POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)

Suspeitei assim que a vi. Aqueles olhos cor de entardecer revelavam muito mais do que um simples acaso. Íris esverdeadas sombreadas por cílios tão negros e tão espessos que pareciam pesar demais. Sempre soubera que ninguém mais possuía aquele olhar. Ninguém. Até aquele momento.

− Paloma Villas-Boas Bastos.

A moça levantou-se e se dirigiu ao guichê 3 com passos pequenos e apressados. Invejei a agilidade e a urgência da juventude. Observei sua figura, mesmo de costas, parecia-me familiar. O reconhecimento atingiu-me como uma dor aguda, a mesma agonia que eu não conseguira evitar por muitos anos. .

O sobrenome poderia ser apenas coincidência, mas aqueles olhos não. Desejei  que a moça se virasse para eu então poder examinar seu rosto. Só assim descobriria a verdade em seus traços. Ela não se virou.

Terminei de juntar os papéis que havia deixado cair com a surpresa. Um rapaz, que parecia trêmulo demais para um dia de verão, ajudou-me a catar as folhas do chão. Trocamos um sorriso que me lembrou dos dias de magistério. Jovens sempre prontos a nos surpreender com inesperadas delicadezas.

Prestei atenção à voz da jovem Paloma. Tentei adivinhar sua idade. Não mais do que vinte, mas como saber? Contando o número de voltas da Terra ou os nós no seu tronco? Os cabelos de um castanho comum escorregavam pelas suas costas em interessante desalinho. Não era muito alta, mas tinha um porte elegante. Cheinha, sem ultrapassar os limites do bom gosto.

− Obrigada.

Ela então se virou ostentando um sorriso de agradecimento franco. Senti minhas mãos esfriarem e a visão escurecer levemente. O mesmo sorriso.

Paloma e tudo o que eu sabia dela encaminharam-se para a porta giratória. Segurei minha bolsa junto ao corpo e, sem pensar, segui os passos daquela desconhecida. Meus assuntos bancários ficariam para outro dia. Fosse zombaria do passado ou alucinação, eu precisava de mais pistas para aquietar meus fantasmas.

Seguir aquela menina não foi das missões mais fáceis da minha vida. A maturidade roubou-me o condicionamento de atleta. Não que eu tenha sido uma, algum dia, mas a intenção prevaleceu por anos.

Andamos juntas três ou quatro quadras. Ora eu atrás, ora ainda mais distante. Então, percebi que a situação era bastante inusitada. Ninguém mais entenderia aquela minha obsessão. E se ela chamasse a polícia?

− Tem horas?

Interrompida por um senhor que parecia preocupado com algo mais importante do que lembranças, estanquei por segundos. O concreto da calçada parecia afundar com a perspectiva de perder a pista de Paloma.

− Quase quatro e meia – respondi, de olho na jovem que parecia correr entre os ponteiros do dia.

Consegui, com esforço, muito esforço mesmo, alcançar sua sombra. Pessoas intercalavam-se entre as linhas da calçada e do meio fio. Era um alívio repousar na clandestinidade da multidão.

Enquanto tentava recuperar o fôlego, pensei em Otávio. Passou um filme na minha mente. Um filme, não. Um pequeno trailer, com alguns enquadramentos difusos, queimados pelo tempo. Constatei que já não o conhecia, pois os anos haviam passado vorazes, roubando nossas identidades.

Éramos de novo, dois desconhecidos. Meu nome já não vinha em seus lábios, nem eu lhe sorria com os olhos de promessas. Estranhos teriam mais em comum.

Concentrei-me em minha sina: perseguir um passado que talvez tivesse sido afinal apenas uma ilusão. Mais uma esquina. Aonde iria esta menina? Não sei por que motivo insisti em segui-la. Aquilo veio assim de súbito, das entranhas como uma gestação tardia, abandonada pelos sonhos. Era um misto de necessidade e instinto.

A lembrança de um amor, diluído pelos anos, insistia em me empurrar para a rua, para os braços de um destino tão impreciso quanto a hora do rush.

Otávio não fora o melhor romance da minha vida. Não me dera nome ou abrigo. Era mais um homem sem parada, sem registro no tempo, mas por ter sido o primeiro, ganhou espaço entre as memórias, uma espécie de valor histórico.  Mas como explicar o amor?

Surpreendi-me com a capacidade de recordar traços e até o gosto daquele que já fora meu amado. Minha língua ardia como se lambesse o azedo dos dias em que havia chorado por sua ausência. Não sei quem se foi, na verdade. Talvez, os dois. Nosso destino, abandonamos. Nossas iniciais, ocultamos.

Lembrei-me também da sua voz, do tom firme que me dirigia quando discordava das minhas ideias, da minha espontaneidade que julgava tão inadequada. O meu sorriso não combinava com o tom pastel do seu consultório.

Era psicólogo, recém-formado, abraçando a profissão com o apoio da família e de uma ex-noiva. Eu que estava fora do meu lugar, intrometendo-me em assuntos que não me diziam respeito. .

Por que, então, ficamos juntos se nossas vidas descombinavam qualquer sentido? Por que insistimos em uma história que acabaria em uma rua sem fim? Guardo a certeza de que, em algum momento, ele me amou. Como se ama uma promessa de liberdade, uma causa perdida, um abrigo da chuva morna de uma vida medíocre.

Deixei-me levar por aquela menina até parar em frente a um belo sobrado. Parecia hesitar, ponderar sobre como agir, enquanto procurava por algo na bolsa. Um pretexto. Uma explicação. As chaves. Desistiu da procura, fitou a porta por um instante. Tocou a campainha. Suspiramos juntas.

Após alguns segundos, a porta se abriu. O tempo então parou, deu uma volta e correu, passando por cima de mim. Tonta, apoiei-me no tronco de uma árvore. Senti nossas seivas misturando-se, minha raiz alongando-se pela calçada, tornando-me invisível.

− Entra logo, menina! Sua mãe já está reclamando… – A voz firme e alta de quem não se importa em ser ouvido.

A menina riu quase aliviada com a bronca recebida. Beijou o rosto do homem que se avolumava à entrada da casa. Seguiu-se um abraço e a eternidade de um reencontro. O nosso.

Compreendi, espantada, que o tempo não havia voado só para mim. Que os anos haviam passado e atravessado Otávio com a fúria de um vendaval. Aquele belo homem, tão alto e indisponível aos meus apelos, mudara também.  Estava envelhecido, um senhor que poderia se passar por meu… Não, eu também envelhecera, só que tingia regularmente os cabelos e investia em alguma maquiagem.

O rosto apoiado no ombro de Paloma pareceu-me um dejá vu inesperado. Os óculos de armação pesada desapareceram como por encanto e os olhos sob aqueles cílios pesados de anos e lembranças deletaram a minha presença.

Do outro lado da rua, sentindo-me desnuda e criminosa, paralisei minha vida por um momento. Senti um estranho formigamento percorrendo meu corpo como um chuvisco que tanto poderia ser um AVC como o despertar da paixão. Eu tudo observava, silenciosa, trancada em um cemitério de lembranças.

De repente, parecia que Otávio me via. Reconhecia também em mim um passado perdido. Os anos apagam algumas manchas, mas outras eternizam-se no tecido do tempo.

Otávio sorriu com a imensidão que só faria sentido para aqueles dois jovens que fomos. Abraçado à neta, alisou seu cabelo com carinho. Apertou os braços ao seu redor com um amor já não roubado ou censurado. Era meu aquele abraço.

Tudo foi se perdendo, os sons, as cores, a realidade. Por um segundo ou dois, o mundo girou ao contrário. Até o carrossel do tempo parar, revelando seus cavalos como sonhos alados.

Aqueles olhos de entardecer cederam ao apelo do momento e se fecharam em mais um adeus.

16 comentários em “POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)

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  1. Que história sensível. Que reencontro. Hoje estava escutando uma música e que coincidência… E tem um verso em especial que me diz muito: “Não existe saudade mais cortante que a de um grande amor ausente. Dura feito um diamante, corta a ilusão da gente.” E aqui, lendo seu conto, vieram muitas lembranças mesmo. Mas é assim que eu vejo os reencontros, as buscas por um passado já diluído, de pessoas já desfeitas pela vida. Um tempo mergulhado em horas diferentes, por razões imutáveis, talvez. Seu conto é deveras lindo! Eu me lembrei dos meus amores de adolescência. Coisa miserável isso! Porque o coração da gente é uma coisa estranha.
    Parabéns! Gostei demais! Um grande e carinhoso abraço!

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  2. Oi Claudia, seu conto é muito gostoso de ler! É uma jornada pelas lembranças da personagem, e pelas ruas… eu imaginei uma senhora tentando acompanhar uma garota, coitada… mas a determinação de descobrir se ela estava certa sobre o parentesco da menina com seu amor do passado falou mais alto. O conto é interessante, divertido, trás identificação (quem nunca remexeu o passado pra descobrir como está aquele amor antigo?), um ótimo conto. Parabéns!

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  3. Olá, Cláudia!
    Seu texto é tão pungente que nos emociona. O leitor logo é capturado pelo mistério a respeito do passado de um grande amor. A suspeita, a curiosidade, a expectativa, tudo nos leva a acompanhar a agonia da protagonista e a esperança/decepção ao rever seu antigo amante. A escolha dos vocábulos enriquecem a narrativa e tornam a prosa elegante. Muito bom!

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  4. Claudia, sempre precisa, elegante, dinâmica, nasceu para ser escritora.
    Talvez tenha roubado a caneta da enfermeira já na maternidade e iniciado seu maravilhoso caminho nas letras. Na infância e adolescência era absolutamente capaz de nos entreter com sua produção de textos fabulosos.
    Com o tempo, à exemplo do que ocorre com os bons vinhos, só conseguiu melhorar.
    Ótimo conto.
    Brindemos aos reencontros!

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  5. Narrativa fluída, o leitor é conduzido junto à protagonista na revisitação do passado, a cada esquina, a cada rua, mais revelações, em meio a uma escrita poética “…de olho na jovem que parecia correr entre os ponteiros do dia”. Acompanhei curiosa para entender quem era a menina, uma amante, uma filha perdida, e por fim o entendimento de que os olhos da neta revelavam memórias de um amor perdido. Parabéns. Abçs.

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  6. É uma certeza garantida pela sabedoria popular (e pelas referências na obra de Machado de Assis) de que um par de olhos pode mesmo dizer algo sobre o que se esconde atrás deles. Enquanto apaixonada pelas emoções humanas, você, Cláudia, desafia-nos a olhar para a profundidade de olhos e a encontrar o passado. Um reencontro emocionante traduzido em texto fluido e prazeroso. Parabéns! Beijos!

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  7. Cláudia…quem nunca passou por um momento de mergulho no passado?! Emocionante…Me transportei …me vi num passado que não volta mais ….o tal do livre arbítrio… Parabéns!

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  8. Delícia sabrinesca, Claudia 🙂
    Tantas lindas figuras de linguagem para demonstrar as emoções da personagem que entramos junto com ela numa espiral do tempo e das dimensões.. rsrs
    Sem exageros, me senti conectada de várias formas a esta ‘loucura’ de reconhecer um ex-amado nos olhos de uma garota desconhecida. Muito interesante!
    bj

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  9. Uau!

    Eu sabia que havia algo neste olhar aí, mas confesso que a surpresa do desenrolar dos fatos me pegou. Gostei muito do ar de urgência que você emprega ao texto, pois acaba deixando o leitor também aflito, desejoso em desvendar o mistério e da mesma forma, aflito como a personagem.
    Gostei muito mesmo.

    Parabéns!

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  10. Curiosa para saber mais; o que acontece depois? Eles se falaram? Bem interessante. Ela deve ter amado muito esse homem, para reconhecer seus olhos na neta…
    Abs ❤

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  11. Uma senhora de meia idade persegue uma jovem porque ela evoca seu próprio passado. Ao final, a constatação que esse passado ficou, e não se converterá em um futuro. Acho que cabe uma interpretação alegórica para o seu conto. Eu tenho um certo medinho do passado. Quando a lembrança é boa, eu, francamente, prefiro não mexer. Ou seja, acho que eu não teria seguido essa garota. Seu conto é ótimo, Claudia. Possibilita muitas leituras, ademais do prazer de sua encantadora prosa poética. Beijos.

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  12. Claudia, este seu texto é uma poesia. Cada frase em perfeito encadeamento com a seguinte, fazendo um todo cheio de emoção, corremos com a sua personagem atrás de Paloma, cruzamos ruas, andamos por desconhecidas calçadas e chegamos até onde o destino teria que um dia nos levar para esta cena tão lindamente desenhada, com palavras engastadas como pedras preciosas numa joia cara. Muito, muito, muito lindo conto.

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  13. Oi, Claudia ❤
    Olha que você agora fez uma lágrima rolar aqui pelo meu rosto, mesmo teimando em segurá-la, mas não deu, não.
    Eu entendo que falar sobre você e seus escritos (contos, poesias) é falar de sensibilidade extrema, em cada linha, cada imagem, metáfora, tudo trabalhado de forma tão natural e por isso mesmo, magistral.
    O reencontro do ex-casal, anos e anos depois foi contado de um jeito que me vi na cena, entre a multidão, tentando alcançar Paloma, vi o passado, senti cada aflição, ansiedade, conclusão de que, afinal, era tudo, agora, passado.
    Esse parágrafo é de uma poesia belíssima: "Concentrei-me em minha sina: perseguir um passado que talvez tivesse sido afinal apenas uma ilusão. Mais uma esquina. Aonde iria esta menina? Não sei por que motivo insisti em segui-la. Aquilo veio assim de súbito, das entranhas como uma gestação tardia, abandonada pelos sonhos. Era um misto de necessidade e instinto."
    E o desfecho, que belo, sublime mesmo:
    "Tudo foi se perdendo, os sons, as cores, a realidade. Por um segundo ou dois, o mundo girou ao contrário. Até o carrossel do tempo parar, revelando seus cavalos como sonhos alados.

    Aqueles olhos de entardecer cederam ao apelo do momento e se fecharam em mais um adeus."

    Parabéns e obrigada por tanta beleza, Claudia.
    Beijos.

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  14. Conto intimista e sensível, o fluxo de lembranças do passado se mistura com as ações do presente da narradora, que parece ansiosa e perturbada com a nostalgia. A saudade do passado a faz se deixa guiar pela emoção, isso transparece na linguagem, doce, poética. Muito bonito!

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  15. Oi, Cláudia,

    Uma vez você me disse que tenho um estilo para chamar de meu. Pois bem, você também, não é? Mas você já sabe disso, claro.

    Seus contos costumam partir de motes que nos convidam a uma mergulho íntimo. Pequenos momentos que por vezes podem passar despercebidos pelos olhos dos outros, mas um universo vivo e intenso que existe dentro de cada um nós. É uma narrativa que transita entre a prosa e a poesia, mais que isso, ela fala direto ao subconsciente do leitor.

    Quem nunca se viu em uma viagem ao passado que atire a primeira pedra.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  16. Cláudia, que bela história. Quem nunca? Muito bem escrito, o conto alimenta a curiosidade de forma calma e lenta, que cria uma certa urgência na leitura, quase tive vontade de afastar o sujeito que perguntou as horas, sempre alguém a atrapalhar, Ah, Ah, Ah, Bem metida essa.
    Eu faria o mesmo? faria. Sou curiosa, aventureira e impetuosa. Mas normalmente não é boa ideia.
    A sua protagonista tornou a ficar fora da vida dele, mas teve um bom momento, ainda assim. Muito bom. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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