A vida como ela não é – Sandra Godinho

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

O barulho começou de madrugada. Nos meandros das sombras, como uma péssima dose de filme noir. Ou policial. Ou o raio que o parta. O fato foi que ele surgiu com tal magnitude que não me deixou mais dormir. E me aporrinhou o juízo. E eu me senti explodir. E vi minha vida sendo entupida de outras vidas. Uma galinha. Do vizinho. Ainda sem ovo amarelinho, com sorte. Praguejei. A gente pensa que conhece tudo, que vai fugir e ficar livre, mas não fica porque o destino é pior que praga de gafanhoto. E te segue feito sombra, mesmo durante a noite que já se findava. O marido ao lado, roncando com a boca aberta, baba saindo pelo canto da boca e se esparramando pelo travesseiro. Nem piscava. Só. Eu, no meio do quarto escuro. Eu e a galinha.

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

Não era tiroteio como nas favelas do Rio. Rocinha, Alemão, Maré, Pavão, Pavãozinho, Dona Marta. Valei-me, meu senhor São Jorge. O barulho era insistente, mas não de bala perdida. Perdida, só minha paciência. E o sono.Tateei a mão pela mesinha-de-cabeceira até tocar o interruptor do abajur, acendi a luz – o marido resmungou para, em seguida, virar-se para o outro lado. Escarafunchei a gaveta até encontrar o terço. Rezei um rosário. Dois. Livrai-nos do mal, Senhor. Dai-me paciência. Quatro horas da manhã. Eu quero dormir. Tinha perdido o hábito de rezar. Desde que nos mudamos do Rio, não tinha havido ainda necessidade de apelar aos santos. A gente só apela aos santos quando o desespero toma conta. A raça humana superficial, hipócrita e descrente. Depois, a felicidade nos faz descuidados. Depois de dez assaltos e alguma neura – já não aguentava mais o roteiro de balas perdidas e achadas em cabeças inocentes e nas tão inocentes assim – já não suportava morar no Rio, mesmo que fosse em frente ao Palácio das Laranjeiras. Quem ditava as regras mesmo era o Pereirão ao lado. Morte no morro, o comércio fechava. Sem carne hoje. As crianças não entendiam. Eu também não. Dei ao marido um ultimato: ou nos mudamos, ou o divórcio. E ele cedeu. Exatamente como fazem os bons maridos. Saravá, meu pai. Então viemos morar em Manaus, com sua floresta exuberante por todos os lados. O venda do apartamento nos rendeu uma casa confortável com piscina. Somente piscina para aguentar o calor infernal. Desculpe, infernal, não. Infernal era o Rio e seu cortejo de horrores, mesmo sendo maravilhoso, já quase me esquecia.

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

Depois de um mês de sossego no idílico paraíso – quebrado somente pelos passarinhos, escorpiões, iguanas, cobras e lagartos que, de vez em quando a gente encontrava –  a vizinha encasquetou com nossa primavera. Primavera, a planta. Já viu alguém reclamar de planta? Essa reclamou. Que seus galhos passavam por sobre o muro e faziam muita sujeira no quintal dela, que os galhos altos engastalhavam no telhado dela, uma lista de malefícios. Livrai-nos do mal, Senhor. Dai-me paciência. Satanás atentando de todos os modos. E eu nem era uma mulher de tanta fé. Mas o mal está em todos lugares. Ao final de um mês de aporrinhação, de idas se vindas com o síndico em reuniões, na igreja em reuniões, em centros espíritas em reuniões, até eu achei que as flores que caíam dentro da piscina eram demais, exigindo de mim duas limpezas na piscina por semana ao invés de uma. Ao fim e ao cabo, acabei cerrando o tronco da coitada que deixou de sorrir, digo, florir.

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

Era de dar desespero. Pior que pingo de torneira na pia durante a noite. Galinha desgraçada que não me deixou dormir. Ao acordar, fui direto falar com o síndico, que me acolheu com olhos inexpressivos. Devia me tomar como uma criatura maligna, pronta para lançar ao inferno homens como ele, cansado ao extremos com os problemas alheios. Ao me ver, revirou as órbitas, mas eu logo empostei a voz para fazê-lo orbitar o mundo dos homens novamente.

– A que devo a honra, dona Lucinda? Está gostando da nossa terra?

– Nem um pouco.

– O calor é um tanto exagerado, até nós amazonenses sentimos o abafado do ar.

– Estou falando da galinha da vizinha, senhor Arnaldo.

– Dona Lucinda, não fica bem nos referirmos aos condôminos nesses termos. Temos de tentar ser discretos.

– Estou falando da galinha que ela está criando.

– Uma moça? Não fui avisado de nada. Temos de ver quem é para permitir a entrada junto aos porteiros.

– É um animal mesmo, uma galinha de verdade que cacareja.

– Ah, isso é diferente.

– Muito diferente. Não consigo dormir. Além do mais, já vi que se trata de uma infração: artigo 7 da convenção do condomínio, alínea E.

– Exato. Dona Lucinda, Me dê um tempo para eu ter uma conversinha com os moradores. São seus vizinhos, afinal. Vamos tentar mobilizá-los pelas regras do bem-viver.

Bem-viver, o escambau. Dei meia volta, o ódio bufando nas ventas. No Pereirão, era o tiroteio, o baile funk nas alturas, a missa dos evangélicos bradando pela manhã, mas não havia galinha. Eu só queria paz. Com sorte, os vizinhos iam entender. Com sorte, eles iriam retribuir a gentileza. Pela primavera decepada, eles iam retribuir. Eles TINHAM de retribuir, senão era capaz de eu mesma decepar o galináceo para fazer macumba para os infelizes se irem de vez. À noite, o marido riu. Riu, acreditam? Achou que eu tinha de dar graças a Deus por não ser um galo. Livrai-nos do mal, Senhor. Dai-me paciência. Um rosário. Dois. O barulho não acabava.

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

A primeira atitude que tive ao acordar foi falar novamente com o síndico. Nem dei bom dia, pisando duro. Os olhos reviraram novamente. E o ódio bufou nas ventas novamente. Tudo levado ao diabo.

– Falou com os vizinhos, senhor Arnaldo?

– Falei, sim.

– E daí?

– Daí que eles disseram que não tem nenhuma galinha no jardim deles.

– Como assim? Cambada de mentirosos. Eu mesma ouvi.

– Infelizmente, é o que eles disseram.

– Vai ficar por isso mesmo?

O síndico deu de ombros, cansado demais, como se esperasse de tudo um muito da humanidade.

– Isso não vai ficar assim. Eu vou tirar uma foto.

– A senhora não pode invadir a intimidade alheia.

– Então vou gravar, da minha casa mesmo. Isso eu posso fazer, correto?

– Gravar é permitido.

Voltei à casa, indignada. Livrai-nos do mal, Senhor. Que fossem todos ao diabo. Alcancei meu celular na bolsa e fui ao jardim atraída pela justiça, interessada em arranjar a prova cabal da ineficiência. E da injúria. O marido veio atrás.

– O que foi mulher?

– Estamos cercados por gente da pior espécie. Eu vou fazer o que tenho de fazer.

– Fazer o quê?

– Vamos gravar pra provar como essa gente é vil.

– Esse barulho?

– É um cacarejo, não está ouvindo?

– É da bomba da piscina. Está com defeito, deve ser algum rolamento.

Engoli em seco. Engoli um sapo inteiro. Voltei ao quarto, peguei o terço e comecei minha penitência.

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

 

 

 

 

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7 comentários em “A vida como ela não é – Sandra Godinho

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  1. Hahahaha Espero que ela tenha aprendido a lição. “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Mateus 7:3”

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  2. Ah, eu também odeio barulho! Moro numa esquina movimentada e com semáforo, mas com buzinas e motores já me acostumei, o que me tira do sério mesmo é quando encosta algum inconveniente num dos muitos bares ao redor de mim e liga o som alto (altíssimo) durante horas. Geralmente aos sábados, durante os meus soninhos vespertinos. A sua personagem me lembrou muito de mim, menos pelo final, porque eu nunca me confundi com um barulho feito por mim mesma. Seu conto me lembrou uma história sobre uma mulher que implicava com os lençóis sujos da vizinha, até o dia em que o marido pegou uma espoja e tirou a poeira da janela da cozinha da casa deles, e ela viu que a sujeira vivia em seu próprio vidro sujo. Parabéns pelo conto, Sandra.

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  3. Muito divertido! Cabem diversos ditados populares e frases feitas como tema – desde “As aparências enganam” ao pensamento de Charles Dickens – “Cada fracasso ensina ao homem algo que precisava aprender”.

    Amei o Cocó… Cocó…Cocó…Cocó… reiterado no texto, conferiu lhe um ritmo especial e definiu a estrutura, a marcação de tempo. O texto está muito bem desenvolvido, com leitura ágil e agradável. A escrita é simples, com algumas palavras diferenciadas, mas, felizmente, não carregadas – como pede o assunto escolhido – um cotidiano apresentado de forma bem inusitada e interessante. Os sentimentos e reflexões da protagonista foram bem explorados e a surpresa final trouxe uma boa reviravolta para eles.

    Parabéns pelo excelente trabalho. Beijos

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  4. Achei muito legal. O texto está ótimo.
    Achei bem original a forma como foste mostrando os pensamentos paranoicos da personagem.
    O final é inusitado e engraçado
    Parabens

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  5. Um ótimo conto retratando o cotidiano com um toque de humor irônico. Adorei as frases curtas e de efeito. “A felicidade nos faz descuidados”, verdade. Fiquei com dó da árvore, a tal da primavera, tão linda e injusticada. O final surpreende de forma bem humorada e agradável. Mania de achar que o problema são os outros. Muito bom!

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  6. Rindo aqui, Sandra. Muito divertido!

    Pobre Lucinda fugida dos tiroteios do Rio, instalada entre os roncos do marido e o cacarejar da galinha imaginária… Um argumento interessante, uma narrativa de fácil identificação, um ótimo conto. Como sempre, um trabalho consistente, amiga. Abraço!

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  7. Oi, Sandra,
    Muito, muito, muito, muito bom.
    Meio conto, meio crônica, meio Clarisse. Parabéns! Verve amadurecendo a cada dia, mas eu já lhe disse isso.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini
    (11)982497839

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