MORTE EM VIDA – Neusa Fontolan

 

MÓNICA descansa os bilros depois de dar o último NÓ DE RENDEIRA em mais um trabalho. Fazer rendas é sua OBSESSÃO, ou como ela sempre diz, são a sua distração para aguentar as longas noites de INSÔNIA. Ela levanta a cabeça e olha ternamente, quase com DEVOÇÃO para o garoto que, distraído, coloca seus pequenos navios de brinquedo em uma fila.

“Ele está calmo… quem dera fosse sempre assim.” Ela suspira junto com o pensamento, sabe que essa calmaria vai durar pouco, A SEGUNDA NATUREZA DE ADRIANO logo surgirá e com ela os gritos, choro e o sofrimento sempre presente NA MORTE REFLETIDA em seus olhos. Nem sempre foi assim, o menino era uma criança feliz, apesar do autismo leve.

Adriano não é seu filho legítimo, mas o amor INCONDICIONAL que sente por ele é igual o de uma mãe. Recosta-se na cadeira e relembra as ÚLTIMAS HORAS em que passou com JÚLIO CÉSAR, seu ex-marido e pai de Adriano. Ela tinha pegado umas roupas dele para lavar e junto com elas encontrou uma PASSAGEM de navio.

— O que é isso? – tinha questionado o marido mostrando os papéis em sua mão. Ele deu uma olhada e nem tentou disfarçar.

— É o que você está vendo, uma passagem.

— Vai viajar? Como não me contou?

— Não tinha a intenção de contar, quando você percebesse já estaria longe.
Mónica sente novamente o gelo que percorreu todo seu corpo quando ouviu aquelas palavras, sua mente não queria registrar a veracidade daquilo e ficou paralisada. Seu marido arrancou os papéis de sua mão e falou.

— Eu estou indo embora, isto aqui – tinha sacudido os papéis em frente ao rosto dela – é minha passagem para a liberdade. Vou embarcar com uma BELADONA que conheci faz algum tempo. Ela me trata como a um rei, e não é uma mulher insignificante e um moleque retardado que vai me fazer perder O NAVIO DA ESPERANÇA.

“Moleque retardado?!”

— O moleque que você se refere é seu filho! Ele ama você. Pelo amor de Deus, homem, presta atenção no que você está fazendo?

— Ama nada! Ele ama você. Com você não tem aquela AUSÊNCIA que existe comigo. Estou cansado de ser ignorado, quero ser tratado como rei pra variar.

Nessa altura da conversa eles perceberam Adriano na porta, ele tinha ouvido toda a discussão. Júlio César bufou e passou por ele feito um furacão, nem suas coisas levou. O menino saiu correndo atrás do pai, em desespero gritava frases desconexas, mesmo depois de o carro partir ele não parou por um bom pedaço de estrada. Mónica que vinha ao seu encalço o encontrou sentado no chão, sentou-se ao seu lado e FICOU A ESPERA… do que? Nem ela sabia… talvez fosse a esperança de tudo aquilo ser um pesadelo e ficou esperando a hora de acordar. Ela acordou sim, mas não do pesadelo e sim para a criança ao seu lado, reparou a grande dor estampada em seu rosto, seus olhos estavam apagados com a tristeza, sabe Deus em que mundo de horror se encontrava. Tinha que fazer alguma coisa, se ela não podia acordar do pesadelo, pelo menos poderia tirá-lo dele, ou amenizar um pouco todo aquele sofrimento. Lembrou-se de algo que ele gostava muito.

— Adriano, vamos para casa? Eu vou preparar um MOUSSE DE MARACUJÁ pra você.
O menino, ainda quieto, estendeu a mão para ela e se deixou levar. Nunca mais foi o mesmo, ele muda da alegria para a tristeza num estalar de dedos. Precisou de cuidados maiores e isso só fortaleceu o amor que ela tinha por ele.

Um mês depois deste acontecido, ela recebeu a notícia que seu marido morrera em um acidente no navio. Não desejava a morte dele, ele pecou sim, porém esse pecado não foi tão grave assim. Só não conseguia deixar de sorrir quando formava uma frase em sua cabeça, “um rei… UM REI NO PURGATÓRIO”.

16 comentários em “MORTE EM VIDA – Neusa Fontolan

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  1. Olá, Neusa! Admiro sua capacidade de costurar com os títulos uma história original e singela como essa que escreveu com tanta sensibilidade. Tem quem lide com rendas, tem quem lide com receitas, tem quem lide com mistérios e poesias, mas você une nossas habilidades todas num texto único. Parabéns!

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  2. Neusa, obrigada por nos juntar todas numa mesma história, imagino o trabalho que deve dar fazer uma história que faça sentido, que seja gostosa de ler e que se refira a cada um dos títulos que escolhemos para nossos contos. Não é só questão de criatividade, mas envolve uma arquitetura inteligente e cheia de talento. É muito bom ter uma pessoa com esta energia maravilhosa entre nós. Beijão.

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  3. Oi, Neusa!
    É incrível esse talento para unir os títulos, e daí criar um conto, e um conto dos melhores, com cada palavra do título, coisa genial e única, muito talento mesmo.
    a história é triste, e ao mesmo tempo tem uma leveza tambem que acho que só vc conseguiria imprimir.
    Muito bom!!

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  4. Neusa, mais um excelente conto! Como ja falei varias vezes, fico impressionado com sua capacidade de unir todos os titulos numa história com sentido, em que todos os títulos compõe de forma perfeita o enredo. Nao fica nada solto ou jogado ali, com a intenção só se cumprir tabela.

    Falando desse conto: uma bela e triste historia! A tristeza pulsa no conto, e da pra sentir na pele a situação da mae e do filho.

    O desfecho, especialmente a ultima frase, é excelente! Fechou com chave de ouro! Kkkkkk

    Parabens!!

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  5. Olá, Neusa,

    Tudo bem?

    É bom terminar a leitura de um ciclo, vendo um panorama costurado de forma tão delicada e apaixonada por uma das contistas.

    O que mais gosto em suas “colagens” é a capacidade de, além de unir títulos (ou frases), conseguir montar uma história completamente diferente de tudo o que foi visto nos contos abordados.

    Parabéns, minha querida, por essa história de amor entre mãe e filho.

    Filhos, muitas vezes, nos escolhem ou se deixam escolher e você mostrou muito bem isso.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  6. Neusa e o seu talento para costurar idéias e contos. É preciso muita sensibilidade e criatividade para obter um bom resultado dessa junção. E você consegue. Parabéns!

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  7. Oi Neusa,

    Que coisa querida isso que você faz. Muito carinhoso e engenhoso. Fechando com chave de oufro mais uma de nossas etapas. Beijos, querida.

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  8. Além do seu talento, que dispensa comentários, o conto é muito bom. Irei para o inferno porque deixei uma gargalhada escapar no final? Rsrsrs. Um personagem típico machista, irresponsável e egoísta que estamos acostumadas a ver todos os dias. Temos esperanças de que um dia isso mude e os homens passem a dar mais valor nas esposas e nos filhos, enquanto isso, vamos nos divertindo com histórias como a sua. Abç 🙂

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  9. Pensei que já havia comentado aqui… que delícia de texto! Não dá pra não sorrir observando o quebra-cabeça ser montado e com tanto bom-humor!
    Parabéns!

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    1. Fátima, achei engraçada sua pergunta e explico kkkkkk, Para sobreviver na minha vida eu fiz um pouco de cada: crochê, trico, bordado, biskui, pintura, costura, e me dei bem com a cozinha também.
      Um beijão, querida.

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