Recado para Papai – Vanessa Honorato

P4i, tô te escrevendo esta carta porque quero que o senhor saiba o que aconteceu naquele dia. Os mano e eu tava no busão, a gente tava feliz, gritando, cantando o hino do Timão, quando apareceu aquele frutinha. Pô pai, ele tava usando aquela camisa verde e era oficial, não era de camelô igual a minha! A gente era em cinco, começamos a zoar o cara.

V0u te contar uma coisa, velho, o frutinha era valente. Mandamos que tirasse aquela coisa verde e parasse de bancar o papagaio, mas ele num abaixou a cabeça, continuou mascando seu chiclete e rindo. Zeca foi se aborrecendo com aquilo, levantou e empurrou o cara. Ele caiu sentado num dos bancos e já bateu em pé de novo. O motorista parou.

S41r do busão foi a única solução. Descemo e Zeca já foi logo jogando o cara no chão, que logo revidou com um soco no nariz. Pai, sem zoação, deu pra ouvir o nariz do Zeca estalando. Os grito dele despertou nossa ira. Fomos todos pra cima do cara. O nosso sorriso de deboche foi recebido à bala. O frutinha estava armado. Pivô levou chumbo na perna; Cabelo na barriga; Bodão e eu saímos correndo. É, pai, fomos uns covardes, abandonamos nossos parceiros pra serem mortos por um palmeirense!

D4qu1 pra frente a coisa foi feia. Bodão se jogou no chão quando ouviu mais tiro. Eu puxei ele pelo cabelo. A gente tava perto de uma praça onde tinha uns mato e foi hora de reagir. Sorte que eu já conhecia o lugar. O senhor lembra, pai? Era naquela praça que me levava para jogar bola. Claro que lembra, foi lá que vi o senhor puxar um bráu pela primeira vez. Fora os litrão de pinga. Por que parou de jogar bola comigo? O senhor era meu herói, pai. Foi por isso que te liguei naquela hora. Sabia que o senhor não andava sem um revólver e podia ajudar a gente.

E o que o senhor fez? Nada. Nada! Simplesmente desligou o porra do telefone! Devia tá com alguma puta e não tinha tempo pra falar com o filho. Pô, o único jeito foi usar o que tinha. Bodão pegou umas garrafa de vidro e quebrou o gargalo delas, e eu peguei uns pedaço de madeira para servir de porrete.

V0u te falar, a gente tremia e suava igual porco. Pensar em porco me deu força pra ir atrás daquele desgraçado. Saímos abaixados, e como não sou burro nem nada, deixei Bodão ir na frente. O filho da mãe já tava longe, eu o vi correndo. O sangue ferveu quente na veia quando percebi que ele tinha atirado no Zeca, no Pivô e no Cabelo de novo, bem no símbolo do Timão. Eles tava morto, pai. Mortinho! Eu sou macho e não chorei, igual o senhor me ensinou. Olhei pra minha camisa e a lembrança de você me dando ela de presente pra ir no jogo foi mais forte. Te liguei de novo, mas tinha esquecido que o senhor desligou a porcaria do telefone.

T3 digo que senti ódio, mais nada. Corri com vontade e Bodão também. Ele foi por um lado e eu por outro. O frutinha verde atirou na direção do Bodão, mas passou longe. As pessoas que passavam por ali começaram a correr e a gritar. Claro que teve uns folgados que preferiu pegar o celular e filmar. O revólver dele não disparou mais, acho que não tinha mais bala, porque correu até cair. Pulei em cima dele já descendo o porrete. Bodão deu uns chute, mas minha fúria era tão grande que acabei acertando Bodão sem querer e ele deu no pé. Enquanto eu não vi sangue sair por todos os buracos daquele porco, eu não parei. Suor escorria pela minha coluna, minhas mãos estavam trêmulas, mas o porco foi abatido.

M4t4r, é papai, foi a primeira vez que eu matei. Até agora não me arrependi. Pô, era só ter tirado aquela maldita camiseta, mas ele quis assim. Até hoje o senhor não veio me visitar. Deve tá com o rabo preso com os cara, né? Bodão foi o único parceiro que me sobrou. Somos de menor, ele nem preso foi. Sei que logo saio daqui.

Espero que tenha entendido a carta.

Até breve,

Seu filho amado.

14 comentários em “Recado para Papai – Vanessa Honorato

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  1. Oi Vanessa, seu texto é bem forte. Intenso. Acontecem muitas coisas, dá pra deduzir mais um monte de coisas, tudo narrado de um jeito muito inteligente, nessa linguagem crua e real dos jovens de hoje, infelizmente. É um texto sobre ódio, preconceito, morte. E ainda tem o mistério dos números misturados com as letras e a dica do personagem sobre ter entendido a carta, tudo leva a crer que tem um certo código, que eu não consegui decifrar, infelizmente. Gostei muito! Parabéns pela originalidade!!

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  2. Seu conto narra uma história de violência gratuita e preconceito absolutamente inaceitável e infelizmente tão comum e verossímil. A linguagem coloquial que reproduz o falar de um jovem da periferia ficou bacana. Gostei de ler! Beijão.

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  3. Olá,

    Nossa, Vanessa… que texto intenso. Por ser tão real e verossímil ele desperta os sentimentos do leitor. Li agoniada, começando a ficar muito irritada até o ponto da revolta. Você conseguiu transmitir muito bem essa realidade, essas falhas graves de família, da sociedade que transformam um dia de festa em uma tragédia, por ignorância, preconceito, irresponsabilidade.

    A linguagem infelizmente soa tão natural.

    Parabéns pelo texto.

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  4. Menina Vanessa! Queria aprender a escrever com esta naturalidade que vc tem, menina. Vc trouxe para nós personagens que sabemos que existem como pessoas reais. Pessoas que banalizam tanto a vida ao ponto de achar que o time tem mais importância que a liberdade, o amor ao próximo. E vc fez isso com muita propriedade, como uma escritora segura, adulta, pronta para o mercado editorial. Um beijão, adorei

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  5. Forte, hein? É…bem real. sua descrição de uma noite de futebol que deveria ser de alegria para os jovens e terminou em tragédia, feita numa carta do menino para o pai ficou bem contundente, muito bom mesmo.
    Achei também bem interessante a utilização de números para substituir letras, como os adolescentes fazem.
    Interessante notar a consciência do protagonista, ciente de que em breve estaria solto.
    A ausência do pai, na vida do jovem. E as consequências.
    Tempos difíceis.
    Parabéns, Vanessa!!

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  6. Narrativa em forma de carta que traz uma mensagem codificada. O que significam aqueles números? Suponho que o pai saiba como interpretá-los. A caracterização da fala (ou escrita) do personagem/narrador está perfeita. Conto desconcertante. Parabéns!

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  7. Conto bem realista, violento mesmo, um caso de briga de torcedores, covardia e violência gratuita. A narrativa é ágil e envolvente, a omissão do pai pesa bastante. Também se destaca a questão da impunidade, um dos assassinos não é preso por ser menor de idade, o que escreve a carta acredita que logo estará livre de novo. Crônica de uma realidade cruel. Bom trabalho!

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  8. Que show você deu aqui, Vanessa!
    Coisa boa!
    Uma carta muito daora, mano!
    acredito q era o numero do celular q ele enviou ao pai na esperança de q ele lhe ligasse?
    Eu achei super real a linguagem do garoto e de tão real emociona a gente!
    Parabéns!

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  9. Querida Vanessa,

    Tudo bem?

    Conto epistolar com mensagem cifrada… Mas qual é a mensagem? “Espero que você tenha entendido a carta”. Não confiando muito na perspicácia do pai, o filho deixa os números sempre na primeira palavra de cada parágrafo. Obviamente há mais que o que está escrito na correspondência. Há um segredo de pai e filho, um celular, a combinação de um cofre, uma data… 441410344. A quantidade de números condiz com a de um telefone.

    O interessante é que você conseguiu manter o leitor junto ao texto, mesmo após seu fim. Voltamos nele, tentando decifrar o enigma (ao menos comigo foi assim).

    Quanto ao enredo, temos aqui a premissa da triste realidade do menino que cresce aprendendo sobre preconceito, violência, intolerância e, antes mesmo de se tornar adulto, repete os padrões aprendidos.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Futebol, paixões, violência, periferia, tudo junto e misturado. Texto cru, certeiro, nuances de um humor trágico, como a referência do cara correr atrás do porco e o símbolo do “verdão”. Fiquei curiosa pra decifrar os números, qual mensagem cifrada? Diz aí pra nóis, mano! Bjs.

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  11. Brasileiro ama futebol mesmo. A torcida fanática sempre rende bons assuntos. Uma carta forte, o filho preso e tentando se comunicar com o pai, clara e enigmaticamente. Gostei do nível de linguagem de acordo com a situação e o padrão social dos personagens, do ritmo ágil da escrita, do tom de intimidade, enfim, do estilo bem condizente com o conteúdo. Não consegui decifrar a mensagem dos números… E aí? Vai revelar? Espero que sim!

    Parabéns por mais este texto de qualidade. Beijos!

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  12. Um texto muito forte e, até, revoltante. A realidade dura, porque é inegável a autenticidade que passa. Como eu costumo dizer… Esse mundo está virado numa panela velha, esburacada e cheia do pó da ferrugem. Fazer o quê? Valeu muito sua escrita – muito muito boa! – e a reflexão a cada parágrafo. Vou ser sincera: não me liguei nos números como um código. Parabéns pelo conto! Um grande e carinhoso abraço!

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  13. Olá, Vanessa! Um conto que está mais para crônica! Um conto que está mais para mensagem cifrada> Boa utilização da variante coloquial que aproxima o leitor do protagonista de classe baixa, ou média-baixa e que cativa pelas entrelinhas. Um pai que anda armado. Um pai que na aflição do filho desliga o celular. São esses detalhes que vão preenchendo esse universo rico e sabiamente representado no seu texto. Observação: qual a mensagem ao pai?

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  14. Olá, Vanessa. Imagine eu a ler isto: não consegue imaginar. Foi quase chinês, estrangeiro sem dúvida e numa língua extremamente difícil de decifrar. Percebi a violência gratuita e admirei a sua capacidade de plasmar o quase analfabetismo do jovem. Percebi os erros ortográficos com números e tudo, a dificuldade foi entender o sentido de cada frase, que acabei por ir apanhando por conta do “clima”. Não posso dizer muito mais. Beijos.

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