Nove Questões Sobre a Morte – Virginia Barros

Dia de finados. Ninguém para ir comigo ao cemitério visitar aqueles que dormem. Sou corajosa, enfrentei a multidão que se espremia nos ônibus, nas paradas, nas bancas de flores. Cheguei com meu buquê inútil, calças compridas, camisa preta apesar do sol que rachava. Ao menos o suor ajuda a esconder lágrimas inconvenientes.

Procurei meus mortos sem ajuda nem pressa, com medo de esbarrar em algum dos vivos que desfilavam pelo cemitério. Sempre achei que aquele lugar parecia mais um parque, todo verde, e ainda mais no início de novembro, com todas as flores, as velas e o movimento.

Não queria me demorar ali, mas de alguma forma a visão de seus túmulos atrai meu olhar e não consigo me desviar tão facilmente. As pessoas passavam por mim, talvez até através de mim, e eu não me movia, segurando minhas flores, sem coragem de entregá-las. Aquilo tudo me parecia tão inútil. Quem eu pensava que estava presenteando com aquelas flores? Eles já deveriam ter virado pó muitos anos antes. Não tinham olhos para vê-las, dedos para tocá-las, lábios para me agradecer por elas. Ainda assim, o cemitério estava lotado.

“O que é a morte?” – perguntei-me em pensamentos, evitando formular qualquer resposta, pois seria nada mais do que um palpite. Nunca gostei de fofocas, nem estava curiosa quanto a qualquer coisa naquele momento. O cemitério, apesar de cheio, havia formado uma bolha de solidão à minha volta. Estava me sentindo idiota parada ali, triste e sozinha, à beira de um ataque de choro e nervos.

Uma moça loira de óculos, muito bonita, usando calças jeans, aproximou-se olhando diretamente para mim, com um sorriso.

– A morte é uma viagem solitária na madrugada – disse ela, e se posicionou ao meu lado direito, com a mão sobre meu ombro.

Antes que eu pudesse dizer algo, outra moça loira cruzou meu caminho e se aproximou, como se me conhecesse, dizendo:

– A morte é um caminho que você cruza sem saber se vai chegar ao outro lado – e passou para meu lado esquerdo, segurando minha mão.

Ela mal havia acabado de falar quando outra loira, ainda mais jovem que as duas, bastante maquiada com um batom roxo, idêntico a um que comprei muito tempo atrás, parou diante de mim e falou algo:

– A morte é um tiro que acerta no escuro.

Enfim consegui respirar e retrucar:

– A morte é estúpida de qualquer forma que venha – e me desvencilhei das três.

Quando olhei para trás, um bando alegre de criancinhas me barrava o caminho. Todas riam e gritavam ao mesmo tempo, brincando com uma mangueira e atirando água umas nas outras. Uma delas, uma garotinha miúda, olhou para mim e sorriu. Falou com a sabedoria de quem ainda nem completou cinco anos:

– Morrer é quente e é gelado ao mesmo tempo.

Dei um passo à frente, na intenção de pegar um pouquinho daquela água tão convidativa sob um sol escaldante, mas elas riram e se afastaram com a mangueira. Uma mulher havia acabado de chamá-las, talvez uma professora ou tia.

Voltei a olhar para as louras, e elas estavam conversando com dois rapazinhos cheios de espinhas no rosto, como as que eu tinha naquela idade. Eles pareciam rir de algo incrível, e quando me notaram olhando para eles, um dos dois falou:

– A morte é vingativa e desastrada.

– E usa as pessoas para contar vantagem – o outro completou.

– Ah, me deem licença! – enfiei-me no meio dos dois e atirei meu buquê de flores por entre os túmulos.

Haviam interrompido meu retiro, minha meditação e até minha melancolia. Que fossem para o inferno.

– A morte não pede licença. Ela entra sem ser convidada, pois todas as chaves estão no bolso dela.

Quem disse isso foi uma garotinha um pouco mais velha do que as crianças da mangueira. Ela era morena e usava um vestido branco e flores nos cabelos. Era a mais sorridente de todas, e eu me arrepiei quando a vi. Foi a primeira vez naquele dia em que fiquei realmente surpresa, e ao mesmo tempo muito chateada.

– Eu não queria… saber tanto assim – falei, evitando encará-la, mas a menina segurou minhas mãos entre as suas.

Eram leves como algodão, mas ao mesmo tempo me provocavam um aperto tão forte no peito que pensei que fosse morrer.

– Você não sabe nada sobre a morte – ela disse com suavidade – Ela não segue regras que você possa compreender.

– Vamos! – e em um minuto as três loiras e os rapazes estavam indo se juntar às crianças e à professora que se afastavam, olhando para trás e sorrindo.

A garotinha continuou me encarando, e eu não queria olhar para ela, não queria pensar em mais nada. Eu sabia que ela tinha que ir, mas queria tanto que continuasse ali, que não me deixasse sozinha como antes.

– Me levem. Com vocês – implorei, segurando a mão da menininha morena, mas ela riu de mim e olhou para as outras, que acenavam.

– Um dia volto pra te buscar – prometeu, deixando-me prostrada no chão, com a cabeça abaixada para não vê-las subir, ao mesmo tempo em que se tornavam transparentes.

Quando voltei a olhar para a frente, tudo o que vi foi o campo verde e o céu azul, cada vez mais manchado de nuvens cinzentas.

 

12 comentários em “Nove Questões Sobre a Morte – Virginia Barros

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  1. Você me enganou, achei que a narradora também estava morta. Gostei da estratégia que você usou para reunir nove definições sobre morte. “Morrer é quente e é gelado ao mesmo tempo”, minha predileta. Bom tê-la por aqui, Vcbjork! Beijos.,

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  2. Olá,

    O texto tem pegadinhas, engana o leitor, na verdade nem sei se captei toda a extensão dele. Achei criativa as ” questões sobre a morte”, a personagem parece está em um rito de passagem, de despedida dela mesmo ou de outro alguém.

    O texto é leve na medida do possível e o ar de mistério funciona bem.

    O enrendo ficou um tanto bagunçado pra mim.

    Parabéns!

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  3. Olá, Virgínia! Gostei do seu texto intimista com estas definições filosóficas sobre a morte lançadas por almas que povoavam o cemitério, achei bacana esta personagem que consegue ouvi-los com uma naturalidade bem maior do que a sua convivência com os vivos. A mim pareceu que a menina tinha tantos parentes mortos que nada mais a ligava à vida terrena, e esta suspeita se confirmou quando ela suplica à garotinha morta que a leve com o grupo. Um texto criativo e interessante, gostei!

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  4. Oi, boa noite!
    Gostei muito do seu conto, achei bem construído, com imagens bem claras, o enredo também. Pelo que entendi a vida da visitante do cemitério já não fazia sentido, mas ainda não havia chegado a hora dela.
    Gostei muito da frase “Morrer é quente e é frio”, tenho uma experiência particular com isso e o que vem depois não sei, mas é quente, bem quente, o quase morte.
    Parabéns pelo conto!
    Beijos

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  5. Um conto que aborda a morte de maneira singular. Qual o sentido? Nove maneiras de se definir a morte, formando um retrato que não agrada a protagonista. Também pensei que a moça tivesse morrido e por isso via os outros desencarnados. Narrativa sutil que desperta a curiosidade e nos faz refletir sobre o fim certeiro que todos teremos. Bom trabalho!

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  6. Quando eu penso no que é a morte, minha resposta é: a morte é um eterno sono sem sonhos; mas gostei bastante dessa: “A morte é uma viagem solitária na madrugada”. O que ficou para mim é uma menina sozinha e depressiva que já não sente mais vontade de estar em meio aos vivos, e essa garotinha morena, talvez seja uma irmã que tenha falecido. Me lembrou também, uma notícia que assisti no telejornal, sobre um acidente com um ônibus escolar, onde apenas uma menina sobreviveu. A dor dela em ter perdido tantos colegas era tão grande, que talvez teria sido melhor que não houvesse sobrevivido.
    Um conto forte e que causa boas reflexões.
    Abs ❤

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  7. Olá, Virgínia,

    Tudo bem?

    Não sei se já conhecia sua verve. Creio que não e gostei bastante. Você nos trouxe uma abordagem metafísica da morte, apresentando a busca da personagem (e da autora) da explicação do inexplicável. A morte que é? O tema me atrai bastante e não à toa meu livro de contos se intitula “Pequenas Mortes Cotidianas”.

    Seja muito bem vinda. Estou louca para ver mais de seu trabalho por aqui.

    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Olá Virgínia, seja bem-vinda ao Blog, chegou chegando com o seu conto de finados. Esse negócio de morte me fascina, achei interessante a abordagem dos espíritos para saciar as angústias da protagonista em relação ao que era a morte. Cheguei a pensar que ela tb. estivesse morta, fiquei matutando o que ela estaria fazendo ali, quem seriam os seus entes queridos, o que as crianças falecidas representavam pra elas? Não sei se foi coincidência do acaso, ou um belo arranjo de Pitágoras, mas na numerologia pitagórica o nove representa o fechamento de ciclos, encerramentos, a morte de forma metafórica, e que foi usado no seu texto, as nove questões sobre a morte. Que a vida nos traga as respostas. Bjs.

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  9. O texto tem pontos de excelência – principalmente pelo fato de tornar interessante uma tema já bastante explorado que são as reflexões sobre a morte. Um passeio no cemitério cria o clima necessário para a divagação filosófica, as personagens e suas falas trouxeram a originalidade.

    Essas colocações sobre morte (e por dialética, sobre a vida) sempre serão assunto de discussões, temas de obras…

    Parabéns pela ideia e execução. Gostei muito. Bem-vinda ao grupo. Beijos.

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  10. Ai que suto! Pensei q a moça havia morrido!
    No fim, ficou um sentimento gostoso da lembrança daquelas pessoinhas tão felizes e tão transparentes… hehe
    Gostei muito desta leitura. Obrigada, Virginia!

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  11. Olá, Virgínia! Boa estreia! O texto filosófico sobre a morte prende o leitor desde o início e aguça sua curiosidade em um suspense que segue até o final. Boa escrita, viés interessante. Sucesso!

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  12. Olá, Virgínia. Um conto muito pequeno, com muitas respostas que, como todas as boas respostas, apenas servem de porta a novas perguntas. Também duvidei se a menina estaria morta ou viva, mas depressa compreendi que conseguia ver e ouvir os mortos. Parabéns.

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