A mulher do quarto ao lado – Rose Hahn

Flora passeou a mão ornada de dedos longos e finos nos cabelos amarelados, de corte retrô; pinçou fios avulsos atrás da orelha enfeitada com enormes argolas douradas – um tanto desproporcionais no rosto arredondado e miúdo. O suspiro de hálito quente esquadrinhou o quarto habitado por livros e mais livros, amontoados em prateleiras gigantes, jogados na cabeceira, disputando espaço com as roupas no armário.

Jurou arrumar tempo para ajeitar a bagunça de sapatos jogados pelo quarto, roupas há dias no chão, a maçaroca de edredom, lençóis e almofadas de crochê – quem sabe, de lambuja, achava o marido perdido naquele caos.

“Pobrezinho”, pensou. A última vez que o encontrou na cama já havia uns dois meses. Foi na festa de ano-novo. Ele esgueirou-se por cima dela, os olhos opacos e o hálito etilizado de champanhe meia-boca. Entre deboches, fez gracinha na sua nuca e convidou-a para “trocar o óleo” − era para dar sorte no novo ano. Cedeu aos cortejos, apesar da repugnância ao palavreado tosco.

Há tempos que o marido desistiu de concorrer com a empáfia daquela gente − exibidas em capas duras, capas moles, em brochura, volumes, compêndios e de nomes empolados: Kafka, Nietzsche; que cheiravam a mofo e entupiam as suas vias aéreas superiores – e passou a dormir no quarto ao lado. Ele bem sabia: pessoas obcecadas não permitem espaços.

As lembranças das últimas migalhas de intimidade confortam as noites solitárias, regadas a uísque barato e chinelos rastejantes, resvalando pela penumbra do corredor, até o cômodo inundado de livros de gente arrogante, que o desdenha por não ser um homem letrado.

A invasão sorrateira de enciclopédias, volumes e compêndios, lembrou-o de não ser mais bem-vindo naquele quarto. Percorreu o mundo estranho à sua volta, no qual não tinha mais permissão para entrar. Mas insistiu, e entrou.

Sentou na beirada da cama, no limiar entre o espaço dela e o seu, e afundou o olhar no chão no qual rastejava, como um cachorro, à espera de um afago do dono. O cheiro de alfazema atravessou as frestas da porta do banheiro em labaredas contorcidas de dança ritmada, entorpecendo todo o ambiente. O mesmo perfume que grudou nas entranhas quando a conheceu no baile de formatura. Ela já debochou que essa foi a maior proximidade dele com a vida acadêmica.

Pegou o livro emborcado com requinte sobre a almofada, deslizou a aspereza das mãos sobre as páginas amareladas, espremeu os olhos no roçar das palavras, fez carícias na orelha de papel; vislumbrou-a em seus braços; entre gracejos e bocejos, sussurrou no seu ouvido um poema de escrita fluida e singela. Imaginou-a se deleitando com o jogo obsceno das palavras e das carícias na pele clara.

A costumeira melancolia assumiu o lugar habitual, o lirismo se esfumaçou como as brumas ao entardecer. Repousou o exemplar, com o mesmo desvelo dedicado às peregrinações noturnas no apartamento. Espremeu as ideias e matutou o motivo do devotamento a um casamento raso, da indiferença da esposa ao genuíno amor. Sabia que ela cedia por caridade aos cortejos apaixonados, e ele insistia por devoção. Devoção a uma mulher brilhante e obcecada pelo intelecto, com o poder, depois de tantos anos, de fazer as suas pupilas dilatarem, de sujeitar-se a esperar refugos de atenção, de aceitar os restos do fascínio às estantes e prateleiras abarrotadas de livros.

A mente abatida retornou à beirada da cama − o ranger da torneira denunciou o final do banho, e do seu tempo também.

O olhar deprimido se estendeu mais uma vez ao estranho cenário. A respiração profunda sorveu um soneto de Camões. Uma linha tênue desenhou um contorno de esperança no canto dos lábios, na ilusão do amor ser maior que as diferenças entre os dois, mais extenso que os títulos dela, mais profundo que a vidinha ordinária de família de faz-de-conta, e saiu do quarto em passadas largas e silenciosas para repetir, no dia seguinte, o ritual de veneração à mulher do quarto ao lado.

 

23 comentários em “A mulher do quarto ao lado – Rose Hahn

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  1. Que conto! Cada palavra desenhada na minha cabeça, como um bailado insinuante de significados. Eu me lembrei de um soneto de Camões assim que a palavra saltou no texto… Não canse o cego amor de me guiar… Pois é. Acho que pessoas muito reflexivas são aflitas. A intelectualidade mata o germe da mesmice e sucumbe aos recitais. Parabéns pelo conto! Um grande e carinhoso abraço!

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  2. Minha querida Rose. Este foi o conto seu mais enigmático que eu já li. Apesar de aparentemente ser um conto simples e direto, uma visão mais aguçada é capaz de perceber que há mensagens que vão além do que é lido. O conto é cheio de belas construções literárias que não forçam um rebuscamento, mas a elegância está impregnada ali, na escrita fina, para paladares exigentes. Acho que não possuo o refinamento necessário para compreender cada liame que nos leva a sentidos inesperados, mas sei quando encontro uma joia, reconheço o brilho. Parabéns, gata. Razô!

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    1. Oi Iolandinha King, então…Escrevi esse conto há uns quatro anos, numa oficina de criação literária, já o reescrevi trocentas vezes, começou com a escrita bem pobrinha e foi ganhando preço. No original, a mulher do conto chamava-se Rita, mudei propositadamente para Flora em homenagem à protagonista do conto “Devoção”, que sofreu agruras nas mãos do marido sacana. Digamos que ficou, sem querer, o conto da vingancinha. Bjs gatinha.

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  3. Querida Rose,

    Tudo bem?

    Comentei aqui um conto errado.
    Mas agora, lá vai. hahaha

    Livros são amantes melhores que muita gente de carne o osso, em várias ocasiões. 😉

    Gostei do modo como a estrutura narrativa transporta o leitor por dois diferentes pontos de vista, sem sofrer solavancos. Assim, o leitor acompanha essa mulher apaixonada por literatura e consciente de seu desinteresse por tudo que a cerca, marido, casa, enfim; para, em seguida, vislumbrar a narrativa sob a ótica do pobre marido desiludido. Tudo isso sem perceber em que momento o ponto de vista se deslocou. Como a boa luz (no tetro), quando muda colorindo a cena, mas o espectador não percebe a transição.

    O conto é uma homenagem às letras, ao delírio do leitor (no caso da leitora). O pobre marido, punido por sua inaptidão para as tais letras, penetra no universo de sua mulher através daquilo que ela mais ama. Seus livros, sua luxúria e razão de existir.

    Gostei.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  4. Rose, q linda sua história! Não sei se é uma declaração de amor a mulher ou ao marido. Pq é linda a maneira como ele a admira e guarda em silêncio os seus sentimentos. Lembrou-me a música do Chico- “passas sem ver teu vigia, catando a poesia que entornas no chão.”

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  5. Li o conto há alguns dias , mas não o comentei pois precisaria de mais tempo para captar as mensagens das entrelinhas, penetrar nesse intrigado mundo de emoções. Pobre marido! Impossível mesmo competir com as paixões literárias… O real está sempre aquém. Assunto e estilo se casaram bem nesse texto elaborado com afinco. Parabéns, Rose! Obrigada pela prazerosa leitura.

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    1. Fheluany (eu sempre dou contra o C, contra o V no seu nome, grafia diferente), gratidão pela leitura, realmente é difícil competir com os livros, e mais ainda com as obsessões. Bjs.

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  6. Olá Rose.
    O que mais gostei no seu conto foi a transição do ponto de vista da mulher para o do marido. Senti-me nesse quarto abarrotado de livros. Apesar de ser uma amante dos livros, o desamparo desse seu personagem tão excluído dessa devoção literária me tocou. Parabéns pelo belo conto. Beijos!

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  7. Pobre homem, condenado a venerar secretamente a mulher no quarto ao lado. Às vezes, estamos tão próximos dos entes amados, mas criamos barreiras (talvez com livros) e as afastamos para outro plano. A paixão pelos livros só invadiu de vez o quarto da mulher pois encontrou espaço entre os vãos do relacionamento do casal.
    Palavras bem colocadas que nos conduzem a um caminho misterioso, quem é essa mulher e por que se esconde atrás da literatura? Os livros são como trincheiras que a isolam do mundo real e a poupam de uma entrega maior? Ih, viajei.
    Parabéns, Rose. Beijos.

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    1. Oi Cláudia, obrigada pela viagem, embarcou bem, é por aí mesmo; a presunção, no caso da personagem, isolou-a num mundo particular, onde ninguém tinha permissão para entrar. Bjs.

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  8. Oi, Rose!
    Amei seu conto, a forma com que você desenhou os personagens, e a distância imensa e misteriosa que há entre eles. tão sutil e incrivelmente humano. Questionando aqui com meus botões quanto existe de masoquismo numa relação desse tipo – e quem não conhece ou viveu algo assim? E mais, a relação entre marido e mulher pode ser comparada à da mulher e livros?
    Excelente, parabéns!

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    1. Obriga Re pela leitura e comentário amável. Pois então, é complicado e incrivelmente excitante esse mundo dos humanóides, né? Bjs.

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  9. Olá, Rose!

    Escrita segura que traz – com uma certa tristeza – a veneração de um homem por uma mulher que o despreza ou, ao menos, não o ama na mesma medida e que leva a crer na condenação desse casamento que não se sustenta. Há a veneração dele por ela e um masoquismo tácito. E como as colegas já apontaram, a mudança de ponto de vista – se faz sem discrepâncias ou quebras abruptas. Muito bom!

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  10. Uma história muito bem contada de uma amante da literatura. Adorei a ideia de ter um quarto abarrotado de livros, rsrs. Porém, ao conhecer o marido, fiquei com um pouco de pena dele, e achei a mulher um pouco egoísta e soberba. Não é porque ela é letrada que pode menosprezar o homem que escolheu para dividir a vida. Abs ❤

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  11. Eu já esperava de você um conto em que eu mergulhasse na narrativa e no ritmo, embora não compreendesse tudo. E talvez seja esse aspecto o que eu mais goste nos seus textos, porque eles me tiram do conforto e me desafiam. Essa mulher se parece em alguns momentos comigo, rs… Ainda bem que aqui no quarto eu tenho um kindle! 😉

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  12. Olá, Rose. Comentar devidamente este conto, implicaria escrever uma dissertação bem mais longa que ele. Vou reduzir ao essencial que me ficou. Existem imensos casos semelhantes, mulheres que sentem repugnância pelos maridos, ou superioridade de qualquer tipo, neste caso intelectual, ou uma amálgama de sentimentos desse tipo. Porque casaram? Como os conheceram? O que as levou a escolhê-los? O que as não-move para que não coloquem um ponto final nessas relações que tão tóxicas são para um e para outro? E isto sucede dos dois lados, ou seja, imensos homens sentem um profundo desprezo pelas suas mulheres também. Será o conforto da idolatração? Será o reconhecimento íntimo de que, vendo bem, não se é assim tão melhor quanto isso?
    Mas consegui ver o filme todo enquanto rodava (enquanto lia) e isso é óptimo. A história está muito real e é algo de que nunca se fala. Gosto particularmente de ler histórias que falam de assuntos que ninguém nomeia, alguns são tão tabu que nem se lhes reconhece a existência. Mas não; estranhos a viver sob o mesmo tecto na condição de casal, é o que há mais. Parabéns pelo belo conto. Um beijo.

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