ARDÊNCIA – Juliana Calafange

Noite alta, madrugada ainda, a mulher abriu os olhos e logo reconheceu a necessidade encalacrada na garganta. Precisava falar da sua covardia. Nunca lhe ocorrera falar sobre isso, pois lhe causava vergonha. Sempre. Mas é que hoje aquela covardia estava ardendo muito, mais do que já ardera antes. Hoje ela inflamava e urgia.

Geralmente chegava quando a mulher estava vazia e distraída, quando não havia ninguém por perto. Quando a mulher olhava em volta e percebia que a estrada era fria e seca, e infértil, e mesmo assim insistia em trilhá-la. Nessas ocasiões é que a covardia da mulher gritava o seu nome.

Mas o que fazer, se era nessa estrada oca que batia o peito da mulher, agora nu? Nu e ardido, queimando. Sua paixão nua, encarniçada, queimando.

Pensamento em chamas, a mulher olhava aquele corpo de homem estendido na cama e procurava saída, procurava o herói que viesse libertá-la, mas ela estava só. Mesmo não estando sozinha, a mulher estava só. Nem o cachorro veio resgatá-la. Tantas e tantas vezes chegou a achar que só aquele homem – que disse uma vez para ela, sem vergonha nenhuma, que não a amava – poderia salvá-la, tirá-la de uma vez dessas águas escuras, revoltas, profundas. Mas logo em seguida a mulher percebia que essa era só mais uma de suas ideias românticas. Um redemoinho de ideias e medos e desejos e pecados e desculpas.

A mulher precisava falar dessas águas. Essas águas opacas como agora a sua íris, sua pupila, todo o seu olhar. Um olhar frio como nuvem de chuva no espelho do banheiro, a visão embaçada no espelho feito de silencio. E de covardia. O maxilar da mulher agora apertava até doer. Nada iria sair de sua boca. Doía a cara toda da mulher no espelho.

E a mulher encarou bem firme esse olhar triste e incontestável do seu reflexo no mundo. Até quando haveria gás para queimar? Abandonado, seu olhar a mirava no olho.

Talvez fosse preciso.

Quem sabe a mulher precisasse pensar melhor sobre essa impressão que teve. Como era urgente falar sobre a sua covardia. Como também era forçoso encontrar imediatamente a saída daquele quarto, daquele cômodo mofado, estéril, trancado.

Olhou para a janela e depois para o relógio. Mas não era o tempo que assustava mais a mulher. Nem o passado, nem o futuro.

Temia a sua sanidade, caso deixasse sair o que tinha se refugiado na glote por tantos anos. Temia o espaço aberto, o próprio céu, o ar respirável. Afligia-se com o possível diagnóstico de Deus a respeito da sua vontade inconsequente de desacreditar. O rosto ali refletido, uma cópia barata da sua humanidade, a acusava de tudo – e ria-se dela – o rosto ria um riso solto, sincero, cruel. Doía. Doía como um parto. E a mulher ali, muda. E nua. Diante daquele espelho imundo.

Mesmo que eu quebre os muros deste sanatório, mesmo que eu fuja correndo daqui pela janela, mesmo que eu morra latindo, com a língua toda para fora, ainda levarei comigo o delito, a grande falta de coragem! – pensou assombrada a mulher, ao encarar sua própria imagem.

O que fazer, se era essa a sua natureza – louca e estúpida, como já sentenciara em outras vezes e em muitas vozes o estranho que dormia na cama? Como escapar da sina, seu único destino – traçado provavelmente nas entranhas do universo – esse eterno urdir e derruir paredes ao seu redor? Seu castigo era, e sempre fora, o receio, a fraqueza, a dúvida.

Mas naquela madrugada, não entendia, a mulher era toda necessidade, emergência. Foi por isso que tomou a decisão de resistir e escapar, já, agora mesmo, bem depressa! Para, antes de tudo, sobreviver e por último – ou quem sabe pela primeira vez – ser.

A mulher correu, correu muito, desengolindo palavras ao vento enquanto corria, mas o pensamento nela. Naquela que vem sempre só – e que só vem quando a mulher está só.

Passou voando pelo tempo, de olhos fechados para não vê-lo, e faltava muito pouco para amanhecer. A mulher logo percebeu que apenas ela continuava a correr e que a jornada era longa e sua solidão era enorme.

Todavia, como já não era mais a mesma, a mulher parou, levantou a cabeça pesada e olhou com atenção e por um prolongado instante, para as estrelas do céu – e o céu estava limpo, iluminado, e já não ardia tanto. E a mulher não sentiu-se mais covarde. Nem sozinha. Porque viu que todos na verdade são.

16 comentários em “ARDÊNCIA – Juliana Calafange

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  1. A narrativa e a temática me remeteram a Clarice Lispector. Ainda que não nos identifiquemos com os conflitos, a densidade da linguagem termina por nós envolver no mergulho interior da personagem. Funcionou, Ju! Bom trabalho!

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    1. Oi Elisa! Sim, claro que me inspirei em Clarice. Estava aqui penando pra ter uma ideia pra escrever e resolvi ler. Acabei a leitura com O Búfalo (se não conhece, recomendo). E então veio a voz narrativa para este conto. Eu fiquei foi com dúvidas (e ainda as tenho, sou teimosa) se deu certo. Gostei que pra você tenha funcionado!

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  2. Juliana, querida. Quando eu leio um conto eu sempre tento entender o que o autor quis passar. Sou uma pessoa muito apegada ao concreto, ao real, àquilo que se explica no primeiro momento da leitura, sem muitas sutilezas. Isso faz com que eu, usualmente, reclame daquilo que não tenho condições de analisar e concluir na primeira leitura. O convívio com outros autores (EntreContos, As Contistas, DTRL e CLTS) têm me deixado mais sensibilizada para os significados outros das palavras, tem me feito perceber as nuances do cinza na escala que vai do branco ao negro, e isso é bom. O mais legal, entretanto, é que me dei conta que as coisas podem ter vários significados, interpretações, e o que eu percebo pode ser completamente diferente do que as outras contistas leem. No seu conto eu vi uma mulher insatisfeita. Tentei descobrir quem era o homem ao seu lado, na cama. Se era marido, amante, um mero michê que ela pagou para que lhe desse prazer, mas, afinal de contas, isso pouco importava. O cerne do conto era o rompimento daquilo que fora vivido até então, para o que seria vivido a partir de então, e se eu consegui pelo menos chegar perto daquilo que vc quis passar, já me sinto uma leitora que consegue ir um tiquinho além do óbvio. A caminhada é longa e cada conto que eu for ler vai me trabalhar mais neste crescimento. Parabéns e obrigada.

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    1. Hahaha! Querida, vc acertou sim! A história no fundo é sobre isso mesmo. A Elisa também acertou quando enxergou a Clarice Lispector pelos entremeios. Eu ando tentando experimentar outras vozes pras minhas narrativas, nessa eterna busca de um caminho onde eu me encaixe e consiga dizer o que me interessa dizer. Nem sempre consigo, mas tudo é um exercício. Por isso queria que o conto ficasse em rascunho, porque acho que ainda tenho muito a trabalhar nele. Com a ajuda de vocês, chegarei lá!
      Beijos e obrigada pelo retorno!

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  3. Voltei para falar do conto. Uma história que é como um fluxo íntimo de pensamentos saídos da cabeça de uma mulher em transição; entre as personagens detectei dois homens. Um que ela aciona nos momentos de solidão, mas que ela se culpa porque sabe que é apenas um paliativo, um jeito que dá para aplacar sua ânsia de ir atrás da sua verdade, do homem que ama mas não é correspondida, do que ela é – Ardência x essência. É um conto para ser lido devagar, porque os significados são muitos, cada um com o sabor que se coloca nele. Esse rompimento é doloroso, mas no fim ela se reconcilia com a decisão que tomou, ao constatar que ser sozinho é a natureza de todos. Uma trama complexa não pelo tanto de gente, apenas três, mas pelo tamanho da protagonista, na self trip que ela faz. Está muito bem. Escreve grande. Beijos.

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  4. O seu conto me remeteu a um conto meu publicado aqui no Blog, Devoção. A sua narrativa está bem mais densa do que a minha, mais doída. Mts mensagens ocultas na sua história, relacionamentos tóxicos, o abandono de si mesma, mulheres mendigando amor, será que isso existe na vida real? Demais, né. Gostei da forma como vc. explorou essa mulher que delegou o amor por si mesmo a terceiros. Algum retoque? Talvez só nas últimas linhas, menos poético, manter a densidade, mas isso é no meu ponto de vista, cada um enxerga o texto cfe. o que ressoa dentro de si mesma. Go ahead! Gostei pacas! bjs.

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    1. Obrigada pelo comentário, Rose. Concordo muito com vc, acho q preciso trabalhar mais esse final, está mesmo destoando um pouco do resto do conto. Que bom que você gostou! Beijão!

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  5. Narrativa envolvendo que aborda as reflexões de uma mulher sobre sua falta de coragem. Lá se deixa levar pela vida e aceita a companhia de um homem que deixa claro que não a ama. Por medo, vai empurrando os sonhos para os lados e sofre com a ardência do desejo de mudar. De repente, corre, vai em busca de si mesma e descobre que não está só, nem é a única covarde.
    Gostei do modo como conduziu a trama. Somente achei que o final poderia causar mais impacto, pois a última frase pareceu-me incompleta, mas sei que quis dizer que todos são, na verdade, covardes .

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  6. Um fluxo de consciência abordando sentimentos fortes, insanidade e mistério, quase uma paranoia pela “ardência” com que se conduz a construção da personagem, do ambiente. Pareceu-me que a protagonista está em uma briga com o mundo e consigo mesma.Trama complexa que fala de paixão, de solidão. em linguagem poética e densa. Gostei.

    Parabéns pelo bom trabalho. Beijos.

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  7. Olá, Juliana.

    Um conto misterioso que faz uso e abuso do fluxo de consciência. Então, parto dele para tentar entender a protagonista: se ela se pega pensando no passado é porque ainda se vê presa a ele, por mais que ela tenha corrido, achado que não é a única covarde ou solitária. Confere? Não sei porquê, mas a vejo ainda enclausurada ao delito que cometeu, a esse passado que não a deixa. Gostaria que você me esclarecesse. Um ótimo conto, com muita densidade. Apenas uma ressalva: na sentença final, o não, partícula negativa atrai o pronome átono, então creio que ficaria ‘E a mulher não se sentiu mais covarde’.

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  8. Olá, Juliana!
    Dá pra sentir a ardência desta mulher, de certa forma, uma voz feminina universal.Eu diria a palavra ânsia…. mas não é bonita para um título.. hehe
    Senti tb, a vontade de q fosse maior este texto, para que viesse, enfim, alguma elucidação do que estava acontecendo de prático naquela vida ali, q como falei, é de todas nós.
    Parabéns pelo texto!

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  9. Pude sentir a angústia e tristeza desta mulher ao tentar mudar sua vida, ao mesmo tempo que tem medo da vida e do tempo. Sua covardia não pode ser maior que o desejo de ser quem realmente é, sem se importar com o idiota do homem que a faz sentir-se louca. Quem dera todas nós conseguíssemos passar por essa ardência da coragem e tomássemos os rumos de nossas próprias vidas.
    Abs ❤

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  10. Oi Ju, eu gosto de contos assim, com várias interpretações, e fico curiosa se a minha foi a que você planejou… Bem, eu vi uma mulher que procura em vários homens o que ela queria ter com aquele que não a ama, ela tenta se livrar desse ciclo vicioso e não consegue até esse dia em que ela decide que sua covardia é insuportável.
    O conto está impecável. Profissional. Parabéns! Gostei muito!!

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  11. Querida Ju,

    Demorei mas cheguei. Li no dia em que você publicou e reli hoje, para comentar.

    Seu conto remete sim, como disse a Elisa, a Clarisse Lispector. Interessante, porque o da Sandra também, mas de um modo diferente.

    Gostei muito de sua abordagem, da voz narrativa, da premissa. Ardência, que remete imediatamente ao fogo, artifício que você utilizou, inclusive, na foto. E fogo nos faz imediatamente pensar em um tipo de desejo de origem sexual. A ardência de sua narradora, no entanto, é de outra natureza e acontece, justamente, e um um provável momento de pós sexo. Ora, há um corpo nu de homem a seu lado. Esse corpo, no entanto, nada diz a ela. É vazio e faz com que ela se sinta ainda mais vazia e só, fria e em chamas, oca de si mesma e do preenchimento que só a capacidade de ir atrás do próprio desejo (sonho ou amor) poderia por fim fazê-la plena.

    A falta de iniciativa própria, O desejo de romper da casca (mais uma vez aí está Clarisse), apenas para poder ser aquilo para que veio ao mundo, ela mesma, é o fogo que arde nessa mulher. O mesmo fogo que arde um pouco em cada uma de nós, e, ainda que independentes, ainda que feminista, ainda falta muito (ou um pouco) para que possamos romper da tal casca e nos dizemos donas de nosso próprio mundo. Nossas vontades. Desejos. Ardências.

    O conto é muito bom e merece ser revisitado pela autora depois, pois tenho certeza que ele rende ainda mais de você. Esse é um dos melhores de seus trabalhos. É intenso e forte.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Gianini

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  12. Oi, Juliana!
    Brilhante seu conto, extremamente rico em significados, muitos detalhes significativos – precisei ler duas vezes, para poder captar o sentido que, para mim, claro, o texto trouxe.
    Muito rico em metáforas, todo metáfora e fluxo de consciência – o renascimento, talvez essa Ardência tenha a ver com o mito da Fênix, também.
    Em meio ao sono/distração/vida eis que olhos se abrem, mentes são libertas e o que vem junto com isso nem sempre é o mais fácil, o mais agradável a ser sentido, constatado – mas é o necessário.
    a vida dessa mulher é, enfim (na hora certa) colocada em questionamento, tudo o que tem feito dela a “outra” mulher que ocupa quase todo o espaço dentro ela mesmo, essa mulher que, olhos fechados, passa correndo pela outra – ela mesma, para não ver, não pensar, apenas libertar-se.
    Todos os motivos que a levaram até ali, os motivos que agora a levam a fugir dali, para enfim, não de forma serena, mas ardente, constituir novo rumo….que profundo, demais!
    Gostaria até de uma continuação, viu?
    Parabéns!
    Beijos

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  13. Nossa… Eu fiz umas quantas leituras, mas todas elas me remeteram à solidão de tudo. Sabe… Aquele vazio de coisas. Não as coisas concretas. As coisas que realmente nos tornam felizes, ou humanos, ou plenos. Acho que essa personagem tem um vazio monstruoso. Isso me fez pensar em quão frágeis não somos. Talvez minha interpretação não esteja tão dentro do que você quis dizer, mas, enfim… É isso.
    Um grande e carinhoso abraço.

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