Ritmo Oculto (Claudia Roberta Angst)

Possuía ares de dançarino de tango, desses que tumultuam salões inteiros e enchem de exclamações as bocas mais rubras. Uma mancha de cobre nos cabelos e palmas sempre úmidas. Seus passos descreviam um caminho incerto, mas bastante convidativo. Algo de rude sempre a lhe cobrir os olhos. Era como um vendaval passando sem tréguas, desvendando mistérios alheios. Era capaz de atingir as raízes mais fortes sem perceber porque o fazia.

A luta começara cedo, nos degraus de uma infância já perdida. A relação com os elementos arrastava-se complexa pelos anos. O corpo não lhe bastava na terra. O ar não lhe preenchia toda a matéria e a água não lhe apagava o calor. Nem mesmo o fogo mais genuíno tocava-lhe a pele.

Era assim: sua própria inspiração. Os passos levando sua vida no vão de palavras nunca questionadas. Às vezes, enganavam o hábil dançarino com promessas e o tombavam. Sucediam milhões de tropeços, quedas e dores, mas suas pernas fortes o erguiam como um grande carvalho emergindo do solo árido.

Alguns dias, ele lembrava cimento, asfalto, concreto. Tornava-se inflexível como suas próprias paredes. Em outros momentos, a areia caía-lhe no rosto e o fogo abraçava seu coração. Ardia como se fosse tomar a direção certa, como se fosse descobrir o mistério, como se, então, a verdade fosse sua.

Na passagem do ano, resolveu que era hora de saber sua sorte. Um novo ano traria um outro destino? Ciganas leram suas palmas como investigadoras obscuras. Olharam para aquelas mãos já sem certeza alguma. Minuciosas, examinavam linha por linha, analisando cada traço e marca, em vão. Sem entender a razão de tanta aflição das videntes, ele permanecia curioso, atento a qualquer revelação. Tentaram desvendar algum mistério que ele próprio desconhecia. Nada a ele nada parecia real, pois estava longe demais, olhando para um oceano sem fim.

Alguém contou as letras do seu nome. Somas que nada traziam além de mais indagações. Corpo e mente já denunciavam que nada era concreto, previsível ou mesmo aparente. Era apenas uma inquietação latente, o estalar de ossos e pés batendo no chão. Ele, ali, traços e músculos com os olhos de águia em pleno voo.

Naquela noite de festa, ele sentiu um rasgar incômodo no peito. De repente, um compasso pareceu-lhe estranho, fora de ordem, sem precisão. Que contratempos eram aqueles? Percebeu, então, que era tarde demais. Alguém lhe roubara o mistério.

Ele manteve a calma como deveria ser, mas sentia o sangue correr rápido demais. Guardou sua inspiração e escondeu os sapatos. Viu seus pés nus atravessarem fronteiras imaginárias. Estavam fora do ritmo. Todo ele estava fora do ritmo. Aquela música não possuía sua marca. Aquelas notas não lhe obedeciam. Não sabia mais dançar?

Bateu os pés no chão. Era cedo demais para esquecer a dança. Estava certo de que recomeçaria no próximo compasso. O novo ano o aguardava, sabia disso. Seria um crime alguém tomar o segredo da sua própria dança.

Escondida atrás de máscaras, a sombra ganhava espaço. O fogo ardia até o fim, transformando tudo em cinzas. O ar circulava envenenado, rompendo a terra e mergulhando na água subterrânea. Havia uma estranha presença, por perto, dentro dele, adulterando sua arte e o impedindo de experimentar novas coreografias.

Cercou-se do silêncio e interpretou todos os segundos seguintes. Acharia o momento certo, pois acreditava ainda ser dono de seus próprios passos. Ainda que perdido no labirinto de sua própria essência, ele ainda imperava por ali.

Após horas de agonizante espera, o belo dançarino encontrou o compasso desejado. Ardia de expectativa, em uma febre sem harmonia. Queria saltar ou correr, mas deveria apenas dançar. As notas voltaram a lhe parecer familiares logo nos primeiros passos. Seus pés dançavam novamente, revelando um novo ritual.

Cansado demais para ceder ao inexplicável, ele guardou todo receio na palma das mãos. Não se deixaria contaminar pela noite ciumenta. Obrigou-se a seguir e continuou a obedecer ao ritmo que surgia quase o rasgando por dentro.

Restava-lhe então toda a madrugada. Todas as horas, minutos e segundos eram só seus, um novo tempo lhe devolvia o ânimo. No entanto, ele não era capaz de enxergar sua própria sombra. Não lhe deu um nome, um número sequer, nem lhe cedeu uma cadeira. Parecia errado incentivar sua permanência. Deu-lhe as costas e adormeceu na ignorância do amanhã.

Abriu os olhos como se mil noites o tivessem acalentado. Buscou pelas vestes e sapatos. Cantou algumas notas e penetrou na manhã de um novo ano com o mesmo ar cigano. Olhou-se no espelho. Lá estava ele, de volta. Ainda era um dançarino de tango. Desses que tumultuam salões inteiros e colhem suspiros pelos cantos. E na palma úmida, uma nova linha nascia.

 

 

 

 

 

24 comentários em “Ritmo Oculto (Claudia Roberta Angst)

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  1. Pode ser que a minha interpretação esteja completamente equivocada, mas achei, lendo o seu excelente conto, que o dançarino era o ano em que se está vivendo. Enganado por promessas que fazemos no começo, dança conforme a música e quando chega o fim, renasce com uma nova linha na mão. Porque ali é a nova vida que podemos ter a partir deste recomeço. Foi isso. Obrigada, Claudia. Beijos.

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  2. Esse texto me lembrou muito uma poesia. Tem uma dança, aí, escondida entre as palavras. Tem um ritmo, aí, nos conduzindo até o final. A vida é mesmo uma dança. Eu sempre me pego pensando que tipo de movimento acontece ao meu redor. Hoje, o dia amanheceu tímido. Tem um ar de cantiga de ninar, de acalanto. Está chovendo muito de mansinho. Embalando a tarde e os que estão sozinhos. Mas tem dias que o movimento é intenso. Seu texto me lembrou disso. Ele é muito agradável de ser lido. Parabéns! Um grande e carinhoso abraço!

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    1. Que bom que gostou, Evelyn. Tenho esse “problema” de grudar poesia na narrativa. Neste conto, acho que funcionou bem para manter o ritmo de uma dança de palavras. Adorei sua análise e impressão sobre o conto. Grata! Beijos.

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  3. Oi, Cláudia,

    Tudo bem?

    Quer dançar comigo? É uma pena que eu não saiba dançar, mas seu texto é um convite. 😉

    Fiquei muito feliz por conhecer você, ontem. Engraçado a sensação que tive de já ser sua amiga de muitos anos.

    Olha, você comentou comigo sobre a interpretação da Iolandinha e na hora não “me liguei” no assunto exato, ou melhor, de que texto você estava falando. Pois veja… Minha interpretação foi a mesma da Iolanda! Quando lia, imaginava o dançarino como o ano novo e seu desgaste para a dança, o final dos 365 dias, assim como a renovação, a óbvia promessa de um novo ano, fresquinho…

    Às vezes os contos falam por nós. Eles são vivo, não é? Então, se esse moço bonito, dedicado e sedutor que dança com a moças no salão não é o ano novo, deixa ele ficar sendo. Porque foi perfeito. Caiu como uma luva!

    Beijos

    Paula Giannini

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  4. Oi, Paula querida. Também adorei te encontrar pessoalmente e, assim como você, senti que já éramos amigas há séculos.
    Depois, fiquei pensando: essa interpretação do dançarino como o ano novo faz muito sentido com as alterações do conto feitas para se encaixar no tema. Grata pelo comentário generoso. Beijos.

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  5. A primeira coisa que me chamou a atenção no conto foi a beleza poética da narrativa. Já percebi que é um estilo todo seu. Daí fui levada pelos passos dessa sua dança, que ora me soava como um tango, mas outras eram como bolero, outras como uma valsa leve. Não sei se o personagem era apenas um dançarino, tentando sobreviver aos tropeços da vida, ou se ele era a própria vida, passando através do tempo, ano após ano, mantendo a dança e o ritmo em equilíbrio, impedindo do desbalanço do universo. Uma linda viagem, seu conto!

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  6. Oi, Juliana, tudo bem? Agradeço o seu gentil comentário e concordo com as interpretações que deu ao meu protagonista. São validas e coerentes. O texto é uma revisita a um conto que escrevi há quase 30 anos
    Como vê essa coisa poética vem me acompanhando desde os primórdios. 😄 Beijos.

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  7. A vida é uma dança, temos que dançá-la da forma como ela se apresentar, sem apego ou resistência; quando um movimento termina, outro começa… nada é estático, tudo se move sem parar e tudo se transforma, sempre no ritmo. Embora os passos sejam diferentes, todos buscam a renovação. E sempre que a impaciência ameaçar a boa vontade, a compaixão vai ajudar a perceber que na verdade ninguém está tentando atrapalhar a coreografia, está apenas tentando ser feliz!

    Um bom texto é assim, cabem mil e uma interpretações. Cada leitor o reveste com sua experiência. Parabéns e obrigada pela leitura enriquecedora. Beijos.

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    1. Concordo com você, Fátima, a vida é mesmo uma dança e precisamos encontrar nosso próprio ritmo. Sem dúvida, as pessoas são mais felizes conforme a sua capacidade de se adaptar à dança apresentada pela vida, mas sem abrir mão do seu ritmo interno e seus passos criativos.
      Estou adorando a ideia de ter criado um conto que provoca tantas interpretações diferentes. Sinal de que o texto toca cada leitor de uma maneira singular, pois cada um é um ser especial e sem cópias.
      Grata pelo comentário sensível e generoso. Beijos.

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  8. Olá Claudia.
    Um belo conto onde a prosa se mescla à poesia, marca do seu estilo. Como costuma ocorrer nas boas narrativas, seu texto se abre a muitas possibilidade interpretativas. Arrisco uma: uma metáfora para a renovação do motivação artística que anina todos nós que, como seu bailarino, se dedicam à criação. Beijos, querida!

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    1. Oi, Melisa, tudo bem? Agradeço o seu comentário gentil e generoso. Sim, acho que criei um estilo e não consigo sair dele. Isso é bom? Às vezes sim, às vezes não, mas é o que temos no momento.
      Gostei de criar um texto que se abre a várias possibilidade de interpretação. Isso dá uma certa liberdade ao leitor, que eu aprecio muito. A sua leitura e interpretação estão bem de acordo com a minha ideia primária. 🙂
      Beijos.

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  9. Oi, Claudia!
    Bastante reflexivo, Ritmo oculto. A apresentação do personagem é forte, com os elementos pontuando sua existência, o mistério que há em cada aspecto da vida, coisas de ano novo, essa ânsia por tentarmos entender ou adivinhar o que vem por aí…e na verdade nos apresenta outras questões, que, no seu tempo, trarão as respostas.
    A dor da descoberta, o reencontro consigo mesmo, o prosseguir, ótimas metáforas para um Ano Novo.
    Continuo meditando aqui, como acontece em todo texto seu, Claudia! ❤
    Beijão!

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    1. Agradeço pelo seu gentil e sensível comentário, Renata. O ano novo provoca sempre expectativas em nós (talvez como esse dançarino de tango aí…😀)
      Beijos.

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  10. Olá, Cláudia!

    Uma marca inerente à sua escrita: a elegância na escolha das palavras e a poética. Muito peculiar da sua produção literária em prosa. Quanto à interpretação, acredito que cabe várias leituras. Uma que escolhi é sobre a dança da vida. Somos todos bailarinos e dançamos conforme a música, não é? Se o tango se impõe, que o bailarino aprenda a dar os primeiros passos. Uma nova dança é novo aprendizado, é novo caminho, é nova linha. E que ela seja plena. E que ela seja esplendorosa, como um bom tango! Parabéns!

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    1. Oi, tudo bem? Sinto-me lisonjeada com a sua leitura e comentário tão generoso. Classificar minhas palavras como elegantes, deixou-me bem feliz. Escrever também não seria encontrar o ritmo oculto nas palavras e deixá-las dançar? Beijos.

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  11. Ano novo chega, e com ele, sonhos não realizados povoam a mente e o coração. Mas, um dia depois, a realidade bate à porta e é necessário guardar esses sonhos e voltar “ao trabalho”, rsrsrs. Porém, cada sonho e desejo não realizado, deixa marcas permanentes em cada um de nós. É o que eu senti ao ler este belo conto. Abs ❤

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  12. Lindo e poético, as palavras bailam em um conto sobre um dançarino que é o ano, não? Foi a sensação que tive ao ler seu texto, Claudia. Mais um ótimo trabalho, daqueles que nem percebo quando cheguei ao final!

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    1. Agradeço pela leitura, Bia. Fico muito contente por você ter curtido minhas palavras e ter se deixado levar ao final sem sentir . 🙂

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  13. Oi Cláudia, o título é bastante fiel ao texto, realmente encontramos muitas mensagens ocultas; a Iolandinha, “sua boba linda”, entregou, de cara, o quebra-cabeças que eu estava montando. É uma narrativa muito poética e me senti bailando a cada linha. Tb. destaco a leitura da mão da cigana, o afã que suscita cada novo ano em querermos desvendar, antecipadamente, os mistérios que nos aguardam na nova jornada. Bjs.

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    1. Oi, Rose, tudo bem? Sempre tenho dificuldade de encontrar um título adequado para os meus contos, mas desta vez acertei, né? Também gosto muito do jogo de palavras Ritmo Oculto – que pode ser considerado uma sinestesia – audição e visão misturados. Agradeço pelo generoso comentário. Beijos.

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  14. Olá, Cláudia. Perdi-me na leitura, enquanto procurava a trama, a história, o fio condutor. Quando dei por mim, estava a dançar embalada na música das palavras que se fizeram sonoras. Então, no final, recordei-me do que havia procurado e percebi que fiz a busca errada. Há contos que são histórias e outros que não o são – este não é, assemelha-se mais a um espectáculo visual que vai ao encontro das nossas emoções (como um bailado) e dispensa interpretações intelectuais. Vibra e faz vibrar. Fiquei pensando que, devido ao tema e à época em que foi proposto, talvez se tratasse do ano velho a dar lugar ao ano novo. Mas não me parece. Você quis compor e pintar com palavras em lugar de contar – e penso que foi isso que fez, e muitíssimo bem. Beijos.

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  15. Claudia…
    Bem.. eu já tenho outra interpretação 🙂
    Achei este dançarino bem surreal, forte,algo de bruxo! Sei lá, parecia que ele tinha poderes!
    Mas era da força da dança, de sua total entrega a ela.
    .
    Rodrigo Arcadia escreveu vários poemas em que falava de uma batida no peito, um tambor, que veio a ser o enfarte que veio a vitimá-lo… Então que seu personagem narrou que sentiu o peito rasgar, eu vi a morte ali, a sombra que avançava… No meu ver, o dançarino morreu naquela noite de reveillon e a nova linha na palma da mao, olhar-se no espelho e se ver, ele mesmo, como sempre fora e tal.. era a vida no plano espiritual.

    Uma linda leitura, teus textos dão prazer de ler!!
    Bjs

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