Vinte e nove de julho (Renata Rothstein)

Acordou decidida, naquele vinte e nove de julho. Ninguém mais ia guiar seus passos, indicar o caminho, como se fosse comandada por um general invisível, ou eletrônico, uma espécie de GPS dos infernos que só aparecia para deformar seus pensamentos, seus antigos planos, seu sonho de viver.

Viver. Verbo tão vasto, que já se transformara em pesadelo, há tempos.

Mas como toda grande crise antecede grandes mudanças, após todo o sofrimento, todo joelho dobrado, vidros quebrados e pulsos cortados – medida extrema, não metafórica -, estava mais forte.

Juntou as roupas, jogou na maior bolsa que encontrou no guarda-roupa, lembrou de escrever um bilhete, dizendo que não voltaria, mas que mesmo assim esperasse, pois nunca se sabe o caminho que a estrada nos fará percorrer. Ou a estrada que o caminho irá nos impor.

Olhou para as paredes, os quadros tão queridos, o espelho imenso com moldura pintada de cobre, tão bonito, tão útil – era ali que ela costumava ensaiar suas coreografias, àquela altura para uma platéia invisível.

Também havia sido proibida de dançar profissionalmente. Só, somente para ele, se quisesse.

Tinha sido bailarina, um dia. Profissão que ele via como supérflua, um passatempo, somente.

Olhou para os pés, calçados com sandálias de grife, assim como a roupa – a roupa que era frisson entre as novas “amigas”, todas entretidas em comprar a melhor, a mais cara, a peça que causaria maior repercussão no mundo vazio e com um valor que não havia, já que podia ser calculado através de notas de dinheiro.

E aí sentiu uma saudade imensa do seu All Star todo velho e desenhado, customizado ao extremo, digamos assim. E sentiu saudade do tênis, do jeans tão confortável, das blusas com estampas de caveiras, que tanto amava, mas que não podia usar.

Inconvenientes, ele dizia.

Ela mesma quase conseguira se transformar em uma caveira, por muito pouco sua tentativa de escapar não a tornara assassina de si mesma.

Tão acostumada a manter tudo sob controle para a família e amigos de verdade não perceberem, seu plano de não causar escândalo correu conforme o esperado.

Até hoje poucos sabem da medida desesperada que tomou, naquela tarde fria e chuvosa de junho.

Calculou rapidamente o que seria preciso, entrou no banheiro da suíte, faca afiada, perfumes e uma roupa escolhida especialmente para o que viria depois.

Um vestido preto de seda, grampos de strass nos longos cabelos.

O último pedido: implorava que fosse respeitado.  Queria  ser cremada. Só isso.

Nem uma acusação, nem uma explicação ou adeus. Nada. E tudo.

As dicas e desejos que ela cumpriria -caso vivesse, caso a vida tivesse sido diferente – vinham sendo, há muito, repetidas para pessoas que saberiam fazer valer seus desejos mais profundos em relação à vida que ela, por desejo próprio, abandonaria agora.. Sabiam o que fazer – ela tinha convicção.

Decidira não viver mais, só isso. Viver assim não dava mais, mesmo.

Melhor pular fora enquanto ninguém estava prestando atenção, ou enquanto ninguém precisava dela, de verdade.

Hoje dava graças ao universo por não ter conseguido. Acreditava numa existência pós-vida, não saberia olhar para si própria depois de tal desatino, e mais, vai que exista mesmo Vale dos Suicidas, Umbral, inferno, seol – sabe-se lá, melhor não pagar para ver.

Mas naquela tarde fria de junho não sentiu que deveria seguir. Não sentiu nada.

Aliás, sentiu a lâmina. E a sensação foi de uma carícia, o sangue quente escorrendo pela mão, descendo pelas pernas, o vapor no banheiro da suíte, o calor, o calor… um apito ao longe, como se fosse um trem, a paz, muita paz! Então era assim. Nada de demônios para buscar sua alma, nada de anjo da guarda para chorar, apontando sua culpa.

Vai ver realmente termina tudo, essa paz é o resto de ar nos pulmões fazendo meu cérebro repousar, voar, voltar a ser eu, ainda pensou, antes de apagar.

Não viu mais nada. Abriu os olhos e não lembrou de imediato quem era, não sabia também onde estava,  isso durou frações de segundo.

Então olhou para o lado e lá estava ele, o mesmo olhar crítico de sempre, por trás dos óculos que funcionavam como lentes da lei. Da lei criada por ele.

Não conseguira, pensou,  conformada, lágrimas rolando pelo rosto cansado.

Soube que a empregada – sempre a empregada – percebeu que algo estava estranho e chamou os Bombeiros.

Resultado. Pulso costurado, consciência pesada. Ele mais forte, pela sua fraqueza.

Voltou para casa dois dias depois, não sem antes receber uma visita do psiquiatra, uma receita avassaladora contra depressão e uma lista tão imensa quanto inócua de recomendações.

Ela era maluca, simples assim, porra. Tão mais fácil concluir assim.

Em casa, como ele dissera, teria tudo que “mesmo com o que fez continuava a merecer”. Isso significava jóias, vestidos, visitas frias e calculadas, passeios sonhados por tanta gente e odiados por ela – ela sabia que merecia mais, em algum lugar dentro de si, ou daquela outra que fora um dia, ela sabia que merecia mais.

Um mês e poucos dias depois ela resolveu de novo terminar com tudo aquilo.

Mas agora com uma bolsa, algumas roupas, um dinheiro para ir até um lugar onde pudesse respirar, colocar a cabeça no lugar, reconstruir sua vida.

Olhou outra vez para a casa, as paredes que já tinham tanta história, olhou para o espelho, o mesmo que em noites sem fim refletia nada e viu, enfim, seu rosto, seus olhos, sua alma.

Desnudos. Mudar a si é mudar o mundo, ouvira alguém dizer, um dia.

Machucada, ferida, mas acordada, outra vez.

Recomeçaria tudo, ela tinha dentro de si a certeza.

Atravessar a porta, levando a esperança de mãos dadas e a bolsa, com algumas roupas e o dinheiro contado, foi como nascer de novo.

Olhou para o céu cinza e pesado, sentiu a leveza que existe por trás de tudo, girou a chave na maçaneta, ajeitou o bilhete no esconderijo de sempre, partiu.

Viva, ela estava viva. Então, viva… ,repetia a voz em sua cabeça, enquanto caminhava pela rua, rumo ao desconhecido, disposta a nunca mais sofrer.

Agora seria livre para caminhar passos seus, sonhar sonhos que seriam dela.

Vinte e nove de julho. E o mundo é bonito, sim.

 

15 comentários em “Vinte e nove de julho (Renata Rothstein)

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  1. Olá, Renata!

    Um conto que é um relato de coragem. Porque é preciso coragem para mudar, para desviar-se de um caminho a que todos esperam que você se encaixe. e que se adeque às expectativas que alguém traçou para vc, seja família, marido filhos ou amante. Enfim, eu me identifiquei com o texto que diz respeito a tantas. Texto comovente de coragem e ação. Muito bom!

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    1. Oi, Sandra! Obrigada pela leitura e pelo comentário, sempre atenta e generosa. Sim, gosto de escrever sobre as situações-limite que tantas vezes enfrentamos, ou conhecemos alguém que enfrente/enfrentou. A vida, nua e crua. Bjokas!!

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  2. “Ela era maluca, simples assim, porra. Tão mais fácil concluir assim” tanta verdade… é exatamente assim.
    Realmente é preciso muita coragem para viver a vida de forma que se viva e não somente sobreviva. Mais coragem ainda para achar o mundo bonito. Parabéns para o conto e para a coragem da personagem.
    Abs ❤

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  3. Seus personagens trazem a mesma marca da loucura com elas, mas a loucura tem muitas facetas. Sem uma boa dose de loucura não haveria arte no mundo, sem a loucura não haveria a música, porque a normalidade só produz rotina, mecânica, refeições sucessivas, a loucura é necessária para o mundo ter cores e curvas, e vc a retrata com perfeição.

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    1. Iolandinha querida, obrigada pelo seu comentário…sim, tenho notado que sempre abordo esse tema – loucura – de uma forma e de outra, acho uma faceta do ser humano que muitas vezes é estigmatizada, vista apenas sob esse ângulo, mas como você muito bem colocou – é imprescindível. Obrigada de coração pela força, sempre. Bjokas, linda!

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  4. Uma história sensacional.que incentiva a ver o mundo por um ângulo diferente, que expande a visão para além da morte como desfecho dos conflitos.Seria a falta de questionamentos sobre as coisas nos leva à superficialidade, na qual os verdadeiros desejos e as expectativas são sufocados. Uma lição simples , mas contundente.

    Parabéns pela mensagem construtiva, pelo texto bem estruturado e desenvolvido com leitura fluida e prazerosa. Foi muito interessante acompanhar a trajetória desta protagonista forte e decidida. É um trabalho de qualidade. Beijos.

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  5. Uma mulher vivendo um relacionamento pouco saudável, com um homem que poda seus passos, proibindo sapatilhas e tênis simples. O luxo e o conforto não saciam a sede de vida da personagem, ela quer mais e se desespera. Depois de tentativas frustradas, ela descobre que não quer se encontrar com a morte e sim com a vida, a sua vida. Cabei criando a imagem da moça partindo com os pés desnudos. Parabéns por mais uma narrativa de impacto.

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  6. Olá, Renata!
    Muito bom o texto, nos envolve. Embora tanto já se tenha escrito neste viés, o que vale é a forma como se diz a historia e a sua forma é sempre intensa! hehehe
    Adoro esta sua marca!
    .
    Um relacionamento abusivo é quase sempre tão sutil, ou a própria vítima não o percebe ou o entorno não nota nada. É preciso uma força absurda pra escapar dele!
    .
    Só um detalhe que eu acho importantíssimo, querida.. a morte pelo corte dos pulsos é a forma de suicídio mais dolorida que existe (ao que me consta) e você a colocou tão suave.. pode passar a mensagem de que é fácil.. rsrs
    .
    Bj bj no coração!

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  7. Oi Renata, esse texto é tão profundo, existem tantas pessoas, principalmente mulheres, que são obrigadas a viverem de uma forma não escolhida, imposta por outra pessoa e quase sempre a pessoa não tem coragem suficiente para se libertar e viver sua vida de acordo com seus princípios. Que bom que sua personagem conseguiu!! Gostei de ver esse lado seu sério e profundo, mas ainda amo seus textos malucos!! Kkk bjos

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  8. Uma história comovente, Renata. Um relacionamento abusivo, mas cômodo. Uma tentativa de suicídio e uma reviravolta. Sua personagem opta pela vida, pela coragem de se reinventar. Gostei da trajetória dessa sua personagem, mais positiva e esperançosa, digamos, tão diferente do que costumamos encontrar no seus textos…rsrsrs . Bom trabalho, garota! Beijos…

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  9. Oi, Renata,

    Uma narrativa que traz junto a ela a catarse. É necessário se percorrer um caminho psicológico para que se possa realmente mudar. Existe a etapa da reflexão, da decisão propriamente dita e, finalmente, a da mudança real, que não é fácil.

    Interessante notar o título do conto. É o dia da mudança. O dia D na vida dessa mulher.

    Uma trama inspiradora e uma escolha muito feliz por parte da autora.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini
    (11)982497839

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  10. Viver é uma loucura, não é mesmo? Mas viver à sua maneira, só do jeito que se entende, aí, sim, é uma baita loucura e é preciso muita coragem. E não há nada no mundo que se coloque acima disso. É sempre complicado entender a nós mesmas e entender nossas necessidades, nossas vontades. Não é só entendimento. Também é aceitação, de fato. As mudanças não acontecem por acaso.
    Parabéns pelo texto.
    Um grande e carinhoso abraço!

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  11. Li sem consegui parar, dando, enquanto a leitura, contornos reais para a sua personagem. E vi uma mulher forte e decidida em busca de uma vida melhor, algo que ela, como todos, tem direito. Quem bom que essa busca veio através da vitória e da confiança em si propria. Achei um texto verdadeiro e coerente, escrito de forma fácil. … Tao facil, que quando eu estava conhecendo melhor a personagem, o texto acabou, sem eu saber como foi o dia 30 de julho….e os outros depois. Adorei.

    Curtido por 1 pessoa

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