ANNUS FAUSTUS – Juliana Calafange

Dizem que a primeira coisa que a gente faz na virada do ano é o que a gente vai fazer o ano novo inteiro. Espero que isso não seja verdade.

Já imagino o mundo cheio de gente bêbada, vestida de branco, vagando pelas ruas, ao som dos fogos de artifício, uma versão tosca de The Walking Dead… Se isso fosse verdade, a maioria das pessoas iria passar o ano todo pulando ondinhas num pé só e comendo romãs e lentilhas!

Lentilhas.

Devem ter sido as lentilhas. Depois de toda uma semana de orgias etílicas, comendo a comida requentada do Natal, neste calor tropical dos infernos, ingerir lentilhas só poderia ser má ideia. Quem foi o imbecil que inventou essa tradição? Alguém que mora no hemisfério norte, sem dúvidas. Lá o clima dessa época é mais propício a se comer lentilhas.

Agora cá estou e não adianta reclamar.

Eu tinha prometido: me controlar, comer sem exageros, beber um copo de água entre cada drink, ficar abstêmio entre os dias 26 e 30 de dezembro.

Abstêmio… Que palavra engraçada. Parece até nome de monge… Por favor, faça as honras, Irmão Abstêmio

As cólicas me castigam pela infame ironia, contorcendo meus intestinos com rancor e obrigando meu abdômen a se curvar em espasmos de aflição. O suor me escorre testa abaixo, pinga pelo queixo, deixando pequenas nódoas marcadas no cós da minha calça, arreada até os joelhos.

É quase humilhante. Que horas devem ser? Pelo burburinho que vem do salão lá fora, já deve ser quase meia-noite.

Acho que vou passar o próximo ano inteiro sentado aqui.

Todo dezembro é a mesma coisa: basta começarem as festas e confraternizações que todas as minhas promessas escorrem pelo ralo.

E é graças a isso que estou cativo desta privada ignóbil.

Privada. Nada mais privado e íntimo do que este momento. É como um convite para pista VIP – pessoal e intransferível.

O burburinho aumenta do outro lado da porta. Eu ouvi alguém dizer que faltam cinco minutos?

Significa que tenho pouco tempo para sair deste banheiro.

Ou passo o resto do ano cagando…

Eu acharia graça, se não fosse essa merda que não se desprega, parece que se agarra nas minhas entranhas mais profundas, as unhas cravadas na base da minha coluna, como se fosse o ano velho não querendo ir embora de jeito nenhum.

O barulho das pessoas comemorando lá fora cresce agora, na mesma proporção da minha angústia.

Quando nada mais parece existir, a não ser o sofrimento abaixo do umbigo, percebo que a música parou. Neste instante só há o vozerio dos convidados da festa, som de copos brindando.

Agora já era! Não dá mais tempo…

– Dez!

O grito quase uníssono das pessoas lá fora. Vivas, obas, alegrias. Palmas, risadas.

– Nove!

Todos contentes, felizes, celebrando mais um Ano que chega…

– Oito!

Todos cantando, se abraçando. E eu aqui, quase sem forças.

– Sete!

Sentado nessa latrina fria, rude, insípida.

– Seis!

Olhando a minha cara desbotada no espelho.

– Cinco!

Olhando os azulejos desbotados da parede pelo espelho.

– Quatro!

Únicos cúmplices deste momento infeliz.

– Três!

A festa lá fora e eu aqui. Só, no troninho.

– Dois!

Meu diafragma se contrai, num gesto derradeiro de bravura.

– Um!

Um champanhe estoura. A última talisca de bosta finalmente retira-se deste corpo derreado, ouço com alivio o som do torrão caindo na água logo abaixo de mim.

– Zero!

Aproveito a gritaria e puxo a descarga. A água borrifa e molha minha bunda.

– Feliz Ano Novo!!!!

16 comentários em “ANNUS FAUSTUS – Juliana Calafange

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  1. Fantástico o seu conto, adorei. Tem uma pegada humorística muito boa, onde se vê que a autora soube explorar uma situação adversa e escatológica equilibrando quantidade e qualidade para que nada sobrasse ou faltasse. Ficou perfeito. Tive até com pena do sujeito, mas não pude deixar de rir das palavras escolhidas e dos infortúnios do rapaz. Texto muito bem conduzido. Meus parabéns e feliz ano novo.

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  2. Muito divertido o seu conto. Li sem sentir, pura diversão. Não encontrei problemas com a linguagem que se mostrou bem adequada ao tema. Gostei, viu?

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  3. Eu ri muito, Juliana! Criatura! A primeira frase já me lembrou de muita situação vivida nesses anos novos desastrados das minhas andanças. Mas aí, eu fui lendo e rindo um pouco mais da desgraça alheia, né? Porque rir da nossa própria desgraça já é corriqueiro. Coitado! Senti muita pena dele, mas o que há de se fazer? Nem sempre se consegue sair das situações ilesa é ou não é? Parabéns pelo texto! Um grande e carinhoso abraço!

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  4. Querida Juliana,

    É no cotidiano que está o maior trunfo do escritor.

    Quem nunca passou por essas situações? Todos. Ricos, pobres, reis, plebeus, brasileiros, ou moradores de países distantes… Não tem como não se identificar. E mais, quem nunca se pegou pensado em tudo que se passa na cabeça de seu personagem? Todos, certamente. Coisas pequenas, bobas e escatológicas que estão presentes em nós, às vezes ditas, às vezes caladas, mas estão lá.

    A escatologia é matéria prima para criação, às vezes deixada de lado por parecer por demais banal, e, outras vezes, explorada com um viés exagerado, só para chocar. Aqui não. Aqui alguém come coisas diferentes (como todos, repito, em festas de fim de ano) e sofre com o resultado, tentando, desesperadamente, livrar-se logo da situação. Nada mais corriqueiro. Nada mais humano. Nada mais risível e universal.

    Parabéns.

    Sua veia de humor é muito boa.

    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Olá Juliana.
    Você usou uma situação corriqueira mas embaraçosa para fazer um comentário crítico sobre algumas superstições associadas à celebração do Ano Novo. Não há como não se sentir meio bobo comendo lentilhas ou pulando sete ondas à meia-noite do dia 31/12, não é mesmo? O conto ficou bacana! Parabéns, querida! Beijos.

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  6. Adorei!!!
    Esse conto traz uma hipótese plausível de uma angústia puramente humana e visceral, que pode muito bem ocorrer na virada do ano, para qualquer um.
    Tenho certeza que esses seriam os pensamentos de quem estivesse nessa situação.
    Destaque para “Por favor, faça as honras, Irmão Abstêmio…” kkkk

    Um beijão

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  7. Olá, Juliana!

    O jogo de palavras ano/annus é muito bem bolado e realça sua verve humorística de modo triunfal. Nas resoluções de fim de ano há o desejo de se renovar, mas não se renova de verdade e voltamos a fazer a mesma coisa de antes, as mesmas rotinas, os mesmos rituais ordinários. Nos enchemos de sonhos, mas despejamos os pesadelos, as massas fecais que sobram sem se renovar, toscas e tão comuns. Muito bom!

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    1. Pois é, Sandra. No fim das contas o Ano Novo (Annus Faustus em latim) é só um dia como qualquer outro, quando tudo de mais corriqueiro vai acontecer de novo e de novo, assim como a nossa ida diária ao banheiro… rsrs
      Obrigada pelo comentário!

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  8. hahaha, ótimo! Tadinho, até tive dó desse desespero todo justo na virada do ano, mas quer saber? Muitas vezes é melhor estar dentro do banheiro, jogando tudo que não está bom pra fora, em vez de ter que abraçar e cumprimentar certas pessoas que só nesse momento do ano se lembram de fazer isso… A narrativa foi escrita em um tom que manteve o ritmo do começo ao final, sem exageros. Muito bom, parabéns!

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  9. Oi Ju, ri pacas do seu conto, qualquer semelhança com a metáfora “mais um ano de merda” é pura coincidência. Os enxertos de lentilha, sete ondinhas, The Walking Dead ficaram muito bons, tudo encaixadinho no apocalipse escatológico do pobre homem. Ah, só faltou a uva passa, rsrs. Bjs.

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  10. Ah! Ah! Ah! Demais, Juliana! Eu a ler e a pensar em mim. Essa ainda não me sucedeu, mas tenho tendência a pensar na quantidade de coisas que poderiam acontecer quando estou nessa atividade; desde tremores de terra, a convidados que chegam. Nem sonhar que algum dia tenha feito tal no avião ou no comboio – e se cai num poço de ar? e se descarrila? vão encontrar meu corpo agarrado a uma sanita (vocês usam este termo?) e com as calças em baixo? Mas nem pensar! É mesmo um pouco fixação. Perdi o conto ao número de vezes que imaginei ter um ataque cardíaco no momento e ficar ali caída e desacordada naquela figura. E por aí vai. Todos temos fobias, esta é uma das minhas: medo de que aconteça alguma coisa que me obrigue a dar a cara a meio duma “cagadela”. Imagine o quanto me diverti a ler o seu conto. A escrita está ótima, o tom exato e o título é a cereja em cima do bolo. Um beijo.

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    1. Ha ha ha! Ana, e eu aqui morrendo de rir de imaginar você a imaginar essas situações todas! Os termos que usamos podem variar um pouco, entre Brasil e Portugal, mas creio que a cagada é a mesma! rsrsrs
      Aqui comboio é trem, sanita é vaso sanitário (ou privada)… Mas merda é merda, pois não?
      Muito obrigada pelo seu comentário confessional! Eu adorei! rs
      Beijos!

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  11. Ju, eu sabia que viria mais uma pérola!!! Gozadíssima, inusitada, habilíssima. Parabéns, continue escrevendo, nós merecemos… Bjãooo.

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