Es-pe-ran-ça (Bia Machado)

Ela era louca, diziam. E Esperança aceitava, com toda a tranquilidade.

Os dias passavam e ela, talvez fosse louca mesmo, vivia no décimo segundo andar daquele edifício. Às vezes se perguntava: por que o último andar? A verdade é que gostava de tudo o que via de sua janela. As pessoas lá embaixo, pequenininhas, uma pressa sem fim. O canto dos pássaros mais próximos de si. Dali, os raios de sol pareciam ser ainda mais mornos.

“Ó, Esperança, não te cansas de olhar para baixo?” Não, não se cansava. Podia ser ao nascer do sol, ou no meio-dia a pino, no entardecer… Até nas madrugadas, ver alguém vez em quando passando, dava uma sensação de… Do quê, mesmo? Muitas vezes, nem ela sabia. E suspirava, cada vez mais concordando que devia mesmo não bater muito bem.

Também havia a sensação: tudo estava pronto, mas havia ainda muito a ser feito. Tudo findara, mas era preciso recomeçar. Mas recomeçar de onde? E por quê? Ela conseguia se lembrar de tantas coisas nos seus mínimos detalhes que parecia ter vivido uma vida inteira naqueles poucos meses. Pouco tempo atrás era uma menina, agora se olhava no espelho e via um rosto cheio de rugas, mas não identificava: “quando foi que apareceram?”

E naquele dia ouviu barulhos mais altos, que chegavam ao décimo segundo andar como se subissem pela escada do prédio. Olhando pela janela, lá estavam as pessoas, como de costume. E eram tantas, eram muitas, rindo, cantando, gritando palavras de felicidade, de… esperança, talvez?

E ela, a louca da Esperança, estranha.

“Daqui a pouco é outro ano, dona Esperança. Feliz Ano Novo, desde já!”

Ouvir isso do porteiro deu um aperto no coração. Ano Novo, claro, sim… Tinha deixado de acompanhar o calendário. Também tinha se esquecido de que há sempre um novo ano. E tudo começa e recomeça. E ela? Sentia como se não precisasse começar mais nada. E muito menos recomeçar. Agora era raro quando descia as escadas e saía à rua. Preferia as pessoas lá de cima, do último andar do prédio.
Se realmente era quase Ano Novo, talvez beber um vinho e se deitar antes da meia-noite fosse o melhor, mas onde a vontade de dormir?
Subiu as escadas correndo. Trancou-se no apartamento. O relógio ainda estava lá e mostrava que faltavam alguns minutos. Se ligasse novamente o telefone na tomada, escutaria o som de seu toque? Alguém ligaria para ela? Quem?

“Feliz Ano Novo, Esperança, sua louca.”

E ela ainda agradeceria, fosse quem fosse, desejando o mesmo. Procurou por fotos, mas nada de porta-retratos. Álbum de fotografias? Havia um, em branco. Nesse momento, um leve desespero. Procurou por cartas, postais, bilhetes… Nada, ninguém. Apenas ela, ali, tão imóvel quanto os móveis que entulhavam o apartamento.
Meia-noite. “Vai começar tudo de novo”. As buzinas atordoam seu pensamento, fazendo com que Esperança se sentisse ainda mais estranha. Mais louca. As sirenes, as risadas, a música… E tudo aquilo só lhe dá a certeza de que preciso recomeçar. E já sabia como.
Ao atirar-se pela janela, um delicioso voo. Era agora então um pássaro? Um anjo? A queda, tão sutil, tão revigorante, houve tempo para pensar e repensar em tantas coisas, houve tempo para se lembrar de tudo, de quem era, do que precisava fazer.
O pouso no chão foi leve, delicado. As pessoas estavam grandes, maiores que ela. E riam para ela, agora uma menina, achavam graça em sua gostosa gargalhada.

“Que menininha adorável!”
“Como é o seu nome, garotinha?”

E a criança coloca as mãozinhas na cintura, como se a paciência fosse pouca. Como é possível que tivessem se esquecido dela, em tão pouco tempo? Era preciso lembrar a eles, novamente? Pois ela os lembraria, sempre que fosse necessário.

“O meu nome é Esperança, oras. Es-pe-ran-ça.”

*A autora agradece a Mario Quintana pela inspiração.
Anúncios

25 comentários em “Es-pe-ran-ça (Bia Machado)

Adicione o seu

  1. Uma mistura de pessoa e sentimento, a Esperança se vê desaparecer no coração das pessoas. Em suas cabeças é um sentimento insensato, que foge da racionalidade. Quando tudo recomeça aí a Esperança renasce. Uma nova chance, uma nova vida, ela reaparece jovem e querida por todos. Deixou de ser a louca, a estranha, no ano novo todos se veem com novas possibilidades de que tudo dê certo. Viva a esperança e a Esperança. Parabéns pelo texto. Também adoro o Quintana. Beijos.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Creio que todos os anos são assim. Nossa esperança cresce, cresce, morre e, quando se pensa que passou, que foi, que não volta mais, lá está ela, como uma chama pequenina, a despontar da mais insignificante mensagem, do mais simples gesto. Ela faz isso todos os dias, todos os meses, todos os anos. Essa esperança… Vou te contar! Engana muito bem. Parabéns pelo conto. Um grande e carinhoso abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Esperança é a última que morre. Mas quando morre, renasce sempre. Ano Novo é época justamente de renovar as esperanças, que o ano que entra seja melhor, que revigore nossas vidas.
    Um conto cheio de poesia e singeleza. Com uma imagem muito forte que é dessa moça que vive no 12 andar do prédio (que representa os 12 meses que tem um ano e também as doze badaladas do relógio na virada para o Ano Novo), solitária, sempre preocupada em observar as pessoas que vem e vão, sem lhe dar muita atenção. Então ela se joga lá de cima, se joga para a morte, suicídio. E só quando ela bate lá embaixo é que as pessoas voltam a nota-la. E a deseja-la por perto, sempre com muitos elogios. O ser humano é um bicho de memória curta.
    Parabéns, Bia! Que a Esperança te acompanhe de bom grado durante 2018 inteiro!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Querida Bianca,

    Que bom ter um conto seu por aqui!!! Espero que 2018 lhe dê brechas em seu tempo corrido para escrever e escrever muito para As Contistas.

    A esperança como um ciclo é perfeita. Gostei demais do que disse a Juliana. Ela é a última que morre, mas se renova sempre. E assim é. Na vida, nos sonhos, nos planos, no ciclo ininterrupto do tempo de nossas vidas que culmina no ano novo.

    E, quer saber? Que bom que é assim.

    Bela narrativa em uma excelente premissa. Um ponto de vista sensível, como não poderia deixar de ser. Você sempre me encanta com seu trabalho.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtir

  5. Que personificação forte para o sentimento de esperança! Parabéns para a ideia e execução de um texto tão inspirador. Mário Quintana é o MESTRE, não é mesmo? Delicadeza, sensibilidade é tudo que deveria mover o mundo. Beijos.

    Curtir

  6. Olá Bia.

    Você nos trouxe uma metáfora bastante contundente sobre a esperança, esse sentimento meio amargo quando se desfaz e meio tolo quando se renova. Gostei bastante. Parabéns!

    Curtir

  7. A esperança é sempre a convidada de honra de um ano novo, não? A esperança de um recomeçar mais feliz, carregado de cores mais alegres e leves.
    A esperança é uma menina, que se joga, se atira ao novo, e quando esborracha no concreto da realidade, levanta-se e revive. É assim o ciclo da vida, sempre a plainar sobre graças e desgraças.
    Linguagem agradável, ritmo fluído e narrativa que envolve. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Esperança – Es-pe-ran-ça ❤
    Que lindo, Bia!
    De uma angústia pelo não saber, pelo temor de algo tão desconhecido quanto inevitável, a uma transmutação e reencontro com a beleza e suavidade, própria do que é novo, e portanto, promissor.
    inspiradíssimo e nós, leitores, também agradecemos a Mario Quintana pela beleza desse conto.
    Beijos!

    Curtir

  9. Adorei o que a Iolandinha escreveu.
    O personagem é uma mistura de pessoa e de sentimento.
    É o que carregamos, é o que pretendemos… e tudo fica tão revigorado com o Ano Novo… e simplesmente se esvai, logo após.
    Esperança é um exemplo, é uma rotina… e ela foi tão poética em nos lembrar como nos vestimos de branco sem nem mais saber por que motivo…
    olá Esperança!
    adeus Esperança!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Sabrina, obrigada pelo comentário! Já me vesti muito de branco, amarelo, vermelho,para cada cor um desejo diferente. Hoje só quero vestir uma roupa confortável, não importa a cor. 😉

      Curtir

  10. Olá, Bia!

    A esperança personificada não poderia estar em melhores mãos. Esperança que transcende, que transforma, que renasce a cade mergulho profundo na vida ou em nós mesmos. Muito bom.

    Curtir

  11. Bom seria se a esperança não fosse aos poucos sendo esquecida no decorrer do ano… Texto muito bom. Demorei pra perceber o sentido conotativo da narração, rsrs, até visualizei a senhorinha se atirando da janela hahaha, acho que ando lendo histórias de terror em demasia :p Muito bom. Abs ❤

    Curtir

  12. Oi Bia, quando cheguei no seu conto, o ano já começou, já se vão quase dois meses, o horário de verão terminou, o carnaval acabou, a brincadeira terminou, agora o bicho vai pegar, a dona esperança será chamada incontáveis vezes para segurar o ímpeto de pular da janela. Belíssimo texto, o componente esperança vem sempre junto no kit de ano-novo, além da lentilha, romã, sete ondinhas (olha a Juliana Calafange aí gente!). Que a nossa esperança pra escrever textos belíssimos no blog esteja sempre presente. São os meus sinceros votos! Bjs.

    Curtir

  13. Olá, Bia. Que prazer ler a sua presença aqui. Foi promessa de ano novo? Esperança de ter mais tempo este ano? Gostei muito do paralelismo que estabeleceu entre o nome próprio e esse sentimento que nos alimenta a alma, tal como este conto o fez. Gostei imenso. O tempo todo fui lendo uma velhinha despojada de tudo, até de uma última esperança em algum telefonema de alguém que a recordasse. No final, qual Fénix, eis que renasce, não das cinzas mas da queda, fazendo jus ao nome. Muito bom. Parabéns. Um beijo.

    Curtir

  14. Olá! Dona Louca Esperança!
    Ficou muito doce esta adaptação em prosa do poema.
    Já eu tenho um desejo contrário.. transformar muitos textos, contos e tal em poemas!! hehehe
    Fiquei pensando que é mesmo, né? As pessoas só lembram de ter esperança no dia 31 de dezembro, dormem e quando acordam no dia primeiro, sequer lembram q existe essa tal, e ela vai se afastando, afastando.. lá pro último andar.. qd de repente, é dezembro de novo e todo mundo lembra, mas só enquanto é velhinha.. bastou mudar o dia para o dia primeiro e zum! quem é vc, mesmo?!
    rsrs
    Abração,Bia

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: