A Lição II – Sandra Godinho

Claro que uma fatalidade podia ser vista sob mais de uma luz.
Não fosse ter perdido o torneio de futebol naquele dia nunca
teria enfrentado a vida como devia de ser. Evidente que não havia
sido talhado para o esporte, por causa da gordura e da falta de ar,
mas eu me esforçava. Sempre me esforcei. Depois, tantas boas
oportunidades apareciam que bobo seria se não as agarrasse. Nunca
me arrependi. E a vida me sorriu com uma mulher dedicada, um
casal de filhos maravilhosos, amigos e viagens para o exterior. Mas
era com meu filho que eu dividia meu tempo. Uma noite, o menino
chegou todo entusiasmado da escola e veio falar comigo:
“Pai, a professora ensinou uma coisa legal hoje.”
“O que ela ensinou?”
“Ela falou sobre o corrupto.”
Eu engoli em seco. Com tanta coisa acontecendo no país, juízes
sentenciando e condenando políticos, assessores e empresários. Não
era um assunto fácil de abordar.
“Sobre o que ela falou exatamente, filho.”
“O corrupto é um animal.”
“É um animal, filho?”
“É sim, pai, e ele vive se escondendo.”
“Esconde sim, filho.”
“Precisa tomar cuidado pra não cair nas suas garras.”
“Por quê?”
“São afiadas.”
“Afiadas é?”
“Podem causar ferimentos.”
Eu pensava se peculato podia ferir alguém, afinal, foi tudo
para favorecer o partido. Nunca pensei sob essa perspectiva.
“E ele é muito articulado.”
“Articulado ele é, filho.”
“Além de tudo é cavador.”
“Cava muito, filho, onde tiver uma brecha.”
“Ele serve de isca pro peixão maior”
“Isso eu já desconfiava, filho.”
“Pra pegar o bicho, só fazendo ele entrar pelo cano.”
“Pelo cano?”
“Cano de PVC, pai, com tipo uma bomba.”
“Bomba?”
“De sucção, pai!”

E o menino acrescentou:
“A estrutura do corrupto é muito delicada.”
“Isso de jeito nenhum. Preciso falar com sua professora, filho.”
“É sim, pai. Ele deve ser amarrado ao anzol, sem apertar
demais. Tem gente que corta metade da cauda e da cabeça, e passa
o anzol através delas, sem perfurar a parte central do corpo. É um
crustaceozinho sem vergonha.”
“Crustáceo, é?”
“É, pai.”
“Professora instruída essa sua. Agora vai dormir, vai.”
Uma semana após essa conversa, Tadeu foi preso, julgado meses
depois e encaminhado para o presídio de Contagem em Minas Gerais.
Soube-se que sua chegada já tinha alterado o esquema de segurança
da penitenciária porque o sistema de monitoramento de conversas
dos presos tinha detectado ‘possíveis ameaças’. Descobriu-se que os
líderes do Comando Mineiro de Operações estavam combinando
um plano para arrancar dinheiro do operador de sistema. Dinheiro,
posses e poder eram sempre bem-vindos em qualquer facção. Tadeu,
na cadeia, suspirou:
“Vida difícil essa de corrupto. Mas delicado, nunca.”

9 comentários em “A Lição II – Sandra Godinho

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  1. Eu ri, mas é de chorar, né? Porque está difícil de encontrar a honestidade. Essa professora é mesmo muito esperta. Explicou direitinho. E você, mulher talentosa, construiu um excelente texto. Simples e direto. Com direito a lição de moral, ironia, humor. Parabéns pelo texto!

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  2. Oi, Sandra,

    Tudo bem?

    Muito bom, viu?!

    Adorei a comparação do pobre animal com nossos ricos animais.
    Nada mais justo, pois se ouve o tempo todo que o homem é um animal político.
    Humor e sarcasmo na dose certa.

    Parabéns.

    Beijos

    Paula Giannini

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  3. A autoria criou um animal para descrever as atitudes de um corrupto, foi muito bem bolado isso. Gostei do humor fino que vc utilizou. Pelo menos no fim da história o corrupto voltou para o habitat que deveria ser o seu natural – a cadeia. Beijos.

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  4. Corrupto é um crustáceo, uma isca natural. Amei o jogo com os sentidos da palavra. Muito bem colocado e acabou por ser uma isca para o personagem. Bom humor e ironia sempre caem bem. Parabéns pela ideia e execução do texto. Beijos.

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  5. Acho que essa professora conhecia bem a família de seu aluno, rsrsrs.
    Muito bom o texto, além de verdadeiro, bem humorado. Abs ❤

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  6. Oi, Sandra. Após um longo interregno, regressei à leitura e espero que em breve também à escrita. E dou de caras com este pequeno conto onde você entrança com rara habilidade narrativa, as características do pobre bichinho com o próprio homem. Maldade para esse corrupto inocente, mas muito bem visto. Parabéns e um abraço.

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