Faro – Elisa Ribeiro

Eram jovens comuns que carregavam, cada um dentro de si, um breve passado de amores sonhados ou modestamente ensaiados, de modo que começavam desse jeito comum o que mais tarde lembrariam terem sido suas vidas.

Quando se conheceram, entretanto, deu-se de pronto entre eles algo que antes  nunca haviam sentido. Uma atração fulminante, pressão que impelia um ao outro como se algo ou alguém de fora os juntasse, dessa forma a descreveram.

Havia também amizade e carinho, mas muito mais que afeição, atava-os  uma urgência, uma aflição  que a ambos enfeitiçava e  fazia crer ser a tal abstração a que se chamava paixão o que de fato os ligava.

Depois da mais de mês juntos, testados todos os beijos, conversados muitos assuntos, amaram-se pela primeira vez. Esperavam que no amor consumado se realizasse a perfeição imaginada, mas o amor é caprichoso e ao invés de satisfação sua primeira vez deixou-lhes um leve travo, desejo de quero mais, disfarce de frustração.

É claro que insistiram, desafiaram o amor, e a excelência que esperavam, enfim, um dia chegou.  Juntos e vazios de pensamentos, em absoluto  silêncio, experimentaram o tipo de amor que é feito apenas de um dar ao outro o que esse outro deseja.  Tal exercício estupendo  fez-lhes aumentar o desejo de estarem juntos sempre, a qualquer tempo; e eles passaram a se ver uma vez a cada três dias a despeito de toda a vida que do lado de fora do quarto reclamava por ser vivida.

Notaram que não era sempre que o encantamento do amor perfeito ocorria. Sabedoria do corpo, arrebatamentos tais como aqueles caso fossem frequentes eles não aguentariam. Porque quando a mágica ocorria, o empenho em dar-se era tanto que era como se morressem para ressuscitar em seguida.

Não tardaram a perceber que a magia acontecia a cada terceira vez que se viam. Não que as duas vezes do meio não tivessem sua valia. Prestavam-se para treiná-los para a terceira vez que viria.

Descoberta a equação, diminuíram o intervalo em que se viam de três para dois dias, tentativa de apressar no tempo seus ansiados terceiros encontros perfeitos. Mas o estratagema não produziu qualquer efeito, ao contrário, perceberam que o prazer aumentava conforme crescia o espaço de tempo entre as terceiras vezes em que se viam. Supuseram então, com sua matemática lógica algorítmica, que devia haver um intervalo de  tempo exato e limítrofe, no qual o prazer era máximo e após o qual decrescia.

Pesquisaram na prática, sôfregos, esse intervalo de tempo preciso. Lá pela centésima vez que tentavam, aconteceu o milagre cuja repetição pelo resto da vida perseguiriam. Inebriados em êxtase, calados, olhos fechados, só tato, olfato e desejo, começou a exalar de seus corpos um cheiro bom de perfume que impregnou os lençóis, os móveis e as paredes do quarto que os assistia. E quanto mais o perfume entrava por suas narinas, mais se amavam e quanto mais se amavam,  mais perfume deles se desprendia. Enfim, exaustos se apartaram, mas a lembrança daquele cheiro, do momento que o produzira, da emoção que o emoldurara e do desconsolo que ao seu desvanecimento se seguira, jamais os libertaria.

A experiência do momento perfumado transformou dali para frente o amor deles  em permanente agonia. Buscavam não apenas repetir o prodígio dos cheiros, mas encontrar, quem sabe, outros novos prodígios.

Essa busca era um prazer, contudo, a ela, às vezes, um desgosto se seguia. Mas quase sempre o que havia era o empenho, o esforço de ambos, um desejo de dar-se ao máximo e um contentamento final que, conforme o tempo passava, mais os unia.

Um dia, enfim, se casaram e ao invés de vapores perfumados, seu amor produziu filhos, que se não cheiravam bem, ao menos mau cheiro não tinham.

Enquanto os filhos cresciam, quando lhes sobrava tempo, persistiam buscando reproduzir aquele momento de amor fabuloso capaz de evolar a certeza de que a vida valia a pena. Há quem diga que tentaram redescobrir aquela química nos braços de outros parceiros. Mas o amor não é artigo ordinário e certamente não acharam já que prosseguiram juntos, atados, o desejo de um pelo outro declinando com a idade,  mas a lembrança do perfume os fazendo  manter o empenho em amar-se com alguma freqüência até uma idade avançada, quase beirando os oitenta.

Na última vez que se amaram, repetiu-se por fim o milagre: entrou-lhes pelas narinas o cheiro. E foi um aroma tão denso que sentiram seus corpos cansados flutuarem sobre ele e após isso tornarem-se tão jovens como quando haviam se conhecido. Então amaram-se muito, por horas, até que seus corpos, exaustos enfim, finaram-se e desceram.

Na manhã seguinte, os filhos nada entenderam quando encontraram os  pais, jovens como um dia haviam sido, estirados nus sobre a cama e todos os móveis do quarto recendendo um perfume suave e envolvente, que lhes grudou nas narinas, do qual nunca mais esqueceram.

8 comentários em “Faro – Elisa Ribeiro

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  1. Um conto bem diferente daqueles que vc costuma mandar. Centrado muito nos personagens do casal esquecendo um pouco o ambiente que os cerca. Um conto sobre sensações, descobertas e redescobertas. Parabéns pela iniciativa e por arriscar escrever fora da zona de conforto.

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  2. Olá, Elisa!
    Na verdade, a velhice é um voltar à juventude novamente, usa-se fraldas, perde-se o controle motor, precisa-se de ajuda às vezes até mesmo para o banho, comer, tomar remédios. Voltamos a ser crianças, no sentido de perder a autonomia. Seu texto é nostálgico, retratando o amor, ou o aprimoramento do amor, das relações entre os casais que vai se ajustando ao tempo, até que tudo se finde. Muito bom, com uma dose de tristeza na medida. Parabéns!

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  3. A história de um amor original e marcante que vence o tempo e as gerações; parece-me que o tema é a eterna busca da felicidade.

    A forma da narrativa, a linguagem sinestésica e o clima nostálgico prendem a atenção, tornando a leitura reflexiva e prazerosa.

    O desenvolvimento ocorre sem problemas ou grandes saltos, instiga e comove pelo fator inusitado, bem como outras perfumarias de suspense, bem distribuídas. O final foi interessante, diferente e fechou bem a trama.

    Parabéns pelo trabalho que mostra a sua versatilidade como autora. Beijos.

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  4. Um casal de jovens que não desiste um do outro e vão reinventando novas formas de amar, até o fim… Será que isso existe? rsrsrs, não sei, mas para a literatura ficou bonito! O fim foi uma surpresa interessante.
    Bjs ❤

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  5. O conto remeteu-me ao filme Amor sem Fim. Talvez pela urgência dessa paixão sem medidas. Conheceram um momento sublime e quiseram repeti-lo e até mesmo intensificá-lo revelando a eterna insatisfação dos jovens. Seguiram com uma vida já esperada, mas sempre aguardando por mais. E o momento chegou no final da vida, com uma entrega tão mágica que os transformou em jovens novamente. Eu interpretei que o casal foi encontrado morto mas com a aparência jovem, com o odor do amor eterno. Bem romântico!

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  6. Ai que lindo.. não sei o que dizer sobre este final… ❤
    .
    Amei a forma como levaste o texto, o enredo, ficou leve mesmo o casal beirando ao fanatismo romantico sensual.. hehe Mas eles dosaram o seu afá, graças ao perfume é claro! E a historia culminou bonita, original e comovente!
    .
    Parabéns, Elisa!

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  7. Querida Elisa,

    Não canso de dizer que vejo claramente como as contistas chegam aos poucos a sua maturidade. Cada uma no seu tempo. Os textos estão crescendo, se desenvolvendo lindamente.

    Esse seu conto é exemplo disso. É muito interessante notar como o perfume permeia toda a vida dos “amantes”. Aqui, ele funciona como uma metáfora para o amor. Em busca daquilo que sabem que existe neles, o dia em que viveram a plenitude, ápice este, inclusive, que teve de ser construído para se tornar real, o casal segue a vida na certeza daquilo que têm juntos. Ainda que nem sempre exalem perfumes, sabem que um dia o fizeram e que o olor está lá, pronto a voltar, assim que estiverem prontos novamente. E estão. No fim. Na morte. No renascimento. No amor.

    Me identifiquei especialmente com essa história.

    Um conto belíssimo. Uma homenagem ao amor e à maturidade.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Quando eu vi a imagem escolhida eu surtei! ahahaha Chagall. Que imagem poderia representar esse conto, realmente, que fala sobre amantes que se reinventam, que se renovam, porque o amor é amor quando se renova, quando se reinventa, e quando reinventa o mundo em sua reinvenção? Não poderia ser outra. E a maneira como aconteceu, gostei demais! Singelo e completo. Parabéns!
    Um grande e carinhoso abraço!

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