INSÔNIA ∣ Juliana Calafange

Alice olhou o relógio, duas da manhã. Numa noite normal já estaria dormindo há horas. Nunca foi de dormir tarde, nem na juventude – quando ia a festas sempre voltava cedo pra casa. Imagine se o velho ia deixar filha moça chegar em casa depois das dez! Talvez por isso estivesse passando por essa situação só agora, na maturidade.

– Nem tão madura assim… – pensou Alice – Trinta e cinco anos na cara, e com esse medo todo do escuro!

Na verdade, não era medo do escuro, ela sabia. Era medo do silêncio, do vazio, da solidão.

– Se ao menos a TV estivesse funcionando. Tinha que quebrar justo hoje que o Rodolfo viajou?

Era a primeira noite que Alice passava só em casa, sem Rodolfo. Na verdade, era a primeira vez que passava a noite só em casa, ponto. Sempre tivera a presença dos pais, às vezes só da mãe, às vezes só de algum empregado. E depois que casou, Rodolfo estava sempre lá, do seu lado da cama, roncando e roubando-lhe a coberta, todas as noites. O que não impedia Alice de se sentir solitária, às vezes. Mas sozinha, sozinha, uma noite inteira, ela nunca tinha ficado. E só agora se dava conta.

Rodolfo ficaria uma semana fora. Tinha ido a Buenos Aires, a trabalho – algum tipo de congresso, ou feira de negócios – e havia partido naquele mesmo dia pela manhã. Beijou-a na testa e saiu, com a mala na mão. Então ela fez o que faria normalmente no seu dia. Foi ao supermercado, ao shopping, à academia e depois voltou pra casa, tomou banho, jantou, não viu TV porque tinha quebrado naquela manhã, mas pegou um livro e deitou-se na cama pra apreciar a leitura. E quem sabe assim o sono chegasse logo.

Mas estava há horas lendo, o livro de quase setecentas páginas já passava da metade e nada do sono chegar. Ao contrario, ficava cada vez mais acordada, mais ansiosa, escutava barulhos estranhos, sombras se movendo no escuro.

Cansada, largou o livro, levantou-se e foi acender todas as luzes da casa. Vamos deixar tudo às claras, pensou. E até deu um risinho pelo duplo sentido da frase que construiu mentalmente.

No caminho de volta pra cama, bebeu um copo d’água, checou pela oitava vez a fechadura da porta, estava trancada, ufa! Retomou a leitura, mas aí já não conseguia dormir, tamanha a claridade ao redor, parecia dia e seu cérebro não conseguia fazer a parte dele e mandar sinais de “estou com sono” pro resto do corpo.

– Se não pode vencê-los, junte-se a eles! – decidiu.

Abriu o armário da sala, escolheu um bom CD de jazz e pôs pra tocar. Como ainda não tinha desistido totalmente de dormir, resolveu abrir uma garrafa de vinho tinto, para acompanhar a música. Costumava ser infalível: jazz e vinho tinto já a haviam derrubado diversas vezes antes.

Metade da garrafa se foi, quatro CDs de jazz foram ouvidos até o fim e ela estava morta de cansada. E quase bêbada.

– Rodolfo ia rir muito de mim se me visse agora! Eu nunca fiquei bêbada até às três e meia da manhã! – e foi ela quem riu de si mesma. Mas só até imaginar a figura do pai, vendo-a naquele estado e já franzindo a testa, fazendo aquela cara de reprovação da qual ela sempre teve tanto medo.

Desligou a música e voltou pra cama, culpada. Sentia-se como se ainda fosse uma garotinha de doze anos, com medo da surra que ia levar do papai por estar até essa hora acordada.

E ela lutou, travou uma verdadeira batalha com o travesseiro e o lençol, mas o terror só aumentava. Agora, meio embriagada, a coisa parecia ter piorado. Ela ouvia nitidamente passos vindos da sala. Chegou a rezar pra que fosse Rodolfo, que por algum motivo tinha voltado pra casa antes da hora.

– Por que essa maldita TV não está funcionando? Pelo menos serviria de companhia e talvez eu conseguisse dormir. – pensava Alice.

Foi então que lembrou de um filme de suspense que vira umas semanas antes. Levantou-se, foi até a sala, checou novamente as trancas da porta e arrastou a mesa de jantar até lá, empurrando-a com força até que não sobrasse nem um milímetro entre a mesa e a porta. Seria quase impossível empurrar a porta com essa mesa pesada, de ébano, herdada dos pais de Rodolfo, a travar a passagem.

E logo em seguida se deu conta de que ela mesma tinha conseguido, sozinha e bêbada, empurrá-la até ali. Assim, por via das dúvidas, pegou todo o jogo de copos de cristal – que ganhou no seu casamento e jamais usou – e espalhou por cima da mesa. Desse modo, mesmo que algum grandalhão resolvesse invadir a casa, e conseguisse empurrar a porta junto com a mesa de ébano, Alice ainda escutaria o barulho dos copos de cristal se batendo e quebrando, e teria tempo de fazer alguma coisa.

– Pelo menos pra isso serviram esses copos!

Mas logo em seguida imaginou o ladrão entrando, arrastando a porta, os copos de cristal caindo e se espatifando, fazendo um barulhão, ela acordando e… fazendo o que?

– O que uma mulher baixinha e magra como eu poderia contra um ladrão forte o suficiente pra arrastar a porta e a mesa de ébano? Forte e talvez até armado! – Alice visualizou a cena, petrificada de medo. – Por que Rodolfo tinha que viajar, meu Deus?

Pensando em Rodolfo, lembrou-se de um enorme taco de beisebol que ele tinha, guardado no fundo do armário. Nunca entendeu pra quê o marido guardava aquilo, já que nem sabia as regras do beisebol. Nunca o vira assistindo um jogo ou sequer falando do assunto, mas Rodolfo morria de ciúmes daquele taco. Agora, pouco importava o vil motivo do marido ter guardado o objeto, o motivo dela sim, era bem válido. Levou aquilo com ela para a cama e, agarrada ao taco, esperou pelo sono. Tic-tac-tic-tac, quase cinco da madrugada e nada. Aqueles passarinhos que cantam logo antes do sol nascer já estavam começando o seu show e nem sinal de Alice conseguir dormir.

Pensou novamente em Rodolfo. O que ele estaria fazendo agora? Será que lá em Buenos Aires já amanheceu? Então ela lembrou que ele só voltaria no sábado e que ainda seriam pelo menos cinco noites como essa, em claro, com medo. De repente se sentiu ridícula, uma mulher daquela idade, com medo de dormir só porque o marido viajou?

E, súbito, tudo ficou muito claro. E não era por causa das luzes acesas ou porque o sol já brilhava no céu. É que agora, depois de horas insone, nessa agonia sem fim, ela conseguia ver com clareza o quão risível era a sua situação. Só agora ela percebia a enorme diferença entre a mulher que ela queria e dizia ser e a mulher que realmente era: essa que estava ali agora, agarrada ao taco de beisebol, em posição fetal.

Sentiu vergonha. Pensou logo na mãe, sempre tão submissa. Lembrou-se da sua já falecida avó, que aos 88 anos, no auge de sua rebeldia, chamou Alice num canto, no dia do seu casamento com Rodolfo, e lhe disse:

– Filha, não queira ser como a sua mãe.

E, diante da expressão espantada da neta, completou:

– Na vida, a única coisa que a gente não pode se transformar é numa pessoa previsível, um estereótipo. Seja uma mulher real, forte, lutadora! Senão você se torna uma pessoa desinteressante, você perde a autoestima, perde o que tem de melhor em você.

Já se passaram tantos anos, mas só agora Alice recordava desse episódio. Talvez tenha sido necessária uma noite inteira confrontando o vazio, o silêncio, o estar só consigo mesma, pra perceber que ela precisava mudar. Precisava agir de acordo com o que acreditava. Não queria ser igual à sua mãe, e àquelas mulheres da academia, que ela tanto criticava.

E, definitivamente, pensou que não queria, não tinha a menor intenção de passar uma semana inteira nessa situação patética!

– Deixa de ser criança, Alice! Que vergonha, mulher! – disse a si mesma em voz alta, sentando-se na cama.

Então levantou-se, guardou o taco de beisebol no fundo do armário, arrumou os copos de volta na cristaleira e, com muito custo, de tão cansada que estava, arrastou de volta a mesa de jantar para o seu devido lugar. Guardou o resto da garrafa de vinho na geladeira, apagou todas as luzes, fechou as cortinas e foi dormir. Dormiu que nem anjo. Esqueceu-se até que tinha marcado hora com o técnico da TV, o coitado ficou lá tocando o interfone um tempão, sem resposta.

Crescer é bom.

16 comentários em “INSÔNIA ∣ Juliana Calafange

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  1. Olá, Juliana!
    Sempre é muito bom ler seus contos porque eles deixam a reflexão ao final muito clara. Crescer exige comprometimento e coragem , qualidades que Alice encontrou na primeira noite sem o marido. Trouxe-lhe lembranças, conselhos, advertências, mas também o desejo de amadurecer. Tudo numa noite de insônia. Muito boa a reflexão.

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  2. Juliana, que história mais realista! Sua protagonista cresceu em uma noite, forçada pelas circunstâncias, motivada pelo medo que percebeu, depois, o quanto era ridículo. Ideias e execução interessantes e bem conduzidas. Parabéns. Beijos.

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  3. Viver é um porre. Crescer também. Contudo, por mais que se queira permanecer no conforto de nosso início, é sempre preciso e maravilhoso sair da casca, livrar-se das amarras, encorajar-se e viver o que está pela frente.
    Um belo conto!
    Um grande e carinhoso abraço!

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  4. Muito bom! Os pais são o porto seguro, os que impõe os limites e, geralmente aqueles em que nos espelhamos para a formação de nossa personalidade e caráter. Depositar em outrem a solução de nossos problemas, medos, anseios, sonhos é sinal de imaturidade. Alice em sua breve solidão, pôde enfrentar tudo isso e finalmente crescer!!!
    Beijo grande!

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  5. Oi, Ju,

    Voltou para a etapa crescer?

    Voltou.

    Mas foi ótimo.

    Não sei as outras meninas, mas eu me vi em cada segundo dessa narrativa.

    O interessante no conto é que causa uma empatia capaz de fazer rir, ainda que não se pretenda uma comédia. Ri de mim mesma, refletida em algumas atitudes de sua protagonista. Muito bom.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Então, Paula! Esse conto sempre foi do verbo crescer. Mas é q eu sou tããão atrasada, q quando publiquei já estavam todas na etapa morrer, então… rsrs Eu mesma, morri primeiro e cresci depois… kkkkk
      Que bom q vc conseguiu achar graça, era essa mesmo a intenção, uma risada de si própria, como a protagonista. Acho q serve pra toda mulher, né? Mesmo as não casadas e não muito crescidas como eu… rsrs
      Beijos mil!

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      1. Mesmo as que se parecem tão independentes, como eu. Hahahahah Não espalha. Mas olha, quando fui mãe, melhorou muito. Como mãe, vc veste uma armadura. Mas essa já é outra história. 😀

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  6. Eu gosto demais dessa sua característica, Juliana, de conseguir unir o real e o sonho, a comédia e o drama, inclusive o crescer e o morrer: tudo ao mesmo tempo agora – e de um jeito que provoca reflexão, que nos faz entrar na pele do personagem, analisar quanto de nós há ali, naquele trecho, no outro, e por aí vai…
    Crescer é isso, crescer é também morrer, de tantas diferentes formas.
    Adorei o seu conto!
    Beijos!

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  7. Fiquei com dó de Alice. Eu no lugar dela teria ligado o computador e lido os contos das contistas, teria se distraído e quando desse conta já seria dia. (eu passei quatro anos dormindo sozinha, na boa kkkkkkk)
    brincadeiras a parte, o conto é bom
    Parabéns menina.

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  8. Oi Ju! Seu conto me lembrou uma história bem estranha do Haruki Murakami chamada Sono. Nela, uma mulher, mais ou menos crecidinha como a sua personagem narra a experiência dela durante 17 noites seguidas de insônia.
    Gostei de ler sua história. Não tenho medo de escuro mas de vez em quando tenho insônia e costumo ouvir barulhos sinistros dentro de casa. A identificação com a Alice foi total.
    Beijos, querida.

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  9. Acorda, Alice! Crescer é algo que se faz só, sem rede de proteção, na escuridão com nossos medos e angústias. O tom bem humorado trouxe leveza ao seu conto, suavizando uma situação que poderia ser bem pesada. Parabéns.

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  10. Eita que eu estava esperando realmente esse bandido entrar e matar a protagonista (por causa da etapa morrer) hahaha! Mas se enquadrando na etapa crescer, realmente é isso aí. Lendo esse conto me dei conta de que eu também nunca passei uma noite só. :/ (da casa dos pais com irmã passei para casa do marido com filhos :p ). Crescer dói (pelo monos foi assim comigo) e a personagem se deu conta de que não é bem assim, e que podemos ser crescidas e sem paranoia hehehe.

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  11. Olá, Juliana. Então essa menina, teve que ficar sozinha para finalmente crescer. É isso mesmo. Dificilmente crescemos amparados na presença e apoio dos outros. Crescer, tal como nascer e morrer, é algo que acontece só a nós naquele momento de solidão absoluta. Não me identifiquei com a protagonista porque fiquei sozinha muitas vezes e desde muito cedo. Não sei se cresci depressa ou se apenas nunca cheguei a conhecer o medo agigantado pela solidão, aliás, a minha companhia favorita. Mas a história está muito bem montada e no final ela cresce.E é bom. Sim, é bom. Parabéns.

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  12. Juliana, vc. explorou bem a temática Crescer, e do mesmo modo, a Morrer, já que as duas se complementam. Foi necessário morrer os medos da protagonista para nascer uma mulher forte, destemida, que enfrenta a solidão de cara lavada. Foi necessário colocar a luz nas sombras, pois a luz sempre trás a promessa de um novo tempo. Parabéns pela narrativa, abçs.

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  13. Com as madrugadas chegam as fadinhas da imaginação. Raramente eu tenho insônia, mas quando tenho fico até tarde e me vêm ideias incríveis para novos contos, acontece que logo pela manhã, ou quando acordo finalmente, as ideias que tive embaladas pela insônia ficam me parecendo ridículas. Seu conto me lembrou um filme que assisti há muito tempo em que uma mulher descobre no meio da noite que havia uma plano para assassiná-la, mas no caso dela, era real. Sua personagem é absolutamente crível, e as loucuras que ela pensa durante a noite, quem nunca pensou? Adorei especialmente o final, parecia que eu tava vendo o técnico de tv no sufoco, lá embaixo. Acho que agora terminei de comentar todos os seus contos, se faltar algum, me avise.

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