ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst

  • 21 de dezembro

Depois de alguns atropelos insones, a noite deita-se preguiçosa de futuros. Cansada do que ainda nem aconteceu, recolho em minhas pálpebras o peso do que virá.

Este será provavelmente um verão inesquecível, pelo bem ou pelo mal. Mal ouso pensar no sol nestes últimos dias. Fugi da praia, do mar, das calçadas coloridas pelo vai e vem dos turistas. Um mês inteiro de retiro voluntário, pois me sinto angustiada, cheia de reticências no lugar de certezas.

Sei que não sou mais uma adolescente, mas também não estou velha demais para errar. O problema é sempre o tamanho do erro cometido.

Teço sonhos em fios de vã esperança, o dia encolhe-se antes de nascer. Há dor e medo no antevir. Como uma promessa maldita, as horas primeiras recusam-se a vir. Escondem-se sorrateiras atrás da porta das possibilidades.

Não há como impedir o amanhecer, a dúvida prevalece.  Tenho cautela com meus receios, mesmo que me pareçam tolos. Temo porque me sinto pecadora frente a terríveis inquisidores.

Não, não é hora. É apenas um atraso, mais um em minha vida. Uma pausa, um ponto de interrogação, ou talvez reticências.

22 de dezembro

O desejado recomeço desenha-se distante, sem maiores explicações. Mais uma noite avança com passos claudicantes de desculpas poucas. Antes de tornar públicos seus raios, o sol aconchega-se na coxia, esperando o momento certo de brilhar. Não tem pressa, nem vontade, apenas sabe ser.

Travesseiro e lençol amassam as mesmas certezas. Virá de novo o visitante incerto? E depois de todas as ilusões despidas sob o luar, costuram-se novas vestes, sob o véu de esquecimento.

Não entendo esta espera. Talvez eu deva sofrer pela ausência do nada e entender a criação que não existe em mim. Quero o vermelho, quero me alimentar da frustração de mais um ciclo, quero reviver o esquecimento.

Não sou tão tola como pensam. Sei que lido com assunto sério. O que farei se tudo o que temo se transformar em realidade? A quem enfim apelarei? A quem entregarei a responsabilidade?

Ele não me ama. Sei disso, sempre soube. O que importa isso agora? Foi só mais um engano. Sempre pretendo me relacionar de verdade, mergulhar em um romance. Sempre tenciono ser parceira de alguém, mesmo sem ter vocação alguma para bancar a mocinha.

Sempre que nos víamos, logo surgia aquela nuvem de poeira. Talvez fosse mera lembrança planando sobre os momentos mais doces. Pó a provocar tosse e encantamento. Fragmentos de estrelas ou pedaços de todos os sonhos despedaçados na espera. Valeu a pena cada segundo trabalhado em silêncio.

Ah, mas os homens são todos uns covardes emocionais. Eu, não. Sou filha da Lua, entrego-me sem hesitar. Não posso deixar de seguir em busca por sentimentos maiores. Sou o que sou. Eles não me entendem e, talvez, assim seja melhor. Estão sempre cobertos por máscaras coloridas, prontos para mais uma atuação.

Desafiei este homem com a possibilidade de um envolvimento e ele se foi como todos os outros.  Eles nunca ficam. Estão sempre partindo.

23 de dezembro

Outra vez, tento recordar planos antigos, revisitar tesouros abandonados e aceitar a derrota sem desculpas. Recuo quase sorrindo como se fosse possível reconstruir algo que já se deteriorou.  Se fosse possível, eu teria mais respostas. Se fosse seguro, eu buscaria novos riscos.

Nos últimos dias, tenho rasgado páginas e páginas dos meus diários e talvez tenha me rasgado também por dentro. Sinto a violência da dúvida invadindo meus sonhos. Sinto-me como que agredida constantemente.

Espero sobreviver a mais um mês, pois anseio pelo sol. Recuso-me a esgotar minha vida em pleno verão.

Tenho muitos desejos fermentando em mim. Sinto-me culpada por querer que o meu ventre negue qualquer intenção de prisão. Espero que meu raciocínio não falhe. Devolvo qualquer presente divino, renego a perfeição do milagre. Não tenho o ventre cheio. Não tenho!

O temor desliza pelo corredor das horas, bate nas portas erradas só para ter certeza de não me poupar. O que parecia ser, desaparece.

Não mereço gerar nada deste erro. Por mim, apagaria da memória qualquer passo dado naquela direção. Negaria meus muitos enganos só pelo só pelo desejo de esquecê-lo  um pouco.

Acho que mereço o perdão, pois estou sofrendo, perdendo fronteiras e limites por causa do ontem.  Quero poder pensar no hoje e no amanhã. Pretendo esquecer a dor, mesmo que haja outras tantas a minha espera.

É importante para mim que haja luz, alegria e esperança.

 24 de dezembro

Véspera de Natal e nada de presente. Só o passado me espreita com seus olhos devoradores de futuro. Tento escrever sobre as coisas que me revestem por dentro. Das pequenas bobagens que vêm, de repente, à mente e se perdem na língua. Sei que ninguém percebe o que sopra em meus ouvidos. Tanto faz, diriam. Tanto faz.

Não é que eu não me importe. Na verdade, percorro todos os riscos. Assim faço só para desfrutar de um momento a sós com o destino. Eu e o alfaiate sem hora marcada.

São tantos cruzamentos que me confundo e desconheço minhas próprias laçadas. O desfazer é tão cansativo que evito novos bordados. De tantos pontos e detalhes me preenchi que não posso mais enfrentar a agulha da indecisão. Alinhavo minhas intenções antes que o tecido ceda e a esperança se rasgue.

O que era garantia virou nostalgia. Talvez não fosse para ser. Talvez o dia só apareça para fazer graça. Suave intruso no mês que não termina. Aquele que tem tudo para ficar e se nega. Por ter mais valor sendo surpresa, curva-se à luz. Belo e eterno, mesmo sem ser.

26 de dezembro

Papai Noel não me trouxe o presente pedido. Resta-me devorar as sobras do que se fez festa. Lambuzo-me de oportunidades perdidas, de riscos amanhecidos.

Não entendo o que me oprime tanto nesta situação. Preciso de uma confirmação, um habeas corpus que me traga à vida novamente. Tento pensar em qualquer coisa que não seja a solução deste dilema.

Será ao meio-dia, talvez à meia-noite. Entre os giros do relógio, no vazio das horas. Parecerá ser de repente, um esvaziar de sentido e intenções. Sem tempestades a arrancar raízes. Sem barulho, apenas um sussurro.

Pensarei que não houve aviso, mas o anúncio fui eu mesma que escrevi. Com todas as letras, uma a uma entalhadas no tronco do que cresceu sem permissão. Seiva e lágrimas já terão secado. Vaidade e orgulho já terão apodrecido.

Mas por enquanto, tudo esmorece.

A vida parou para mim. Se eu estiver errada, tudo mudará. E eu não saberia como mudar. Não agora.

Parei de viver. Apenas respiro. Não vivo. Apenas sobrevivo.

27 de dezembro

Apenas pequenos indícios. Quando tudo terminará? Como terminará? Receberei alguma punição? Quero a luz e hei de alcançá-la.

No meio do nada, entre as nuvens lapidadas pela chuva e culpa, um vão de possibilidades surge. Não me parece ser um caminho claro ou plano sobre o qual se poderia seguir sem dúvidas. Apenas uma hipótese remodelada, desenhada nos tons de um novo dia.

Torno-me cada vez mais tensa, sem agilidade mental, arisca como um felino correndo em direções opostas. Sinto-me tolhida, ameaçada pela instabilidade lunar, apavorada com o engano indevido.

Talvez eu deseje um filho, mas não agora. Não dele. Não assim. Adivinho-me livre, agraciada por uma nova chance.

28 de dezembro

O dia da liberdade chegou! O meu livramento revelou-se em uma sangria velada. Ainda não é chegada a hora, mal consigo parar de sorrir. Ao mesmo tempo, uma ponta de fracasso insinua-se em meu corpo. Não faz mal. A liberdade tem o seu preço.

O merecido acaso desfaz as pegadas na areia do esperar. Posso agora seguir, tropeçar, confundir os dias e deixar de contar as luas.

Releio as últimas páginas deste diário com um olhar de gratidão. Sinto-me cúmplice de mim mesma. Há muito, deixei de ser obediente a qualquer regra. Rasgo o protocolo esperado e agora estou pronta para esquecer e começar a viver outro momento.

Feliz, ajoelho-me diante da vida e reverencio o medo como um morto querido. Acima de tudo, sou grata. Faço o trajeto inverso das minhas opções, dispo minhas intenções e não antecipo mais desejos. Estranha liberdade. Bendita liberdade.

Este será o melhor verão da minha vida.

 

11 comentários em “ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst

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  1. Oi, Claudia!
    Gosto imensamente dos seus contos, todos têm uma poesia infinda, ao mesmo tempo uma fortaleza e direção impecáveis.
    E assim é com Escrevo-me…, a história de uma mulher, de paixões, de luas e desejos e (in)consequências, a angústia e desabafo final de um alívio, ainda que envolto em um que de frustração.
    que mulher nunca passou por isso, de uma forma ou de outra?
    Somos escolhas, somos vitais.
    Amei seu conto,
    Beijos!

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  2. 2. A principal característica da prosa poética está na dinâmica extensiva do texto, em geral, com as imagens invocadas. Um texto escrito em forma de prosa pode ser considerado “poesia”, se sua função for poética. Aqui não faltou nada disto. Estas páginas de diário estão ricas de emoções e sentimentos, a sonoridade das frases foi trabalhada, ocorre um olhar lírico sobre a realidade. Enfim, um texto lindo, envolvente, cativante. Parabéns pela ideia e pela construção em que comunicou uma vivência estética intuitiva e ao mesmo tempo lógica, livre, com fisionomia própria. Parabéns pela sensibilidade e sutileza. Gostei muito! Beijos.

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  3. Ei Claudia! Li três vezes seu conto antes desse comentário. O que dizer? Maravilhoso! Elegante e sutil, ricas imagens, construções frasais impecáveis para falar de um tema com que todas nós mulheres nos identificamos. Muito bom! Aplaudo de pé! Beijos.

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  4. Olá, Cláudia!

    Seu texto tem sua marca na poesia que deixa em linhas que o leitor nunca quer que terminem. A beleza das imagens, a elegância da linguagem, a temática tão inerente à problemática feminina são preciosismos que engrandecem seu conto. Não há mais o que dizer, apenas ler e reler. Amei deveras! Parabéns!

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  5. Querida Cláudia,

    Gostei muito do formato de diário. Não o diário que temos em nosso imaginário, o infantil, o juvenil. Mas o adulto. O confessional. Aquele no qual a narradora despeja seus medos, a ansiedade, a tensão na expectativa da espera, o desespero de se perder o chão. E depois, o alívio, o esvaziar-se para renascer e recomeçar do zero, como em um ciclo.

    As datas pontuadas deram um toque não só de diário propriamente dito, mas do passar o tempo, das horas arrastadas enquanto se espera na incerteza.

    Se eu fosse você, eu investiria no formato, com as datas e tudo o mais, só que em um ciclo completo, de 28 dias de uma mulher.

    Parabéns, sempre inspiradora.

    Beijos
    Paula Giannini

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  6. Olá, Cláudia. já tinha lido o seu conto há algum tempo e li-o de novo agora para poder comentar. Consegui entrar com imensa facilidade na pele dessa mulher por quem os minutos se arrastam, a narrativa está muito autêntica. O medo, a dúvida, a expectativa que se prolonga perante algo que se teme e deseja em simultâneo, tudo isso é, de alguma forma, familiar e está muito bem retratado. As entradas no diário são fortemente confessionais. Gostei muito. Parabéns.
    Beijos

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  7. Olá, Cláudia

    Um texto muito bem escrito e poético, coisa de quem domina a arte da escrita. O conto foi escrito como se a autora fosse um ourives, esculpindo a joia com destreza. Vc é uma escritora pronta, parabéns e sucesso.

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  8. Não há como negar a beleza embutida em cada escolha de palavras. Acho isso maravilhoso. Porque derrama em mim um infinito de sentimentos. Quem é a mulher? Quem é ela? Não importa. Ela se materializa a cada linha que leio. Minha voz vai destrinchando as frases e todos os sentidos afloram. Mulheres são, definitivamente, seres complexos, poéticos, e ao mesmo tempo, firmes, fortes, sempre em ascensão. É como ler um manifesto eloquente, direto, poético. Uma manifesto à vida, à liberdade, ao que se quer, aos desejos e a satisfação de alcançá-los. Um manifesto para celebrar um ciclo, um começo-meio-fim. Parabéns pelo conto! Um grande e carinhoso abraço!

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  9. Texto embebido de poesia, uma melancolia proveniente da ressaca de amores com data de validade vencida, enganos e desenganos do coração, e o sol batendo na porta, pedindo passagem para entrar. Belíssimo, muito lirismo, sem rimas. Bjs.

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  10. Olá!
    Alívio! rsrsrs, esse é o sentimento que fica depois de encerrar a leitura desse conto poético, carregado de melancolia, medo, temor da incerteza. A mulher que nunca passou por isso que atire a primeira pedra! Que o ciclo recomece e que ela não passe mais por um susto destes! Abs ❤

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