Gostava de andar por ali – Ana Maria Monteiro

Gostava de andar por ali. Pouco lhe importava qual o café onde finalmente se sentava a ler o seu jornal, ou o cinema onde passaria duas horas, ou até mesmo o filme que iria ver.

O que ele gostava mesmo era de andar por ali.

Andar por ali e entregar-se ao seu passatempo favorito: não fazer absolutamente nada.

Era um bom homem – ser mau requer algum empenho.

O seu mundo desenrolava-se placidamente entre a Alameda e a Praça de Alvalade. Era quanto lhe bastava.

Fora mau aluno, detestara andar na escola e estudar. Estar na escola significava estar dentro de um recinto fechado sem ser refastelado na cama ou numa poltrona; estudar era em si mesmo uma espécie de actividade.

Por essa razão, cedo abandonou a escola. Não queria ir à tropa, mas não teve outro remédio. África. Guerra colonial. Odiou, claro. Mas ainda assim conseguiu passar essa época relativamente bem; graças à sua maneira de ser dócil e bem-humorada e, também porque tinha estudado um pouco numa época em que a maioria dos soldados eram analfabetos, obtinha tarefas de secretária e raramente saía do quartel.

Regressou.

O irmão mais novo conseguira escapar à tropa. Casara muito novo e fugira para a Holanda com a mulher. Ali se tornara um belo cozinheiro. Era um rapaz ambicioso e lutador, bastante diferente dele.

Continuou a viver com os pais, mas teve que ir trabalhar. Foi a mãe quem, desesperada, acabou por conseguir-lhe emprego através dos movimentos de influência de uma rede de amigas e conhecidas.

Empregado de escritório numa fábrica. Que horror!

Acabou por ser o único emprego que conheceu na vida, mas odiou cada um dos dias que lá foi. Por isso faltava tanto.

Ao menos a fábrica, que era longe, tinha uma carrinha que ia todos os dias buscar os funcionários a Lisboa e parava às 7h10m em ponto na Praça de Alvalade a recolhê-lo, mas ele raramente lá estava e acabava por gastar metade do ordenado em táxi para ir trabalhar. Apenas não o gastava todo, porque boa parte das vezes acabava por não ir mas, das que foi, jamais perdeu a carrinha de regresso à tarde.

Era incompreensível para quantos o conheciam como é que nunca foi despedido – mas não foi mesmo. Ele era simplesmente encantador e essa característica foi a sua melhor aliada para o total fracasso da sua vida. Todos o aceitavam como era e gostavam dele assim.

Muitos dos nomes que hoje são figuras conhecidas nas artes e no espectáculo, naquela época frequentavam ou viviam na Avenida de Roma. Conheceu e privou com bastantes deles. Oportunidades na vida não lhe faltaram.

Mas ele era assim. Não desejava mais do que andar por ali.

Quando aconteceu o 25 de Abril ficou satisfeito e teve imensa pena por vir tão tarde: meia dúzia de anos antes e ter-se-ia livrado do Ultramar.

Ainda foi comunista. Ter de trabalhar para viver foi o sentimento que experimentou mais semelhante ao de revolta. E os comunistas não gostavam de fábricas e muito menos dos seus donos – ele também não. Se acabassem com elas ficaria livre de ter que voltar ao emprego.

O comunismo durou-lhe pouco. Nunca passou de uma ideia vaga na sua cabeça e algo que se assemelhasse a qualquer espécie de militância estava, por natureza, posto de lado à partida.

Por incrível que pareça, até chegou a casar. Ela decidiu tudo pelos dois.

Não houve filhos. Curiosamente, por vontade dela, já que a ele a ideia até agradava. Seria apenas o pai. Não teria que os parir nem que tratar deles. E os miúdos também gostam de esplanadas…

O casamento durou pouco. Ela não aguentou.

Ele sim, aguentaria toda a vida. Tirando o facto de ter deixado de viver na Avenida de Roma, tudo o resto lhe parecia perfeito. Além disso continuava a ir para lá todos os dias para apanhar a camioneta da empresa que, depois do casamento, passou a perder com maior frequência ainda acabando por passar o resto do dia a andar por ali. À hora do almoço ia visitar a mãe e comia em casa dela.

O fim do casamento doeu-lhe muito.

Ela amava a mulher. Tinha-se permitido amá-la porque os sentidos não o tinham alertado e, aparentemente, amar não dá trabalho.

Voltou para casa dos pais, doente de amor, mas aparentemente igual ao que sempre fora – amável, calmo, aprazível e deliciosamente encantador e bonito.

Tudo continuou exactamente como antes: andava por ali.

A vida tinha passado a doer-lhe insuportavelmente. Não sabia como lidar com isso. A dor, não o obrigando a nada, não desaparecia, não diminuía, não o abandonava em momento algum – era omnipresente e devastadora.

A ex-mulher refez a vida dela.

Não a odiou por isso, nem ao outro. Por essa altura já tinha descoberto que os sentimentos, afinal, podem ser ainda mais cansativos do que o trabalho.

E tudo o que queria, era manter-se próximo dela. Se a hostilizasse, ela provavelmente deixaria de almoçar ou de tomar café com ele, como continuava a fazer com alguma frequência.

E esses bocadinhos que tinha com ela eram o seu bem mais precioso – naquela época, talvez mesmo o único.

Mas estar com ela, embora de forma diferente, doía-lhe tanto como não estar.

Num Sábado à tarde, numa linda tarde dum lindo mês de Maio, estava sentado numa das esplanadas que costumava frequentar na Avenida de Roma e sentiu uma dor violenta no peito.

Primeiro disse: Ai!

Em seguida chamou: Mãe!

Depois morreu. Ali mesmo.

Quando a ambulância chegou, ainda tentaram reanimá-lo, fizeram tudo o que estava ao seu alcance no local – mas de nada valeu.

O coração parara definitivamente. Doía-lhe bater e isso dava trabalho.

O dono da esplanada não gostou nada de todo aquele espalhafato de ambulâncias, médicos e paramédicos. São coisas más para o negócio.

Mas conhecia-o há muitos anos e não pôde deixar de lamentar a sua morte.

– Tão jovem! Quarenta anos! E nunca fez mal a uma mosca.

Durante algum tempo, só os passantes se sentavam naquela mesa onde a morte tinha acontecido. Os conhecidos não a ocupavam; num misto de homenagem e superstição tinha passado a ser a cadeira do Pedro. Por isso raramente estava ocupada.

Isto agradou-lhe. Afinal de contas, continuava a gostar de andar por ali.

Ilustração de João Catarino

14 comentários em “Gostava de andar por ali – Ana Maria Monteiro

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  1. Uma narrativa rápida e envolvente como a vida. Algumas passagens ficaram ótimas, a vida de fato doí e não tem remédio que passe, apenas veneno. Gostei da forma como conduziu a história como um carro numa estrada limpa, parando apenas para abastecer, mostrando ao leitor flashes de sua vida comum, absolutamente banal.

    Um homem preso a procrastinação, que assim como veio, se foi sem deixar muitas marcas.

    Parabéns.

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  2. Ana, boa madrugada! Seu protagonista é a personificação de um tanto de pessoas que flutuam pela vida sem deixar sua marca. Sem deixar legado, ou filhos, ou obras, apenas sobrevivendo com o básico. Eu mesma às vezes me sinto um pouco como este homem, deixando a vida passar por mim sem maiores sobressaltos. É um grande trabalho criar um conto sobre uma pessoa sem grandes feitos, é preciso ter talento para fazer de seu texto uma trama envolvente, fazendo o corriqueiro quase invisível brilhar, e isso foi conseguido com sucesso por vc. Grande abraço.

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  3. Fiquei encantada com seu conto, Ana Maria. A história de um bon vivant que, a bem da verdade não sei bem se era, afinal para ser bon vivant ele teria trabalho, então, creio que não seria bem o termo rsrs
    Muito bem elaborado, adorei o final….ele continuou por ali? Um fantasma preguiçoso? Delícia de conto,
    Beijos!

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  4. Um conto elaborado de acordo com um protagonista encantador. Senti-me familiarizada com o personagem que apenas quer andar por ali, passando pela vida sem nada exigir. O tempo trouxe sentimentos que despertaram uma urgência que não se acertou com o ritmo em seu peito: e o coração parou. Narrativa fluida, com um ritmo gostoso de acompanhar. Muito bom mesmo! Gostei imenso.

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  5. Uma vida relaxada e despreocupada. São meus olhos ou ele se tornou um espírito vagante depois de morrer? Foi o que eu entendi, por isso o final me surpreendeu. O cara tinha tanta preguiça de tudo que ficou com preguiça até depois de morto! Conto leve e divertido, bom trabalho!

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  6. Uma vida apática… Difícil luta diária. Realmente é preciso muita força de vontade para viver, e não apenas sobreviver, neste mundo caótico. “Acabou por ser o único emprego que conheceu na vida, mas odiou cada um dos dias que lá foi” que tristeza! Pensar que isso acontece com tantas pessoas…
    O personagem do conto me lembrou outro personagem de ficção: o Seu Madruga, rsrsrs, simpático, amigo de todos, mas com um desânimo incrível de enfrentar a vida. Um conto gostoso e que nos faz repensar se estamos vivendo ou apenas sobrevivendo…
    Ah, e o final foi muito legal, afinal, agora ele pode andar por ali tranquilo, sem trabalho e sem nada para atrapalhar.
    Abs ❤

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  7. Ana, para o seu conto bem caberia a trilha musical de Zeca Pagodinho, um cantor das bandas de cá, e a sua música “Deixa a vida me levar, vida leva eu…”. Vc criou um personagem linear, sem sobressaltos, e ainda assim tão intrigante. N aceleração da vida de hoje, chega a ser poético alguém querer viver apenas curtindo a paisagem. Para ele tudo dava trabalho, trabalhar, amar, até estar vivo dava trabalho, mas mesmo assim, não me pareceu alguém infeliz, melancólico, era a legítima pessoa que veio ao mundo a passeio. Parabéns, abçs.

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  8. Oi, Ana,

    Tudo bem?

    Gostei bastante de seu conto.

    Interessante como o tema é a cada dia mais pertinente em nossa sociedade moderna. Há poucos dias li um conto com a mesma premissa (de Sabrina Dallbelo, ainda não publicado), depois, fui a uma reunião sobre cultura onde uma rapaz de 30 anos, em um depoimento, falou de sua dificuldade em escolher coisas, ou melhor, segundo ele, a dificuldade de toda a sua geração. Ele deu como exemplo a NetFlix. Na tela, vários filmes dispostos oferecem tantas opções que ele se confunde e se cansa. Assim prefere deixar que o sistema escolha por ele. Interessante, não?

    Penso que, talvez, o fenômeno não seja tão novo. Talvez isso se deva ao preço que pagamos por pensar. Algum tipo de defeito em nosso cérebro aos se desenvolver tão rápido, ou por caminhos não esperados. O certo é que escolhas geram um stress tremendo…

    Desculpe se divago, mas se o texto faz isso com a leitora, certamente é porque é ótimo, você não acha?

    Gostei especialmente do final, com o protagonista vagando por seus lugares habituais, em uma espécie de nostalgia daquilo que não viveu.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  9. Olá, Ana! Gostei muito do seu texto. Algumas das amigas,aqui, lembraram-se de outros personagens, letra de música. A mim, lembrou um antigo amigo, simpático e pouco chegado ao trabalho. Era um péssimo professor, mas amava um discurso, que iniciava sempre com os versos de Francisco Otaviano :

    “Quem passou pela vida em branca nuvem
    E em plácido repouso adormeceu,
    Quem não sentiu o frio da desgraça,
    Quem passou pela vida e não sofreu,
    Foi espectro de homem, e não homem,
    Só passou pela vida, não viveu.”

    Ironia, não é mesmo? Amei seu protagonista, um fantasma em vida e morte. Parabéns pela ideia e construção leve e prazerosa. Obrigada pela leitura. Beijos.

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  10. Ana… Seu personagem e o enredo que construiu para ele me fez refletir sobre as pessoas que passam e vão sem deixar vestígio, marca, qualquer momento memorável; sem modificar nossa existência por pequena que seja a ação. Tem um trecho de uma música que diz que “hay muertos que no hacen ruido” – existem mortos que não fazem barulho, isso é, não mudam nada, não constroem nada – ” Y es más grande su penar” – e é maior o seu penar, porque acredito que morrem no esquecimento, não são lembrados, não vivem na memória de outros. Parabéns pelo conto. Um grande e carinhoso abraço!

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  11. A preguiça pode ser o pior doa pecados e a maior das delícias ao mesmo tempo. Macunaíma q o diga. Muito interessante o recorte q vc escolheu para esse conto. Concordo com a Paula, sobre a pertinência do tema nos tempos atuais. Eu mesmo tenho um amigo q nunca conseguiu se adaptar às exigências funcionais desse mundo louco em q vivemos. Muito bom o conto, vou ficar pensando nisso o resto do dia.

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  12. Olá, Ana!

    Senti um certo humor no texto, confere? Amar dá trabalho, trabalhar dá trabalho, envolver-se dá trabalho. Vive-se, mas não existe. Existir requer o pensar, o calcular, o envolver-se. Um texto despretensioso sobre um protagonista despretensioso, mas que nos traz a reflexões profundas com um certo humor negro. Ou seria sádico? Bom texto!

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  13. Oi, já li ha alguns dias, mas só agora pude vir comentar…
    Eu gostei deste personagem.. claro q sua preguiça tomou umas proporções maiores do que ‘deveria’, mas é assim mesmo, quem consegue controlar tudo? Mas eu gostei desta sua personagem afável e sem compromissos (há tantos por ae), a autora enfatiza varias vezes q ele é uma pessoa carismática! Eu nao considero isto jogar a vida fora, é como a Cigarra do conto, o que seria da vida da formiga sem a cigarra pra cantar pra ela?
    A cada um o seu caminho.
    Quem dera eu possa passar pela vida e deixar marcas tão leves, diáfanas.. acho q seria mais fácil voar ^^
    .
    Bj, querida..

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