Joca Louva Deus – Renata Rothstein

Da vida, lembrava muito pouco. Quase nada, perto daquele troca-troca alucinógeno e alucinante em que vivia, desde muito cedo.

Olhava com ares de nada para seu interlocutor e, balbuciando palavras quase ininteligíveis, ia explicando como fora parar ali, olhos perdidos no espaço, um espaço só dele, quase perfeito – não fossem as dores, muitas, e o sempre regresso ao mundo da semiconsciência.

Morria, vivia, renascia. E seguia.

Olhava para o sujeito à sua frente, e pensava: “Seria um anjo? Teria morrido?” Não, se fosse um anjo, com aquele semblante de paz, a essas horas ele já estaria no Paraíso, e ele não acreditava nisso.

Acreditava somente no que o fazia ser o que era, e além do mais, se morresse haveria de ir para o inferno num voo só, diretaço e sem escalas.

Sorriu dolorosamente, um sorriso sem dentes e sem esperanças de quem sabia que até – quem sabe? – poderia ter sido tudo diferente.

O homem – “mais um doutor de cabeça, aposto!”, pensou – continuava com as perguntas, as maçantes perguntas sobre sua vida, aquela que ele queria esquecer, já havia dito milhões de vezes.

Resignado e saudoso, pensou em dar uma fumada numa bela pedra de crack, sentiu os olhos revirarem nas órbitas, puxou fundo o ar nos pulmões destruídos, contou um pouco mais daquele mix de coisa mal contada com papo de nóia e lenda de família, que ele não esquecia, tão repetida fora, durante sua infância.

Sabia que seu nascimento vinha de um escândalo. Sim, a família tradicional tentava a todo custo apagar suas memórias ruins e enaltecer aquelas que considerava boas, construtivas e coisa e tal, mas como se sabe, a história, felizmente, não pode ser mudada.

Sua “amada” mãezinha, Maria Selene, então uma mocinha de seus quatorze ou quinze anos viera passar férias na cidade, na casa de uns parentes de situação boa.

Essa gente, que como dizia seu avô Osvaldo, o pai de Selene, devia ajudar os outros da família, os que não tiveram a mesma sorte grande.

E no caso, a tal família era a de João, só que pelo lado de seu pai, que vinha a ser tio de sua mãe.

Confuso? Muito. Mas era bem desse jeito assim.

O pai, tonto e apaixonado pela sobrinha, acabou “fazendo mal” à ela.

Tentando calar a boca de todos, ao descobrir que Maria Selene estava grávida, separou-se da esposa e tentou esconder a relação incestuosa com a sobrinha menor de idade.

Resumindo, no fim das contas casaram-se e levavam uma vidinha boa: repleta das hipocrisias que João, menino sensível, tímido e empático ao mundo em que habitava, repudiava com toda a força de sua já enfraquecida alma.

Nesse ponto João parou a narrativa, olhou sem ver para os olhos do médico, disse que sentia cansaço, tomou algumas drogas lícitas, é bom que se diga, e dormiu.

Acordou mais uma vez.  Drogado. Tonto e amortecido, sem saber direito quem era até a o próprio nome levou um tempo para lembrar – era a mente, sabotada por tanta maldita química, todo o tempo.

Então, lembrou. As memórias misturavam-se e não paravam de nascer, uma mais cruel e dolorosa que a outra.

Sim, acordou drogado, mas dessa vez não estava deitado num papelão imundo ao lado de mais cinco noias e três cachorros, que por pura piedade faziam companhia ao grupo – piedade e a esperança canina de ganhar um resto de comida, que matasse um pouco o desespero. Quem já sentiu fome sabe bem o que é, e nisso as espécies concordam: matar a fome é urgente.

A fome do corpo contrastando com a inapetência de vontade de viver.

Vida? Que vida!, viver para fumar e fumar para viver.

Olhava para os cachorros e sentia uma certa inveja deles, seres muito mais elevados e amigos do que os humanos que conhecera até então.

E João Alfredo acordou outra vez, ele que sonhava em acordar nunca, sempre dopado. E lembrou do nome. Primeiro do nome que ganhou nas ruas, Joca Louva Deus. Depois do nome verdadeiro,  João Alfredo de Freitas Furtado.

Ele: o carinha que trocara a boa vida que o pai proporcionava – estudo, família, carro e namorada – pelas ruas, as drogas, a prostituição, a doença mental, a morte lenta e inevitável.

Conversava agora com Hugo, um carinha  até bacana que ele conheceu quando saiu para pegar sol, há uns dias. E contava o que lembrava daquela desgraça de história.

Sabia que estava num Hospital Psiquiátrico, um hospício, manicômio, uma casa de endireitar doido, essa praga de lugar para onde carregam as pessoas que pensam diferente.

E as que param de pensar, também.

Joca, por definição, estava nos dois grupos.

Afinal, mesmo que a família jamais tenha aceitado, seu problema mental já existia há anos, com certeza essa herança maldita vinha daquela gente da família.

João Alfredo, menino promissor, futuro médico ou advogado, começara a entornar litros de uísque escondido no banheiro de casa, entre uma bad e outra, quando tinha 12 anos.

Daí para começar a apertar um back foi um pulo e do baseado pra coca foi um tombo. “Quédizê”, com grana e má companhia tudo fica insuportavelmente mais fácil para um sujeito que queria era manchar a honra dos Freitas Furtado, cambada de filhos de uma boa senhora, que, ao contrário do que Joca esperava, não gritaram, não fizeram escândalo, nada.  A mãe, cara de paisagem parnasiana, e o pai, com a mesma fleuma de sempre, dizendo: “Coisa de menino, ele toma jeito…”

João tomou foi outra coisa: uma overdose no vestiário do colégio religioso que frequentava.

Lembrava dos padres com a mão na boca, incrédulos, enquanto João, também com a mão na boca, sentia a baba escorrer e o coração bater numa agitação absurda e violenta que parecia coisa prestes a explodir. “Eu vou morrer! Façam alguma coisa!”, João pensava – ainda – enquanto iam buscar socorro. Homens de saia. Esperar o que dessa corja? João sempre pensava isso, mas agora tudo o que pensou foi um ” acabou”, e desmaiou.

Acordou três dias depois no hospital, sozinho. Estava sujo de fezes e uma enfermeira enojada trocava sua roupa e informava, entredentes: “Você tem alta logo mais, seu pai vem te buscar. Vê se para de fazer bobagem, moleque. Gente como você não acaba bem não, hein.” E saiu.

João tentou gritar, mas só conseguiu grunhir um “vai tomar no seu …!”, que a enfermeira nem ouviu.

E foi assim, entre idas e vindas e tentativas de recuperação que um dia João Alfredo voltou pra casa e não conseguiu entrar. Fechaduras trocadas, ninguém atendendo telefonema, berro, promessa de recuperação, nada… A mãe foi a única a dar uma satisfação, quando ele ligou a cobrar do orelhão na esquina de casa.

É. A satisfação que ela deu deixou João foi insatisfeito, magoado, ferido de morte:  – — ——- Cansamos, meu filho…tome jeito e nos procure, um dia. Te amo.-Tomar jeito? Onde é que vende isso que eu tomo, sua velha retardada?!”.

A mãe desligou.

E João ficou na rua. Procurou os amigos do colégio, ninguém atendeu. Procurou os carinhas que vendiam as drogas pra ele, atenderam solícitos, fizeram mais um bom negócio e disseram que Joca podia dormir por ali, junto aos moradores de rua que ficavam nas redondezas.

E foi ali que João Alfredo ficou, cada dia mais drogado, cada dia mais magro, comendo e se drogando às custas de esmolas e de alguém que, de vez em quando  lhe jogava umas notas amarrotadas, que ele usava para comprar crack. Agora ele estava no crack. E o crack, nele.

Os colegas de rua trocaram o nome do sempre ressabiado João para Joca. O Louva Deus veio depois e virou sobrenome.

Os dias viraram meses e os meses viraram anos – o que, para Joca, não fazia a menor diferença. Qual é a diferença entre ser um zumbi de dia, de noite, no inverno ou no verão? Pois é. A vida para ele era a falta de sensação. Ele não sentia, não vivia, só estava ali porque precisava fumar e havia sempre alguém que lhe desse grana, por esmola ou por um favor, um furto, coisas assim. Olhar para as mãos e não ver, nem sentir, era o inferno, aquele inferno em que fora se meter – um resto de sanidade no fundo do cérebro fazia Joca pensar, por uma fração de segundos.

E quando o cérebro deixava ele pensar, sacava que já tinha um tempo sem fumar e partia atrás da maldição que o tirava do ar, por alguns maravilhosos instantes.

Olhava para o cara que entregava a droga e via uma espécie de cruzamento de sapo com rinoceronte, pegajoso e cheio de escamas, com uma língua cheia de saburra engolindo moscas imaginárias.

Um dia fumou, fumou, fumou…e dormiu. Só lembrava de ter acordado com os colegas correndo, aquela voz familiar dizendo um nome que também soava familiar – João – e ele agarrado por dois bombeiros que sem muito esforço, o jogaram numa maca e levaram aquele lixo humano para um hospital.

Olhou sem ver, mas sentiu que o pai estava ali, na ambulância, com ele – tentou falar, mas estava tão fraco, que desmaiou.

“É, meu amigo, aqui estou: João Alfredo, Joca, um farrapo, sem saber há quantos dias, meses ou anos já estou internado, nem por quê ou para quê. É  ‘saparada’, meu amigo” – dizia a Hugo, cara caladão, na dele.

Joca sentia um alívio extremamente curativo, sempre que podia conversar com alguém “como ele”, um ex-drogado, alguém em recuperação.

Já os médicos, ele detestava, mas era obrigado a suportar, afinal, qual era a saída?

Não ligava mesmo. Ao lado mais duas camas, dois leitos com duas carcaças agonizantes e dementes, os dias, as noites, as drogas, agora receitadas por um cara de jaleco branco, a cabeça leve, o branco, sempre. Merda de vida. E ninguém fazia nada pra acabar com as tartarugas voadoras, queria mesmo era saber como estava a Espanha, que ficava ali – do outro lado da rua, ele podia mesmo ver através dos muros, aquele povo falando aquela língua estranha que ele tanto gostava, achava lindas, irresistíveis mesmo, as mulheres espanholas.

João Alfredo perdeu a razão de vez. O pai e mãe iam visitá-lo de três em três meses, às escondidas, para que ninguém dos Freitas Furtado ficar sabendo. Pagavam a estadia, verificavam se algo lhe faltava, conversavam com o psiquiatra, que não dava muita esperança de recuperação. Mas os pais de João também não ligavam muito.

E João, sumindo dentro de si mesmo, ia embora, aos poucos. Um resto de nada, carne podre e ossos com um coração destruído, ainda batendo.

Naquele quarto escuro, João passava alguns minutos acordado, olhos embaçados, calmo. Tomava onze remédios por dia e agonizava.

Um dia saiu para andar, se escorando nas paredes do pavilhão G, o dos loucos inofensivos, viu dois loucos conversando. Não, eles não dialogavam entre si. Cada um no seu canto, trocava ideias com um amigo imaginário, que ao contrário das pessoas normais, conseguia apenas ouvir, sem dar palpite o tempo todo. “Genial!”, pensou.

João achou o máximo ter um amigo véio, daqueles carne e unha, alguém com quem contar, e também inventou o seu. Colocou nele um nome, até.

Ficou dois dias sem tomar os remédios, queria um resto qualquer de força física. Cuspia, depois que o enfermeiro saía do quarto. E ria alto e zoava o enfermeiro com Hugo, o seu grande amigo imaginário, nascido do seu sofrimento, já terminal, por aqueles dias.

E foi com Hugo que naquela noite mesmo, pegou suas coisas, amarrou num lençol e pulou o muro, alcançando a Espanha – e a liberdade.

“E é morrendo que nascemos para a vida eterna” – lembrava da oração que aprendera no colégio religioso.

E seguiu seu destino.

 

36 comentários em “Joca Louva Deus – Renata Rothstein

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  1. uau! que forte! ele fugiu ou morreu na fuga? Que coisa triste.. queria q fosse apenas ficção…
    Um texto, muito bom, Renata! Me peguei presa a ele e geralmente nao gosto de historias de drogados, vc deu um toque impessoal com o narrador e entao o drama foi mais facil de acompanhar.
    Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Anorkinda, que bom que você gostou, fico muito feliz mesmo!
      olha, ele fugiu, mas o final já podemos imaginar…creio que o caminho de Joca, infelizmente, já não tinha volta.
      É triste, sim, e muito real.
      Bjokas, Kinda!

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  2. Um conto muito triste, cruel, eu diria. Essa coisa de droga tomando conta da vida das pessoas… Acho que é de arrebentar coração. Porque considero muito tudo isso como uma morte anunciada. Talvez por isso, não sei também, entendo como o avesso de nascer. Se olhar pelo personagem, talvez aceite esse momento de mergulhar para fora do contexto no qual ele se insere, algo que permeia o renascer. Essa fuga, que ele empreende no final, pode ser encarada como um nascimento. Longe daquilo que ele conhece, longe daqueles que conhece. Posso, no entanto, estar interpretando mal. De qualquer forma, é isso. Parabéns.
    Grande e carinhoso abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Evelyn!
      Você interpretou perfeitamente, é isso mesmo, a vida/morte, ou a morte em vida de Joca termina, ou recomeça, com a sua morte anunciada.
      Essa história é triste, e é difícil de voltar, quando inciada.
      obrigada pela leitura, e pelo comentário tão generoso.
      Beijos

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  3. Querida Renata,

    Tudo bem?

    Confesso que precisei refletir um pouco antes de comentar o seu conto.

    O texto, de literatura voltada preferencialmente ao público jovem, trabalha também com o conceito de literatura enferma. Não sei se o termo existe ou se é apenas utilizado por uma editora amiga minha, mas aqui cai como uma luva. Uma narrativa que trata de um tema pesado e de uma espécie de doença. Não a do corpo ou a da mente, mas a do espírito.

    Se personagem, alheio ao mundo que lhe oferece de tudo (amor, condições financeiras, estudo, família), sofre de uma inconformidade da alma, uma inquietação que o faz refugiar-se na droga, na loucura, na alienação. Um personagem totalmente crível e que, talvez, nos remete a conhecidos e até familiares que sofrem com a mesma dor.

    É interessante notar que você não oferece ao leitor nenhum tipo de lição de moral, ou mesmo redenção através da catarse, partindo para um final feliz ou desejável. Não. Voce narra a trajetória de Joca de maneira quase fria, distantes, eu diria até “jornalística”. Seu protagonista é o que é. E lê-se nas entrelinhas que sua experiência foi negativa pelo simples detalhe final e tão sutilmente utilizado com sua habilidade de autora. Sua morte. Ou renascimento em uma outra vida, um outro tempo, quem sabe outro lugar.

    Parabéns.

    Beijos

    Paula Giannini

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    1. Oi, Paula!
      Sim, eu tenh uma sequência de contos nesse estilo, acredito que juntos dariam um livro…foram escritos numa fase em que, por motivos outros, conheci alguns sanatórios (não como paciente, mas observadora).
      São casos extremamente comuns, e a morte de Joca, para mim mesma, é um ponto de interrogação, porque embora ele se encontrasse em estado crítico, a alma humana e mesmo o corpo são capazes de surpreender….às vezes penso que Joca morreu, outras vezes imagino que a família não desistiu.
      escrevi a história de Joca quase como uma psicografia, senti como se viesse mesmo de mim, embora não tenha vivências do tipo.
      Muito obrigada sempre pela leitura e pelos comentários, tão atenciosos.
      Bjokas!!

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  4. Olá Renata! A origem do personagem, a relação incestuosa do tio e sua sobrinha – pai e mãe – e a hipocrisia dos pais de o colocarem num colégio religioso tem um peso na atitude do rapaz que o leva a uma espiral de destruição ascendente que culmina no seu suicídio. Ele busca na morte o consolo da vida, a erradicação dos pecados dos pais mais que os dele. Uma narrativa fria e sem julgamentos.. Muito bom!

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  5. Olá Renata,

    Gostei bastante do seu conto, melhor na releitura. Há uma diferença entre o discurso do narrador do começo do conto, mais neutro, que a partir de certo ponto pareceu-me aproximar-se do personagem, tornando-se mais ressentido, como se sua voz se misturasse à voz do personagem. Acredito que tenha sido essa diferença que me causou uma espécie de estranheza na primeira leitura que me obrigou a voltar ao texto para melhor compreendê-lo. Há uma oscilação nessa perspectiva do narrador, se é que você me entende, que me confundiu um pouco durante a leitura.
    É uma história muito triste e o final, também muito triste, não poderia ser diferente. Sobre esse final, achei que você o construiu com bastante habilidade, o que valorizou bastante o conto.
    Parabéns pelo trabalho! Beijo grande.

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    1. Oi, Melisas!
      Tudo bem?
      Entendo perfeitamente a sua colocação, e concordo plenamente. Como sempre digo, escrevi esse conto em 5 minutos, e foi uma experiência quase psicográfica, não sei bem explicar.
      pretendo organizar melhor o início do conto, e deixá-lo na mesma linha dali da metade em diante, e até dar continuidade.
      Obrigada pela leitura, pelas dicas e pelo carinho do comentário.
      Beijos!!

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  6. Método TFI – Trama – Fluidez – Impacto

    -Trama: Rapaz de família rica e alma atormentada é jogado no mundo sedutor e cruel das drogas e da alheação. Lembrei um pouco o seu conto de estreia, que também falava de um homem à margem da vida. Ao contrário do outro personagem a vida deste é contada com detalhes, permitindo que o leitor se apodere dos eventos que fizeram o protagonista chegar ao estágio onde foi encontrado. O final dramático e redentor não poderia ser outro.

    Fluidez: Um conto muito interessante que desperta no leitor a vontade de saber tanto sobre o Joca, quanto sobre o desfecho da trama.

    Impacto: Muito bom, apesar de me dar uma tristeza ler contos assim. O arremate foi muito bom.

    Uma abraço , moça bonita.

    Iolanda

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    1. Oi, Iolandinha!!
      Você é uma querida, viu?
      Obrigada pelo seu maravilhoso comentário, fico feliz por ter gostado, e você é muito observadora, escrevi O homem só, Joca Louva Deus e outras histórias na mesma época, fruto de visitas à casas de recuperação para drogados e doentes mentais em geral, o que mexeu demais com a minha sensibilidade.
      O tal laboratório…
      Pretendo juntar todos esses contos.
      Muito obrigada por tudo 😉
      Bjokas!!

      Curtido por 1 pessoa

  7. Olá, Renata. Um texto forte e bem contado. Apesar de você (tentar) aparentar frieza e distanciamento narrativos, não fiquei convencida disso. Acredito que tenha conhecido alguém com uma história semelhante a esta. Não irei tecer mais elucubrações, receando entrar numa esfera pessoal que quis deixar de fora. Conheci muitos casos destes, era jovem quando aconteceu a revolução em Portugal e, juntamente com a liberdade e os retornados africanos, vieram também as drogas – desde as mais inofensivas às verdadeiramente duras. Muitos colegas (e até namorados) acabei por perder para elas. De quê? de tudo: Overdoses, suicídios, demência e até assassinados por esquemas em que se meteram. O seu conto está narrado tal e qual do ponto de vista de um drogado. Existe uma única característica comum a todos os que conheci: a culpa (com maior ou menor razão) é dos outros, normalmente da família, ou então da sociedade como um todo. E é esse ponto de vista que aqui é oferecido. Também não vou comentar da minha revolta pessoal para com alguns deles – não lhes perdoo terem-se assim entregue. O seu conto está muito bom e bem escrito e dirigido. Rendo-me a ele, mas não ao protagonista. A fraqueza de cada um deles, que levou os “meus mortos”, não me permite ser solidária com eles. Um beijo.

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    1. Oi, Ana Maria!
      Boa noite/bom dia.
      Ana Maria (o nome da minha filha, gosto muito), então, você é muito culta e inteligente, perspicaz, mesmo.
      Na verdade nunca me senti à vontade para revelar de onde vieram minhas experiências com drogas, violência, prostituição, assuntos extremamente pesados, tão diferentes da minha vida de mãe, professora e estudante, enfim, uma pessoa que, a priori, não anda nesses meios.
      Eu não vivi “na pele” tais experiências, mas em 2013 passei um tempo como voluntária em um hospital psiquiátrico, e nele tínhamos pacientes com todos os tipos de problema, desde doenças mentais, passando por drogas e mesmo pacientes de alta periculosidade.
      Foram momentos dolorosos, mas guardo a experiência, que na época se transformou em 6 contos que tratam do assunto.
      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário!
      Beijos

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  8. Renata, que conto da porra, meu! Gosto particularmente desse tipo de narrativa, as palavras sendo cuspidas e escarradas, levando o leitor a penetrar na mente do protagonista. Uma história que, infelizmente, habita ao nosso lado, nas esquinas, no silêncio dos lares. Vc conseguiu muito bem dissecar o protagonista, o drama familiar que o levou a desistir de um mundo fácil, e embarcar numa viagem, talvez, sem volta. O final aberto e o lance da Espanha tb. foram show. Parabéns! bjs.

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    1. Oi, Rose!
      Uau, mega feliz aqui com seus comentários, eu escrevi esse conto assim, em 4,5 minutos, como se as palavras fossem sendo gritadas nos meus ouvidos….quase uma experiência paranormal, não sei.
      Muito obrigada mesmo, que bom que gostou,
      Bjokas!!

      Curtido por 1 pessoa

  9. Eita, que conto mais forte e denso! Como o labirinto da mente humana. Tudo na vida de Joca é um emaranhado camuflado, nada parece ser o que realmente é. No meio de tanta hipocrisia, mentiras e segredos, não é de se estranhar que o moço tenha cedido ao encantamento das drogas.
    Apenas uma observação – “cu” não tem acento. (Eu sempre implico com isso, sorry)
    A narrativa foi muito bem construída e prende a atenção facilmente. O final, metáfora do renascer, ficou muito bom.
    Parabéns!

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    1. Oi, Claudia!
      obrigada pela leitura, que bom que gostou, fico imensamente feliz.
      O cu eu ainda não editei, mas vou editar, obrigada!
      Lembrando do meu cu, que não era o único acentuado rsrs
      Bjokas, obrigada!! ❤

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  10. Olá! Um conto muito forte e triste. Quantas vezes a mente humana é sobrecarregada e a única coisa que quer é se desligar de tudo? Apesar dos problemas, seguimos adiante. Mas nem todos pensam e agem assim, sucumbindo para um caminho tortuoso, turbulento e ingrato. Alguns conseguem superar, outros não… Um conto pesado que causa muita reflexão, e principalmente, alerta.

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  11. Oi Renata. Que conto triste… e o pior é que retrata a realidade de milhões de pessoas… muito triste mesmo. Eu, particularmente, detesto palavrões, o que deixou o seu texto muito irritante de ler…kkk mas é coisa minha mesmo. Ficou bem explícita toda dor, desespero, desesperança do protagonista. É difícil de conseguir isso. Parabéns!!

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  12. Oie, Renata!

    Gostei do ritmo, pesaroso, do seu conto. Essa escolha favoreceu no envolvimento do drama, de forma que mesmo não sendo na primeira pessoa, eu pude perceber a letargia da mente do seu persona.

    No primeiro parágrafo, talvez, digo apenas talvez, ficasse mais fluído assim:
    ➡️Da vida lembrava muito pouco. Quase nada perto daquele troca-troca alucinante em que vivia.

    Algumas frases, apesar de longas, foram construídas como “Ponte”. Ora estamos no vazio do personagem, ora nas nossas próprias ausências.
    ➡️”olhos perdidos no espaço, um espaço só dele, quase perfeito, não fossem as dores, muitas, e o sempre regresso ao mundo da semiconsciência.” 😢💔

    Como dica, use o “pra” apenas nos diálogos.

    Renata, parabéns por se debruçar num tema tão pesado, tão dolorido.

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    1. Oi, Lee, que maravilha de comentário..vou editar o conto, e deixar o parágrafo da forma que vc sugeriu, eu muitas vezes me enrlo um pouco no primeiro parágrafo – me aculpa.
      O ‘pra’ também vou alterar.
      amei as dicas, amei o comentário e a leitura.
      Obrigada, bjokas!!

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  13. Uma narrativa realista, densa e com aparente distanciamento do narrador. A linguagem é sugestiva e vai delineando toda a confusão mental em que o protagonista se perdeu. Impressionante a técnica em construir o mundo, entrecortado por lembranças e dores, em que ele vivia. Estilo e história se fundiram e o resultado foi este texto marcante. Parabéns! Beijos!

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  14. Oi, Renata.

    Uma trajetória e tanto. A voz do narrador é bem forte aqui, ele realmente entra no mais profundo da razão deste homem. Achei sua escrita muito boa, frases impactantes, até mesmo engraçadas, apesar de tudo.

    Nos tornamos íntimos das aflições de Joca, que durante a vida só vai perdendo….até mesmo o nome. Essa parte em especial me fez pensar, o nome é muito importante, e quando ele o perdeu, não tinha mais volta.

    A questão da família também é muito delicada. Conheço uma mãe que depois de tanto sofrimento , desistiu do filho viciado. Foi embora e deixou ele para tras. Nem sei como deve ser para ele. As vezes o vejo vagando pelas ruas, de certo está em algum dos estágios que Joca passou ao longo da vida. Esmola, furto… e por aí vai até encontrar o destino exato.

    A cena final é tocante, o trecho da música foi perfeito.

    Meus parabéns, seu conto é ótimo, denso, triste mas, libertador. Me vi torcendo para que seu sofirmem

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    1. Vish… enviei sem terminar, sem querer. Mas como ia dizendo… Me vi torcendo para que seu sofrimento tivesse fim, e por mais triste que seja, na vida real as vezes ele só acaba assim.

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      1. Oi, Amanda!!
        Olha, sinceramente, seu comentário é daqueles que nos dão o “empurrão” que às vezes precisamos, naquelas noites em que pensamos se realmente conseguimos transmitir através da escrita o que vai aqui dentro.
        obrigada, obrigada mesmo, sua generosidade abraça, que bom que gostou, e sim, muitas vezes esses caminhos como o do Joca só encontram saída, ou fim (que é um início), com a ruptura, embora não seja o adequado, ou o definitivo.
        obrigada pela leitura, bjokas! ❤

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  15. Pois é, menina… contaço! Esse cinismo melancólico da narrativa me conquistou. Uma tragédia, digamos, engraçada graças ao seu poder de manusear as palavras. Os pensamentos de Joca estão sublimes.
    Adorei.
    Sugestão:
    Eu implico com parênteses no meio do texto, mesmo quando uso. Por quê? Porque quando leio em voz alta os danados travam a narrativa dentro da minha cabeça: “E João Alfredo acordou outra vez ( sonhava em acordar nunca), dopado. Por que não apenas entre vírgulas?

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    1. Oi, Catarina!
      Sim, eu muitas vezes me pego rindo e chorando dessas histórias trágicas que escrevo…obrigada pelo ‘sublime’ – uau!
      Sobre os parênteses, vou aproveitar total a dica, uso demais isso, ou os travessões.
      Em breve vou reeditar Joca.
      Muito obrigada, Catarina, bjokas!!

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  16. caramba…
    “se” arrepiei…
    um conto belíssimo, vivo, pulsante.
    Muito, muito bom, Renata!
    Ele poderia ser lido em uma roda de adolescentes, só para eles terem uma ideia da vida louca que é o mundo das drogas, do que ela dá e do muito que ela tira.
    tua narrativa é super boa de acompanhar, fluida, leve e empolgante!
    não tenho mais o que dizer, queria ficar elogiando até amanhã!
    o final ficou ótimo, merecido!

    Destaco:
    “E João, sumindo dentro de si mesmo, ia embora, aos poucos. Um resto de porra nenhuma, carne podre e ossos com um coração destruído ainda batendo.”

    Isso diz muito!

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    1. Aiiii Sabrina, que baita comentário mara, tô toda-toda aqui, viu? 🙂
      obrigada pela leitura, pelo belo e atencioso comentário, e tenho pensado em fazer uma coletânea com os contos nesse gênero, que escrevi após uma experiência como voluntária num hospital psiquiátrico aqui no Rio.
      Tenho uns 6 ou 7, vamos ver.
      obrigada, obrigada, obrigada!!
      Bjos ❤

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  17. Um conto que vai de encontro, com uma situação existente e muito visível.O interessante, é que muitos acham que acontece, com os que estão na rua, que não tem um lar, uma família. Mas este triste descaminho das drogas, não escolhe condição social.
    Gostei demais da narrativa, da autora e amiga, Renata. Ela consegue prender o leitor e causar e também vivenciar uma enorme expectativa, em nós leitores. Fiquei presa ao conto e sentindo, a dor do protagonista. E o final, foi fantástico.
    Fantástico por não se saber a trajetória do protagonista, histórias assim, realmente não tem como imaginar como tragicamente se encerram.
    Parabéns a autora, por tão bem conduzir, uma realidade de dor e de aniquilamento do ser.

    Curtido por 1 pessoa

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