Perfume no elevador – Priscila Pereira

Letícia voltou para casa irritada, novamente, já havia se tornado um hábito. Não suportava os clientes irritantes que atendia na perfumaria do shopping, o trabalho era mal remunerado e opressivo, sentia falta do ar puro do campo, estava cansada das frescuras do povo da cidade grande. Essa inquietação, que ela atribuía ao descontentamento com o emprego, tinha outras causas, que ela sabia muito bem, mas se recusava a dar o braço a torcer.

Assim que entrou no cubículo que chamavam de elevador do precário prédio onde morava, encostou na parede, fechou os olhos e suspirou. Um perfume suave estava fixado no ar parado do elevador, uma fragrância diferente, que ela custava a reconhecer por causa do olfato saturado. Sem que ela percebesse, lembranças de casa começaram a brotar, o cheiro verde e quente dos campos floridos de sua cidade natal, o sabor forte do café que sua mãe fazia, o aperto carinhoso dos abraços do pai, o barulho do vento entre os pinheiros, a sensação da água gelada molhando os pés no riacho, a vontade louca de sair daquele fim de mundo e melhorar de vida, o olhar magoado de seu namorado, quando contou os seus planos e o gosto salgado do beijo de despedida.

Sua vida não estava melhor agora, ao contrário, depois de um ano na cidade grande nunca esteve tão cansada, solitária, depressiva e pobre. Daria tudo pra voltar para casa, mas não podia chegar assim, do nada, reconhecendo a derrota. Enquanto todas essas coisas passavam rapidamente por sua mente, lembrou nitidamente de onde conhecia o perfume no elevador. Era a fragrância amadeirada com um toque de limão que seu  namorado usava. Uma saudade insuportável tomou conta dela, daria tudo para poder vê-lo novamente, abraçá-lo, sentir o seu cheiro e estar junto dele.

Lágrimas boiavam em seus olhos e ela enxugava antes que caíssem. A porta do elevador se abriu e ela saiu com passos lentos e arrastados, foi então que ela viu um homem alto, forte, camisa xadrez, calça jeans e botas de couro, na cabeça um chapéu de boiadeiro, nos olhos uma determinação sem limites. Seu coração bateu descontrolado e todo o seu corpo amoleceu. Era ele.

– Letícia, eu vim te buscar. Volta pra casa comigo.

Sua voz era grossa, o tom rude não conseguia esconder certa nota de doçura. Enxugando os olhos ela disse:

– Por que demorou tanto?

10 comentários em “Perfume no elevador – Priscila Pereira

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  1. Olá, Priscila! Como não entender esse drama de tantos.De tantas por esse Brasil afora. Um conto curo, mas potente, que cativa o leitor e nos faz torcer por essa protagonista enclausurada em sua vida infeliz. Bom conto.

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  2. Poxa vida, fiquei com medo agora, rsrsrs. Estou em fase de transição, deixando não só o espaço interiorano, como também tentando adequar ao modo mais acelerado de vida urbana. Espero que não me arrependa, no fim.
    Abs ❤

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  3. Quantas sinestesias, um romance feito da saudade e da mescla de sensações. Gostei do final feliz.Um conto com cara de filme sessão da tarde. Isso é ruim? De maneira nenhuma. Eu amei a protagonista carismática, a trama bem desenvolvida e a forma sutil com que apresentou o contraste entre o urbano e o rural.

    Linguagem e escrita estão muito boas, o ritmo da leitura é prazeroso, daria para ler por horas, sem cansar. Parabéns por esse trabalho interessante em que estilo e ideia se fundiram com exatidão. Beijos.

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  4. Oi, Pri, que bonito, sensível e reflexivo o seu conto. Vi e senti todos os sentimentos vividos por Letícia, imaginei Elvis Presley (não sei a razão rs), como o namorado que chega para salvá-la. ah, que lindo, amei. Beijos

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  5. uria, que lindo!! É curtinho poderia ter virado um poema e participado da Janela, hein!! hehe
    Adorei…
    Lembrei de um romance q li há seculos, de uma moça q não queria assumir a derrota de um tufo q ela levou do marido, nao queria contar à familia e vivia solitaria distante de todos, ate q um galã maravilhoso veio salvá-la..hehe
    .
    Adorei cada palavra usada neste conto..Parabéns pelo texto, muito bom!!

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  6. Ai, que conto mais fofo! Narrativa ingênua que combinou muito bem com a chuvinha que cai aqui. Interessante a vida da moça basear-se no sentido do olfato. Trabalha em uma perfumaria (onde acabou farta de tantos odores da cidade que antes eram o seu sonho) e a saudade e felicidade que se revelam através do perfume do namorado. O simples e o bom se mesclam nesse conto. Gostei!

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  7. Quando eu comecei a escrever contos, não tinha nenhum domínio sobre a medida que os contos devem ter, então eu criava enredos gigantes e tentava espremê-los em o espaço curto do limite de palavras que os concursos propunham. Por várias vezes, várias pessoas me avisaram que eu deveria pegar a minha ideia para o conto e transformá-lo em um romance (confesso que ainda faço muito isso), até o dia em que eu tive uma epifania escutando um áudio de um menino contista, muito mais novo do que eu, mas que me deu aquele click. Ele falou alguma coisa como um conto ser como o retrato, o instantâneo de um determinado momento, e por ter esta breve medida, não poderia ter todas as coisas que eu inseria nos meus. Entendi o que ele estava dizendo, mas até hoje não consigo escapar de mim mesma, e continuo a escrever as minhas sagas apertadas. Falei este quilo de informações apenas para dizer que o seu conto é a exata tradução do que o rapaz recomendava, a sua história é aquele retrato do momento, sem faltar ou sobrar, a trama na medida certa, direta, passando a mensagem exata que vc quis passar aos leitores, sem se alongar desnecessariamente ou deixar pontas soltas. Perfeito em sua propositura. Isso, além de ser uma história mimosa. Parabéns, Priscila. Um dia eu chego aí.

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  8. Uma história de amor encantadora, muito bem contada pela autora. Há um quê de fábula pelo fato de a personagem trabalhar em uma perfumaria e se reconectar ao namorado por meio do olfato. Esticadinho, esse conto daria uma comédia romântica com a Emma Stone, talvez. Parabéns!

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  9. Oi, Priscila,
    Um conto na medida.
    É quase como se o tempo do conto fosse o do elevador descendo e, embora narrado no passado, parece ocorrer no aqui e no agora. Enquanto o elevador desce, o perfume de seu amor a faz refletir. Aliás, o conto em si, é uma reflexão da protagonista.
    Muito bom.
    Domínio perfeito da trama, sem mais ou menos.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  10. A cidade e os espelhos, aqueles enganos, não é? Aqueles simulacros de felicidade. Somos engolidos o tempo todo. Mas não sei se aqui, nesse texto, cabe dizer que a cidade grande é o engano, porque, na maioria das vezes, são nossos olhos, nossos anseios pelo diferente, pelo viver algo novo.
    Gostei muito do conto. Parabéns! Um grande e carinhoso abraço!

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