Finitude – Bia Machado

Correr nos campos brancos de neve. Do jeito que Herta fazia quando tinha sete anos. Tanto tempo depois, já não conseguia mais. Agora era apenas lentidão, passo a passo. Era mais do que o suficiente. O bastante para chegar ao lago.

Pisar no gelo ainda fino, quebrando-o e mergulhando na água gelada. Bastava isso para morrer, sentindo como se mil facas acertassem seu corpo. Uma vez, quando criança, caíra no lago e se lembrava até hoje da sensação. Talvez na época não devesse ter sido salva. Mas foi. Foi salva, viveu uma vida inteira de coisas maravilhosas e nada tinha do que se arrepender. Nada. Daria fim à sua existência, que agora era apenas de dor, queria que as dores cessassem de vez.

Ludwig entenderia. O marido deixara bem claro que a apoiaria. Tinha ido à vila justamente para dar à esposa o tempo que precisava para colocar em prática o que tinha planejado e dito a ele sutilmente.

“Estou indo, querida. Talvez eu me demore. Sim, é bem capaz que eu me demore, há dias não desço até Sonniger Morgen. E é bom resolver tudo antes que a neve complique as coisas ainda mais, não é mesmo? Você ficará bem, não ficará?”

Um abraço tinha sido a resposta. Apertado. Apertado como sempre. Abraçavam-se como se fosse a última vez, porque podia ser. Então jogavam todo o amor, toda a dor, toda a felicidade e toda a gratidão em cada abraço.

Além do abraço, um beijo, apenas um roçar de lábios, mas que pareceu a Herta um tempo quase infinito. Ludwig era tristeza no sorriso ao abrir a porta. O olhar era de gratidão, por todos aqueles anos, tão felizes. Quase quarenta. E filhos e netos. Não conheceria os bisnetos, mas eles conheceriam sua história. Ela continuaria vivendo neles, assim como vivia em seus pais e avós.

Ninguém, a não ser Ludwig, sabia de sua doença. Herta tinha pedido o silêncio. Se era algo inevitável, por que deixar que todos sofressem, temerosos de quando o pior aconteceria? Só o marido estava presente quando as dores pareciam se elevar ao limite do absurdo, como se o Anjo da Morte estivesse decidindo se aquele momento seria, afinal, o derradeiro. Mas não era. Nunca era. Havia um tempo de alívio, mas depois voltavam piores.

Perguntava a Deus, por quê? Qual era o motivo, afinal? Por que devia sentir-se assim até o final de sua vida? Não era alguém que merecesse passar por tanto desespero, tinha certeza. Toda a sua vida tinha seguido de uma forma tão tranquila, desde a infância, era abençoada pelos eventos lindos vividos.

O momento mais triste de sua existência nunca tinha acontecido. Os pais ainda eram vivos, beirando os noventa anos, mas estavam lúcidos, ainda vivendo no mesmo lugar. Só a doença a entristecia, tirava sua vontade de viver. Depois de mais de uma década, não podia mais. Tinha chegado ao limite.

Mesmo o marido sabendo de suas intenções, deixou-lhe um bilhete.

“Jamais se esqueça do meu amor. Estarei esperando por você, não se apresse, cuide de tudo por aqui durante minha ausência. Procure-me no lago, hoje e sempre que sentir saudades. Queime esse bilhete depois de ler, para os outros, tudo pode parecer um acidente. Obrigada por tudo.
Herta”

Parecia mais fácil terminar com tudo dentro de sua casa. Uma dose excessiva de comprimidos, qualquer coisa do tipo, mas isso seria ainda mais doloroso para o marido. Do jeito como tinha planejado seria, sim, como um acidente. “Oh, Herta foi passear, o gelo do lago estava fino e… foi uma fatalidade! Coitada, devia estar tão debilitada que nem se dera conta do perigo”. Mais ou menos como tinham dito na infância, quando caíra no mesmo lugar. “Ah, essa pequena Herta, não sabe ficar sossegada! Por pouco o pior não aconteceu!”

Como previa, o gelo ainda estava se formando na superfície. Colocou a ponta do pé na água, mas retirou-a rapidamente ao assustar-se com uma voz que lhe era familiar.
“Não pode fazer isso, Herta!”

O jovem homem estava a alguns metros de distância e a olhava, um olhar tranquilo. Suas roupas pretas destoavam da brancura da neve. Seu cabelo era tão negro como suas vestes. Lembrou-se dele. Era estranho, mas aquele jovem tinha sido seu salvador no incidente do lago, mais de cinquenta anos atrás. Como podia estar do mesmo jeito? Seria ele uma criatura divina, um anjo? Na verdade, não se parecia muito com um…

“Ainda não é a hora, Herta. Não vou deixar que faça isso”, ele dizia mentalmente, ela conseguia ouvir como se ele sussurrasse em seus ouvidos as palavras.

— É o que eu quero. Está decidido. A dor é de enlouquecer, não aguento mais. Logo não conseguirei mais esconder…

“Herta, está tudo como deve estar. A dor passará na hora certa.”

— Eu vou morrer logo? — Era só o que ela precisava saber. — Diga que não passo desse mês, ou desse ano… Se eu tiver essa certeza, talvez eu espere.

“Não posso mentir. Respondendo à sua pergunta, ainda lhe restam muitos anos. Mais até do que a Ludwig.”

— Não, eu não suportaria isso! Não está mentindo para mim, está?

“Não é de minha natureza mentir, Herta. E, desde que tomei a decisão de materializar-me diante de você, em uma última tentativa de fazer com que desista, não posso deixar perguntas sem respostas. Peço que confie em mim, é o que lhe peço. Isso que está prestes a fazer não é o mais certo.”

A mulher idosa soluçou, deixou as lágrimas caírem, desesperada diante do que tinha ouvido. Sem perceber, respondeu a ele também por pensamento apenas.

“Eu não suportaria, não suportaria viver sozinha e doente. Não suportaria ver meu marido partir. Quem cuidaria de mim? Viver sem Ludwig seria como a morte…”

“A Morte deve vir no momento em que está planejada na sua vida, Herta. Sim, ela virá, tenha confiança nisso. Você não deve impedir a ordem natural das coisas.”

“Vai me impedir se eu me jogar no lago?”

“Não. Já a salvei uma vez. E por causa disso fui exilado, enviado para outro lugar contra a minha vontade. Cumpri um tempo de observação, até que voltassem a confiar em mim novamente. Nada posso fazer agora além disso, além de tentar convencê-la a desistir desse plano por si própria.”

Herta ouviu o sussurro do jovem, aliviada.

“Ainda bem. Agradeço por se preocupar comigo, mas é o melhor. Para mim, principalmente. Agradeço por ter me salvado uma vez. E se me salvasse agora, você não sofreria as consequências novamente?”

“Não, Herta. Porque seria a sua decisão. Da outra vez, quando caiu no lago, a Morte era certa. E por eu tê-la salvado, houve diversos desdobramentos, muitos destinos foram reescritos. Tudo o que posso fazer, repito, é apenas tentar convencê-la a não fazer. A decisão, porém, está em suas mãos.”

“Então agora me despeço… Como é o seu nome?”

“Eu sou um Mensageiro.”

“Pois bem, adeus, Mensageiro. Sou grata por tudo e peço desculpas pelo trabalho que lhe dei quando criança. Acho que aproveitei bem a minha vida, mas agora eu vou embora. E quando eu me virar, ali no lago, não quero mais vê-lo aqui. Quero estar sozinha na hora.”

O ser apenas moveu a cabeça, concordando. Herta caminhou até o lago recém-congelado. Não era mais uma menina magrinha. Colocaria todo o seu peso na tarefa. Deu alguns passos, suficientes para se afastar da margem, onde o gelo estava mais firme. Virou-se e viu que estava sozinha.

Ao olhar para baixo, constatou o trincar das águas congeladas. Tomou um impulso.

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18 comentários em “Finitude – Bia Machado

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  1. Gostei do texto todo. Apesar de constumar ficar bravo com autores que escrevem finais fechados que são abertos 😛
    Mas esse pedaço me cativou especialmente: “Abraçavam-se como se fosse a última vez, porque podia ser.”
    Quanta verdade numa pequena frase… 🙂

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  2. Oi, Bia! Mudou a imagem da capa.. amei!! Ficou mais alegre!
    Este conto me fez pensar na opção pela morte. Uma poetisa me disse ontem, temos que respeitar as pessoas pois não sabemos qual é a medida do suportável para cada um.
    Para sua protagonista, certamente, ela atingiu seu limite e nem o anjo poderia julgar esta atitude dela. Li também um livro na minha adolescência que era exatamente sobre isto, o personagem sofria tanto com dores que abreviou a sua morte, aquilo me marcou muito.
    Gostei de voltar a fazer estas reflexões com você.
    Abraço

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  3. Olá, Bianca!
    Há um livro, Carta a D., sobre um fato real que aconteceu com um escritor sobre a doença degenerativa da qual sua esposa sofre. O desespero de perder a mulher é tanta, que ele mata ele opta pelo suicídio (não sei se um homicídio seguido de suicídio), mas seu conto me remete a ele, sobre a medida do peso de nossos conflitos, até onde podemos ir. Muito singelo, belas imagens evocativas. Pungente. Parabéns!

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    1. Oi, Sandra, eu vi o Carta a D no vídeo da Flávia. Fiquei pensando se o filme francês “Amor” não seria sobre o livro… Você leu o livro? Viu o filme? Eu só o filme.

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      1. Sim, no vídeo da Flávia! Eu não li, mas fiquei com vontade de comprar o livro depois do que ela falou. Deve ser bárbaro! Sentimento define, não acha, Paula?

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      2. Mas será que tem relação com o filme Amor? A historia parece muito serba mesma. O filme é bem sombrio, triste, forte. Vc assistiu?

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  4. Oi, Bia!

    Você fez um texto muito fluido de se ler, e curioso também. Talvez por ser assim tão rápido, eu fique assim desejosa de mais coisas. Mas isso não é crítica. Eu gostei e por isso queria muito mais. Tudo é instigante. Por que Herta sofria? Só o peso dos anos? Sim. Isso é um bom gancho e vemos o contraste logo no início quando ela corria e agora só tem passos lentos. O mensageiro também instiga e acho que tudo aqui daria pano pra manga.
    Gostei da quebra da expectativa, porque se espera que o final seja outro.
    Enfim, gostei e sei que ficaria horas lendo mais dessa narrativa.
    Abraco!

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  5. Oi, Bia,
    Sua narrativa sempre me prende.
    Gosto do modo como escreve e o tema me seduz muito. A vida e a morte. As decisões, os laços, enfim.
    Interessante como você consegue manter o leitor atento e a seu lado, torcendo para que a protagonista mude de ideia. Ao menos assim foi comigo.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  6. Emocionante e comovente. Vi, no texto mais uma eutanásia do que um suicídio. A protagonista é apoiada pelo marido e tem a conduta de um paciente em estado terminal, incurável… Não acata nem o pedido do anjo, determinada em acabar com as dores, com o sofrimento. A leitura é fluida, prazerosa; o texto bem escrito promove reflexão sobre o comportamento diante da doença e da morte. Parabéns, Bia, pela sensibilidade ímpar, em relação ao viver e ao sofrer, com que conduziu a história de Herta. Beijos.

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  7. Como conheço a mim mesma, eu a teria salvado mais uma vez se fosse o Mensageiro. Porque para mim é inconcebível que alguém tire a própria vida. Sei que algumas pessoas em estágio terminal gostariam de preservar sua dignidade e acabar com o sofrimento em momento anterior. Entendo vários pontos do desejo de Herta, mas ainda me recuso a acreditar que não haja qualquer possibilidade de alívio em qualquer situação através da Medicina. Acredito muito na Medicina, mas acredito também em algo que está além do homem e de toda a Ciência. Então, recrimino Herta por não recuar e cumprir sua missão na Terra. Se eu fosse pertencente ao Espiritismo diria que ela vai penar muito, no Umbral, talvez, e retornará muitas e muitas vezes depois, para aceitar os ensinamentos, aprender as lições, evoluir. Mas são tantas as coisas das quais essa história fala… Então, Bianca, parabéns pelo conto. Um grande e carinhoso abraço!

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  8. Olá. Seu conto me lembrou do cientista David Goodall, que deu fim a própria vida em um suicídio assistido.
    Gostei do anjo (ou seja lá o que for) ter acatado a decisão de Herta, afinal, ela já não é mais uma criança e tem plena consciência do que quer. Me perguntei se o “acidente” que ela sofreu quando criança, foi mesmo um acidente. Porém, ela teve uma boa vida, deve ter sido mesmo travessura infantil.
    Abs. ❤

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  9. Engraçado, pensei que já tinha comentado o seu conto, Bia. Vamos lá.
    Imaginei um anjo observando tudo, o desespero da protagonista querendo findar a vida para escapar das consequências de uma doença terminal. O mesmo anjo que salvara a sua vida quando criança e que por isso, por interferir no destino traçado, foi castigado. E mesmo assim, anos mais tarde, resolve assistir à cena final, impossibilitado agora de agir, apenas pode tentar fazer Herta mudar de ideia.
    A narrativa é delicada, quase como o gelo fino do lago, estilhaça-se em mil pedaços, feito espelhos que nos fazem refletir, que nos refletem como somos, cheios de contradições.
    Gostei muito!

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  10. Eu adoro esse tipo de conto e tenho apreciado cada vez mais. Houve um período no qual que procurava por ação, por impacto, pelo ápice da emoção ao ler o texto. Acho que não quero mais isso. Seu conto cumpre o papel de contar uma história e o forte para mim, aqui, é o diálogo entre a personagem e o mensageiro, pois mesmo curto, trata de contar o que não está escrito. Portanto, há história por trás da história. Sem contar que também tenho tomado gosto pelos finais abertos. Não sabemos o que aconteceu. Mas não podemos querer todas as respostas. =D

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  11. Olá, Bia

    O conto traz um tema usualmente triste, doloroso, pesado, mas vc consegue lapidá-lo com a escolha certa de palavras para que fique ao mesmo tempo delicado e emocionante. A morte é um dos processos da vida, mas como nunca sabemos o próximo passo ela acaba virando um tabu, trazido pelo desconhecimento; Um texto como o seu também serve para deixar a morte com um aspecto mais natural, agradável, e não como o bicho papão que é como a gente a vê. Queria ter esta capacidade dar maciez aos textos, mas um dia eu chego lá.

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  12. Um conto sobre a finitude, mas principalmente sobre a escolha, entre a vida e a morte. A consciência de que tudo está prestes a acabar faz a protagonista optar por reduzir o seu sofrimento, mesmo que isso signifique se afastar das pessoas que ama… Uma decisão difícil e triste, mas que somente ela poderia tomar. Belo trabalho!

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  13. A ambientação fez toda diferença nessa reflexão sobre o direito à morte que você nos trouxe. Como em um quadro, vemos a neve branca, a frágil Herta, o anjo vestido de negro. Há também a vida boa de Herta, o amor bem vivido entre os idosos, a adesão do marido à decisão da esposa, a elegância em dar ao ato premeditado a aparência de um acidente. Essa ideia de um apagar voluntário da vida me seduz por parecer lógica e razoável. A questão é o momento. A impressão que tenho é que pessoas que realmente amam a vida sempre vão ter esperança e nunca vão achar que esse momento é chegado. Um belo texto onde vemos brilhar o talento da autora a serviço de provocar a reflexão do leitor. Beijo.

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  14. Adorei o seu conto, Bia, vi o mensageiro como um Anjo, e simplesmente Amooo os Anjos, a gente tem, digamos, umas intimidades, rsrs. Ele respeitou o livre arbítrio de Herta, assim como o marido, o que não deixa de ser de toda a forma desolador. Os Anjos nos guiam, amparam-nos, fiquei meio pê da vida com ela, por ter recusado tão nobre ajuda, fiquei curiosa pra saber do que se tratava o sofrimento dela, quem sabe o amiguinho do gelo tb. aliviava, vá saber. Bjs, narrativa primorosa.

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  15. Gostei muito do seu conto, Bia. Ultimamente, estive envolvida em uma série de debates e discussões em torno da eutanásia (algo que defendo como uma opção individual e que pretendo ver despenalizado, apenas no sentido de a ela poder recorrer quem, tal como a sua protagonista, em seu entender assim o deseje).
    Fiquei muito na dúvida sobre qual seria o seu tormento, uma vez que o mensageiro lhe afirma que tem muitos anos pela frente. Num caso desses, nada justifica a eutanásia, pois a medicina tem cada vez mais soluções para o sofrimento físico. Nesse ponto pensei: ou o memsageiro é falso, ou ela é louca, uma vez que não tem razões de queixa da vida – pelo contrário.
    Considerações à parte, um excelente conto que, quanto a mim, ficaria melhor sem a promessa de vida longa expressa pelo mensageiro – a menos que ele fosse fruto da sua imaginação (o mais provável) mas nesse caso, teria sido uma representação da usa vontade e ela teria mudado de ideia.
    Quanto ao mais, perfeito. Beijos.

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