CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo

Minha Sacerdotisa,

Tenho pensado em tudo o que ocorreu. Estou ciente de que passaste a viver em meio ao horror e no isolamento. Todavia, não posso deixar de reconhecer a mulher que eras. Creio que essa fêmea desejável ainda exista por detrás desses muros petrificados que te rondam e por debaixo dessas serpentes perniciosas que te prendem à monstruosidade.

Persisto firme na minha decisão de condenar-te ao vazio, pois ainda não suporto que tanta beleza, como a tua, fosse conferida pelos deuses a uma mera mortal.

Poseidon começou a me falar de ti e eu não sei quem eu passei a odiar mais, se ele ou tu.

Não pude acreditar que vocês dois cederam à tentação justamente embaixo de meu próprio teto, na minha casa sagrada. Até aquele momento, tu me idolatravas e ele me desejava. Pouco depois, eu já não tinha mais nada. Feriu-me a honra tamanha traição, sobremaneira porque banhada a suor carnal de ambos.

Lembro-me de Poseidon vangloriando-se de ti, de te ter nos braços, de apalpar tuas carnes e de afagar teus cabelos macios, enquanto preparava seus mais vigorosos maremotos, enternecido por um entusiasmo jovial, fruto da lembrança dos momentos íntimos vividos contigo.

Enquanto me traías, eu seguia ocupada me mantendo imbatível nas guerras, até mesmo frente a Ares. Optei pela luta solitária e gloriosa. Coube a mim a virgindade perpétua, apesar de saber que sou bastante desejável para os homens e outros deuses.

Foi por isso que te tornei tão vingativa e rancorosa no que diz respeito aos homens, como eu própria sou. Foi por isso que te condenei a uma vida isolada e trágica. Eu queria que vivenciasse minha congênita falta de ternura.

Dolosamente, te penitenciei a não olhar, não acariciar, não presenciar mais nada. Tua sina é paralisar aquele que chegar a ti. Teu destino é viver rodeada de estátuas tão inertes quanto teu próprio coração gelado.

Te condenei a nem mesmo “te” olhar, pois terás nojo e raiva todas as vezes que perceberes o quão horrenda tu te tornaste por fora, como sou por dentro.

Preciso contar-te mais uma coisa. Na tua cabeça abominável, o sangue de tua artéria esquerda é puro veneno, amargo, provocador de dor e petrificação. Contudo, o de tua artéria direita é um remédio divino, com propriedades de ressuscitar os mortos. Ironicamente, permanecerás bonita por dentro, mas nunca te atentarás de usar o remédio da vida. Quando te tornei isso, tu acabaste optando pelo medo e pela infelicidade. Tu, tomada de rancor, vejo agora, só te socorres do veneno que habita metade de ti.

Minha mensagem, por isso, cara Medusa, é para reconhecer que, como minha vingança ao assédio que aceitaste, tornei-te tão dura e fria como eu mesma, incapaz de reconhecer a própria vida que ainda conténs.

Para meu regozijo, saibas tu, nem mesmo terás acesso a esse relato, pois o mensageiro que mando para entregar-te é um homem e, fraco, cederá ao desejo de encarar-te, como todos aqueles que chegarem até ti, após atravessarem o reino dos mortos. Ele será mais um ornamento paralisado à tua porta, para te lembrar que tua vida estagnou.

Nunca saberás disso, mas haverá um mortal que te libertarás, no exato dia em que te decapitares. Somente ele terá acesso ao sangue da vida que escorre de ti, o qual será usado pelo bem da Grécia.

Desse dia em diante, Zeus me perdoará pelo que fiz contigo e eu voltarei ao Olimpo.

Eu nunca serei liberta, eu sei. Mas tu, Medusa, nunca serás bela novamente.

Resta a mim, agora, vendar meus olhos e carregar a Justiça nas costas, para nunca mais ter de presenciar tamanha insolência, como a tua, embora seja meu fardo olhar pelos mortais, eternamente.

Até nunca, minha Sacerdotisa.

Palas Atena

 

* mensagem originalmente em grego dada pela Deusa virgem Atena, filha de Zeus, deusa da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade, a um mensageiro mortal para ser entregue à Medusa. O homem, apesar de atravessar a Grécia, rumo à extremidade ocidental do mundo, foi petrificado à porta do covil da górgona, diante do seu olhar paralisante.

22 comentários em “CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo

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  1. Oi, Sabrina.

    Eu quando li o título do conto e a imagem estava esperando outra coisa, não sei o que é… mas fiquei com essa sensação.

    Uma carta de Atena pra Medusa. Eu gosto bastante de mitologia e tudo que englobe esse mundo, no entanto achei a ideia da carta em si um tanto insatisfatória… não sei explicar, não me pareceu ”real” dentro da ficção a todo momento eu achei que o foco ia mudar e estaríamos nos dias atuais e tudo não passaria de uma metáfora.

    Vemos aqui duas mulheres que se entregaram a sentimentos mesquinhos, essa versão de Atena decepciona um pouco. Mas juntando tudo, principalmente a linguagem que você escolheu deixa tudo muito gostoso de ler até mesmo instigante. Não sei muito bem qual é a verdadeira História de Medusa e pq ela ficou desta forma, mas a sua versão é bem criativa.

    Parabéns pelo trabalho!

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    1. Amanda!
      Entendo a que te referes.
      Como já tinha comentado no grupo, eu fiquei com uma impressão esquisita tb, achei o conto chato.
      Na verdade, eu queria usar as duas mulheres, mas não sabia muito bem quem escreveria a carta para quem. Daí apenas fui escrevendo… e a carta saiu.
      No fim, acabou ficando exaltado o perfil vingativo e de superioridade de Atena, mas por que ela escreveria sobre isso? Apenas para ela mesma lembrar que ela é (se acha) superiora à outra, ainda que odeie saber que permanecerá eternamente virgem e que a outra sempre fora a mais bonita.

      Muito obrigada por teu comentário. Era o que eu esperava! Valeu muito!

      Obs. Atena transformou a Medusa, uma de suas principais sacerdotisas, em um monstro porque Peseidon a tomou no próprio templo de Atena. Dizem que foi puro ciúmes mesmo.

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  2. Li este conto há algumas semanas e até pensei que já havia deixado meu comentário aqui. Achei interessante essa sua abordagem da mitologia, a mensagem que nunca será recebida, pois Medusa petrifica o pobre do mensageiro. Os deuses da mitologia são arquétipos que carregam os defeitos humanos também. O ciúme, a inveja, até mesmo a ira estão representados aí nas palavras de Atena. O que não faz uma deusa quando vê sua vaidade ultrajada? Ainda mais por uma simples mortal, mas sacerdotisa de grande beleza.
    Foi uma leitura agradável, mas fiquei com pena de Medusa e da própria Atena,

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  3. Como Medusa era muito bela, Atenas, a deusa da sabedoria, escolheu-a para ser uma sacerdotisa em seu templo, a mais bela. Virgem e muito desejada, foi possuída por Poseidon, contra a vontade, ali mesmo no templo. Atenas, descarregou sua ira na inocente Medusa. Primeiro, transformou-a em ser mortal, depois lhe escureceu a pele que revestiu de escamas de réptil. Mas seus cabelos continuavam belos e sedosos, então a deusa os transformou em serpentes. Medusa foi viver com as irmãs em uma caverna, a cada dia se tornavam mais feias e repugnantes. Todos se esquivavam de passar perto com medo de virarem pedra.

    A ideia da carta foi ótima. O estilo do texto está adequado ao assunto. Não há quem não se sensibilize com a história de Medusa, da injustiça que sofreu e do seu trágico fim, e não se perguntam por que Atenas preferiu puni-la ao invés de vingar-se de Poseidon. Para Freud, ela representa a castração, associada na mente da criança à descoberta da sexualidade materna e sua negação. Para outros psicanalistas, representa os conflitos não-resolvidos de Atenas com o seu pai, sugerindo que as filhas decepcionam os pais ao se casarem e se associarem a um macho diferente. As feministas a tomaram como símbolo contra as imposições do machismo. Para a maioria é só mais uma história de injustiça contra a mulher. Você nos retratou a trama como um caso de inveja, de ciúmes. Gostei desse novo ponto de vista. Parabéns pela ideia e execução. Beijos.

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  4. Até fiquei com pena de Medusa… Mas depois lembrei-me das fases de “God of war” e a pena passou rsrsrs. Não sou conhecedora das mitologias gregas, mas a carta fez muito sentido. Uma leitura agradável de se ler. Abraços ❤

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  5. Ah… O ciúme… Não sei se há outro sentimento tão corrosivo para uma mulher do que ele. Porque ele faz crescer um mal que é quase impossível aplacar. E aqui, você traz a questão da imagem. Mulheres e imagens – e as imagens que têm de si mesmas – estão interligadas há muito tempo. Desde sempre eu creio. Pergunto-me se o lado feminista da contemporaneidade, e até que ponto, passa por cima dos egos e do encantamento vil que a beleza provoca. Boa reflexão. Parabéns!

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  6. Seu conto vale como uma reflexão sobre o ciúme e a inveja e a devastação que esses sentimentos podem causar, quer do lado ativo de quem a sente, quer do lado passivo de quem é atingido por eles. Acho que nós mulheres somos as grandes vitimas desses sentimentos. O detalhe engenhoso do seu conto é que Medusa não receberá a mensagem em que Atena esclarece suas motivações, pois o mensageiro que a leva será tornado pedra antes de entregá-la. Soou-me como uma alegoria da certa incomunicabilidade entre mulheres, tanta vezes mediadas pela voz dos homens que as cercam nessa nossa sociedade tão machista. Gostei! Beijos!

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    1. Taí, não tinha pensado sob esse aspecto, sobre uma “certa incomunicabilidade entre mulheres, tanta vezes mediadas pela voz dos homens que as cercam nessa nossa sociedade tão machista”. E por que não? Boa interpretação. Obrigada.

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  7. Querida Sabrina,

    Tudo bem?

    No teatro costumamos estudar os mitos da Grécia. O tópico desses estudos, no entanto, costuma ser mais a história do mito e si, que aquilo que, muito provavelmente ele nos comunica.

    Obviamente tais mitos, que permaneceram vivos até hoje, têm uma força arquetípica inigualável e cala em nós algo de bem mais profundo que suas próprias histórias.

    Sua carta, (surpresa aqui no meio de nosso exercício epistolar) me fez refletir um pouco sobre a condição da mulher. Mulheres na Grécia eram consideradas inferiores (grande novidade), cidadãs de segunda classe, ou melhor, não eram cidadãs.

    De certo modo, ao que me parece, desde tempos imemoriais, fomos fadadas a fazer parte da história (mesmo a ficcional) como uma espécie de ícone do mal. Quando belas, somos monstros, quando sábias, ardilosas, quando amadas, devassas, e, se acaso nos destacamos como líderes, vem logo colada à narrativa, uma história de vícios, lascívia e inveja desmedida.

    Medusa é uma injustiçada. Sequestrada e violada, é castigada pela rival em beleza e amor.

    Sua carta, para mim, toca justamente nesse ponto. A rival sabe que errou, sabe-se mulher, traída, sente-se culpada, mas ainda assim, odeia na outra aquilo que não teve, além de odiar os homens e sua natureza. Sua carta de mea culpa jamais será lida por Medusa. As histórias de Deuses Gregos são implacáveis e a autora aqui, não foge do tom para homenagear o berço de nossa civilização e suas tramas de tragédia.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Querida Paula,

      Como sempre, tu pegaste a essência da essência da essência do que eu quis passar no meu conto.
      Através da história as mulheres vêm recebendo modelos de comportamento, de como agir e de quando agir. Atena só via essa opção, de confrontar a Medusa, porque Poseidon era homem.

      Obrigada pela leitura tão atenta e crítica!
      Beijos

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  8. Amo mitologia! Conheço a história de Medusa associada à lenda de Andrômeda e Perseu, que matou a mulher com cobras no lugar de cabelos para petrificar um titã que iria devorar a sua amada. As duas coisas que mais amo em literatura: contos de fadas e mitologia. Os deuses eram mesmo cheios destas terríveis vinganças, castigos, trabalhos impossíveis de serem realizados. Acho que eram para mostrar o quanto eles tinham sentimentos e paixões humanos, mesmo porque eles são arquétipos de comportamentos.

    Parabéns pelo conto, pela escolha, deu vontade de ler a história da própria Medusa e aprender mais. Beijos!

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    1. Que bom Iolandinha, eu também gosto de mitologia.
      Na verdade, a história da Medusa é muito presente lá em casa porque meu filho de 6 anos a devora desde muito cedo. Ele ama cobras e tudo o que diz respeito a elas e se encantou desde que viu um ramalhete de cobras na cabeça da Medusa.
      Leio e assisto histórias dela e de Perseu faz tempo lá em casa e daí veio a vontade de escrever esse conto, encaixando-o no tema epistolar.
      Obrigada!

      Curtido por 1 pessoa

  9. “Resta a mim, agora, vendar meus olhos e carregar a Justiça nas costas”, essa justiça humana cheia de pecados mortais. Adoro contos da mitologia, deuses e mitos, tenho um pezinho na Grécia Antiga, outra no Egito, quase fui uma historiadora. A sua narrativa já começa primorosa pelo título, e vai num crescendo revelando uma mulher cheia de rancores e vingança, remontando os arquétipos humanos de crueldade, inveja, propiciando ao leitor uma leitura dos deuses. Bjs.

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    1. Puxa, Rose, “leitura dos deuses” também não… rsrsrsrsrsrs
      Obrigada pela leitura!
      Gosto muito de mitologia também.
      Beijos

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  10. Oi, Sabrina!
    Li o seu conto há um bom tempo já, pensei que tivesse comentado, mas me enganei.
    Gostei demais da abordagem que você deu ao mito de Medusa – um ser mitológico com tantas interpretações passando pela psicologia e artes, chegando ao mundo da magia e afins rs – enfim, uma carta de Atena para a agora monstruosa criatura, punida de forma bem cruel pelo fato de “ousar” seduzir Poseidon.
    A carta de Atena funciona como um desabafo, uma explicação e até mesmo um peso que a deusa tenta tirar dos ombros, mas que traz mais à tona o sentimento tão humano de vingança.
    Sempre sinto pena da Medusa, fico imaginando aqui Perseu decapitando o ser e fazendo de sua cabeça um instrumento, ainda por cima.
    Gostei muito mesmo, parabéns!

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    1. Exatamente, Renata! Além de ter sido punida por ser bela e ter seduzido outro deus, Medusa acabou perecendo para que usassem sua cabeça, logo o símbolo do seu castigo.
      Também tenho pena dela.
      Beijos

      Curtido por 1 pessoa

  11. Olá, Sabrina. Li o seu conto há já algum tempo, mas faltava comentá-lo. Não fosse já a mitologia senão um imenso cardápio de arquétipos, você foi buscar a história da Medusa para trazer à superfície toda a questão da maldade, da inveja, do ciúme,motores que movem os humanos em muitos momentos e circunstâncias das mais diversas. Aqui está no feminino, no masculino seria ligeiramente diferente, os homens são menos elaborados em tudo (no bom como no mau), falta-lhes em perfídia o que lhes sobra em agressividade. Gostei muito desta carta, deste despir de alma de Atena, que se confessa sem qualquer arrependimento. Implacável, como é normal que seja a realidade interior das pessoas. Excelente trabalho. Um abraço.

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    1. Obrigada, Ana.
      Que bom que gostaste. Eu quis realmente “humanizar” um pouco mais a deusa Atena.
      Se ela castigou a Medusa, ela também não saiu ilesa de toda essa trama.

      Um abraço!

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