Carta a um leitor vestibulando – Bia Machado

08/03/2018

Caro leitor,

Gostaria de ter escrito esta carta por outro motivo qualquer, mas sinto que não aguento mais. Preciso desabafar com alguém. Talvez tenha escolhido o momento menos correto, você tem tanto a estudar, porém…

Bem sei da sua resistência com a leitura desse livro. Eu também ficaria, se tivesse que lê-lo apenas para o vestibular, forçada, a contragosto. Sabe, leitor, nunca gostei de amarras. Machado descreveu-me bem, com bela exatidão e de uma forma que preciso agradecer a ele para toda a eternidade. Pode parecer estranho alguém se vangloriar de ter sido eternizada como aquela que possui olhos de cigana, oblíqua e dissimulada. Sim, a palavra “oblíqua” caiu-me bem. É uma palavra forte, linda, de uma sonoridade que me causa uma sensação de mistério. Oblíqua. A língua passeia, bate nos dentes, o “blí” é minha parte preferida dessa palavra. Quanto à outra, a “dissimulada”, custei a aceitá-la. Confesso, de início zanguei-me com Machado. Minhas faces afogueavam quando ouvia mais uma vez e outra e ad infinitum o termo “dissimulada”.

Ah, mas… Com o tempo, aceitei e agora concordo. Sou dissimulada, pronto. Não de forma exagerada, não no sentido de ser hipócrita, pois não, nunca fui isso. Hipócrita? Jamais! Dissimulei, mas de uma forma que toda mulher deveria ser. No sentido de se disfarçar, de encobrir algo. Toda mulher deveria, sim, disfarçar seus sentimentos, há de concordar comigo. Uma mulher deve manter certo mistério, o maior tempo possível, mas sabendo quando se revelar, claro. “Mistério” é outra palavra que me fascina. Quando cheguei a essa linha de pensamento, aceitei o “dissimulada”. Sim, cigana. Sim, oblíqua. E sim, dissimulada. Enquanto isso for interessante e não prejudicar a ninguém. Principalmente a mim.

Pois então, leitor, você está resistindo à leitura de Dom Casmurro. Já tentou pegá-lo na biblioteca por várias e várias vezes. Sim, eu fiquei só observando. Cada vez. Você vai até lá, rodeia, rodeia, folheia vários exemplares diferentes da minha história com Bentinho e (tenho que acrescentar, claro, não faria jus se não o citasse) Escobar… e acaba levando outro livro. Sim, o protagonista de A Culpa é das Estrelas é um amorzinho, a de Claros Sinais de Loucura também (tenho lido o que você leva pra casa, para me inteirar dessa época contemporânea, é tudo tão estranho, muitas vezes assustador), mas há de concordar comigo: é preciso ler outras coisas, é preciso ler coisas diferentes, e não apenas para o vestibular. Daqui a pouco você acaba enjoando de John Green e nem leu o primeiro Machado de Assis da sua vida. E Machado de Assis, bem, eu sou suspeita para falar (acho que a expressão é essa), mas… ele manda muito bem (essa expressão eu sei que usei certo, você sempre diz isso)! Já leu Helena? O Alienista? Iaiá Garcia? Por favor, como ainda não leu as Memórias Póstumas de Brás Cubas? E tantos outros…

Acabei me distraindo e levando essa carta por outros caminhos. Na verdade, o que eu queria era pedir que não caísse na discussão sem-graça que já deu o que tinha que dar quanto à minha traição (ou não) de Bento… É certo que não contarei qual é a verdade. Para isso, querido leitor, você terá que ler e tirar suas próprias conclusões a respeito da narrativa do Machado. Sim, é óbvio que ficarei torcendo para que me compreenda, mas leitor, se não compreender, ficarei feliz por ter lido e chegado a uma opinião sua, sincera, sobre a obra. Esqueça essa história de livro chato. Dom Casmurro não é chato. Estou falando da obra de Machado, preciso confessar que a personagem de Bento me dá nos nervos em certos momentos, desde a primeira impressão e por todas as reimpressões e edições já feitas de nossa história. Hoje em dia já acostumei, foi tanto blá-blá-blá… Mas esse mimimi que não acaba mais de gente que resolveu estudar, analisar, provar por A + B a tal traição… É muita falta do que fazer!

Bem, vou ficando por aqui, com a esperança de que a próxima vez na biblioteca será diferente. Leia-nos. Leia minha história com Bentinho. Quem sabe, depois, me escreva dizendo o que achou. Aguardarei ansiosa.

Despeço-me, com votos de que se saia muito bem no teste, inclusive no que diz respeito à Literatura.

Um grande abraço,

Maria Capitolina

 

P.S.: Minha nossa, como ia me esquecendo? Sabe aquela garota com quem você vive se esbarrando na biblioteca? Pois então, ela já leu Dom Casmurro. E adivinhe? Ela adorou! E eu também adorei a leitura dela, pois não é que a menina soube me compreender? Isso é tão bom quando acontece! Seria um bom motivo para parar de vez por todas com esse esbarra-esbarra e poder conversar com alguém a respeito do livro. E, por favor, não converse apenas sobre Dom Casmurro. Ela também gosta de um tal de Simple Red, igualzinho a você. Isso é de comer? Que gosto tem?

P.S.2: Ah, quase me esqueci também de dizer que ela não tem namorado. Fonte segura. E o nome dela é Giovana.

Anúncios

13 comentários em “Carta a um leitor vestibulando – Bia Machado

Adicione o seu

  1. Que bela sacada, Bia! Se eu tivesse lido essa carta nos tempos do Colégio, certamente teria me apaixonado por Machado mais cedo. Aliás, vc deve ter orgulho desse sobrenome!
    Muito legal a maneira como a Capitu defende a obra do autor e dialoga com o jovem moderno, se esforçando pra competir saudavelmente com a ‘nova literatura. Muito bom, Parabéns!

    Curtir

  2. Capitu bancando a conselheira bibliotecária e cupido, tudo ao mesmo tempo. Muito boa essa sua ideia de dar voz à personagem machadiana tão mal jugada por todos. Afinal, ela traiu ou não traiu Bentinho? E que importância tem isso afinal?
    O tom coloquial e íntimo da carta ficou bem legal, aproximando o texto do leitor, que se for jovem como o destinatário da carta, se sentirá acolhido. Talvez até mesmo se dê a chance de ler Machado de Assis.
    Um amigo meu, Felipe Greco, adaptou Dom Casmurro para os quadrinhos e até ganhou um Jabuti por isso. Quanto mais próxima a obra estiver do público jovem, melhor. As barreiras serão vencidas aos poucos e Machado ganhará mais admiradores.
    Adorei a dica sobre a Giovana (nome da minha filha), fã de Simple Red (é de comer? . 🙂

    Curtir

  3. Oras! Temos aqui uma resenha de DOM CASMURRO, escrita pela própria Capitu que se dispõe a enfrentar a Literatura cinematográfica da atualidade e ainda dá conselhos amorosos ao rapaz. A resenha ficou perfeita, porque procedeu seletivamente, filtrou apenas os aspectos pertinentes em vista da intenção previamente definida. Muito interessante. É uma ironia em relação ao lugar-comum. A escrita próxima da fala confere intimidade e maior condição de convencimento, traz um novo e moderno ponto de vista. Nas entrelinhas está a crítica à massificação, que compromete uma visão aberta da realidade. Essa carta deveria estar nas apostilas dos cursinhos. Parabéns pela ideia e execução! Beijos.

    Curtir

  4. Eu achei esse conto uma graça! Essa carta para o leitor, ou futuro leitor, foi algo inédito. Eu não li Dom Casmurro. Li outros. Muitos outros. Porque quando eu estudava éramos obrigados a ler e Machado… Coitado do Machado. Se ele fosse vivo, teria as orelhas quentes de tanto que reclamávamos dele. Mas nem tudo está perdido. O mundo é grande e nessas reviravoltas, caímos em Machado e lemos com outro olhos. E amamos. Eu gostei demais dele. Parabéns!

    Curtir

  5. Querida Bianca,

    Carta de um livro para um leitor. Texto delicioso. Não há o que retocar.

    Confesso que comecei a ler torcendo um pouquinho o nariz. Carta para um vestibulando… Nossa… Não sei o que pensei que fosse… Algo didático, maniqueísta, sei la… Esquecia-me, porém, que de você jamais partiria algo assim. Adorei o texto.

    Tenho aqui em casa a minha Capitu. Uma cadela que resgatei com sarna negra e dela só se viam os olhinhos verdes e “oblíquos”. Hoje ela está linda e mantém aquele olhar que jamais me trairá.

    Quanto à traição tema do livro, no entanto, adoro seu ponto de vita. Pouco importa, de fato, se Bentinho foi ou não traído. A obra é genial por sua narrativa instigante, que deixa o leitor decidir e dar o veredito. A dúvida instigada é uma grade arma para um escritor, você não acha?

    Parabéns.

    Beijos
    Pala Giannini

    Curtir

  6. Olá, Dona Bia Machado ” de Assis”!

    Enfim Capitolina, vulgarmente conhecida como Capitu, mulher que despertou tantas discussões e teorias incorporou-se em um personagem missivista, que interessante esta abordagem.

    Seu conto me transportou para meus dez anos, no primeiro ano do ginásio de um colégio de freiras, e tendo o meu primeiro contato com escritores clássicos como Machado, José de Alencar, Lima Barreto…

    Fui obrigada a digerir a linguagem antiga e rebuscada dos livros destes ilustres, e acabei me apaixonando. Hoje vendo os livros que são adotados para as crianças e pré-adolescentes atuais, eu sinto que fui uma privilegiada. Aprendi muito, refinei e ampliei meu vocabulário, aprendi a apreciar os vinhos de boa safra da literatura nacional e nunca mais vi o mundo da mesma forma.

    Obrigada por esta viagem nas suas palavras e nas minhas lembranças.

    Curtir

  7. Olá, Bianca!

    A ideia de Capitu dialogar com o vestibulando me remete às vezes em que fui /fomos obrigadas a ler Machado sem ter bagagem suficiente para ler Machado. Se tivesse me deparado com essa carta, garanto que tudo fluiria melhor. Sua Capitu é cupido, resenhista, defensora da obra de Machado, mas acima de tudo, uma feminista assumida. Será esse o motivo pelo qual o leitor não avança na leitura, mais do que a chatice que ele tem pelo autor? Ele é tímido, não tem coragem de se declarar a Giovanna, o que dirá aceitar e compreender uma Capitu? Não sei, posso ter viajado e o que estou dizendo pode não passar de uma grande ‘forçação’ de barra, mas me passou pela cabeça. Enfim, dá o que pensar. Muito bom!

    Curtir

  8. Oi Bia, adorei o seu conto Machadiano. Sim, essa Capitu é uma dissimulada, tentando conduzir o leitor pras suas ideias. Sabe, descobri Machado já em idade, digamos, avantajada; na escola entendia bulhufas e a leitura por obrigação e sem entendimento tornava tudo muito chato. Foi depois que comecei o ofício da escrita que voltei aos textos do Machadão, e então floresceu um amor mais maduro pela sua magnífica obra. Parabéns pelo conto, alta criatividade, com John Green pra dar um refresco e Simple Red de trilha sonora. Bjs.

    Curtir

  9. Olá Bia! Muito boa essa sua carta da Capitu para o jovem vestibulando avesso aos clássicos. Fui uma jovenzinha que me apaixonei à primeira vista pelos contos machadianos. A ironia me seduziu de cara, senti-me em casa. Os romance, só os li bem mais tarde e volta e meia volto a eles. Mas confesso que o meu Machado preferido é o dos contos, Acho que os romances dele na verdade são contos estendidos. Deliciei-me com seu epistolar. Adorei os PS: Capitu alcovitando o rapazinho… Bela estratégia!Beijo grande.

    Curtir

  10. Olá, Bianca!

    Nossa, muito criativo o seu texto, me senti atingida por ela de várias formas, pois sempre detestei ”leituras obrigatórias” e por ser uma obrigação sinto que perdi muito por não ter apreciado alguns livros de escola. Incluindo, claro, vários do Machado. Essa péssima abordagem das escolas nessas leituras devem ter prejudicado muitos outros leitores, até hoje tenho muita resistência em lê os clássicos da nossa literatura, mas isso vem mudando pq estou numa fase sem paciência para leituras fracas em escrita, estou buscando os livros que tem essa linguagem , hoje, praticamente extinta.

    Enfim, achei uma ótima sacada essa carta, gostei da ideia dos livros sentirem a forma como nos os interpretamos, o que sentimos. E ainda foi cupido! Gostei também das referências, tipo a descrição de Obliqua, como Lolita.

    Um texto muito bom! Parabéns.

    Curtir

  11. Ôi Bia,

    Uma personagem pra lá de alcoviteira. Rsrsrs… Acho que eu deveria ter escrito uma carta dessas para o meu filho na adolescência.

    Adoro como você transita com desenvoltura pelo universo jovem.

    Frase chave da biblioteca: “Dissimulei, mas de uma forma que toda mulher deveria ser. ”

    Beijo.

    Curtir

  12. Olá.
    A Giovana tem talento para escrever! Olha que ela fez uma ótima resenha de Dom Casmurro sem dar spoiler e ainda mandou uma (in)direta para o moço! Rsrsrs.
    A resenha foi ótima, e espero que o jovem tome coragem de ler Machado e de comentar com Giovana seu ponto de vista. E (tomara) que ele não seja um babaca que dirá que Capitu traiu Bentinho!!! Ou todo o encanto cairá por terra… Hoje digo para as mulheres: quer saber se o seu “crush” é um homem de verdade ou um machista? Peça a ele para ler Dom Casmurro.
    Abs ❤

    Curtir

  13. Olá Bia. Um conto muito inteligente, que lamento não chegue a mais leitores, pois decerto despertaria neles a vontade, e libertaria o impulso, para a leitura de um digníssimo autor de quem, devo confessar, não li esta obra, nem outras, apenas alguns excertos aqui e ali, na net – e muito bons. Até porque Machado de Assis só muito recentemente chegou às editoras portuguesas e não era muito conhecido antes disso. Mas não é o que vem ao caso, mas sim a inteligência subjacente a esta missiva tão bem construída. Está muito bom, Bia. Um apelo mais que conseguido. Parabéns. Um beijo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: