O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez

Querido diário,

Hoje é, decididamente, o dia mais feliz da minha vida. A luz chegou aos meus olhos, as carícias das palavras transbordam nos movimentos dos meus dedos, isso é tão mágico!

Oh…desculpe-me, não me apresentei, papai sempre disse-me que antes de contar sobre você a alguém precisa ao menos saber o seu nome, criar margem para o mínimo de intimidade possível à dois estranhos.  

Me chamo Juliete,tenho doze anos, se papai tiver feito as contas corretamente,caso não, acredito que seja um pouco mais velha que isso.

Agora que já tem o mínimo sobre mim, posso contar-lhe o motivo de minha felicidade. Eu não sou mais cega! Meus olhos abriram-se e não vejo mais escuridão, agora posso enxergar o delinear das palavras e pasme! aprendi a contorná-las também. Como queria que ele estivesse vivo para mostrar-lhe esta maravilha, contar-lhe que agora posso ler e escrever, que finalmente posso falar.

O mundo é uma belíssima combinação de letras, melodias e cores.

Venho praticando antes de me atrever a escrever em tuas linhas, primeiro porque minha caligrafia ainda é extremamente vergonhosa, peço desculpas novamente pelos rabiscos e manchas de tintas, prometo que daqui pra frente será melhor. O outro motivo é que preciso ser cautelosa com os segredos que virei a contar-lhe: aviso de antemão que são muitos.  

Me despeço por hoje, mas prometo que logo retornarei para que possamos aumentar nossos laços. Você haverá de ser o meu melhor amigo.

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Olá, Diário!

Estou tão cansada, mas não resisti a vontade de escrever-te, acho que está se tornando um vício, espero que meu entusiasmo não o deixe entediado. Estive pensando muito em você nesses dias que se passaram e em como podemos tornar nossa relação mais íntima, cheguei a uma óbvia conclusão: você precisa de um nome!

Espero que não se aborreça com isso, é que gosto de dar nomes às coisas, já percebeu a importância que tal fato tem no mundo? Um homem não é nada sem um nome,  tenho por costume nomear os animais da casa, o que deixa Dona Florença enfurecida comigo. Um porco é só um porco, mas se ele passar a chamar-se Jorge nunca mais será como os outros, mesmo que tenha o mesmo destino. Acredito que quando oferecemos um nome a algo, estamos reconhecendo a sua existência.

Eu reconheço a sua, a partir de agora te chamarei de Theodore.
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Querido Theodore,

Contarei-te algumas coisas que possam estar perdidas em minha mente. Descobri que é uma boa forma de manter as memórias congeladas, consegue me entender? Hoje fechei os olhos bem forte e tentei lembrar do rosto da minha mãe e não consegui. Dona Florença assustou-se comigo choramingando pelos cantos, achou que eu tivesse levado uma boa surra de Montes novamente. Quando entendeu o  motivo do meu lamento vi pela primeira vez algo como ternura em seus olhos. Disse-me que um retrato resolveria o meu problema, mas eu não tinha. Ficou pensativa enquanto me observava debulhar em lágrimas, então perguntou-me.

“Qual era a cor dos cabelos dela?”

Enxugando as lágrimas, pensei um pouco e lembrei que eram negros, tão ou mais que os meus,  escorriam por suas costas em cascatas de cachos grossos em uma perfeita desordem, ao contrário dos meus que eram estirados como crina de cavalo, levados ao vento com a mesma facilidade que uma folha desgarrada de uma árvore no outono. Lembrei também da cor de seus olhos, esmeralda. Quando dei por mim, a imagem dela estava nítida em minhas lembranças, até mesmo as estampas de seus vestidos floridos e o perfume doce de sua pele. Nos olhamos por um minuto em silêncio, dei-lhe um beijo no rosto e corri para contar-lhe isso.

Em tuas linhas, Theodore, escreverei com detalhes tudo aquilo que temo perder, serás o guardião de minhas memórias. Um fardo pesado, que apenas um bom amigo poderia carregar.
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Olá, Theodore

Amanhã é meu aniversário, prometi que não criaria expectativas pois ano passado ninguém lembrou, porque haveriam de fazer este ano? Mas fui surpreendida hoje pelo Senhor Duvivier, parou-me no corredor, sempre com os mesmos olhos gentis e disse-me que eu teria uma surpresa amanhã. Desde então tenho ficado muito ansiosa, o que será? Um livro; me ensinará os números? Mal posso esperar!

Mais tarde eu volto para lhe pôr a par de tudo, agora preciso me lavar para servir as visitas de Madame Ofélia, ela está muito ansiosa com isso.

Até mais, querido Theodore.

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‘’Quanto mais bonita uma mulher for, mais condenada ela estará’’

O que achas disso, Theodore? Nunca tinha parado pra pensar em tal fato, até ontem. Revirei-me a noite toda na cama com um enorme aperto no peito.

Contarei do início: ontem Madame Ofélia celebrou um chá em homenagem a senhorita Suzan, futura mulher de seu filho, o senhor Duvivier. Ela é muito bonita e simpática, mas tem olhos tristes o sorriso nunca chega até eles.

Estava indo tudo bem até a mãe dela, Madame Tormis, reparar em mim enquanto lhe servia  chá. Ela pousou a xícara na mesa e segurou meu rosto com pouca delicadeza, quase deixei cair a bandeja.

“E esta, quem é?” – perguntou ela a madame Ofélia.  

“Juliette, é filha do nosso antigo mordomo, infelizmente morreu ano passado.”

A mulher continuou a fitar-me, virando meu rosto de um lado para outro.

“Uma órfã, então. Está cheio deles por aí, não é mesmo? Quanto tempo pretende ficar com ela?” – perguntou, causando um certo espanto em Madame Ofélia.

“Bem, eu não parei pra pensar nisso, ela é bastante útil aqui em casa.”

Meu coração acelerou um pouco, Theodore. Não estava gostando da conversa nem do seu toque, com bastante esforço contive-me para não me afastar.

“Ela é bonita demais, não serve para ser criada em uma casa de família. Se fosse uma nobre seria um trunfo para um bom casamento, mas como não é, resta-lhe apenas restritas opções”.

“Mamãe!”. – repreendeu, Suzan.

“Quantos anos tens, menina?” – perguntou-me

“ Ela tem doze anos, se me recordo bem. – respondeu Madame Ofélia.  

“O corpo já está se formando, os seios já apontam. Deves usar mais faixas em volta deles para não transparecer tanto.”

Assenti.

“Pode se retirar, Juliette”. – disse madame Ofélia desconfortável. Curvei-me e saí, não antes de ouvir algo que mudaria minha vida.

“Quando Susan vier morar aqui com seu filho, como marido e mulher, espero que essa menina não esteja mais aqui minha cara Ofélia”.

Aturdida, no meio do caminho esbarrei no senhor Duvivier, que estava parado no meio da sala observando as senhoras. Tinha o olhar fixo na mãe, um olhar duro e frio que já o vi dedicar  a ela algumas vezes.

O que isso significa, Theodore? O que irá acontecer comigo?
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Querido Theodore,

Desculpe a ausência, mas apenas agora consegui espaço para escrever-te, nos últimos tempos tenho me esforçado mais que o normal para fazer-me indispensável, as palavras daquela mulher ainda permeiam minha mente e, madame Ofélia mudou comigo desde então. Nunca foi do tipo carinhosa, ao contrário, mas agora tem me olhado tão friamente… Você consegue entender o poder de um olhar, Theodore? Um olhar frio pode se tornar mais gélido que o mais terrível inverno. Estou acostumada a esse frio desde sempre,aprendi a lidar com ele, mesmo assim não deixa de ser doloroso.

Deves estar entediado com meus dramas, não é mesmo? Ultimamente é só o que venho lhe contando. Que tal falar sobre o meu aniversário? Como esperado ninguém lembrou além do senhor Duvivier. Como de costume, a noite, quando todos estão recolhidos fui ao nosso local secreto, ao fundo da biblioteca. Lá ele me dá as aulas e pinta.

A meia noite bati à porta, cinco toques para me identificar, com uma pausa longa entre eles. A porta se abriu, ele sorriu pra mim. Apontou para a escrivaninha onde estudo e lá estava um pequeno embrulho, corri animada e rapidamente rasguei o embrulho. Como supunha era um livro, todo em gravuras, grosso e muito bonito. Junto a ele havia lápis de cor e um caderno de caligrafia. Meu coração se encheu de alegria e corri para abraça-lo, surpreso, livrou-se do meu aperto rapidamente.

“Hoje vamos dar um jeito nessa sua caligrafia” – disse-me ele.

Antes que pedisse corri até o armário, despi-me e vesti a camisola que ele sempre pedia que eu usasse, era de seda rosa com florzinhas minúsculas bordadas, mais bonita e confortável que qualquer coisa que já usei na vida. Voltei a escrivaninha e ele como de costume estava sentado do outro lado, tintas a postos e uma folha em branco para sua pintura. Sentei e comecei a delinear as palavras fazendo o máximo de esforço possível para que saíssem perfeitas. Logo escutei seus movimentos, os pincéis sobre a lousa, sua respiração rápida, as roupas caindo no chão.

Haviam regras que eu deveria cumprir, a primeira delas era nunca olhá-lo enquanto pintava. Atrevi-me a quebrar essa regra uma única vez, naquele dia desviei a atenção do caderno para ele, deparei-me com uma cena que dificilmente poderia ser esquecida, pela estranheza dela.

Ele estava nu, a cabeça pendia para trás e dos seus lábios saiam sons agonizantes. Senti pena, parecia totalmente refém daquele sentimento que o possuía. Ele me viu, abriu os olhos e nele havia fúria e algo mais que fui incapaz de compreender.  Ele não parou os movimentos, acelerou, a face transformou-se em um sofrimento e um som arrepiante saiu do seu peito. Virei o rosto assustada, ouvi ele se vestir, segundos depois puxou-me pelo braço e expulsou-me dali. Rasgou meus cadernos e disse-me que nunca mais me ensinaria. Fiquei com tanto medo,Theodore, medo de voltar para a escuridão, para o silêncio.

Um tempo depois ele procurou-me e disse-me que poderíamos continuar , desde que eu não quebrasse mais as regras.

Nunca mais virei o rosto, mas sinto que isso o decepciona toda vez.  

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Theodore,

Se você pudesse ser qualquer outra coisa, o que seria? Se eu decidir que você não é mais um diário e sim um super herói, viria me salvar?

Hoje sou como uma princesa no alto de um torre esperando um resgate que sei que não virá, meu grito é incapaz de chegar ao mais sensível dos ouvintes.

Estou perdida, meu querido amigo. Meu estômago reclama, minhas costas doem, a cada passo do lado de fora faz meus sentidos despertarem para um misto de medo e ansiedade. Não vais dizer nada, Theodore? Acaso não percebeu que não falo contigo há  tempos? Que a menina que escreves pode não ser mais a mesma? Que venho escondendo de ti segredos?

Que escondo a mim mesma entre tuas páginas amareladas, muitas delas com manchas salgadas de minhas lágrimas?  

Não percebeu aquelas páginas secretas, que deliberadamente escrevi enquanto você dormia… ou fingia dormir? Eu sei, você não tem culpa, és apenas um ouvinte mudo, refém dos meus lamentos.

Vou lhe contar uma história, Theodore.

Era uma vez um menino que vivia com as mãos manchadas de tintas, não importava o quanto ele as limpava, sempre permanecia um rastro como sangue fresco em uma cena de um crime. Gostava especialmente da cor vermelha, com ela  pintava apenas os mais importantes, como o velho pai ainda na juventude. Não ouso dizer quantos mais ele pintou, porém, neste momento, o menino que agora tornou-se um homem, pinta com fervor os contornos da velha senhora a quem chamou a vida toda de mãe.

Porque? Não sei ao certo, faz parte de quem ele é, talvez não queria unir-se a jovem de olhos tristes, talvez tenha cansado de andar entre todos com uma máscara que não era fiel em nada ao que era por dentro, e principalmente,não queria permitir que o silêncio fosse embora de sua vida.

Eu juro que não quebrei as regras, Theodore. Ele as quebrou, forçou-me a olhar, tocou meu rosto e disse-me que eu seria perfeita se também fosse cega. Eu estava assustada, queria ir embora,  não queria aprender mais nada aquela noite. Ele mostrou-me tudo o que vinha pintando todo esse tempo em que me ensinava, talvez a algum tempo atrás eu não teria entendido o significado de tudo aquilo, mas quanto mais ele abria o mundo pra mim, mas eu devorava o saber.

Que culpa tenho se foi um demônio e não um anjo que me salvou da escuridão?

Era eu, Theodore. Em todos os quadros, era eu … ainda que não fosse, aquelas pinturas anunciavam um tempo em que duvido que viverei, uma mulher sem boca , de olhos cegos e corpo nu. ‘’A mulher silenciosa’’ foi como a chamou, ele deu um nome a ela, não posso negar sua existência.

‘’ É você, é no que você irá se transformar”  disse-me ele, dos seus olhos brotavam lágrimas.

Eu negava, balançava a cabeça freneticamente afastando-me para que ele não me tocasse. Suas mãos eram grandes e frias, apertavam minha cabeça, deixando-me tonta.

‘’ Se não é você, então diga, alto e claro’’ zombou. ‘’ Diga!”

Meus lábios se moviam, mas não saia som, eu queria escrever a ele Theodore, dizer que estava com medo, que queria ir embora. Foi então que aconteceu…

Madame Ofélia não pareceu surpresa em nos ver, mas seus olhos tinham horror ao encarar os quadros, sobretudo o de um homem que reconheci como sendo o Senhor da casa. Quer saber mais um segredo? Ele também pintou o meu pai, meu amado pai que por algum motivo que agora posso apenas supor, decidiu que aqui não era um bom lugar para vivermos. Ninguém podia com o pintor das mãos vermelhas, nem seu pai, nem o meu…nem a pobre Madame Ofélia que fechou os olhos por tempo demais para querer abrir apenas agora.  Ainda posso ouvir seus gritos de súplicas em algum lugar da casa. O que terá acontecido com Dona Florença e Montes?

Estou trancada na biblioteca, apoio-te sobre a escrivaninha que tanto amei, aqui eu aprendi, aqui me perdi. Ao redor , as mulheres silenciosas, faces de mim mesma,encaram-me com estranheza. Não olho para a pintura de papai, temo fitar seus olhos e reconhecê-lo.

Seria diferente se eu tivesse voz?

Ele está vindo,posso sentir sua presença do lado de fora, suas mãos manchadas de vermelho na maçaneta. Ele está dizendo algo, Theodore.

” A única coisa que  lamento, é não poder ouvir os seus gritos quando as chamas abraçarem seu corpo”

Você está com medo, Theodore?

Eu estou.

◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊

Ah, Querido Theodore,

Eu não prestei atenção no tempo…no tempo que você ficaria comigo, no fato de que quanto mais eu lhe contasse sobre mim, menos espaço teria para saber mais. Agora, resta-me de ti apenas uma folha. Tenho guardado ela para um momento especial em que eu tenha coisas boas pra dizer. No começo te odiei por não me esperar, como podes me abandonar neste momento? Como ousar ser finito? Mas agora entendo que o que tem um começo  sempre lhe caberá um fim, faz parte, não há afinal apenas melodias, letras e cores…há muito mais, algo que compreendo mas não consigo explicar, nem mesmo com palavras. Se pudesse ver em meus olhos entenderia.

Preciso lhe contar um último segredo… este me envergonha profundamente. Quando meus gritos mudos cessaram e a certeza de que não há escapatória veio, pensei em ti Theodore. Eu poderia salvar-te do que virá, posso  te jogar ao longe e assim proteger você e meus segredos da inexistência, mas me nego a fazê-lo. Me odiará se disser que não o faço porque quero estar abraçada a ti quando tudo acabar? Que tenho medo de ficar sozinha com elas encarando-me enquanto pereço em agonia muda?

Podes me perdoar, meu querido amigo?

◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊◊

Consegues  ouvir isso, Theodore? É o som do fogo queimando, das lembranças transformando-se em cinzas. No fim, vamos nos desfazer no mesmo momento. A ti resta apenas uma linha, a mim…

Apenas um fôlego.

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16 comentários em “O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez

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  1. Amanda,
    Já venho dizendo isso há muito tempo (pareço até o cara da Trivago, que coisa rs), mas sério:você escreve para caramba! Cada linha é cheia de significados, todos necessários, nada fora de lugar, nada excedendo, tudo ali, milimetricamente escrito com mãos de talento ímpar.
    A história contada ao diário é triste, tristíssima, não há redenção, há um fim ao sofrimento, minha nossa, estou sem palavras – que texto.
    Parabéns, parabéns demais!

    Curtido por 1 pessoa

    1. É sempre bom ler você dizendo isso, Renata! Faz toda a diferença pra mim, toda vez que vou postar alguma coisa penso ” Putz, é agora que a Renata vai dizer que não gostou” rsrs. Esse conto foi uma experiência e tanto, ele me emocionou e me fez crescer bastante em vários pontos, sempre que a gente escreve algo deixa um pouco de si na história, né? tem muito de mim aqui.

      Obrigada, de coração!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Parece que esse conto foi escrito para o leitor se debulhar em lágrimas ou revoltar-se contra a vida, usando a inocência da narradora. A história apresenta uma série de situações identificáveis, mas não expostas claramente — apenas sugeridas nas entrelinhas. O ritmo calmo e constante confere impacto e emotividade, pela empatia com a personagem-narradora e por ser um tema pesado. O desfecho traz a revelação de forma mansa, sutil, que evita aquele tipo de texto ansioso demais para surpreender. Essa carga sentimental apenas foi possível porque há muito da vida e das lembranças de quem compõe o diário, com uma escrita carrega de identidade e emoção. Parabéns, de verdade, pela história dolorida e bastante verossímil, bem construída. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Que texto, hein, menina? Prendeu minha atenção do começo ao fim. A menina deixou de ser cega quando aprendeu a ler, também foi o seu modo de poder falar, pois era muda?
    Triste o fim, mas que revela a cumplicidade entre a narradora e o seu querido diário.
    Notei poucas falhas: uma crase antes de masculino, um queria no lugar de queira e um outro detalhe do qual não me lembro agora. Nada de grave.
    Sua narrativa envolve bastante e não me incomodou o fato dos personagens carregarem nomes estrangeiros. O clima me pareceu inglês, tipo um romance de Jane Austin ou das irmãs Brontë. Curti a leitura. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Foi exatamente isso, Cláudia!

      Que bom que gostou, sinto-me imensamente grata pela leitura, por ter gostado e pelas dicas sempre muito bem vindas!

      Obrigada.

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  4. Não estou num momento muito bom e esse conto me deixou no chão. Não. Não se culpe. Ou se culpe, afinal você o escreveu. É muito triste. Muito triste. Mas é perfeito, porque nos faz refletir sobre a crueldade da vida, e das pessoas. As nossas incertezas e desventuras. Você reuniu elementos muito marcantes e escreveu de forma plena. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Muito interessante seu conto, Amanda. Me prendeu o tempo todo. Vc usa belas metáforas para construir sua história e ir nos mostrando aos poucos quem é quem na trama intrincada e cheia de dramaticidade que você criou. Meus sinceros e profundos parabéns!

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  6. Oi, Amanda,

    Demorei mas cheguei ao seu conto. 😉

    Você consegue nos mostrar toda a vida de sua protagonista em um conto epistolar através do subterfúgio de um diário, com uma linda narrativa confessional.

    Porém, para mim, a beleza do conto se encontra na magnífica metáfora da cegueira, da escuridão. O diário “nasce”, no momento em que a protagonista toma conhecimento do mundo das letras. Assim, passando da escuridão à luz, ela vai aos poucos tomando consciência da própria condição no mundo, enquanto mulher, enquanto alguém predestinada por sua condição social, e por aí vai. O conhecimento é algo bom, uma arma poderosa que, ao passo que nos traz a iluminação também nos lança nas sombras do vislumbre da ciência de todo o mal que nos cerca.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Olá, Amanda! Que história linda e triste! A gente se sente imediatamente solidária às dores da pobre menina muda. Ela é tão inocente, cheia de esperanças, e assistir todo o mundo desta criança ruir, é tocante. Algumas construções ficaram belíssimas, a sensação que temos é de mergulhar nos sentimentos/impressões desta personagem tão intensa e pura. Amei!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Olá, Amanda!

    Esse conto é uma pequena obra-prima. Ele cativa o leitor desde a primeira linha com o mistério: quem é a pessoa que escreve? O que aconteceu a ela? É cega? E agora não é mais? A cegueira como metáfora à consciência do que lhe acontece. A menina silenciosa que não tem voz em casta tão inferior. Continuará silenciosa, continuará na escuridão. Ou arderá em chamas para lançar luz ao mundo. Soberbo!

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  9. Oi Amanda, o seu texto tb. me remeteu aos cenários de Jane Austen. A intimidade dela com o diário é tocante, e mais ainda a confissão dela de ter guardado segredos, tão secretos que nem o diário sabia. Show! Construções poéticas e carregadas de um doloroso lirismo. Achei marcante a frase: “Um porco é só um porco, mas se ele passar a chamar-se Jorge nunca mais será como os outros, mesmo que tenha o mesmo destino. Acredito que quando oferecemos um nome a algo, estamos reconhecendo a sua existência”. Enfim, um belíssimo conto, onde os segredos são desvelados aos poucos, outros ficam à margem, aguardando o leitor dar um destino a eles, na história de uma menina com um triste destino. Parabéns, bjs.

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  10. Oi Amanda! Terá sido intuição? Aproximei-me de seu conto cheia de expectativas de ler algo diferente. E eis que encontro esse seu conto espetacular. A narrativa é envolvente, a personagem absolutamente cativante, a história cruel e a sutileza com que você, autora, a desvela para os leitores, absolutamente perfeita. Não me remeteu a Jane Austen, mas, pasme, ao Marques de Sade, The crimes of love, um livro de contos que li muitos e muito anos atrás. Parabéns pelo excelente trabalho! Gostei demais, de verdade. Beijos.

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  11. Oi Amanda, eu gosto muito desse texto. Ele mostra como você é ótima em delinear um personagem. A Juliete é uma personagem muito bem formada, pensada, executada. Ela é ingênua e forte, sonhadora e resignada, corajosa e frágil. Como pode um texto ser tão bonito e tão sinistro? Sim, você consegue fazer um texto assim. Bjo

    Curtido por 1 pessoa

  12. Olá.
    “Eu não sou mais cega! Meus olhos abriram-se e não vejo mais escuridão” foi exatamente assim que me senti ao adentrar no mundo da Filosofia, rsrsrs.
    Quem nunca teve um diário, não é? “escreverei com detalhes tudo aquilo que temo perder” essa foi uma ideia inteligente, um bom modo de guardar boas recordações. Acredito que fiz errado com o meu, porque coloquei nele só o que queria esquecer…
    O que era bonito, foi se transformando em tristeza. A cegueira da menina se foi, mas sua voz permaneceu calada. Um conto forte e tocante. Abç. ❤

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  13. Olá, Amanda. Um conto belíssimo e muito bem conduzido. A menina traduz a linguagem e a visão, próprias da sua faixa etária e também a candura de quem já sofreu tanto, mas continua criança e ingénua. Uma maravilha. Gostei muito deste texto. Gostei da delicadeza com que vai despindo e expondo toda a crueldade presente e latente sem chegar a descrevê-la. Aliás, gostei de tudo. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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