beijos.

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  14. Um conto reflexivo e poético. Temos asas, e não temos ossos pneumáticos. Temos tudo e, ao mesmo tempo, nada, se não tivermos a nós mesmos e a convicção de sermos capazes. Me vi correndo com ela, entre as flores de um jardim, meio humana, meio máquina, meio beija-flor, mais leve que o ar, mais pesado que a certeza da vida. Senti um enorme carinho pela personagem porque quis correr com ela, assim quando me aventuro pelas estradas a buscar imagens inéditas. Seu conto me emocionou de um jeito estranho, diferente. Prendeu meus sentidos todos. É lindo. Obrigada.
    E parabéns.
    Grande e carinhoso abraço!

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