Justificativas – Thata Pereira

Não ousava espiar por trás das cortinas como as outras fizeram. Sequer uma partícula de imaginação tentava pensar na euforia das pessoas na plateia. Talvez se tivesse tido filhos, marido. Se os pais fossem vivos ou houvesse algum indício de onde os irmãos estavam. Talvez grande parte dessa imaginação tentaria decifrar seus acentos, expectativas, apreensões e sorrisos, quando ela, a tão temida cortina, se abrisse e trouxesse consigo o enorme clarão do agora. Contudo, contradizendo as esperanças de que aquele momento fosse vivido por inteiro, o hoje é desenhado a partir dos traços do passado. Tinha a mais concreta certeza de que só estava ali porque havia nascido, crescido e vivido dentro dos seus próprios ressentimentos.

Descalça e na ponta dos pés. Seria essa a sua primeira tentativa de se tornar dançarina? Com certeza bailarinas não tinham os pés sujos de poeira e de terra vermelha, mas, sim, de sonhos. Equilibrava-se para mover a antena da tevê que chiava mais do que o rádio velho da avó. O programa ia começar e sabia que podia assistir dez minutos cravados no relógio, antes da aula.

— Mas eita menina teimosa — estremeceu a mãe ao perceber o uniforme amassado, o cabelo despenteado e os olhos encharcados de desejo. — Vai-te já pro banheiro lavar os pés, molhar os cabelos e ajeite esse uniforme!

— Mas mãe…

— Nem mais nem menos! A gente é humilde, mas a gente é limpinho.

E essa era a frase final para qualquer conquista da mãe sobre os filhos. Eram cinco. Dos cinco, ali viviam quatro. Quatro guris limpinhos, para ela e o marido realizarem os sonhos. A menina não reclamava da autoridade da mãe, porque sabia que os irmãos mais velhos já davam muita dor de cabeça. Seu presente para aquela mulher que trabalhava dia e noite, noite e dia, junto do esposo, era não contradizer sua superioridade. Apenas uma coisa ela não abria mão: um dia iria dançar, até que a vida pudesse justificar a própria vida (seja lá o que isso significasse para quem ouvisse).

Seis minutos de atraso. Para ela o tempo era algo caro e cada minuto bem aproveitado ou perdido estava repleto de lembranças. Mas tentava se concentrar no hoje. Todos já estavam posicionados. A música ia começar. Sete minutos de atraso. Um tempo perdoável. Para a plateia, não para ela. Não sabia se aproveitava o momento, se buscava concentração ou se rezava para que tudo terminasse logo. Um, dois, três. Não era o sinal para começarem, mas a batida do próprio coração.

Releu o parágrafo mais uma vez. Queria se sentir satisfeita com o que havia escrito, mas não estava. Precisava ser perfeito, precisava convencer a si mesma e a todos que a ouvissem que havia nascido para aquilo. Porém, não conseguia transformar os sentimentos em palavras. Começou a apagar a folha. Fazia força, mas a página se rompeu apenas quando a primeira lágrima caiu sobre ela.

— Mãe, desse jeito ela vai acabar com toda a borracha — gritou o mais jovem dos meninos.

A essa altura a mãe já estava cansada e tudo que fazia era lançar olhares intimidadores. A menina, como sempre, resignava-se. Recolheu o material, deitou na cama e chorou até dormir. Não acordou para jantar. Muito menos para terminar a redação que a professora pediu.

E então veio o clarão, a cortina se abriu e ela percebeu que não havia mais tempo para desistir. Não olhou para os expectadores, não prestava atenção nas outras dançarinas. Tudo que queria era dar o melhor de si e provar que nasceu para aquilo. As recordações tornaram-se mais fortes, a respiração fraca. Sentia cada batida do coração e julgava que as pessoas ao redor pudessem, até mesmo, ouvi-lo. Não sabia se seus órgãos estavam no compasso da música e queriam dançar, ou se algo de errado estava acontecendo.

— Maria Laura — chamou a professora. — Venha aqui na frente, conte-nos o seu sonho.

A menina saiu do fundo da sala, segurando com força o caderno, enquanto a professora tomava seu lugar, para escutá-la. A folha estava em branco e as mãos tremiam. Pensou em mostrar a marca das lágrimas, a fim de que elas contassem uma história. Mas se fosse para mostrar algo, seria aquilo que realmente lhe importava.

Colocou o caderno sobre a mesa. Arrancou o par de tênis, sob o olhar curioso da turma, permanecendo com as meias. Tentou posicionar as mãos da maneira que viu no programa de tevê, mas elas ainda tremiam. Fechou os olhos, concentrou-se e foi, aos poucos, tentando se equilibrar na ponta dos pés. Sabia que ia conseguir, já havia feito em casa. E conseguiu, segundos antes de se desequilibrar e cair.

Tinha medo de cair. Tinha medo que qualquer falha destruísse a apresentação. Tinha receio de não ser boa o suficiente. Sabia que as lembranças estavam ali para impulsioná-la, para fazê-la forte. Buscou o ar. Agora faltava pouco. Conseguiria. Finalmente realizaria o único e, por isso, maior sonho. Dançou para uma plateia, que não estava cheia, mas que também era sua. E encontrou a razão da própria vida.

Não ousou levantar a cabeça, mas ouvia os risos. Não devia sequer ter se levantado da mesa e, naquele momento, preferia ter dito que não havia feito a redação. Por sorte, o sinal tocou. A sala ficou vazia, sobrando apenas ela e a professora.

— Você tem um sonho muito bonito, Maria.

Sem responder, a garota arrancou a meia o mostrou o ferimento no dedo do pé direito.

— Não parece ser nada, uma unha quebrada — continuou a professora, sorrindo. — Mesmo assim, vou pedir que chamem sua mãe.

Conseguiu. Ela conseguiu. E, no momento que a cortina se fechou, ela não só ouviu, mas sentiu os aplausos arrepiarem a pele. Havia um grupo com o qual compartilhava sua alegria, mas queria só mais alguns minutos de egoísmo. Para aproveitar. Conseguiu provar que podia se apresentar para uma plateia, podia dançar. Era dançarina. Chorava e a emoção era tanta, que caiu. Deitou-se no chão, enquanto as outras mulheres abraçavam-se. Não conseguia respirar, mas ninguém parecia perceber.

— Você foi brilhante, Maria — uma delas sussurrou, mas Maria Laura não ouviu. — Maria… Maria?

Fechou os olhos e se permitiu uma última recordação. Estava sentada em sua mesa, enquanto a mãe e a professora conversavam, na porta da sala de aula. Elas não sabiam, mas Maria Laura podia ouvir.

— Eu não posso… não posso falar isso para ela professora — disse a mãe. — Ela quer dançar. Quer ser dançarina. Não posso dizer que ela não pode realizar seus sonhos.

E a vida justificou-se.

13 comentários em “Justificativas – Thata Pereira

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  1. Olá, Thata!

    Acho que toda menina um dia sonhou ser bailarina. Eu mesma fiz muitas aulas de dança e tudo a troco de nada,sou naturalmente deselegante, mas mamãe insistia, queria fazer do desastre uma princesa, conseguiu com as minhas irmãs. O texto é um mix de fluxo de consciência do momento presente com lembranças dos desejos da menina. A redação a ser feita é o mote para unir passado e presente, e as duas emoções: mostrar o seu sonho sem usar as palavras – Apresentar-se para uma plateia de verdade (anos mais tarde). A mim me pareceu que Maria Laura já era uma dançarina experiente, mas que a cada apresentação ela ainda sentia o mesmo frio na barriga, nao sei se esta é a interpretação correta, talvez sim. Por dez anos de minha vida eu cantei em vários palcos, mas da primeira até a última apresentação, nunca deixei de provar do nervosismo dos iniciantes. Um texto sensível, intimista, que nos insere com delicadeza na vida de uma mulher. Parabéns, Thata, felicidades

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  2. Oi, Thata!
    Quanta sensibilidade, beleza e tristeza, justificando a vida de Maria, a bailarina que nasceu dos próprios ressentimentos.
    Gostei demais do modo que você uniu o passado com o presente – justificando- nos pés de Maria Laura. Pés, instrumento para uma bailarina, pés, símbolo do caminhar.
    E a vida, triste e ao mesmo realizada da menina que dos descréditos que imperavam em sua vida, fez carreira, provavelmente de sucesso.
    Amei, meus parabéns!

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  3. Uma bela história calcada em sonhos de menina. Também fiz aulas de ballet, cheguei a usar sapatilhas de ponta. Entretanto, durante aquele período dos 11 aos 17 anos, esquivei-me de participar dos espetáculos. Somente, depois dos 20, pisei no palco, desta vez dançando jazz, e percebi que a luz me impedia de enxergar a plateia. E dancei e me diverti.
    Seu conto traz delicadeza intercalando o presente com lembranças da infância. Maria consegue realizar seu sonho, a vida se justifica, mas… O que acontece no final? Ela morre de emoção? Texto muito bonito, com cores suaves e um toque de melancolia. Com trabalho, Thata.

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  4. Conto bem poético, intimista, penetra na alma de uma menina simples que tem um sonho e se apega a ele como ninguém. Me parece que ela está se recordando de um momento especial da infância enquanto se prepara para se apresentar, fazendo meio que um “balanço” da vida dela, das dificuldades que teve que enfrentar para chegar até ali. Muito bonito!

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  5. Todo o conto é maravilhoso, mas o final me levou às lágrimas, quando a mãe disse “Não posso dizer que ela não pode realizar seus sonhos”. Sei bem o impacto que o apoio ou não de um pai/mãe causa na vida de uma criança. Fiquei me perguntando por que a professora disse isso. Seria Maria portadora de alguma deficiência que a impediria de dançar? Por isso demorou tanto para conseguir realizar seu sonho, a ponto de não ter mais a mãe ou os irmãos para a ver? Um conto lindo…
    Abs ❤

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  6. Oi Tata. Gostei muito do conto. Muito interessante a maneira como vc constrói essa trama que vai e volta no tempo pra nos contar a história da Maria e seu sonho de ser bailarina. Eu vi como se fosse uma renda fina de bilro, cujo desenho é tramado na frente do “cliente”, para seu deleite. Ou como o desenho da coreografia de um balé. A leitura flui com a leveza mesmo da dança, num bailado gostoso de acompanhar, apesar do final triste. A morte do cisne? Se eu fosse sugerir alguma coisa (e já sugerindo, hahaha!), seria no sentido de você dar uma alinhavada mais forte nas passagens entre um tempo e outro da história. E talvez trabalhar mais o final, a partir do momento em q a cortina se fecha. A menos que sua intenção tenha sido que ele fique bem aberto, acho que está causando alguma confusão sobre o desfecho: ela morreu porque tinha uma doença, mas ela não desistiu de seu sonho mesmo assim (como o cisne, que é o q eu acho)? Ela era experiente ou não? Parece, pela descrição da personagem, que não é mulher jovem. Mas também nada no texto diz que é mais velha.
    Um trabalho muito bem conduzido, parabéns Tata!

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  7. Embora a ideia de uma bailarina motivada por ressentimento soe triste para mim, acho que isso acentua a reflexão sobre o peso do passado na vida de uma pessoa que o seu texto propõe. Gostei da forma como você mesclou as memórias da menina desencorajada pela mãe com a ansiedade da bailarina prestes a pisar no palco. Um paralelismo com grande potencial de expansão. Não ficou claro para mim se a personagem é uma bailarina profissional ou uma iniciante em seu debut no palco. No início do texto imaginei a primeira hipótese, mas ela se enfraqueceu com o desenrolar da história. É o primeiro texto seu que leio e gostei bastante. Que venham outros. Beijos.

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  8. Olá Thata, texto de muita sensibilidade, identifiquei-me bastante com essa menina rodeada de crenças limitantes na infância, e sonhos submersos. Fiquei na expectativa e curiosidade para saber se ela conseguiu realizar o seu maior sonho, se a sua força na vida foi maior do que os muros das limitações impostas a ela. Bjs.

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  9. Querida Thata,

    Tudo bem?

    Seus contos mostram sua sensibilidade na vida.

    Muito bem narrado, ele convida ao vislumbre infantil, sem que seja um texto para crianças.

    A premissa é excelente. Sonhos impossíveis, sonhos não realizados, tentativa erro na conquista de um sonho e o suporte dos pais para que uma criança se torne uma adulto feliz.

    O final me deixou um pouco em dúvida. Por que motivo a menina não poderia dançar? Ela era portadora de alguma limitação que só é revelada ao leitor no final? Ou talvez aqui você fale mais de uma limitação social? Bem, pode ser, ou não. Eu mesma sou uma menina que jamais poderei dançar. Não sou portadora de nenhuma limitação como as conhecemos, porém, devo ter algum grau de disritmia, pois simplesmente, embora cante e seja afinada e mesmo engane bem no palco, a dança com seu ritmo e contagem e passos, embolam meus pés. Talvez esse seja o caso de sua menina, como um tipo de patinho feio às avessas.

    O fato é que o conto é muito bom.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Escrita impecável, delicada com tom doce; descrições sobre desejo e realidade bem construídas e comoventes. O paralelo entre passado e presente foi bem conduzido, tendo papel importante no conto mostrando as nuances da psiquê humana. Entendi que a mãe não quis cortar os sonhos da garota que depois se realizaram, ela tornou-se bailarina.

    Parabéns, um trabalho muito bom! Beijos.

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  11. Olá, Thata! É sua estreia no blog, não? Seu texto revela grande sensibilidade com relação à condição humana. É digno de comentário o lapso de tempo entre passado-presente. E por mais que não saibamos as limitações contingenciais que a impediam de realizar seu sonho, é agradável ver que a protagonista logrou sucesso, apresentando-se ao palco para a apresentação de sua vida.
    Um ótima estreia. Ressalva apenas para alguns adjuntos adverbiais que devem ser seguidos de vírgula e uma sugestão, de trazer o passado em itálico para tornar a diferença mais óbvia. No mais, um trabalho perfeito. Muito bom!

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  12. OI, Thata!
    Owww que vc deixou aberto demais.. hehe
    Mas nao deixou de encantar com tanto sentimento exposto.. amei a menina apresentando sua redação na sala de aula. coisa gostosa é se ter um sonho da vida inteira! E que trágico quando não o podemos realizar por uma limitação física.
    Mas ela morreu realizada, Isso é importante! É de se refletir!
    Parabens pela sensibilidade, que é sua marca!

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  13. Não sei se o nervosismo passa com o passar do tempo. Creio que não. Porque não existe propriamente um momento primeiro. No meu entendimento, todos são momentos primeiros de um tempo que é único.
    Um texto sensível nos fazendo mergulhar em reflexões. Parabéns!
    Um grande e carinhoso abraço.

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