Prólogo a um epílogo – Ana Maria Monteiro

 

Nadam nos teus olhos peixes azuis
E há neles um profundo imenso.

Olhos oceânicos em pequenos globos
onde os peixes azuis deslizam
no impulso de movimentos imperceptíveis.
Mergulho nesse olhar,
fico una a ele
diluída eu em tudo e tudo em mim.

Há memórias imprecisas,
vagas noções de quem sou
– um peixe azul em águas calmas.
Paz e tristeza, é o que sinto.
Pensas sem palavras, sentes sem onde.
Existe algures um mundo que ainda sabes
mas já não recordas.
Não há interrogações,nem raiva, ou revolta.
Tristeza, sim, muita,
mas não sabes o que é, limita-se a estar ali
liquefeita na imensidão desse olhar inocente e primordial.
Retorno à superfície.
Volto a ser eu.
Olho-te de fora e revejo os peixes azuis que por momentos fui.
Silenciosa, uma gota transborda dos globos oceânicos
Será lágrima?
Será o reflexo do meu movimento ao sair?
Não sei.
Desliza-te, rosto sereno abaixo, quase invisível.
A inocência infinita desse teu olhar
Dói e apazigua, a um tempo só.
Onde estás, afinal? quem és? quando és?
Despeço-me uma vez mais.
Até uma próxima que será igual, talvez,
ou em que apenas os peixes se tenham retirado,
definitivamente esquecidos.
Definitivamente.

Novembro 2017, 27. Algures, numa camioneta, vinda de Lagos.

10 comentários em “Prólogo a um epílogo – Ana Maria Monteiro

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  1. Olá, Ana Maria!

    Quanta tristeza em tão poucas palavras! Eu me enterneci com o texto poético que remonta uma vida sofrida ou de muita tristeza. O peixe servindo como metáfora a toda uma existência. Perfeito. parabéns pela escolha das palavras e do sentimento que transborda, quase como um grito.

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  2. Ana, peixe de águas profundas… Não só me envolvi, como me identifiquei muito com o poema. Mergulhei nesse oceano azul, triste sim, fundo sim, mas quem disse que não é nos momentos de tristeza mais profunda que mostramos nossa mais bela face? Já que as nossas profundezas – que a gente só mostra a muito poucos privilegiados – guardam nosso diamante mais bruto, pré-lapidação da vida, o momento em q somos (ou fomos) mais bonitos e verdadeiros… Belíssimo texto, parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Talvez porque nadar seja uma atividade silenciosa, talvez porque o silêncio reside naquele azul que não é possível definir, me vi presa no balanço de águas cristalinas, mas tensas, de um ondular mortal, solene e solitário.
    Parabéns pela poesia!

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  4. Querida Ana,

    Tudo bem?

    Lembro dos olhos de meu avô. Azuis. No hospital e me dando um adeus silencioso. Mais que isso, me fazendo perguntas que jamais poderei responder… Aquele e outros muitos olhares de adeus jamais me deixarão.

    Obrigada por este poema perfeito e lindo.

    Beijos

    Paula Giannini

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  5. Oi, Ana!
    Sinto aqui algo que sinto sempre que leio um texto seu, uma profunda emoção, quase tristeza, diria, movida por uma força que vem não se sabe de onde, e transforma, e põe tudo em seu lugar.
    A vontade de chorar torna-se anseio por luta, de tão belo.
    um grande abraço,
    Renata

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  6. “Paz e tristeza, é o que sinto” – é exatamente o que senti ao ler esta bela poesia.
    Ainda tenho certa dificuldade em interpretar poesias (se é que poesia se interpreta, acredito que está mais para ‘sentir’), mas sei reconhecer a beleza impregnada nestas palavras. Abs. ❤

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  7. Um texto curto que em pouco espaço, fala muito. Uma despedida cheia de amor e pena, Vc é uma escritora muito competente e com vastos sentimentos dentro de si, quando resolve soltá-los nestes textos tão autobiográficos (creio que sejam) traz momentos emocionantes para nós. Parabéns e felicidades.

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