Vida às avessas – Ana Maria Monteiro

19 de janeiro de 2009

Mãe,

Não sei o que se passa nem onde estou, mas é bom.

Não sinto nada, apenas calma – como se flutuasse numa nuvem de algodão.

E não há emoções, apenas este bem-estar. Foi-se a negritude, o desespero, o abismo.

Escrevo apenas para te descansar. Sei que estás sempre preocupada comigo.

Eu estou bem. Beijos.

Eva

20 de janeiro de 2009

Eva! Filha! Terei enlouquecido? Como me surge uma mensagem tua no computador? Será que tive um episódio de sonambulismo?

Mas se nem dormi…

Não durmo, Eva. Não durmo, não como, não aceito ver-te assim, nessa cama de hospital, há quase duas semanas, entre a vida e a morte.

Porque o fizeste, filha? Porquê?

Não entendo, Eva. Tinhas tudo para ser feliz, filha.

Adoro-te, meu amor.

Se esta mensagem tem algum significado, que seja o de que vais acordar desse estado e voltar à vida. À tua, à nossa.

Acorda, filha. Por favor.

21 de janeiro de 2009

Mãe,

Continuo bem, mas ao ler as tuas palavras recordei-me.

Sei como vim aqui parar. Parece que não deu resultado.

Estou tão bem agora, mãe! Não quero regressar.

Nunca fui feliz, não nasci para isso. Ninguém me perguntou se queria nascer, mãe, mas com certeza não o desejei.

A vida é aflitiva. Toda a gente sofre. Eu sempre sofri. Por que acreditas que deveria ser feliz? A felicidade não é compatível com a vida.

Não sofras, mãe, aceita. Não tens culpa, não há culpas, apenas diferenças.

Estou tão bem assim! Não sinto, não sofro, não há emoções.

Se me amas, liberta-me. Deixa-me partir.

Amo-te, mãe.

22 de janeiro de 2009

Filha,

Devo ter enlouquecido mesmo. Imagino que estou a ler-te e ainda por cima, só leio disparates.

Eva, meu amor, por favor, melhora, recupera depressa.

Não sei, não quero, viver sem ti, filha.

Já sinto aquele hospital incrustado em mim – o seu cheiro, o rumor das máquinas e dos aparelhos que assaltam o teu corpo, mas te mantêm viva.

Não posso mais, Eva.

Acorda, filha, acorda!

23 de janeiro de 2009

Mãe,

Não mudas mesmo, és cega a tudo o que não seja o que tu queres. Sempre foram assim, tu e o pai. Não quero magoar-te, mas não posso evitá-lo.

Há anos e anos que carrego sobre os meus ombros a responsabilidade sobre as vossas vidas. Sempre vos foi fundamental que eu fosse feliz, inteligente, boa aluna, boa atleta, boa em tudo.

À mínima coisinha iam a correr comigo para médicos, psicólogos, pedagogos, psiquiatras… Encheram-me de drogas, quiseram obrigar-me a ser feliz – apenas para que vocês o fossem. E nunca me deram ouvidos, apenas os vossos desejos e conceitos.

Eu fui, por muitos anos, criança, adolescente, jovem (ainda sou) e fui a responsável pela vossa felicidade durante todo esse tempo.

Não compreendem que é demais?!

Não quero! Nunca quis! Mas era apenas criança, não tinha vocabulário para me defender (suponho que nunca terei).

Fui boa aluna para vos agradar, aprendi violino para que se sentissem satisfeitos, fui bem comportada porque só assim se sentiriam bem, fiz ginástica, ballet, natação… fiz tudo o que vocês sempre quiseram.

E sempre a responsabilidade de vos proporcionar o que esperavam da parentalidade, da vida, dos vossos sonhos e anseios que projectaram para mim.

Como podem não compreender que deveria ser o oposto?

E fui infeliz! E sozinha! E triste! E nunca quis viver.

Sempre quis o abismo que me chamava, mergulhar nas brumas e na escuridão que me ocupavam a mente e eram o meu destino, o meu verdadeiro ser.

Se acham a felicidade uma coisa assim tão importante, porque não constroem a vossa em lugar de quererem obrigar-me a ela?

Adoro-vos, mãe, mas preciso libertar-me. E não quero regressar. Quero estar aqui (seja lá onde for que estou), livre e solta, sem amarras.

24 de janeiro de 2009

Filha,

Obviamente enlouqueci. Só posso ser eu quem escreve as mensagens que me aparecem como vindas de ti.

E só escrevo desvarios incompreensíveis.

Vou apagar todos estes disparates ridículos e desligar o computador até que melhores.

Espero recuperar a sanidade mental depois disso.

Melhora depressa, filha. Preciso de ti.

Mãe

 

******

28 de fevereiro de 2018

Filha,

Passaram mais de nove anos desde saíste de coma e tiveste alta do hospital. Não te recordavas de nada, claro, até porque fui eu quem escreveu aquelas mensagens absurdas. Tudo parecia bem, nunca quiseste falar do assunto, mais reservada que nunca. Dócil, melancólica, sempre triste, raramente sorrias.

Devia ter percebido, devia ter calculado que tentarias de novo. Mas preferi acreditar que tinha sido apenas um gesto inconsequente, uma “chamada de atenção”, como disseram os médicos. Nunca me perdoarei e nem sei ao certo pelo quê. Só sei que não vivo um único dia em que não sinta a tua falta, a tua ausência. Em Junho, completar-se-ão nove anos sobre esse último dia em que falaste comigo ao telefone como se nada fosse, imediatamente antes de tomares todos aqueles comprimidos e nos deixares para sempre neste vazio que nada pode preencher e onde o silêncio é infernal.

Tenho tantas saudades, Eva! Nada faz sentido, não tenho qualquer propósito, arrasto-me pelos dias que se sucedem, sempre iguais. E nem posso pedir-te que melhores, ou regresses, ou seja o que for. A morte é definitiva, não tem depois.

Até sempre, filha.

1 de março de 2018

Mãe,

Estou em paz.

Eva

14 comentários em “Vida às avessas – Ana Maria Monteiro

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  1. Olá, Ana!
    Muito forte o teu conto e o leitor caminha por ele enredado pelas culpas, pelas aflições, torcendo para que a mãe não esteja delirando e para que a filha viva, apesar das culpas, apesar do sofrimento. Mas a vida é um eterno sofrer. E renascer. Uns conseguem. Outros sucumbem. Muito, muito bom. Não dá para ficar indiferente a esse sofrimento tão humano. Destaque especial para a foto que revela muito, desde o início.

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    1. Obrigada, Sandra. Obrigada pela sua leitura e pelas palavras. Não sabia o que escrever, até que li um post da Bianca no qual ela se interrogava nas motivações que levam ao suicídio. Também não sei. É algo em que pensei inúmeras vezes ao longo da vida (tanto em relação a jovens, quanto a adultos) e nunca encontrei explicações satisfatórias. Mas sei que existem jovens que vivem aprisionados dentro de si por um total desamor pela vida. Alguns resistem ao suicídio, a maioria não. E não há culpas. É assim. Compreender um humano em toda a sua amplitude não seria com toda a certeza mais simples que desvendar os segredos do universo que desde há séculos os mais eminentes cientistas buscam sem grande êxito, não é? Um grande abraço.

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  2. Ana, querida! Seu conto mexeu muito comigo. A correspondência de uma mãe consigo mesma, procurando onde ela teria errado…
    Nós mães só queremos que nossos filhos sejam felizes, custe o que custar… Eu entendo essa mãe. Tenho que me policiar pra não colocar o peso da minha felicidade sobre os frágeis ombros dela. Gostei bastante! A filha morrer no final ficou triste, mas fez com que ficasse mais real. Pobre mãe. A pior dor do mundo deve ser a de perder um filho…
    Um abraço!

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  3. Obrigada pela sua leitura e comentário, Priscila. Sabe? Eu deixei as duas possibilidades em aberto, mas para mim foi a filha quem realmente escreveu (vá-se lá saber como!) enquanto a mãe, cega, continuou sempre a preferir acreditar que fez tudo bem. Os pais depositam demasiadas expetativas nos filhos e isso, muitas vezes, é causa de grandes problemas, até de suicídios. O peso dessa expetativas pode ser excessivo para uma criança/jovem tão cheio de fragilidades quanto nós próprios e ainda a tentar aprender a lidar com todas essas emoções. Mas como você leu, também é válido. Como disse, deixei a possibilidade para ambas as leituras. Um abraço.

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  4. Para aqueles que os vêm de fora, um grupo de jovens parece uma massa indefinida de pessoas iguais, que pensam da mesma forma, têm os mesmos gostos e os mesmos ideais. Ledo engano, entretanto. A sua história, Ana, vem mostrar os problemas, as expectativas que diferenciam cada um. Texto intenso, com uma comunicação sobrenatural entre mãe e filha, cativante e reflexiva. O título é bastante sugestivo e experimental. Parabéns pela ideia e execução. Amei. Beijo.

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  5. Ao invés da carta de uma jovem suicida você optou por uma troca sobrenatural de mensagens entre a jovem que tira a própria vida e a mãe que não compreende o gesto extremo da filha. Com isso, o drama ficou ainda mais intenso e pungente. Intriga-me que motivos levam os adolescentes a cometer suicídio. A cobrança excessiva dos pais, tal como retratado no seu conto, pode ser um sofrimento a mais para os adolescentes na difícil transição para a vida adulta. Um conto triste, um tema atual, um alerta para os pais.Parabéns pelo ótimo texto! Beijo

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  6. Querida Ana.

    Li o conto sem saber que era seu. Só depois me atentei ao detalhe.

    Uma história muito sofrida. Coisa de mãe.

    Interessante notar que a narrativa deixa o leitor aberto a varias interpretações. Seriam as mensagens da filha reais? Seria a mãe na tentativa de se perdoar? Mães vivem culpadas, não é mesmo? Por perfeitas que tenham sido, sempre se culpam pela felicidade ou não de seus filhos.

    Um texto doído.

    Parabéns por seu trabalho.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Eu jurava que já havia comentado este conto. Foi um dos primeiros que li, mas de qualquer forma, foi muito bom fazer uma releitura.
    Um texto sensível, que traz a relação mãe/filha e seus conflitos. As primeiras mensagens da filha foram escritas pela mãe, pelo que entendi. Somente a última, declarando estar em paz, foi da jovem. Suicídio é um tema complicado para mim, mas ao mesmo tempo, funciona como catarse. Talvez, por isso, inconscientemente, tenha evitado comentar este conto. Amanhã completará 32 anos da partida da minha mãe (sim, eu sou um bocado eufêmica), mas estas coisas nunca se esquecem. Levem 1 dia, 9 anos ou décadas.
    O ritmo da narrativa é bom, com a intercalação das mensagens : mãe e filha, imaginação e loucura?
    O final achei sensacional, o clima de mistério, de sobrenatural, que carrega em poucas palavras toda a esperança de uma mãe – saber que sua filha está bem.
    Parabéns!

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  8. Criatura… Só faço chorar nesse blog de contistas… Não. Não culpo você. Nem ninguém. É o momento. E essa história mexeu comigo. Quanto sofrer e desentendimento. Por quer se menospreza a vida? Por que não se entende o verdadeiro sentido? Por que se busca exatamente pelo contrário? Qual é o propósito de viver? E por que é a solidão que nos abraça? Tantas reflexões que você escreveu… Por que a felicidade está sempre longe e passa despercebida? Acha que somos egoístas preferindo a vida? Acha que somos covardes querendo fugir da morte? Tem tanta carga emocional em seu conto que precisei ler em partes. Parabéns.

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  9. Uma relação que transcende a vida. A garota, ainda ligada à existência, devido ao sofrimento da mãe, não consegue se libertar e viver numa inexistência agradável, suave, pois por todo o tempo em que viveu no nosso plano se sentiu inadaptada. A comunicação é permeada por lembranças, dores e culpas, e, principalmente pela absoluta inconformidade com o destino. Muito bem escrito, profundo, triste, emocionante.

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  10. Ana, o seu conto mexeu particularmente comigo, por tratar de uma realidade que vivencio muito, com adolescentes e mães de adolescentes. Bastante complicado ser mãe de adolescente no mundo tecnológico de hoje, eu mesma tenho um em casa. “Encheram-me de drogas, quiseram obrigar-me a ser feliz – apenas para que vocês o fossem. E nunca me deram ouvidos, apenas os vossos desejos e conceitos”. O tal dos controles, exercemos controles sobre os nossos filhos para protegê-los do mundo lá fora, acho que na verdade para nos protegermos de sofrimentos, melhor deixá-los num lugar confortável, que já conhecemos, com Wifi, Netflix e banda larga. Só que sorrateiramente as suas personas estão sendo construídas, em um mundo silencioso e por vezes distantes do alcance dos pais. A Dra Eleonora Luzes, na terapia transgeracional, fala que os filhos adoecem para comunicar os pais, assim as doenças físicas e emocionais dos filhos são questões não tratadas pelos próprios pais. Enfim, o seu conto é bastante denso e dolorido e dá margem pra muitas divagações psicoemocionais. Parabéns pela sensibilidade, bjs.

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  11. Fortíssimo conto, um tema que está muito presente na minha vida, pois infelizmente está cada vez mais frequente saber de ex-alunos que se suicidaram, com 15, 18, nossa, tão jovens… Ele está cada vez mais presente em nossas vidas, quando o diálogo é que deveria estar… Muito bom, Ana, valeu pela reflexão, apesar do tema um texto que li de forma fluida. E também me lembrei de um romance da Isabel Allende, escrito enquanto a filha estava em coma.

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  12. O amor tudo pode. Essa frase bíblica (e real) me veio à cabeça ao ler seu conto, Ana.
    Muito bom, me senti envolvida pelas razões apresentadas pela filha para simplesmente escolher não viver, enquanto a mãe suplica que ela lute com todas as suas forças para retornar ao convívio – convívio este considerado feliz e natural para a mãe, e considerado esgotado para a filha.
    Há aqui uma questão muito pertinente: quantas vezes não queremos/prendemos entes queridos ao nosso lado, não para o bem deles, mas apenas para evitar nosso sofrimento, ou tornar mais suave nosso rastejar sobre a terra?
    Não entro na questão pois tratando-se de suicídio temos, normalmente, nossas ideias formadas e os que consideram tal atitude, geralmente, estão fora do juízo (será mesmo?).
    Vi um embate entre mãe e filha, a vida e a morte, uma vitória aprente da filha, mas que tão bem você demonstrou no seu conto: a ligação entre mãe e filha continuou, é eterna.
    Admirável conto, sou fã.
    Beijos

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  13. Olá.
    Com certeza um conto forte. Vemos o remorso de uma mãe que não sabe (ou não quer ver) onde errou, se é que errou, afinal, ninguém é dono da vida de ninguém. Me pergunto por que motivo colocamos filhos no mundo? É um ato totalmente egoísta, não pensamos se eles querem viver, só pensamos em nós mesmos, nos nossos sentimentos. Seu conto mostrou claramente os sentimentos que assola a filha, toda a dor de viver, a vontade de deixar de sentir. Será que o suicídio assistido não deveria ser adotado por todo país? Por que uma pessoa é obrigada a viver quando ela não se sente bem nesta vida? Perguntas que, creio, nunca terão respostas…
    Abs ❤

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