Mudam-se os tempos – Ana Maria Monteiro

Sucedeu há uns anos.
Vem-me hoje à memória a propósito do dia da mulher.
É, no entanto, uma associação de ideias algo estranha. Mas conto a história na mesma.

Depois de uma longa estada em Madrid, onde estivera destacado por uns meses, regressava a casa, comodamente instalado num desses compartimentos de que, à época, estavam dotadas as carruagens de primeira classe daqueles comboios. Eu viajava junto à janela, de costas para a paisagem que, assim, surgia como uma permanente e um tanto monótona surpresa e ele, de frente para mim, também à janela, cujo cenário ignorava completamente, imerso que se encontrava na leitura do jornal, dava-me a estranha e um pouco incómoda sensação de o conhecer. Este “dejá vù” inicial foi adquirindo contornos de realidade até que já sabia perfeitamente identificar a sua origem. A probabilidade de não estar enganado era nula, pensava eu enquanto a certeza continuava a instalar-se em mim, de forma tão garantida que deve ter-se tornado quase palpável. Ele, pelo menos, sentiu algo e reagiu. Com o seu ar fora de moda, soergueu ligeiramente o olhar e fitou-me arqueando muito ao de leve a sobrancelha direita, numa expressão que me embaraçou e intimidou um pouco. Tinha um ar grave e respeitável, no seu fato antiquado e de bom corte que cobria um corpo rechonchudo. O chapéu de coco, completamente fora de propósito noutra criatura qualquer, acentuava-lhe o todo.

Senti que devia uma explicação: — Desculpe, faz-me lembrar alguém.
O sobrolho arqueou-se mais, de forma quase imperceptível, mas sem dúvida voluntária.
Desabafei: — Estou capaz de jurar que é o João Ratão.
— E sou.
— Mas como? É impossível! Não morreu há tempos imemoriais, cozido e assado no caldeirão?
E ele, imperturbável: — Como vê, a resposta é negativa.
— Então a história não foi assim?
— Claro que não, meu caro. Interesses e compadrios. Os autores sempre foram uns vendidos.

A minha estupefacção devia ser bem visível pois agora era ele quem aparentava ter que justificar-se: – Está a ver, eram outros tempos, a Igreja não aceitava um casamento que não poderia consumar-se e render filhos e o autor cedeu, e decidiu dar-me um fim diferente do previsto.

— Oh! E a carochinha?
— Nem me diga nada, meu caro. Chorava e berrava que nem uma ovelha desmamada. Queria a todo o custo casar comigo e que eu a comesse. Por isso, fiz-lhe a vontade.
— Como assim?
— Ora! Comi-a. Que outra coisa poderia fazer para a calar?
– Comeu-a?!
— Sim, sim, no sentido possível e literal do termo.
— Que horror! Que história tremenda! E como deve ter sofrido.
— Nem deu por nada, acredite. Como deve calcular, foi numa única dentada. Trabalho rápido, limpo e eficaz, que satisfez os propósitos de ambos.
Eu estava sem palavras. Meio estúpido, balbuciei: — E os cinco reis da caixinha?

— Quais cinco reis, qual carapuça! Nunca houve nada. Mais um truque do autor. Bem vê, naquela época, era suposto as mulheres pagarem para casar com os homens.
E, entre dentes, ainda murmurou: — Como ainda hoje, nós vendemo-nos e as putas são elas.
E de novo para mim: — De forma que saí de cena e tive que me afastar.

A minha perplexidade era tal que não encontrei nada para dizer de imediato e ele, aparentemente aliviado, regressou à leitura do seu jornal e assim continuou até sair, duas estações antes de mim. Nessa altura, muito circunspecto, levantou-se, tocou ligeiramente no chapéu, disse “boa tarde” e saiu.

Tentei acompanhá-lo com o olhar, mas de imediato o perdi de vista por entre a multidão.

Quase a chegar ao meu destino, a impaciência do regresso a casa, fez-me abrir a janela.
Lá estava ela à minha espera.
Acenei que nem um danado até que me viu e correspondeu.
Um breve estrépito percorreu-me todo o corpo, senti-me a carochinha à janela e receei tolamente acabar como ela.

Felizmente somos da mesma espécie, o que lhe permitiu comer-me longamente e conforme quis nessa mesma noite e com grande satisfação para ambos.

Por acaso foi num dia 8 de Março.

9 comentários em “Mudam-se os tempos – Ana Maria Monteiro

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  1. Ahh, que legal, eu adoro este tipo de conto! ❤
    Gostei da forma que subverteste a historia original, ficou divertido, às vezes este tipo de tentativa fica uma maçada, não foi o teu caso, que legal!
    Não sei se entendi o final… comer em Portugal tb pode referir-se à sexo, como aqui? Ou é beijo?
    De qualquer forma, gostei muito!
    Abraços

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  2. Olá Kinda. Obrigada pela leitura e comentário. Sim, comer é isso mesmo. Em Portugal come-se à mesa e na cama (esta segunda variante, como sabe,pode ser em qualquer lugar, mas é mesmo esse o sentido. Na verdade,tive algum receio de colocar o conto aqui, pois não sabia esse pormenor nem se a vossa história da carochinha tem a mesma versão que cá. Aqui conta-se com a carochinha à janela a cantar: “Quem casar com a carochinha, que é bonita e formosinha e tem cinco reis na caixinha?”. De qualquer forma, decidi arriscar, porque foi um conto para o Dia da Mulher, no ano passado (não gosto muito “de dias de”) e nós somos todas mulheres. Então fica para nós. Um beijo.

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    1. sim, sim é esta a historia da carochinha, sim…
      lembrei q é na língua espanhola que ‘comer’ é beijar.
      bjs

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  3. Querida Ana,

    Acredito que a boa arte é aquela que nos faz refletir. Um bom texto ecoa na cabeça do leitor, fazendo-o pensar, criando referências entre o que foi lido e a própria vida e suas experiências, com as referências que este nos oferece.

    A história da Dona Baratinha é um dos contos de fadas mais apreciados no Rio de Janeiro (sou de lá), talvez divido à origem portuguesa muito forte na cidade, talvez isso ocorra só na minha família, também de originada em Portugal. Em minha infância havia uma coleção de disquinhos de vinil coloridos, narrados pelo maravilhoso Braguinha. Uma das história mais emblemáticas da série era justamente a de Dona Baratinha, com sua fita no cabelo e o dinheiro na caixinha, cantada com uma voz que nunca mais me abandonou. Eu amava as histórias da Carochinha, que povoaram minha infância.

    E eis que a autora me abre os olhos para novos aspectos do texto sobre os quais eu jamais (e nem poderia como criança) havia refletido.

    Pobre mulher, a tal Baratinha, punida pelo simples pecado de se dar ao direito de escolha. Ora, ela guarda o próprio dote, pobres tostões acumulados às custas do próprio suor, e, ao deter o poder financeiro do dote, dá-se ao direito de, à janela, escolher seu pretendente. Um é muito pequeno, outro roncará a noite toda, ninguém é bom demais para ela, até que, enfim, ela dá sua busca por encerrada, ao encontrar João Ratão, que terá doces todo dia, no almoço e no jantar (como se o dote e seus predicados de bela e carinhosa dama já não fossem suficientes). O Belo, entretanto, não poderia ser dela. E, é punido com a morte só para, com isso, punir Dona Barata por ousar ser independente. Por ousar escolher para quem dar ou deixar de dar seu beijo, seu corpo, a própria carne.

    Muito pertinente a discussão que você levantou, Ana, em tempos que tanto se fala em igualdade de gêneros, a mulher ainda sofre, infelizmente, com tais julgamentos. É cultural. Algo que está arraigado no cerne de nossa sociedade que, embora caminhe lentamente para uma mudança, ainda está longe demais de ser igualitária para ambos os sexos. Muito boa a virada de trazer o conto para o nosso tempo no final, traçando um paralelo entre a situação da mulher ontem e hoje, assim como já propõe o título.

    Parabéns. Um conto nota 10.

    Beijos
    Paula Giannini

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  4. Hahaha. Que conto maravilhoso e que final picante! Adorei. Conheço a história do casamento da senhora baratinha desde bem pequena, mas preferi a tua versão. Um amor de conto. Excelente como tudo o que você escreve, moça. Adoro contos e fábulas, seu conto foi um deleite, e o seu toque tornou tudo mais interessante. Muito talento eu sempre encontro por aqui. Abração, figurinha rara. Beijos.

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  5. Olá. Com certeza este conto deveria ser inserido como continuação daquela antiga história! Muito boa a sua versão e bem atual. Paula Giannini disse tudo, sem mais nada para acrescentar. Abç. ❤

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  6. Eu ri muito aqui, mas também penso que não seria bem para rir do final da baratinha. Tadinhaaaa!!! Quase inconcebível esse comer literalmente a criatura. Há que se pensar mesmo nos aspectos que as entrelinhas nos expõem nessa nova roupa da história. Parabéns! Um grande abraço!

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