Na morte refletida – Anorkinda Neide

 

 

Ela percebeu-se no espelho. Ainda aparentava o viço da mocidade, mas sentia que nada mais havia… Por que a morte parecia tão igual à vida mesmo sendo tão diferente?
Francine sempre fora muito analítica, uma pensadora, quando viu-se morta não perdeu o hábito. Até porque nada mais havia para fazer… A jovem vagava presa entre dois mundos.
Ela faleceu sem aviso. Alimentava os pássaros quando a visão escureceu e caiu amparada pelo gramado orvalhado… Por que a morte buscava os corpos jovens?

A moça buscava-se no espelho. Ainda sonhava com coisas terrenas, melancolias cresciam junto a seus cabelos. A fé que ela nunca experimentara, às vezes a encontrava num descuido… Francine refletia sua imagem e nada sentia.
Ela não era vítima de emoções, como dizia sempre. Nem, tampouco, caiu em desespero com a condição de ser prisioneira. Gostaria apenas de saber o porquê desta não-vida tão vívida…
Francine deteriorava em carne e esquecimentos. Esperava desaparecer, vagarosamente, como a vela derretendo a cera… Por que a morte não tinha pressa em apagar seus vestígios?

Ela transitara meio morta em vida. Ainda flertava com filosofias estanques e girava os olhos em órbitas negras. Até porque era o que se esperava que fizesse… A mulher que não chegou a ser, pressentia.
Francine nunca fora amada por um par que lhe romanceasse os dias, quando muito recebera bilhetes falsamente apaixonados, segundo ela… A menina teimava em ceticismo.
Ela descuidara-se do espelho. Tratava da vida como se nada fosse, desfrutando apenas de sua mente e de seus pássaros… Por que a morte não lhe trouxera as companhias?

A moça julgara meio morta a vida. Ainda pensava que nada valia à pena, manchas cresciam em seu peito. A fé que deveria estar no coração, volitava em derredor… Francine errava o cálculo e não sabia.
Ela não era precursora, muitos a antecederam. Sem, tampouco, caírem em degredo com o subterfúgio imposto pela morte. Vangloriariam se soubessem dos motivos da desdita…
Francine ignorava o espelho em seus desdobramentos. Esperava encontrar seus pares, como num caloroso abraço… Por que a morte não tinha compromisso com a coerência em seus desígnios?

 

Anorkinda

 

 

 

 

 

 

29 comentários em “Na morte refletida – Anorkinda Neide

Adicione o seu

  1. Eita! Um conto reflexivo. Também me questiono, faço perguntas, elaboro teorias semelhantes. Dizem que a morte é o que faz o homem perceber sua insignificância ou entender a maravilha de respirar. Talvez seja as duas coisas em equilíbrio. Esse conto também é meio espírita, não é? Essa questão de ser prisioneira do espelho, como se ela tivesse vaidades, ou entendesse de superficialidades. Gosto de como você questiona a ação da morte, mas indiretamente nos lança nas questões da vida e de como se desfaz tudo que é matéria.
    Um grande e carinhoso abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela leitura, Evelyn!
      A questão da morte sempre gera muitas reflexões e as mais diversas teorias, certeza mesmo é só uma, um dia ela vem! rsrs
      Queria fazer um conto maior, com personagens e tudo o que tem direito, mas não tô inspirada, na verdade quase saiu um poema, tive q me esforçar pra sair prosa… 🙂
      Abração!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Olá, Anorkinda!

    Eu vejo seu conto como a reflexão de alguém que morreu e se encontra num limbo entre mundos, sem se dar conta direito do que foi, do que é e do que será. As entrelinhas podem ser preenchidas de diversas formas. Dá o que pensar, não é mesmo? Esse desterro sem desígnios a que estamos todos condenados. Muito reflexivo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, Sandra!É por ae mesmo, a reflexão…
      Que na verdade, fui montando a partir da imagem e Francine foi me ditando suas dúvidas.. rsrs
      Só pra ter companhia na filosofia 🙂
      Abraços

      Curtir

  3. Prosa poética, reflexiva construída com base na antítese “vida-morte”, as contradições da vida que não são resolvidas com a morte. Gostei muito dos jogos de palavras, como em “não-vida tão vívida” e, sobretudo da sensibilidade impressionante com a qual enroupa vistosamente o seu texto sempre repleto de sutilezas e de lirismo.

    Parabéns! Abraço.

    Curtir

    1. Ahh.. que bom que gostou, Fátima!
      Eu montei o texto meio que ‘jogando’ mesmo com as palavras, os ritmos, as antíteses, acho que foi influência da Francine 🙂
      Agradeço pelas palavras elogiosas sobre sutileza e lirismo, amo estas duas coisas, se elas sobressaem nos meus textos, é a realização!! rsrs
      Bjs

      Curtir

  4. Prosa poética cheia de lindas construções frasais. A menina morreu cedo demais e flutua, mentalmente, por uma pós-vida num lugar muito parecido com a vida que levava. Estaria ela entre os seus? Ou somente recriava sua realidade em vida por apego excessivo? O texto deixa pano para conversas. Almas se deterioram ou ela estava vagando incorporada? No fim das contas um texto interessante e filosófico. Beleza! Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Oi, Kinda,

    Pura poesia. Dá para ver o esforço da autora por trás do teclado, tentando puxar a prosa em meio ao ímpeto de criar poesia. O resultado foi bonito. Não só lírico, mas musical.

    Na morte refletida, sua personagem vaga prisioneira… Espelhos refletem o avesso das coisas, no caso aqui, o da vida, a morte. Assim, como “Ela transitara meio morta em vida”, flutua agora saudosa da vida que não teve. Talvez da que achou, ingenuamente, que durando mais, lhe daria tempo para, mais tarde, dela desfrutar. Dessa forma, seu conto é sobre a morte, mas também sobre a brevidade da vida e a necessidade de se aproveitar cada instante, afinal nunca se sabe quando seremos colhidos alimentando passarinhos.

    Ponto alto para o trecho “A moça buscava-se no espelho. Ainda sonhava com coisas terrenas…”. Imagem belíssima, de uma tristeza ímpar.

    Parabéns.

    Curtir

  6. Esperar coerência dos desígnios da morte é tão inútil quanto esperar lógica nos desígnios da vida. Quem é que vai saber o que nos espera na próxima esquina? Essa moça se perdeu na morte, por medo da vida, ou se perdeu da vida, por medo da morte? Só os pássaros sabem… São os dois lados do espelho da Francine. Fiquei aqui pensando, quais seriam os dois lados do meu espelho… Lindo conto, Kinda! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  7. Uau, que conto mais profundo e criativo, fonte de inúmeras questões, quase todas desconhecidas.
    Parece que Francine ainda não transpôs a fronteira para o outro lado da vida, e quem sabe, talvez, pelo fato de já ter vivido meio morta? De nunca ter sentido na pele a emoção de sentir a energia jorrar de forma espontânea e quase inexplicável, olha, fiz várias perguntas aqui enquanto lia.
    Morrer. Continuar, só não sabemos ao certo o quê.
    Muito bom seu conto, essa morte refletida, Anorkinda.
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    1. nunca ter sentido na pele a emoção de sentir a energia jorrar de forma espontânea e quase inexplicável
      nunca ter sentido a vida, né?!
      Muito boas tuas perguntas, mesmo aquelas que desconheço haha
      Obrigada pela leitura!

      Curtir

  8. Oi Kinda, que conto poético!! Tão delicado, mesmo falando da morte, tão sensível em abordar tal tema e acima de tudo tão bonito de se ler! Amei!!! Parabéns!!

    Curtido por 1 pessoa

  9. Oi Kinda,

    Poesia pura numa atmosfera meio gótica. Gostei dessa sua Francine, uma garota inteligente, talvez em plena adolescência, aprisionada entre espelhos pela morte. Cabe num romance essa sua personagem. Muito bom! Beijos.

    Curtir

    1. OIe!
      Obrigada!
      Nossa! Já sonhei muito em escrever romances, mas percebi que não consigo rsrs Que bom que Francine veio grande com uma personalidade forte, diríamos assim…
      Obrigada pelas ótimas palavras, Elisa!!
      Bjão

      Curtir

  10. E o lado de lá do espelho o que traz? Reflexão, sem dúvida. Um poema camuflado em conto. Francine tentando se achar no outro plano, questionando sobre a vida e a morte. Também me peguei filosofando. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  11. Olá, Anorkinda. Li esse texto mas não comentei. Achei profundo demais, não soube as palavars certas para dizer. Reli agora e a impressão que me passou foi a de que Francine não morreu – literalmente. Ela ainda vive- ou simplesmente- sobrevive. Digo porque, o que ela pensa e sente, já senti tantas vezes e ainda continuo viva, rsrsrs. Eu espero de verdade, que a morte nos dê respostas e não mais dúvidas. Parabéns pelo texto tão profundo e filosófico.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Amadinha… já fui tão jovem e tão melancólica como vc ou como Francine… Já são muitos anos na trilha do auto-conhecimento e posso te dizer que não, a morte não vai trazer respostas… a gente tem q encontrá-las aqui mesmo.. o nome deste mundo em que vivemos é Aprendizado. por isto estamos aqui, nada mais há a fazer senão Aprender!
      vamu que vamu, guria! 😉
      talvez sirva como dica: minha mãe enfiou Luiz Gasparetto em meus ouvidos, até q eu o ouvisse com atenção e minha vida começou a mudar… dica de mãe pra filha, tá? rsrsrs
      bjs

      Curtido por 1 pessoa

    1. Que bom!!
      Tomara q tamarindo seja bom! 🙂
      Que bom que Francine lhe gerou uma tormenta! Tormentas lavam a alma do mundo (se existir esse treco de alma.. kkkk)
      Bjão

      Curtido por 1 pessoa

  12. Olá, Kinda. Francine morreu tão cedo que foi ter, em morta, as interrogações com que nos deparamos em vida. Será tudo uma ilusão? Um jogo de espelhos? Existe a morte? Existe a vida? Cada um de nós é um mundo,um universo que se interpenetra com outros universos semelhantes. Sucederá o mesmo com as dimensões físicas? existirão realidades paralelas? coexistirão vida e morte? Não acredito em nada,~mas gosto de pensar nestas coisas e imaginá-las possíveis. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: