Zorro – Ana Maria Monteiro

Recordo-me que crescia feliz, como quase todas as crianças crescem, sem nunca pensar nisso. Queria ser grande, ser como “os grandes”. Todos queríamos, nessa época em que ser criança era sinónimo de “não ter voto na matéria”, estar calado à mesa, cumprimentar qualquer desconhecido amigo do pai ou da mãe, com a maior cortesia; enfim, tudo era “uma seca”, um deserto que todos tínhamos de atravessar para chegar à tão desejada idade adulta, aquela em que, aparentemente, tudo era permitido. Eu nem sonhava que vivia em ditadura. Não sabia o que isso era, nunca tinha ouvido a palavra, mas se alguém ma tivesse explicado, certamente teria pensado que os ditadores do mundo eram os pais, todos os pais que conhecia.

Um dia o Zorro morreu. Morreu, assim, sem aviso, estava a dormir e não acordou mais. Eu chorei. O Zorro era o meu gato, o nosso gato. Era um pouco mais velho que eu. E morreu de velhice. Chorei muito. Nem queria chorar, pois não servia de nada, queria era trazê-lo de volta, voltar a afagá-lo, a tê-lo no meu colo, brincar com ele, ouvir o seu ronronar de satisfação, repetir-lhe o quanto o amava. Percebi o peso do “nunca mais”, do definitivo; que o passado perdura, mas o futuro pode acabar a qualquer momento. O futuro do Zorro terminara. E eu não estava apenas inconsolável, sentia-me, sobretudo, inconformada, incapaz de aceitar.

Foi então que ouvi, pela primeira vez, um discurso sobre essa história de crescer. O meu pai, na beira da minha cama, sentou-me ao colo, aconchegou-me nos seus braços e conversou comigo por muito tempo, com calma, doçura, paciência. Disse-me muitas coisas, ensinou-me muito, falou-me que todos temos de crescer, e que o aprendizado da morte faz parte desse processo que é duro mas gratificante. Também falou que eu iria continuar a crescer, mesmo depois do meu corpo alcançar a altura definitiva. Disse-me que o crescimento dura o tempo todo de uma vida, que ele próprio continuava a crescer todos os dias e que ninguém, mais do que eu, lhe ensinara ou fizera crescer tanto.

E o meu sonho de ser grande foi esmorecendo enquanto ele falava. Pensando bem, talvez fosse preferível continuar assim pequenina para sempre, ao colo do meu pai, escutando a sua voz doce e grave, suavemente acompanhada pela batida ritmada do coração, bem ali por baixo do meu ouvido encostado no seu peito.

Ele afagava os meus cabelos. E a certa altura começou a falar do Zorro e a recordar as suas histórias e como o haviam encontrado, bebezinho ainda, na rua, sozinho. Bem antes de eu nascer. Contou muitas coisas sobre ele, coisas que desconhecia: como era assustadiço e medroso, como lentamente foi crescendo ele também e como me “adoptou” desde o dia que nasci. A certa altura já não havia mais lágrimas, apenas risos e alegria nostálgica em memória do nosso doce gatinho, chamado de Zorro devido a uma tira negra na zona dos olhos e que mais parecia uma mascarilha.

Ficámos muito tempo ali. Por fim, chegou a hora do jantar. A minha alma lavara-se e revigorara-se, tinha o Zorro dentro de mim, para sempre. Ainda cá está. Sem o saber, cresci muito nesse dia.

Passaram muitos anos, tantos que prefiro nem dizer. Ontem à noite, da mesma forma e pelas mesmas razões, o meu pai foi juntar-se ao Zorro.

Nunca somos suficientemente crescidos para perder os nossos pais com serenidade. Choro o meu pai, como chorei o Zorro. A dor é mais madura, o sofrimento mais profundo. E eu, eu sou quase velha. Mas o que me apetece mesmo, o que sinceramente desejo, é sentar-me ao colo do meu pai e ouvir a sua voz, embalada pelo bater do seu coração (agora parado), consolando-me, explicando-me os porquês de tudo e rindo comigo das suas próprias histórias de quando era vivo e jovem.

Ah! Falta-me tanto por crescer…

16 comentários em “Zorro – Ana Maria Monteiro

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  1. Bela crônica, Ana! Realmente, por mais queiramos, nunca estaremos maduros o bastante para aceitarmos tão bem a morte como parte da vida… “A dor é mais madura, o sofrimento mais profundo” – bonito e verdadeiro. Bonita também a contração “ma”, em “ma tivesse explicado”, tão sonora. Pelo visto você é portuguesa. ^^
    Abraço.

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  2. Um texto sensível, doce e repleto de ensinamentos através de metáforas significativas. Estilo e temática se fundem. Realmente o crescimento acontece no dia-a-dia, até à morte estamos aprendendo e crescendo. Parabéns e obrigada por esta releitura de mundo tão madura. Beijos.

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  3. Como é fantástica esta sua crônica! Tão real! Só pode ser!
    Acabei de sentir, pela segunda vez, como é perder alguém assim tão próximo da gente. Abraços!

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  4. Querida Ana,

    Belo texto.

    Jamais seremos grandes, ou adultos, ou maduros o suficiente diante da morte inexorável que nos ronda a vida, não é?

    A beleza do conto reside em mostrar como traremos para sempre dentro de nós aqueles que passaram por nossas vidas. Os que amamos estarão sempre conosco é uma premissa riquíssima para um autor, mas, mais que isso, é uma verdade da vida para a qual deveríamos estar sempre atentos.

    Um dia, também nós (todos) partiremos. E, nesse dia, nos mudaremos para dentro daqueles que soubemos cativar durante nosso caminho.

    Parabéns por seu trabalho impecável, como sempre.

    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Olá. Um conto que mexe com as emoções. A primeira vez que perdemos um bichinho de estimação, nunca esquecemos. É como se isso nos preparasse para enfrentar perdas muito maiores no futuro, mas nada e nem o tempo, realmente nos prepara para a morte. Um conto gostoso de ler, e também triste, de uma forma simples, bela e emocionante. ❤

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  6. Olá, Ana!

    A sua escrita tem o dom de mexer com a gente, com nossa sensibilidade e emoções. Sentimentos afloram em nós com o seu texto, um nó apertado na garganta, um sentimento de déjà vu. Perdi recentemente meu cachorrinho e isso foi um marco, como as grandes perdas sempre o são. Nascemos, crescemos, amadurecemos, mas nunca o bastante para saber lidar com as saudades daqueles que se foram, daqueles que amamos, seja animal ou pessoa.
    Um escrita pungente e poderosa. Português perfeito (digo, a linguagem) que reflete o seu cuidado com a língua, nas colocações, contrações e regência. Muito bom, minha querida. Parabéns!

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  7. A morte carrega sempre um pedaço de nós. E a saudade vem bater à porta em tempo inesperado, por qualquer som, ou riso lembrado, ou cheiro e coisas encontradas por acaso. O ocaso traz sempre consigo uma ponta de saudade, um nome, um afago, abraço apertado, uma memória esquecida em nós. E somos sós, a querer voltar, a voltar a querer. A bem da verdade dissestes: falta-nos tanto crescer…
    Um grande e carinhoso abraço!

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  8. Olá Ana. Confesso que me emocionei com o seu texto. Você conseguiu passar tanta leveza, tanta doçura no relato dos sentimentos de uma criança que fica frente a frente com sua primeira perda e como esse episódio fortaleceu os laços com o pai. Depois quando já adulta, perde o pai, sua memória se fixa naquele maravilhoso momento, no calor e aconchego do colo, daquele que já não pode mais consolá-la. Maravilhoso. Parabéns!

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  9. Olá Ana. De fato, nunca estamos preparados para encarar a perda dos nossos pais. Seu conto focaliza de forma sensível um momento marcante de conexão entre a pai e filha. Os ensinamentos recebidos do pai, entretanto são insuficientes para consolá-la quando ele parte. Resta-lhe como conforto a lembrança desse momento em que o pai acalmou-lhe o coração ajudando-a a crescer. São realmente esses momentos que nos consolam quando enfrentamos as grandes perdas. Muito tocante seu conto, amiga. Parabéns!

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  10. Seu conto me fez chorar, Ana. Não só porque recentemente perdi meu cachorrinho, não só porque tinha uma série de pequenas e grandes frustrações presas no meu coração, não só porque tive uma desilusão… Ou porque estava ouvindo músicas tristes para intensificar minhas misérias. Seu conto me fez chorar porque ele fala a quem lê, atinge o coração, é genuíno, e assim o sendo, a gente se identifica de imediato, sente empatia, sofre junto.

    O Zorro existiu, tendo existido ou não. Algum dia, em algum lugar, um alguém qualquer, eu mesma, já tive um Zorro, ou um gato, ou um cão com nome diferente e, de imediato, senti a dor que você sentiu e essa consciência de finitude que não devia fazer parte da infância.

    Fosse apenas isso o seu conto já seria perfeito, mas ele abre outro leque de emoções, e fala, com tanta doçura, do seu momento especial, da sua proximidade com o seu pai e de como, cheio de ternura e sabedoria, ele lhe explicou coisas tão simples e complicadíssimas sobre a arte de crescer e morrer.

    Seu conto me fez chorar, Ana, e eu sinto muito ter demorado tanto a lê-lo, e não poder te dar um abraço de consolo e não poder estar presente enquanto meu cão agonizava a poucos metros de mim. Parabéns por saber colocar tanta beleza e emoção em tão poucas palavras, amiga.

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  11. Oi Ana, a sua narrativa trás uma simbiose entre o crescer e o morrer, sempre tão presente na nossa vida. O aconchego dos pais é o melhor lugar do mundo, e a cena da menina no colo do pai, os dois em recordações sobre o gatinho é tocante, muito poético, o texto todo nos brinda com a poesia da vida e da morte, o nosso ciclo, num infinito vir e partir. Parabéns amiga, bjs.

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  12. Oi, Ana!

    Mais uma vez um texto adorável. Impossível não senti a empatia… a semelhança, não lembrar que eu já fui essa menininha que perdeu o gatinho, um cachorro, tantas vezes, tantas lágrimas, tanto luto.. ” Nunca mais vou querer criar um novamente” e lá estava eu de novo, toda disposta a amar, sabendo no entanto que logo o ciclo seguiria sua rota.

    É interessante apontar a questão de que quando crescermos tudo amadurece, inclusive a dor da perda. Saber que tudo é questão de tempo.

    Parabéns!

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  13. Que conto mais lindo! Crescer exige que se lide com a perda, com a morte, com a partida daqueles que amamos. Quanto mais velhos ficamos, mais alto fica o risco.
    A narradora transmite muita sensibilidade ao se recordar da sua infância, do amor pelo gato e pelo pai. Para os pais, somos sempre crianças, talvez porque nos vimos como tal, também.
    Adorei a leitura. Parabéns!

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  14. Faz uns dias que li aqui e chorei tanto…
    Que eu tava com medo de vir comentar e chorar mais 🙂
    Você fez um lindo trabalho aqui, uma costura de sentimentos que só ajuda a todas nós..
    O carinho e sabedoria deste pai é tocante e realmente nunca crescemos aos olhos deles (os pais) e me deparo com a verdade de que tb nós não nos sentimos crescer quando estamos na presença ou na lembrança deles.
    Obrigada por este texto, Ana
    Abração

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