O hobby de Seu Adalberto – Anorkinda Neide

 

– Quanta aspereza há no mundo de hoje, não é?
A funcionária do banco que grampeava o recibo de pagamento na fatura do cliente, alçou as sobrancelhas e olhou direto nos olhos daquele senhor à frente dela e concordou:
– É mesmo!
Falou no automático, não conseguia ligar a frase proferida pelo cliente com nenhum acontecimento imediato ali do ambiente bancário em que se encontravam. Ela não viu ninguém ser rude além do normal, não ouviu discussão alguma. Enquanto alcançava os papeis ao senhor cogitou se ela própria teria feito alguma indelicadeza, será que ela falou asperamente com ele?
Um senhor muito distinto ainda que suas roupas remetessem a mil novecentos e antigamente, perfumado… Ela sentiu a fragrância. E a moça esperou que ele contasse o caso que o levou a desferir o comentário mas o homem permaneceu em silêncio, guardando cuidadosamente o recibo em sua carteira e levando esta ao bolso interno do casaco. Ele fez uma mesura de despedida e se retirou.
A moça ficou alheia por alguns segundos e depois seguiu com seus atendimentos, mas na cabeça não parava de martelar a frase daquele senhor. Ela passou o dia todo observando se ela estava sendo delicada e atenciosa com os clientes, até que palavras cordiais brotavam naturalmente a cada recibo que entregava, olhando nos olhos daquelas pessoas tão diferentes umas das outras e de repente, pareciam tão interessantes!

E o senhor distinto de cabelos alvos, ralos e macios, continuou com sua rotina. Ele atravessou a praça cumprimentando a todos, mesmo os que não lhe dirigiam o olhar, parou na banca de jornais onde o vendedor já o conhecia:
– Bom dia, Seu Adalberto! Está um lindo dia, não é mesmo?
O ancião sorriu, pegou o jornal com uma mão e com a outra alcançou o dinheiro ao rapaz.
– Sim. – E olhou para o céu que prometia que uma bela chuvarada cairia em minutos. – A água lavará muitos pecados hoje!
– Isso mesmo, Seu Adalberto! O senhor sempre vendo o lado bom de tudo, não é mesmo?
Seu Adalberto não conseguira, ainda, retirar do rapaz aquele vício de terminar as perguntas sempre da mesma maneira. Mas ele pensaria em alguma coisa…

Atravessando a avenida ficava o prédio residencial onde Seu Adalberto morava há 30 anos, acompanhado de sua esposa D. Graça. Morar no centro de uma cidade grande não é em nada tedioso e Seu Adalberto deliciava-se em observar todas as mudanças que todos os dias apareciam pelos arredores. Principalmente as pessoas mudavam, e como mudavam! Um incessante troca-troca de vizinhos, por exemplo e mesmo quando se demoravam um pouco mais, Seu Adalberto lhes observava as mudanças inerentes a elas… Ou mudavam o corte do cabelo, ou deixavam a barba crescer, ou mudavam de emprego e de horários e até mesmo de namoradas ou esposas.
Mas o mais interessante eram as mudanças que Seu Adalberto provocava nas pessoas… Ah… esse era o afã de seus dias, um após o outro, sempre provocando, cutucando mesmo todo mundo e ele observava, silenciosamente as mudanças acontecerem.

Ele planejou ir ao banco no dia seguinte, inventaria alguma coisa, sacar uns tostões, talvez… Só para observar a moça que o atendera hoje. Pobrezinha, tão concentrada no que fazia e não percebia que estava trabalhando com seres humanos. Seu Adalberto cutucou e ele queria observar o efeito que causou, era seu esporte preferido.
O Anderson da banca de jornais… Ah! Foi a melhor transformação que Seu Adalberto provocou! O rapaz só comentava as notícias trágicas do noticiário, tinha os olhos saltados de medo e raiva do mundo. Não foi fácil, Seu Adalberto começou a ir até lá todos os dias, mesmo sem interesse nenhum nos jornais. E a cada notícia terrível que o outro anunciava, o ancião fazia o comentário do lado bom, nem que fosse: ‘uau, que bom que descobriram o crime, assim ele para de acontecer’ ou então ele ignorava o assunto e mirava o céu e dizia como o dia estava lindo.
Da primeira vez que Anderson se viu ignorado, ele sentiu raiva, fechou com força a boca e ficou olhando para aquele senhor petulante, e como este não tirava os olhos do alto, olhou também. E rapaz viu um céu tão bonito que não pôde deixar de sorrir. A partir daquele dia, o assunto deles era sempre o céu e a previsão climática do dia.
Afinal, era uma conversa breve, de poucas frases, poucos segundos, o tempo sempre urgia e a cidade não parava para conversas mas Anderson percebeu que acima daquela azáfama toda sempre havia um céu bonito.

Seu Adalberto ia distraído e não reparou na nova mesinha do ambulante que vendia toda uma série de bugigangas disposta justamente entre um poste e uma placa de sinalização, que era onde Seu Adalberto se ‘encaixava’ para esperar o trânsito respeitar a sinaleira e ele poder atravessar a avenida em direção ao seu prédio.
E, claro, não mediu os passos e trombou com o obstáculo, faltando muito pouco para que ele também encontrasse o chão, como os itens que iam à mostra naquela mesinha. O vendedor conhecia Seu Adalberto de vista, por isso mesmo sentiu-se no direito de xingar o ancião enquanto recolhia seus objetos espalhados pelo chão, resmungando sobre o medo de que lhe roubassem os artigos.
Ao terminar de amontoar tudo em cima da dita mesa de armar, parada no melhor ponto estratégico para atravessar a avenida, o homem reparou que seu Adalberto o olhava com um sorriso sem jeito, como quem pede desculpas sem coragem de utilizar as palavras, uma vez que os impropérios do cidadão prejudicado se faziam tão altos que abarcavam até mesmo o barulho dos carros em movimento.
O cidadão ficou meio desarmado, fez uma careta de quase meio sorriso, mas ainda assim continuou praguejando…
– O velho não olha por onde anda, parece maluco! Olha que bagunça, seu desastrado!
E Seu Adalberto, já sem sorrir, mas com o mesmo olhar meigo continua olhando para o homem e para a mesa com as bugigangas, ele até queria ajudar a arrumar mas sabia que atrapalharia mais ainda.
Os resmungos do homem foram diminuindo de intensidade e volume, até que ele deu dois passos para trás para ver porque a mesa estava torta e não viu uma mãe com uma criança que vinham atravessando a rua e naquele momento pisavam na calçada, e esbarrou na menina.
– Opa! Desculpe, guriazinha, não vi você! Te machuquei? – Falou enquanto acariciava o topo da cabeça da garota.
A menina só fez um gesto negativo mordendo a própria mão e seguiu adiante com sua mãe lhe puxando rápido para seguirem seu caminho, mas não sem antes dar uma olhada brava para o vendedor.
Ao virar-se depois de assistir a dupla ir embora rua afora, o cidadão viu novamente Seu Adalberto.
– Mas o senhor ainda está aí? – E desta vez não conteve uma risada. – O senhor viu como eu também sou desastrado?
E rindo, passou o braço pelos ombros do ancião e junto a ele esperou a sinaleira abrir para pedestres e se despediu:
– O senhor fica me devendo uma compra, hein… pra cobrir o prejuízo! Se cuida, senhor e preste atenção por onde anda! Vai pela sombra!

Seu Adalberto seguiu satisfeitíssimo e com a mente a mil, cheio de planos, agora já tinha dois compromissos para o dia seguinte: sacar uns tostões com a bancária compenetrada e com eles comprar alguma bugiganga do vendedor esquentadinho!

 

Anorkinda

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18 comentários em “O hobby de Seu Adalberto – Anorkinda Neide

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  1. Conto chub, sem dúvida! Uma delícia de leitura e que personagem mais fofo esse Seu Adalberto! Uma narrativa breve tendo como cenário o cotidiano em uma cidade grande. O ritmo é muito bom, agilizado pelos diálogos pontuais e naturais. Interessante o olhar do personagem para cenas que passariam despercebidas para a maioria das pessoas. Um dom, um hobby muito especial que favorecia a ele e aos outros também.
    Gostei bastante, viu?

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  2. Kinda, que conto mais fofo!! Esse seu Adalberto é muito real, as cenas são muito verossímeis, tudo narrado muita graça e charme! Eu gostei demais!! Se todos tivessem esse hobby o mundo seria muito mais bonito!! Parabéns!

    Obs: estava com saudade dos seus contos!!

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  3. Delícia de conto. Enquanto seguia seu Adalberto lembrei de várias pessoas ranzinzas e reclamonas que conheço… Um anjo adoçador do mundo é o que ele é. Adorei o personagem e seu conto me fez sorrir nessa manhã meio cinzenta aqui em BSB. Beijo!

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  4. Anorkinda!

    Faz tanto tempo que não leio um conto seu que já até tinha esquecido porque gosto tanto deles, são assim, simplesmente adoráveis, tem uma inteligência, doçura, simplicidade natural difícil de se conseguir.

    Gostei muito do seu conto e principalmente do Seu Adalberto, conheço algumas pessoas assim, que com um simples bom dia muda o humor das pessoas. Todos os dias quando saio para trabalhar foi andando pelas ruas, as vezes ouvindo música, geralmente de cara fechada pelo sol quente e pela distância, e nesse caminho há dois velhinhos um em cada parte do trajeto que me dão bom dia todos os dias e que esperam pelo meu bom dia também, então mesmo que seja um dia de m… eu sempre faço questão de sorrir, pois sei que faz a diferença pra eles.

    Como seria legal se existem mais pessoas como seu personagem no mundo, que saíssem de cada dispostos a fazer a diferença na vida das pessoas mesmo de um modo tão simples e gratuito assim.

    Adorei!

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  5. Conheço gente como o Seu Adalberto, aliás, gente que nem parece gente, porque é leve, lindo como se comesse flor. Um conto cheio de graça que eleva a rotina a um grau de importância. e nos fazer ver que Deus está nos detalhes. Acredito que a vida depende muito das pequenas boas ações diárias e que quando alguém nos favorece com a bondade temos a tendência de transmitir essa bondade adiante,

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  6. Olá! Que conto mais lindo! Bom se todos fossem como seu Adalberto, com seu jeito meigo, carismático e otimista de ver as coisas. Na vida corrida que vivemos, acabamos entrando em modo ‘automático’, sem nos darmos conta do grandioso mundo humano que nos cerca. Parabéns pelo belo conto!
    Bjs ❤

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  7. Oi, Kinda.

    Tudo bem?

    Costumo brincar que fui contaminada por Pollyana na infância e agora você me vem com este Seu Adalberto…

    Interessante… Não sei se foi proposital ou se é esta pegada crônica na qual você tem experimentado, mas seu texto tem ares de crônica, embora seja claramente um conto.

    Um ponto que me chama muito atenção é o frescor do trabalho. Há nele uma leveza poética, ele traz ao leitor um quê de esperança. É possível, sim, mudar o mundo com afeto, gentileza (já dizia o profeta) e um sorriso. Não sei o que é esse tal de chub que vocês tanto falam, mas me lembrou doce de leite em almofadinha, que é bem o tipo de leitura gostosa desse seu conto.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Um personagem que é pura simpatia,com atitudes críveis que tentam trazer mais otimismo para o circulo de convivência .Uma narrativa do cotidiano, leve, divertida, de leitura fluida e prazerosa.

    Parabéns, Kinda! Estava com saudades suas e de suas escritas. Beijos

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  9. O seu Adalberto é um anjo em forma de gente, com suas asinhas, digo bengala, ele toca os humanos endurecidos pelo cotidiano. Um conto singelo, poético, que fala de alguém que gostaríamos de encontrar todos os dias, para lembrarmos de olhar no rosto das pessoas, cumprimentar, sorrir, enfim, essas coisas banais que não viralizam nas redes sociais, Bjs.

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  10. Amei o seu Adalberto e o seu jeito simples e feliz de levar a vida. Assim, de pouco em pouco ele vira um dia e outro dia e mais um outro desfazendo as ‘ranzices’ das pessoas que não veem felicidade em canto algum ou acarinhando aquelas que buscam reciprocidade na simpatia que distribuem. Parabéns pelo conto. Um grande e carinhoso abraço!

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  11. Olá, Anorkinda!

    Um conto com gosto de ‘a corrente do bem’. que bom seria se todos fossem como o velhinho simpático do seu conto. E a leveza e o otimismo da narrativa nos passa uma onda de positividade que contagia. Parabéns!

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  12. Olá, Kinda. Existem pessoas assim, são uma delícia. O conto está maravilhoso na sua simplicidade narrativa e na do próprio protagonista. Já tinha lido há muito, mas reli com prazer, hoje. Nós próprias podemos ser um pouco assim. Confesso que tento e cada vez com mais sucesso, consigo ter momentos desses. Quando o faço sou muito mais feliz. Mas não tenho disponibilidade para viver assim, existem muitos amargos de boca e sou dotada de uma certa intempestividade que, sendo bem intencionada, por vezes deita tudo a perder. Fora disso, o pequeno conto está primoroso na execição e a ideia é deliciosa , sendo que a sua prática, ainda que pontual, pode fazer a diferença – na nossa vida e na de quem nos rodeia. Partilhe-o de vez em quando, precisamos ser recordados da nossa humanidade. Beijos.

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    1. ahh que delicia ler tuas palavras.. eu tb tento ser um pouco assim… quiçá nossos esforços tenham algum valor ao mundo, não é? ! Boa tua ideia de partilha-lo vez em quando.. farei isto!! Bjs minha querida!

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