O Bom Rei nos ensinou tudo – Sabrina Dalbelo

No meu mundo temos ofícios, responsabilidades e afazeres. Todos somos treinados para cumprir as ordens reais.

O Rei é bom e lhe obedecemos com alegria e esperança. Ele nos ensina tudo!

Quando realizamos nosso trabalho de forma satisfatória, nosso supremo nos concede o luxo da comida, da moradia, da confraternização e o da própria luz.

Moramos em lugares organizados e arejados e nosso Rei nos deu as flores, os ventos, as colheitas e nos ensinou tudo sobre o peso e a ordem das coisas. Por isso, entendemos os limites das coisas e, assim, não ultrapassamos barreiras.

Pertencemos ao nosso lugar, onde a possibilidade é proporcional ao merecimento.

Permanecemos unidos, mas confiamos na nossa individualidade, pois dependemos dela para servir ao Rei.

Conhecemos as palavras. O Bom Rei nos ensinou todas.

Ele nos mostrou os animais, as coisas, os elementos naturais, os artificiais, os extraordinários; também nos falou sobre sentimentos, sobre todos eles, e nos orientou.

Ele é muito bom e não nos esconde nada!

Conhecemos e já vimos todas as coisas que existem em nosso mundo.

Não é por menos que nosso mundo é sabidamente invejado por outros mundos.

O querido Rei nos provou, também, porque aquela moça que deixou de receber moedas de cobre, comida e nossas visitas, merecia ficar isolada e à mercê da sorte, já que foi desobediente e não cumpriu às ordens reais como deveria.

Ele nos mostrou, devido a sua real bondade, que qualquer ajuda alcançada à moça, não autorizada por ele, nada mais seria do que um retrocesso no aprendizado dela.

Todos nós entendemos e ficamos felizes com a decisão do Bom Rei, pois temos conhecimento de todas as palavras que ele usou para nos explicar seus motivos, inquestionáveis, portanto.

Aquela moça acabou definhando, pois, ao certo, mereceu definhar.

Entendi como tudo ocorreu, porque conheço o nome de todas as coisas – o Bom Rei nos explicou – só não sei como se chama aquele olhar opaco e distante estampado no rosto dos filhos da moça desobediente, depois que ela se foi.

Mas não me atrevo a perguntar…

Se tivesse nome, nosso Bom Rei nos diria.

14 comentários em “O Bom Rei nos ensinou tudo – Sabrina Dalbelo

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  1. Bonito, texto, Sabrina.
    Muito forte o final, onde a população, representada pela protagonista, demonstra não conhecer o sentimento fundamental que é a empatia.
    Faz refletir!
    Abração

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  2. O bom que tudo dá, mas tudo cobra; o bom que ensina, mas que pede obediência; o bom que liberta, mas escraviza; o que é ‘bom’ mesmo?
    Esse texto daria páginas de reflexão…
    Abs ❤

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  3. Oi, Sabrina!

    Uma bonita reflexão sobre a vida e os limites que colocamos em nós mesmos. É mais seguro ficar do lado de lá pois a ponte não é confiável, mas e se der pra passar?

    Seu texto trás uma importante mensagem sobre a natureza humana e suas limitações, sobre empatia, sobre regras e obrigações. As vezes o certo parece tão errado, não é?

    Parabéns, gostei bastante.

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  4. A confiança cega em uma autoridade, o Bom Rei, conduz o povo a um estado de letargia. Não é preciso pensar, refletir, nem mesmo decidir sobre a própria vida, pois o rei tudo sabe e fará sempre o melhor. A injustiça nem mesmo é questionada. A ignorância do bem e do mal atrelada à obediência a um ser dito superior, mas longe de ser justo e bom. Parabéns pelo conto que chega a incomodar de tão bem elaborado para nos fazer sair da zona de conforto.

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  5. Eu já havia lido este seu texto antes mas não cheguei a comentar. Pareceu que eu estava lendo um texto de Voltaire sobre as coisas loucas que as pessoas fazem/pensam e as razões que as levam a isso. Eu sou daquele tipo que sempre se revolta, então eu nem conseguiria me colocar no lugar das pessoas deste texto, eu seria aquele personagem que ficaria tentando abrir os olhos das pessoas, ou pior, seria a tal mulher que foi injustiçada. Gostei muito, Sabrina, beijos

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  6. É muito cômodo submeter-se a uma autoridade, não ter que pensar ou fazer escolhas já que as ações pautam-se pelas determinações de quem detém o poder. O conflito se estabelece quando a falibilidade ou as contradições dessa autoridade afloram. A narradora se acovarda diante desse conflito ou talvez apenas tenha se deixado envolver pela banalidade do mal. Um texto que dá o que pensar.

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  7. Conto curto e forte, impactante, representa o comodismo de uma sociedade acostumada a não pensar, apenas obedecer e servir a seu “bom rei”. Parece uma fábula, o final é retórico e tem um tom misterioso. Bom trabalho!

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  8. Seu texto, Sabrina, é uma alegoria bem construída, pois a figura do rei veio representar pensamentos, ideias, instituições. Quem é o rei que tudo pode? É a lei, a religião, as regras civilizatórias? Texto aparentemente simples, mas profundamente reflexivo. Parabéns pela ideia e execução. Beijos.

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  9. Querida Sabrina,

    Seu conto é quase uma fábula. Quase. Porém, ele vai além. Além de instigante e muito bem escrito, ele trata de um assunto sério de forma extremamente sutil. Aqui, como seria o caso no gênero fábula, não vemos uma lição de moral maniqueísta apontando seu dedo para o leitor. A lição está lá. Sim ela existe, não é preciso que seja explicitada, assim, para um bom escritor meia palavra basta, se me permite o trocadilho. rsrsr

    Além disso, o conto traz uma atmosfera perfeita, com a escolha das palavras caindo como uma luva em cada trecho, conduzindo o leitor pelo universo criado pela autora com aquela verve que lhe é toda peculiar.

    Parabéns.

    Ótimo trabalho.
    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Olá Sabrina. texto intrigante, fiquei a pensar qual teria sido o ponto inicial da ideia para o conto, qual teria sido o gatilho, lembrou-me inquisição, reis da idade média, alienação da massa, culto aos deuses, enfim, dar o poder pessoal a outrem é sempre um perigo, sociedades escravizadas. Enxerguei um contexto bem político na sua narrativa, vixi, será que viajei na maionese? Bjs, e obrigada pelo desconforto na leitura.

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  11. Olá, Sabrina!

    O conto curto começa despretensioso, como uma fábula de crianças. Depois, ele assume a postura a que veio, um golpe fatal, um murro no estômago do leitor, um golpe certeiro que remete a reflexões de todos os gêneros. Uma boa história é aquela que diz muito com pouco. Você logrou êxito nessa narrativa pretensamente ingênua, pretensamente infantil. Com a maestria que lhe é peculiar. Muito, muito, muito bom! Arrasou!

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  12. A dúvida é o princípio do conhecimento. Uma pena o personagem não ousar ir além, mas a história é para ser assim mesmo: mostrar como nossas limitações interferem no entendimento do mundo e no universo do outro. Viver uma vida obtusa parece feliz para quem não tem asas na alma. Parabéns pelo texto. Um grande e carinhoso abraço!

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  13. Olá, Sabrina. Para falar verdade, eu não devo comentar muito este texto uma vez que, para mim, ele espelha o efeito da fé sobre as pessoas e decerto não terá sido essa a sua intenção. Mas, para mim, se em lugar de lhe o nome de “O bom rei”, tivesse chamado de deus, só teria acertado melhor no nome dessa criatura cruel e autoritária que, quanto a mim, não existe e se existisse com os atributos que lhe dão, seria um monstro bem pior que o seu inimigo satanás que, ao menos, não se faz de bom. Então é melhor nem continuar, certo? Excelente retrato, em todo o caso. Beijos.

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