Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo

Envolto a um coração amargurado em que não brota nada, como solo árido, constante e frívolo, o corpo vagueia como zumbi sem destino. Coração seco não dá pernas firmes para o sujeito. Coração duro abatuma sentimento. Vê-se um corpo sem semente, em que não brota nada.

Lá no solo do sertão, dizem, não brota nada também. Mas não é por falta de sentimento, é porque a água se esqueceu de escorrer por lá. Não é culpa do corpo que não tenha água, só é culpa do corpo a falta de sentimento.

No solo ruim, desde que alguém dispense água, pode brotar e crescer alguma coisa boa. No coração ruim, a água é um começo, mas não é tudo, pois é preciso regar o órgão endurecido com sentido. É preciso sentir esperança.

É possível que o solo ruim permaneça morto e muitos chorarão por isso. Quem habita o solo quer sumo, quer vida, quer ver vida. É possível que o coração ruim permaneça morto e ninguém perceba o corpo oco e pálido que o envolve e guarda. Corpo sabe disfarçar secura, solo não.

A água cristalina e limpa abraça o solo e descansa. Cresce vida e, com isso, cresce o amanhã de alguém. O solo se reanima e abraça o corpo, como uma oportunidade contra a aridez. O corpo reage, pois não haveria como não reagir, e abraça a vida.

Se a água reanimou o solo e o solo abraçou o corpo, o corpo abraça a vida. O corpo agora repensa. Ele começa a ver sentido. O corpo passa a sentir. Alguma coisa começou a crescer naquele coração amargurado. A água rega a aridez e o coração começa a ver sentido na vida.

A água rega. No corpo e no solo coisas começam a crescer.

18 comentários em “Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo

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  1. Um texto impregnado da alma indagadora, inquieta, capaz de comunicar aos outros a sua vivência; por isso mesmo impõe respeito. Sem água não há vida, com pouca água, vida miserável, sem crescimento. Parabéns pelas ideias e execução. Grata pela leitura reflexiva e agradável. Abraços.

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  2. A água é para o solo, assim como o conhecimento é para a alma. Belo texto, belos questionamentos. Frases de impacto e reflexão grandiosa.
    “Corpo sabe disfarçar secura, solo não.” Tantas verdades em tão poucas palavras…
    Parabéns. Abç ❤

    Curtido por 2 pessoas

  3. Olá, Sabrina!
    Seu texto é um poema, como sempre. Em belas passagens e belas reflexões, tal qual a Vanessa realçou: “Corpo sabe disfarçar secura, solo não.” Perfeito. Eu chamo a atenção para uma frase em especial: só é culpa do corpo a falta de sentimento.

    No meu entendimento, o corpo se negar a sentir muitas vezes. Por agressões de pessoas ou acontecimentos, mesmo assim, há pessoas iluminadas que conseguem superar atritos e desventuras sem ressecar o coração. Bem aventurados os bons de coração porque ddeles é o reinos dos céus. Perfeito!

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  4. Querida Sabrina,

    “Corpo sabe disfarçar secura, solo não.”

    Você criou um texto belo e profundo. Um convite à reflexão. E a frase acima mostra toda sua maturidade e habilidade como autora.

    Minha mãe sempre disse que o amor é uma plantinha que a gente tem que regar… Ouvi isso a vida toda, mas aqui você vai além. Na metáfora da aridez do solo e da alma, a autora descortina o coração. A terra carente de água está latente, à espera de que a vida nele se instale. E basta uma gota, para que o milagre se faça e brote. Todo sertanejo conhece esse fenômeno de florescimento da caatinga. E onde antes só havia morte, a chuva faz brotar flores, e cores, e animais que voltam a seu lar.

    O ser humano, porém, precisa de muito mais que isso para que sua alma, por vezes estéril, se torne fértil. Para ser amado é preciso que se aceite o amor e isso, por vezes é extremamente difícil. A água que rega o corpo nada mais é que o afeto.

    Nada mais precisa ser dito.

    Dessa vez você se superou.

    Beijos

    Paula Giannini

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  5. Quando está erodido assim, como na foto que vc colocou, não cresce nada mesmo, e aí nem a água recupera mais. Não se cresce porque nem mesmo se nasce. Um texto muito além das questões humanas, um texto que fala do nosso mundo, e das pessoas que se recusam a crescer espiritualmente. Almas secas, vidas inúteis, perspectivas de um palmo. Sempre textos que nos tiram do conforto, não é Sabrina? No conforto ninguém cresce. Muito bom. Beijos, flor.

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  6. Vi o universo feminino nessa água. Porque se água e o princípio de tudo, então, água é a mulher que principia o mundo. Seu conto me pareceu uma elegia à criatura mais volúvel, mais marcante, mais avassaladora. A mulher, que assim, feito água, ou passa por cima ou contorna seguindo o seu curso.
    Esse mundo está precisado de mulheres feito água. Essa secura toda, esse descaso, esse desamor… Está faltando o feminino mais forte nesse universo humano. Para adentrar nas frestas, para arrancar a secura, molhar os olhos e a garganta, soltar as vozes.
    É um poema. E lindo.
    Um grande e carinhoso abraço!

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  7. Oi Sabrina, seu texto me pareceu ser uma prosa poética, cheia de metáforas e muita poesia. Coisa de quem sabe o que está fazendo. A água rega o corpo e o solo mas o coração precisa ser regado com sentimento… Belíssimo! Parabéns!!

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  8. Sabrina, mais um texto de pura poesia, mania de sacudir a alma da gente. Aliás a pluralidade de gêneros nesse blog é um deleite. A narrativa é doída, água, crescimento, lembrei da música “Planeta Água” do Guilherme Arantes, fiquei de alma lavada. Parabéns, bjs.

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  9. Olá, Sabrina.

    É um texto…um poema em que com prazer lemos repetidas vezes algumas passagens de tão bonitas que são, queria saber escrever assim…usar as palavras com tanto esmero, saber colocá-las cada uma em um lugar especial, juntas como uma orquestra. Você é muito boa nisso!

    Parabéns pelo belíssimo texto, que trás algumas interpretações preciosas.

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  10. Como disse Iolandinha, “no conforto ninguém cresce”. E neste conto não há conforto se não há possibilidade de crescimento. Muito bom. Um conto carnal e seco só suavizado com a chegada da água e, com ela, a esperança. Assim entendi e gostei.
    OBS: Em “No solo ruim, desde que alguém dispense água, pode brotar…” esse “dispensar” é = a rejeitar, ou você queria dizer “despejar”, “derramar”?

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  11. Muito bom o seu conto, além de não se estender demais. Deu o seu recado, bem poético, aliás, e seguiu em frente.Gostei do título, da mensagem sobre o crescimento da pessoa depender do sentimento.
    Minha frase favorita foi: “Corpo sabe disfarçar secura, solo não.”
    Parabéns!

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  12. Que lindo texto, Sabrina. Mais uma vez. O parágrafo abaixo, foi onde seu texto me pegou e me emocionou.

    A água cristalina e limpa abraça o solo e descansa. Cresce vida e, com isso, cresce o amanhã de alguém. O solo se reanima e abraça o corpo, como uma oportunidade contra a aridez. O corpo reage, pois não haveria como não reagir, e abraça a vida.

    Sem palavras, querida. Arrasou! Beijo grande.

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  13. Oi, Sabrina!
    Comparando o coração desesperançado com o solo seco do sertão. Bacana!
    E a água que faz tudo crescer!
    Muito bom!
    Repara que a Neusa é poetisa agora e já tratou de colocar tua prosa em forma de poema, pensa nisso, pq pode ficar legal rsrsrs
    Bjão

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  14. Oi, Sabrina!
    Parabéns pela sua composição, belíssima reflexão sobre o que é a vida, quando vivida, e essa ligação com o ambiente, como tudo reflete em nós, e vice-versa.
    Gostei tanto, mas tanto desse trecho: “Se a água reanimou o solo e o solo abraçou o corpo, o corpo abraça a vida. O corpo agora repensa. ”
    E cresce.
    Amei, muitos beijos!

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  15. Olá Sabrina. Seu conto não é um conto e nem uma prosa poética, reinventando para melhor adequar: é um poema em prosa. Vai longe e fundo, penetrante e moldável como a própria água que se adapta a qualquer meio e penetra qualquer substância, questão de constância e capacidade. assim é também a vida. Ainda assim, por mais que se os regue, certos solos humanos não são permeáveis. A aprendizagem de aceitar e acatar os sentimentos representa a trave mestra do crescimento. Muito bom. Um beijo.

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  16. Parabéns, Sabrina! Escrevendo dessa forma, tu dás mais beleza ao conto. E se fosse escrito em forma de poema, não perderia em nada também. Grande abraço!

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