O Túnel da Vida – Vanessa Honorato

 

“Nasceu! É uma menina!” – anunciou o médico, retirando as luvas e abaixando a máscara. “Pobre coitada” – sussurrou a avó, levando as mãos ao coração; senhora vivida, conhecia as dificuldades femininas e no fundo, tinha esperanças de que o bebê fosse um menino.

Criada no interior em meio aos animais, seus únicos verdadeiros amigos, tornou-se uma garota tranquila e obediente. Aos onze anos não conseguiu entender porque mamãe brigou com ela por ter aceitado balas do tio que dirigia a van que a levava para a escola. Já tinha ouvido falar que a gente não podia conversar com estranhos, mas o tio da van não era estranho, pelo contrário, ele era muito bonzinho, amigável, gostava de brincar e fazer carinho. Ele era amigo do papai, portanto, não era estranho. Mas ninguém explicou direito, apenas gritaram com ela e na semana seguinte outra van veio buscar e o novo tio não era bonzinho. Naquela época, ela não pôde compreender, hoje seu coração acelera quando lembra de todos os riscos e perigos que foi exposta.

Crescer dói, principalmente quando se cresce no escuro, quando todo assunto é tabu, quando ninguém conversa e explica as coisas como elas verdadeiramente são. Mas é algo inevitável. O tempo passa, e para chegar ao outro lado do corredor, você tem que atravessá-lo, mesmo que esteja escuro. Você vê lá na frente um pontinho brilhando, então você segue tateando pelas paredes. Vez ou outra, você toca em uma maçaneta e sabe que há ali uma porta, a questão é: abrir ou não? Às vezes a pressa para chegar ao ponto brilhante e sair do escuro é grande, mas a curiosidade para saber o que há do outro lado da porta, é ainda maior.

Então você abre-a e acha que tudo é lindo. O escuro se vai e há luz, há sol, há calor. O primeiro amor, o coração batendo acelerado pela primeira vez. Claro que ela nunca sentiu isso quando estava perto do tio. Agora já era mocinha, já tinha quase treze anos e ele tinha quinze, também estava descobrindo o amor. Mãos frias, suadas, trêmulas. Depois de muita conversa, amizade, corações acelerados e rostos vermelhos de vergonha, o primeiro beijo na saída da escola. Um selinho bobo, mas que disse tanto. Namoro puro, sem malícia, de ambas as partes. Dois jovens descobrindo a beleza da paixão, até que a escuridão começou a entrar por baixo da porta. Ela não queria esconder nada dos pais, com um sorriso no rosto, contou da nova experiência em sua vida. O pai ríspido proibiu, a mãe gritou. Dor, lágrimas. “Você não gosta tanto de estudar? Ou escola ou ele”. Medo, pânico, noites sem dormir. Sem coragem para enfrentar seus pais e sem coragem também para encarar os olhos de seu amado, ela simplesmente fugiu. Correu dele. Correu de tudo. A biblioteca passou a ser sua aliada. Nunca mais falou com ele. O escuro imperou de novo e ela voltou para o corredor, a caminho da luz brilhante, trancando para sempre aquela porta.

Seguiu caminhando, o corredor parecia mais longo e estreito do que antes. Seu coração chorava. Seguiu estudando e mais nada. Aos quatorze, nova porta. Estava cansada de tantos ‘nãos’, de tantas proibições sem ao menos explicação. Abriu a porta com raiva, mas a promessa de um novo amor a acalmou. Era bom sentir-se amada e protegida. Ele era mais velho, era responsável, agora papai não ficaria bravo. Só que o pai também não gostou deste. Ela ainda era nova demais. Mais ameaças, mais uma vez a escola. Se fosse hoje, ela saberia que o pai não poderia tirá-la do colégio, não poderia deixá-la sem estudos, é contra a lei. Mas mesmo com quase quinze anos, ainda era ingênua, ainda não compreendia que a maioria das promessas que as pessoas fazem, elas não cumprem. Dessa vez não abaixou a cabeça para o pai, namorava escondido. Nunca mais contou nada para a mãe, nunca mais disse o que trazia em seu coração, não adiantava mesmo, a mãe não escutava, só gritava. Mas o rapaz também se cansou dela. Ele tinha vinte e um anos, não iria esperar a vida toda, já que ela não queria provar seu amor por ele. Ele foi embora. A escuridão entrou pela porta e ela voltou para o corredor. Novamente com o coração despedaçado.

Tateando, ela percebeu que a parede antes lisa e fria, ganhara um aspecto poroso, como se estivesse crivada de pedras afiadas e cortantes que machucavam suas mãos. Ela não pôde tatear a parede e acabou achando a próxima porta na sorte (ou azar). Abriu-a e o que encontrou dentro desta porta foi algo que nunca mais esqueceria. Foi uma porta que ela gostaria de nunca ter aberto. A pessoa que ela mais amava, em quem mais confiava, quem a fazia sentir-se feliz e especial, protegida, amada, sua avó, dormia eternamente em um caixão. Ela, que pensou já ter experimentado a dor, não sabia o que era realmente sofrer, o que realmente partia um coração. A dor da perda foi terrível. A escuridão não só chegou, como transformou-se em grandes mãos negras e a agarrou com força, sufocando-a, tentando arrancar seu coração do peito. Com muito custo e arrastando-se, ela voltou para o longo e interminável corredor. Fechou aquela porta, com a certeza que carregaria para todo o sempre a cicatriz da dor em sua alma.

Os anos que se seguiram seu coração sangrava, ela não conseguia andar, apenas arrastava-se. Ninguém via, ninguém dizia nada, ninguém lhe oferecia a mão para que ela se erguesse do chão.

Há também as portas que a gente não abre, que passamos direto por elas. Talvez por intuição, ou precaução, mas mesmo assim, essas portas abrem-se sozinhas e lá de dentro, sai monstros que nos perseguem.

Aos dezesseis, ainda inexperiente e sem vivência do mundo, da escola para casa, da casa para escola, apareceu, sabe-se lá de onde, dois rapazes. Ela era simpática, não gostava de discriminar ninguém, não era muito de conversa, aprendeu a ficar mais na sua, mas se conversassem com ela, ela respondia educadamente. Um dos rapazes, o mais moreno, passou a persegui-la. Queria namorá-la. Ela não queria. Teve o coração machucado demais, não deixaria que mais ninguém entrasse nele. Mas o rapaz não queria saber disso. Ameaças, braços roxos, xingamentos. Pânico, medo. Contaria para a mãe? Para a polícia? Para quê? Logo eles perguntariam se ela conversou com ele, e como no caso do tio, a mãe lhe diria que ela “deu liberdade”. Esconder-se era o único meio. Faltas na escola, cortes no corpo, lágrimas. Viver? Apenas nos livros. Deus não havia esquecido-se dela e ouviu suas orações. O tal rapaz sofreu um acidente, tendo a perna fraturada em vários lugares. Mudou-se. Nunca mais ela o viu. Alívio. Pôde respirar aliviada e trancou aquela porta, rezando para que mais nenhum monstro saísse de lá.

Aos dezessete o pai ainda não havia lhe dado a liberdade tão sonhada. Não podia sair, não podia ir à casa dos amigos. A rebeldia da adolescência, somada a falta da avó, levou-a à porta sombria do álcool. Ela resolveu abrir de novo seu coração, mas não para o amor, apenas para a raiva. Para amenizar todas as vezes que ela ouviu reclamações da mãe sem motivo, resolveu dar motivo para as reclamações.

Engraçado e estranho como foi o processo que ela passou para crescer. Quando deveria ter sido punida, ou no mínimo instruída, por real motivo, os pais simplesmente ignoraram. Ela não acredita que os pais nunca perceberam-na trôpega ao chegar da escola, mas quanto a isso, nenhum grito, nenhum xingamento. Nada.

Cansou-se dessa rebeldia sem encontrar o que queria. Era inútil, tudo que fazia não ocupava o vazio do seu coração. Nem os cortes que a obrigavam a usar roupas longas não adiantavam, apenas maquiavam momentaneamente a dor.

Voltou de livre e espontânea vontade para o corredor. Ele continuava escuro. Olhou para trás, tentou voltar, mas era impossível. Existia uma barreira que a acompanhava a cada passo e a impedia de voltar, cada porta que ela fechava ou deixava sem abrir, era impossível ser alcançada de novo.

O jeito foi seguir. Ainda aos dezessete, ela encontrou uma porta muito parecida com uma a qual já tinha passado. Abriu-a e viu o mesmo rapaz que amara lá atrás, o que a deixara, ferindo seus sentimentos. O rapaz alegou ter amadurecido em seus quase vinte e cinco anos. Poderia acompanhá-la e ajudá-la a seguir pelo corredor escuro. Cansada de viver sozinha e de dizer não para todo rapaz, ela deixou-se levar, acreditou nele. Seguiram juntos.

Uma nova chance, não mais com aquela fogueira elevada, mas uma pequena chama brilhava silenciosamente. Ele pressionou, ela cedeu. Acabou provando o seu amor. Mais brigas com o pai. Ele ficou furioso, não podia acreditar que sua filha continuava insistindo em viver, não poderia permitir que sua filha fosse uma vadia. Teria que casar. E assim se fez.

Voltou para o corredor agora acompanhada do marido, agora toda porta que ela abrisse, ele teria também que entrar. Ela sentiu medo. Muito medo. Dentro dela crescia uma criança. Ela nunca mais pensou em alcançar a luz no fim do túnel. Agora seus sonhos já não importavam, era com as portas que seu bebê teria que abrir que ela importava-se. Ela ainda seguirá crescendo, não mais de corpo, mas de alma. Não quer que sua filha percorra um túnel escuro, quer acompanhá-la, quer segurar nem que seja uma vela para iluminar seu caminho, para que ela possa chegar em sua própria luz.

16 comentários em “O Túnel da Vida – Vanessa Honorato

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  1. Olá, Vanessa!
    Seu texto é muito singelo. Gostei da metáfora da vida como um corredor escuro cheio de portas, as paredes lisas e ingênuas do começo começam a mostrar fissuras à medida que crescemos. Achei a imagem forte e eficiente para passar a ideia do desconhecido, do mistério que se esconde dentro do corredor e atrás de cada porta da vida, da ingenuidade de uma moça simples criada no interior com os animais. A ela, nada deve parecer tão ameaçador como a realidade de fato é. Notei alguns erros, nada que uma revisão não resolva:

    e perigos que foi exposta > e perigos a que foi exposta.
    Então você abre-a > Então você a abre. O pronome aqui funciona como partícula de aproximação
    A rebeldia da adolescência, somada a falta da avó > A rebeldia da adolescência somada a falta da avó (nesse caso, não é uma oração reduzida de particípio).

    De resto, muito bom! Sucesso!

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  2. O texto procura responder às inúmeras perguntas que os jovens fazem a si mesmos e aos outros e que permanecem, na maioria das vezes, sem respostas. A imagem criada para a adolescência, além de bonita é convincente. Parabéns!

    Além das anotações acima, reveja a concordância verbal e posição de pronomes. Ótimo trabalho. Abraços.

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  3. Querida Vanessa,

    Crescer dói. Essa é a frase chave do conto.

    Gostei de sua escolha de foco narrativo. Nele, o leitor acompanha a criança que cresce e se torna adulta, não através do ponto de vista dos pais, que também sofrem durante essa jornada de encontro ao amadurecimento, mas, através dos olhos da própria menina em várias etapas de sua vida.

    A metáfora do corredor com suas portas, ora de luz, ora de escuridão, é uma imagem forte e muito bem utilizada pela autora no que toca a criação literária propriamente dita. Quem de nós já não abriu, se não todas, ao menos algumas dessas portas durante nossas próprias vidas? Eu sim. Creio ter aberto quase todas. E, vi-me frente à minha própria transposição de cada uma das etapas, em cada uma das maçanetas giradas pela personagem do texto.

    Não sei se há algo de autoral em seu conto. Creio que sim. Sempre há muito de nós em nossos trabalhos, não é? Mas o fato é que seu conto me causou grande empatia. Também eu, por exemplo, me deparei com a morte pela primeira vez, frente ao caixão de meus avós.

    Outro ponto que me chamou atenção foi a depressão da protagonista. Embora todo adolescente passe por momentos de angústia, a autora deixou uma porta aberta nas entrelinhas. Algo houve na infância da menina. Algo com o tio bonzinho e demitido. Algo que faz com que a mãe acuse-a injustamente de provocação ao homem. Algo que faz com que sua viagem pelo tal túnel, penda sempre mais para as trevas que para a luz. Algo que, no entanto, também oferece a redenção final. Já que, agora mãe, sua escolha será a de abrir apenas as entradas de luz para a filha que inicia seu caminho.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  4. O maior perigo da vida desta moça era a ignorância dos pais dela. O mundo adulto deve mesmo ser estranho e sombrio quando não se tem um bom guia, tento dar o máximo de informações ao meu filho para que ele possa tomar decisões acertadas quando tiver que tomá-las. Protejo sem sufocar ou esconder. Confio. E ele confia cegamente em mim porque sabe que eu nunca minto. Seu texto é importante e deveria ser lido por todas as pessoas que querem ter filhos um dia. As angústias de sua personagem podem ser as angústias de milhões de meninas por aí. Gostei do jeito muito seu de trazer as questões que surgem na adolescência e da metáfora das portas/escolhas. Parabéns, menina Vanessa.

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  5. Crescer não dói. Dói quando se é mulher em uma sociedade machista onde as próprias mulheres perpetuam a inferioridade que dizem que elas têm. Crescer não dói, mas doeu para a sua protagonista que, por mais esperança que eu tenha, vai lançar ao infinito vozes de aprisionamento e não de liberdade. Crescer não dói. Seu conto me doeu. Doeu todo em mim. Doeu até as entranhas.
    É triste, é cruel, é denúncia de uma desigualdade sem fim. Parabéns.
    Um grande e carinhoso abraço!

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  6. Que lindo conto, Vanessa! Eu amei! Tão singelo, tão despretensioso, foi se desenrolando aos poucos, lentamente mostrando muito bem esse corredor escuro, as portas, os sentimentos e pensamentos. Muito real, autêntico, muito suave. Parabéns!Lindo trabalho!!

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  7. Vanessinha, este conto me pareceu auto-biográfico.. rsrs Parece que estamos todas à vontade para abrir nossos corações, mas tb pode não ser tão auto-biográfico assim, porém uma coisa é certa, vc se emocionou ao escrever.. nao foi? ^^
    E emocionou a todas nós tb.. realmente ser mãe é uma luz (e um calvário) no fim do tunel. A metáfora do túnel escuro com suas portas de desvio e a almejada luz do crescimento à frente é muito boa.
    É um texto intimista que mergulha em várias camadas de nosso desenvolvimento, nos faz pensar…
    Parabéns
    Abração

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  8. Oi Vanessa!

    Olha, concordo com Anorkinda, deu pra sentir muito de você em cada palavra, está entregue, transparente e muito intensa.

    Eu senti bastante também, me tocou de verdade… a forma como foi escrito, como se fosse uma respiração entrecortada, como se faltasse fôlego, ou fosse interrompidos para enxugar as lágrimas.

    O conto é muito verdadeiro, uma realidade disfarçada de ficção. É um crescimento e morte ao mesmo tempo, quanto mais ela crescia e percebia o mundo ao redor, mas ela perdia pedaços irreparáveis de si mesma, e o mais incrível é que isso é normal… é normal você ir perdendo coisas importantes, sonhos, desejos…olhar pra trás vê-los caídos no chão e simplesmente achar normal… vai dar tudo certo.

    Enfim, parabéns, parabéns!

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  9. Menina, que contaço! Quantas coisas você juntou num só conto, o verbo Crescer na metáfora do corredor, a luz, que muitas vezes não é a luz, é o nosso desespero brilhando; a criação da menina, cheia de aprisionamentos e crenças limitantes, o mundo onde impera o protagonismo masculino, nos quais, muitas vezes, a mulher é apenas coadjuvante, as experiências dolorosas da adolescência, a vida adulta imposta à forceps com o nascimento da filha, os medos e proteção para que ela não percorra o mesmo caminho da mãe, enfim, muita densidade numa narrativa simples e cativante, como deve ser a vida. Parabéns, abçs.

    Curtido por 1 pessoa

  10. A analogia do corredor com o crescimento foi muito feliz. Acho que este é o conto que mais se entranha na palavra CRESCER. As cenas são apenas insinuadas, logo subentendidas e deixando margem para a leitora se identificar de alguma forma. Um bom truque.
    Acho que o conto merece uma enxugada ali pelo meio, pois perde velocidade com as repetições das desventuras da adolescente.
    O final fatalista foi uma grata surpresa.

    Curtido por 1 pessoa

  11. O que dizer deste conto? Acho que já disseram quase tudo, mas eu insisto – adorei sua sensibilidade ao tratar do tema crescimento. O corredor simbolizando a passagem pela vida, as portas, as experiências vividas. O corredor ainda me fez pensar no canal vaginal, na hora do nascimento. Não morremos e nascemos tantas vezes?
    Há alguns probleminhas de revisão, mas fáceis de serem solucionados.
    O seu conto faz pensar, mais do que isso, faz sentir. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  12. Oi Vanessa. Seu conto narra a trajetória de uma menina que cresce sem uma família que a oriente. Isso é muito triste e muito real também.
    Gostei muito da metáfora do corredor simbolizando a transição da adolescência e também da sutileza da sua narrativa ao pontuar as desventuras da menina. Ainda bem que você deu um final feliz para essa garota…
    Uma leitura muito agradável. Parabéns pelo trabalho. Beijo grande, querida.

    Curtido por 1 pessoa

  13. Oi, Vanessa!
    Seu conto me fez viajar aqui, também levada por uma força misteriosa para o meu próprio corredor, esse caminho único, e que só nos permite seguir em frente.
    Você merece aplausos, muitos aplausos.
    Lindo e comovente, só precisa de alguns ajustes de revisão.
    Meus parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  14. Olá Vanessa. Tirando os pequenos detalhes a nível de revisão o seu conto não tem nada mais a apontar, está perfeito. Não será a realidade de todas as meninas, mas de muitas – demasiadas. Ele transporta-me para uma menina de origens modestas, não sei se era sua intenção,mas isso foi-me transmitido logo no início: tempo em que ainda era necessário esperar pelo parto para conhecer o sexo do bebé e a reação da avó que preferia um neto para que sofresse menos (acredito que hoje em dia já não se pensa assim). No fundo, a chave da escuridão dos corredores interiores da menina, nos é dada logo no início: “Crescer dói, principalmente quando se cresce no escuro, quando todo assunto é tabu, quando ninguém conversa e explica as coisas como elas verdadeiramente são. ” Muitos pais ainda hoje procedem dessa forma e depois acontece tudo o que não vêem, ou não querem ver: álcool e auto-mutilação referidos, mas também drogas, por vezes até prostituição. E os pais não vêem,porque não estão atentos – têm as ideias encaixotadas em determinados arquétipos e por aí se ficam. Valha-nos que, ao menos, ela vai querer dar o que não recebeu. Desejo que o conto não seja minimamente biográfico, pois senti bem presente o espírito da autora. Talvez seja a história de uma amiga sua, se assim for, recorde-lhe que a nossa verdadeira superação nasce do “sermos”; agir com os filhos tomando os pais como modelo,mesmo em modo-negação, pode provocar alguma cegueira que, por caminhos diferentes, corre o risco de lançar os filhos em outros corredores também eles escuros. Crescer para ser e não para reagir. É importante. Como disse no início, o retrato está muito bem desenhado. Um excelente conto. Um abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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