Obsessão – Priscila Pereira

Abrigado no interior de meu carro, observei as pessoas que passeavam pela praça, tentando imaginar de onde estariam vindo, para onde iriam, se tinham família, amigos. Olhei atentamente sua fisionomia, as mais felizes sempre me atraíam, levavam-me a pensar que conseguiram tudo o que queriam da vida, tudo o que haviam planejado.  Infelizmente não conseguia achar pessoas felizes com tanta facilidade, já passara das cinco horas da tarde e eu não havia encontrado ninguém ainda.

Quando estava prestes a desistir e voltar para casa, uma mulher na plenitude dos seus vinte poucos anos chamou minha atenção. Longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, vestia-se com roupa de ginástica. Seu caminhar era pensativo, um leve sorriso formava-se em seus lábios, combinando perfeitamente com a expressão sonhadora em seus olhos. Era ela.

Liguei meu carro, um discreto Fiat Uno preto com vidro fumê, e fui seguindo de longe a garota escolhida. Virou várias esquinas e foi para a parte residencial da cidade, destinada à classe média baixa, parou em frente a uma casa simples, com varanda pequena, um gramado, algumas roseiras. Abriu o portão, pegou as correspondências da caixa do correio e entrou. Fui para casa, no outro lado da cidade, uma euforia tomou conta de mim, minhas mãos suavam, meu coração parecia querer explodir, respirei fundo e segui adiante.

Em um mês de constante vigilância à casa de Marília, descobri muitas coisas sobre ela, é casada com um homem alto, magro e trabalhador, que sempre abraça e beija a esposa antes de ir para o trabalho. Uma vez por semana ele chega em casa com um buquê de rosas e uma caixa de doces. Eles têm uma filha, de uns cinco anos, Ana Lívia, loira e linda como a mãe, mas com os olhos verdes e meigos como os do pai. Não recebe visita de muitos amigos, na realidade são poucos, mas fiéis. Parece não ter nenhuma religião, não praticante pelo menos, tem um cachorro poodle pequeno. Eles são uma família feliz. Perfeito para os meus planos.

Hoje, uma sexta feira, seis horas da tarde, será o grande dia. Estou de tocaia na mesma praça, logo ela virá de sua caminhada habitual. A espera produz um efervescer em meus hormônios, sinto uma excitação crescente em meus sentimentos, a adrenalina faz a pulsação de meu coração ensurdecer os meus ouvidos. Lá está ela, com a mesma roupa de ginástica, uma calça legging preta e rosa choque e uma blusinha de lycra preta, sem mangas.

Sigo-a e estaciono meu carro algumas casas depois da dela, a rua está deserta, como sempre. Observo atentamente o portão fechado enquanto me preparo. Minhas mãos tremem de leve, um sorriso de felicidade não sai do meu rosto, uma gota de suor corre pela minha fronte. Estou alerta e vivo, sinto-me o dono do mundo, invencível, com um poder sobrenatural de dar ou de tomar a vida.

Lá vem ela, com seu meio sorriso, pensando talvez no beijo que dará em seu marido logo que chegar em casa,  ou no abraço que dará em sua filhinha. Mas isso quem decide sou eu, na verdade sua felicidade me irritava, ninguém deveria ser feliz assim. A tragédia é mais humana, a tragédia eu entendia, me fascinava. Aponto minha pistola 9 mm com silenciador assim que Marília para em frente ao portão, miro, respiro profundamente, me concentro  e atiro, uma no coração e outra na cabeça.

Estava acabado! Um frenesi de emoções quase me cega, mas ainda posso ver seu belo e esguio corpo tombar e cair pesadamente no chão da calçada, seu sangue formava uma poça purpúrea, seus olhos estavam abertos e olhavam para o céu.

Ainda excitado e tremendo devido à intensa emoção que presenciei, dou a partida e pelo retrovisor posso ver Ana Lívia correndo e se debruçando sobre o corpo da mãe, sujando assim seu vestido branco com o sangue ainda quente. A tragédia enfim.  A doce tragédia mudaria para sempre aquela menininha que gritava segurando a cabeça baleada de sua mãezinha.

Dobro a esquina e rumo calmamente até minha casa, com um prazer latente ainda percorrendo o meu corpo. Agora, mudarei de cidade e procurarei outra pessoa para que eu possa trazer mais da doce e triunfante tragédia.

15 comentários em “Obsessão – Priscila Pereira

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  1. Vixe! Quase um conto de terror. Mas um ótimo suspense, mesmo que a gente preveja o final. A maneira como vc descreve as sensações do assassino é que mantém a gente presa no texto. Já sabemos ‘o quê’ vai acontecer, mas estamos curiosos pra saber ‘como’ vai acontecer. Muito bom, parabéns!

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  2. Olá, Priscila.

    Um texto de suspense, crime e mistério: o que engatilha as escolhas de um serial killer. O que o motiva? O que desencadeia essa espiral de emoções à qual ele se enlaça? Fiquei curiosa para saber mais sobre o assassino. Acho que daria um bom fluxo de consciência, exatamente tão bom quanto as emoções que o assaltaram ao matar. Muito bom!

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  3. Mas me pegou de surpresa! Matar por prazer é próprio do ser humano. Eu considero o ato mais hediondo, mais vil, arrancar a vida de outra pessoa, muito embora tenha sentimentos controversos. Ainda bem que não temos super poderes. Já imaginou fazermos justiça com as próprias mãos? Essa cena final é tenebrosa. Estou chocada. Você despertou um sentimento de revolta, de repulsa e de completa incapacidade. É assim mesmo.
    Um grande e carinhoso abraço!

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  4. Ufa! Que adrenalina! uma enxurrada de emoções. Você, Priscila, passa a imagem de um homem comum que vai se transformando em um psicopata perigoso motivado pelo prazer – o prazer da tragédia. Nem a criança é perdoada… e, ele está por aí, à solta. Qualquer um de nós pode ser a próxima vítima. Parabéns! Excelente texto. Beijos.

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  5. Nossa, que clima! Que conto bem feito, Pri. Adorei. O tipo que conto que a gente lê sorrindo, se deleitando. Gostei demais. Amiga, abrace este gênero porque vc é muito talentosa, e sabe criar suspense. Nem todo mundo consegue, heim? Gostei demais. Beijos.

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  6. Oi, Priscila,
    Vou repetir aqui o que ando dizendo em meu conto lá do E.C..
    Em minha opinião, arte também é feita para causar repulsa. O seu, além da repulsa, causa reflexão.
    Quantos psicopatas como esses andam por aí? Muitos. Nossa sociedade produz bem mais monstros do que imaginamos.
    Sobre o conto em si. Muito bem escrito. Sucinto, com palavras escolhidas a dedo, um primor, na medida.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Oi, Priscila!
    Primeiramente, parabéns, você uniu o tema Morrer com um suspense de primeira, e mandou muito bem.
    A história de felicidade que termina sem mesmo sabermos a razão, os tantos “e se” que envolvem vidas, e cada passo dessas vidas, que podem atravessar a qualquer instante o caminho de um louco…dá medo, mas é assim mesmo..
    Gostei muito, parabéns!

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  8. Oi, amadinha…
    Tb já escrevi sob a perspectiva de um assassino.. é estranho né?
    O conto ficou muito curto, queria mais!! hehe
    Olha só , o primeiro parágrafo tá meio embolado os tempos verbais, ora no presente, ora no passado, atrapalhou até o entendimento, e tem um errinho de concordância, eu acho… ‘sua fisionomia’, não deveria ser ‘suas fisionomias?
    Mas é como disseram, vc tem o dom do suspense.. ^^
    Abração

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  9. Suspense e um quê de terror em um conto bem curto. Que delícia de leitura! Quase nem percebi quando cheguei ao fim. A morte vista sob a ótica do assassino, um sujeito fascinado pela tragédia. A felicidade entedia? Talvez pára quem esteja vivendo só a narrativa alheia. Gostei bastante do seu texto. Parabéns!

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  10. Esse personagem me fez lembrar a morte em si. Ela sempre vez sem avisar e parece sempre escolher as pessoas mais felizes em seus melhores momentos da vida… Olhando pelo outro lado, o mais realista, a vida do ser humano passou a ser tratada de forma banal. Todo dia vemos inúmeros casos nos jornais de pessoas assassinadas por causas banais. É uma triste realidade não só do Brasil, mas do mundo.

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  11. Olá Priscila. Que dizer? Muito bom! Aqui neste nosso pequeno grupo de contistas, penso que somos todas boas nisto de escrever, mas apenas algumas terão nascido para o fazer. Acredito que você faça parte desse grupo mais restrito. Parabéns pelo excelente conto. Soube a pouco.

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  12. Oi Pri, o mote aqui é a morte sentenciando a felicidade, pois “ninguém deveria ser feliz assim”, ficou muito massa. No começo parecia o relato de alguém apaixonado, um voyeur, mas, surpreendentemente, a narrativa envereda para o ponto de vista de um psicopata. Não sabemos os seus motivos, porém está bem subentendido que a “família feliz” é o principal motivo dos impulsos assassinos do protagonista, Parabéns pela narrativa, abçs.

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