Querido inimigo, – Catarina Cunha

Sempre te conheci, nunca te amei, entre um tic-tac e outro da vida, jamais consegui te odiar.

Desde minha mais tenra infância ouvia falar de você: “Tome cuidado, minha filha, depois da porta familiar vem a rua e lá não há ninguém em quem confiar; só na família encontramos a verdade”. Passei mais de meio século acreditando nisso, mas descobri o contrário da pior forma. Você estava à espreita, escondido por laços sanguíneos questionáveis, aguardando o melhor momento para dar o bote. Não tive tempo de olhar atrás da porta cheia de poeira de mágoas, umidade depressiva e uma enorme ganância.

Talvez por ter sido criada por pais extremamente honestos e dedicados, não acreditava que pessoas como você realmente existissem fora das novelas. Um vilão sorridente e carinhoso manipulando carências alheias para suprir seus fracassos cotidianos.

Descobri também, graças a você – o que agradeço com carinho – que existem pessoas boas e confiáveis não só na família e posso contar com elas para tirar um pouco de seu sono.

Trago aqui essas palavras com um grande desejo de paz. Que o preço de teus julgamentos precipitados lhe sejam cobrados em leves prestações mensais, que os juros não lhe corroam o estômago de arrependimento e que a maldade não lhe rache o coração de vez. Eu verdadeiramente desejo-lhe vida longa diante da carga que assumistes nos ombros. Cuide bem de sua coluna e de seus joelhos porque o tempo aumenta o peso dos erros e da barriga.

Com a idade fui agraciada com o saber da empatia e, por mais que o perigo me ladeie,  os que me amam me alertem e que teu veneno me cause náuseas éticas, não gosto de carregar o mal no bolso de trás, logo eu te perdoo por existir.

Um abraço virtual daquela que dorme tranquila.

 

13 comentários em “Querido inimigo, – Catarina Cunha

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  1. Oi, Catarina!
    ai ai ai, como eu admiro e gosto de admirar o seu jeito de escrever….e como disse, não tenho medo de parecer puxa saco, vc, para mim, é um exemplo, tenho observado seu trabalho, seus textos, as palavras escritas e as ausentes, e venho tentando aprender.
    Bom, isso eu já disse pessoalmente rs.
    Seu conto/bilhete tem a dose certa de “ódio” que, é claro, é destinado a um inimigo, e o lance bem-resolvido de quem viveu, sofreu, transcendeu e superou o infortúnio causado por tal elemento – no caso da carta, pode-se apreender que houve abuso (sexual, talvez).
    Curto e objetivo, seu conto vem e destaca-se pelas palavras, pelo enredo, e agarra o leitor, ali, com tudo.
    Muito, muito bom!
    Beijos

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  2. Engraçado como um texto, depois que sai de seu autor, toma rumos distintos, as vezes nem planejando por seu criador. Eu enxerguei esse “inimigo” como o TEMPO. “Um vilão sorridente e carinhoso manipulando carências alheias para suprir seus fracassos cotidianos”, não consegui enxergar outra coisa senão…

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  3. Texto curto e direto – mostrando que o mal pode ou não estar na família, assim como o bem. A interpretação de Vanessa também é válida, de qualquer forma é um texto interessante, reflexivo e com estilo próprio, seguro e hábil. A densidade humana é uma presença constante, cada frase pode ser sentida e assimilada. O clima nunca chega ao trágico, mas há uma indisfarçável nostalgia, um sutil sentimento de inutilidade das coisas e nos contatos familiares.
    Parabéns, Catarina. Amei. Beijos.

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  4. O começo me fez lembrar de Nunca te vi, sempre te amei (livro/filme). Texto curto, bem catarinesco. Uma delícia de ler com aquele ar de relato roubado, ouvido atrás da porta. Um inimigo que passa a ser ignorado, alguém da família? Fiquei imaginando se a narradora talvez tivesse sido vítima de um molestador. E agora queria ficar em paz, sabendo-se inocente (aquela que dorme tranquila), e consciente que o outro, a quem envia um e-mail, carregará a culpa por toda a existência. Muito, muito bom.

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  5. Olá Catarina,

    Tudo bem?

    O pulo do gato de seu conto está em não se saber, exatamente, à quem se dirige a narradora. O veneno (desabafo) é desferido contra um outro. Mas que outro? Quem é a pessoa ou coisa merecedora de tamanho desprezo?

    Assim, mesclada à capacidade da autora em construir uma narrativa (epistolar) com tamanha força, esse desconhecimento do destinatário de tal ódio, é capaz de criar a empatia mais que necessária com o leitor. Quem é o destinatário? Quem ele é para o leitor? O tempo? Um abusador? Alguém da família com quem se convive entredentes à mostra, sentindo-se, no entanto, o tempo todo o rancor dessa pessoa a nos minar? Quem ele é? Poderia ser qualquer um. Um desafeto da própria autora… Mas, ainda que o fosse (o tal desafeto da autora), ainda assim, ele caberia perfeitamente à qualquer malquerer do leitor. E é justamente isso que faz com que este seu conto rompa o limite de uma-boa-história e passe para o rol daqueles memoráveis.

    Nossas escolhas enquanto escritoras, a forma como decidimos contar uma história são uma arma poderosa, capaz de elevar nossas criações a um outro patamar. Isso é o que ocorre aqui. Aqui, a autora não opta por um narrador diferente, mas sim, por um “objeto” inusitado. Seu destinatário podem ser todos, nenhum desses, todo mundo, ou ninguém.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  6. O texto tem muita qualidade, é muitíssimo bem escrito e tem fluidez sobrando. O fato de não conseguir decifrar o que aconteceu e a quem a narradora se dirigia não foi um problema para mim, tudo o que deveria estar a gente encontra no canto. Encontra e se encanta. Só aplausos, e que venham mais contos maravilhosos como este.

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  7. Olá, Catarina!

    O destinatário da carta é envolto em mistério. Não se sabe se se trata de uma pessoa específica, o tempo, a morte, ou o que quer que seja. Mas, apesar da curiosidade do leitor, não há necessidade de explicação porque cada um pode supor o que lhe aprouver, daí a grandeza do seu texto reflexivo. Muito bem concebido. Parabéns!

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  8. Oi Cat! Como a Vanessa, também enxerguei ser o TEMPO o vilão de que a missivista nos fala. As pistas? Principalmente o tic-tac no primeiro parágrafo, mas também as várias referências à passagem do tempo ao longo do texto. Um texto inteligente e enigmático que faz pensar. Sua fã, sempre. Beijos!

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  9. Quem será esse inimigo? Por ser tão complexo e aberto (no bom sentido) me vi procurando um. O tempo? O amor? A solidão? A morte? O que está escondido nas entrelinhas? Porque é possível associar a varias coisas. Esse bilhete é bem direto e, ao mesmo tempo, muito sutil. E não deixando claro para quem é, alavanca nossa imaginação. É uma leitura sem percalços. Parabéns pelo conto. Um grande e carinhoso abraço!

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  10. Santa Catarina, quem é esse filho da mãe? Agora não vou conseguir dormir sem saber. Prosa certeira, bem construída, a um destinatário que somente a narradora conheceu. Será um molestador, o ex-marido, um vendedor da telefonia celular, será? Abçs.

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  11. Catarina, adoro esse seu estilo “na lata”! Amei a sua singela cartinha ao inimigo bem íntimo. Me lembrou a carta que eu escrevi uma vez (e graças a Deus não enviei) para uma tia minha que já me deu muito trabalho. Hoje, como vc, durmo tranquila, defeco e me locomovo para ela.
    Desabafar é preciso!
    Beijos e parabéns!

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  12. Olá, Catarina. Belo recado. Quase daqueles que dá para perguntar: “posso levar?”. Afinal, quem não tem em sua vida alguém a quem este “carapuço” caberia na perfeição. A empatia gerada no leitor, nasce dessa identificação: ele não precisa saber ao certo de que ou quem a autora escreve, uma vez que tem os seus próprios alvos a desenharem-se enquanto lê. Além domais ele é sarcástico, corrosivo, como devem ser essas mensagens que não chegam a enviar-se. Muito bem escrito e montado. Parabéns. Um beijo.

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  13. Intrigante.
    Um texto que fala por si só e que apesar de cru, tem uma sintaxe poética desafiadora.
    Gostei de ler.

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