Do outro lado do seu mundo – Anorkinda Neide

 

 

Do pouco que lembrava, ela sempre esteve ali. Naquele ambiente, vivendo
daquele modo. Era uma garota vivendo solitária em um local ermo, belo por sua natureza exuberante e completamente acolhedor a ela. Nada lhe faltava, nada lhe era difícil. Acostumada a fazer tudo sozinha, morava numa cabana rústica e confortável, pequena e perfeitamente ajustada a suas necessidades. A garota imaginava ter sido instruída por alguém, acreditava ter conhecido outras pessoas, mas ela não lembrava. Ela evitava pensar. Fazia todas suas atividades concentrada e bastante feliz. Tinha por amigos pequenos animais, passarinhos, esquilos, coelhos… ela conversava com eles. Havia momentos em que sua mente divagava à procura do passado, era quando ela desviava o foco e permitia-se divagar sobre a vida… Por que só ela tinha a capacidade de pensar e falar ali por aqueles arredores? Seria uma sina, um acaso, uma missão particular?

Já havia feito caminhadas e expedições pela região. Caminhando para o leste, havia o mar e nela não havia nenhuma disposição para construir jangada ou o que quer que fosse para navegar. Ao oeste havia a floresta, várias vezes ela a adentrou e conhecia-lhe bem os caminhos e descaminhos, as armadilhas e os refúgios, mas jamais conseguiu ultrapassá-la. Ao sul, um campo tão maravilhoso quanto imenso, seu fim perdia-se no horizonte, se é que havia fim, ali a garota perdia-se em sua beleza que lhe dava vazão a muitos devaneios. Ao norte havia as montanhas. Tão majestosas, imutáveis, altas, coroadas com a neve mais pura… Muitas vezes ela tentou ultrapassá-las, mas suas expedições tinham um limite: o fim do dia. Ela não se permitia dormir fora de casa, sem sua aconchegante cama de colchão macio como um abraço.

Numa tarde especialmente quente, a garota estava à beira de uma fonte, recolhendo água fresca para levar para sua cabana, quando viu descer do céu um facho de luz. Como um cubo de matéria inefável, materializado bem em frente a ela. Mesmo diante a beleza deste fenômeno o mais surpreendente viria a seguir… de dentro dele saía uma voz a lhe falar! E a voz conversou com ela por muito e muito tempo. Tanto que ela pensou que tivesse enlouquecido de uma vez por todas. No entanto, a garota fazia perguntas e a voz respondia num tom tão doce e quase quente. Ela sentiu vontade de abraçá-la, fechou os olhos e aproximou-se com os braços abertos e sentiu a presença a envolvendo, como nunca ela lembrava de ter sido envolvida um dia. Chorou.

Dali em diante, todos os dias a luz que tinha voz vinha conversar com a garota. Falavam das questões da vida, da natureza, de Deus… mas jamais sobre o passado, aquele escondido nas brumas da memória. Um dia, aquela luz amiga disse à garota para que atravessasse as montanhas, se este era um desejo antigo dela e que ao fazer isto, boas surpresas poderiam acontecer. Quanto a passar noites fora de casa, a voz que vinha da luz ensinou a improvisar abrigos, orientou o que levar na bagagem a fim de manter-se aquecida, protegida e alimentada.

A insegurança ainda era grande mas a garota pôs-se a caminho, levava a promessa de que uma vez chegando ao outro lado, a luz que tinha voz a visitaria novamente, amiúde, como vinha fazendo. Ela teria uma nova vida por lá? Não sabia, pois assim como não conversavam sobre o passado também nada falaram sobre o futuro exceto pela promessa de estarem novamente juntas. Levava no peito o aconchego do abraço, daquele conforto que a envolvia ainda, e não sentiu tristeza alguma na caminhada, alguns animaizinhos a acompanharam por um tempo, a garota conversava com eles e depois com seus pensamentos sempre avante em direção ao outro lado de seu mundo, à procura de companhia…

 

Anorkinda

 

 

11 comentários em “Do outro lado do seu mundo – Anorkinda Neide

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  1. Olá, Kinda! Um conto de fantasia com floresta, animaizinhos e uma luz personalizada que se torna amiga da protagonista, fiquei aqui pensando se as visões e sensações que a moça tinha eram reais ou frutos de sua imaginação, tentando preencher um vazio na vida dela. A luz funcionando como uma amiga imaginária, e por isso não tendo passado ou futuro, pois não existia. A história torna-se mais interessante, todavia, se ali houver um ser celestial, um ser trazendo calor e companhia à garota da floresta. Só vc poderá desvendar esta questão, parabéns pelo conto.

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  2. Olá, Kinda!
    Também tive essa impressão da Iolandinha, de se tratar de um ser em outra dimensão, talvez espiritual mesmo, sem passado ou futuro, um ser que desencarnou, algo do gênero. A linguagem bem cuidada, quase poética, é sua marca. Há uma certa melancolia, o que torna tudo comovente. Bom trabalho!

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  3. Esse conto me fez lembrar O Mito da Caverna, a garota saindo de seu mundo, levada por uma voz (talvez da razão), passando por caminhos difíceis, mas com a esperança de “chegar ao outro lado”.
    Ou poderia ser uma criança prestes a nascer, que sabe…
    Muito belo…
    Abs ❤

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  4. A história de uma menina especial, em tom de alegria, de otimismo. Há uma vida pela frente, com mil possibilidades e os caminhos vão se abrindo. São apresentados, na trama, novos e surpreendentes sentidos para cada um dos temas que fazem parte do nosso dia-a-dia, como relacionamentos, inteligência, poder, fé, trabalho e realização.

    Técnica excelente – leitura simples, bem equilibrada, poder de síntese das palavras é imenso e com ritmo bem definido, muito gostoso de ler.

    Enfim, agrada bastante a narrativa ingênua, com um quê de redação infantil-feminina, um conto de fadas, com belas imagens e paisagens campestres. Parabéns. Beijos.

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  5. Fiquei com a impressão de que a menina teve uma epifania e dali encontrou estímulo e coragem para seguir atrás de seus sonhos. Há algumas metáforas no conto como a cama macia que representa o ninho do qual ela não quer sair,obstaculizavam sua zona de conforto. A montanha simboliza a ascensão e o obstáculo a ser transposto. O facho de luz que traz a consciência do caminho que deve seguir. Mais narrativa simples, mas bem conduzida pela trilha da poesia. Leitura que enleva.

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  6. Uma atmosfera de conto de fadas. Vários simbolismos: a floresta, as montanhas intransponíveis com seus seus picos nevados, a luz que ensina e conforta. Soou-me como a narrativa de um rito de passagem. Leitura muito agradável onde se percebe o seu pleno domínio dos elementos que constituem esse estilo de narrativa. Ótimo trabalho, Kinda! Beijo grande!

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  7. Oi, Kinda,

    Assim como as demais contistas, vi o conto como uma espécie de metáfora psicológica.

    “A Floresta é um símbolo universal, associa-se à origem da vida, ao útero, ao feminino, ao mundo emocional caracterizado pela ambiguidade e pelo conflito entre tudo o que é luminoso e sombrio na nossa psique”. (trecho extraído de https://grupopapeando.wordpress.com/2009/01/27/o-caminho-da-floresta-nos-contos-de-fada-amadurecimento-e-autonomia/)

    Assim, percebendo sua narrativa como uma espécie de conto de fadas, as interpretações possíveis para a saída da menina da floresta, onde era amada pelos animaizinhos, inocente e feliz, passando pelo momento em que ela se encontra com a “iluminação” e resolve partir em busca de algo; e, pelo conhecimento que tenho da autora e sua verve, opto por uma interpretação em especial.

    Para mim, o conto fala de literatura. Do nascimento da autora para o mundo, do momento de fertilidade e inspiração, passando pela “iluminação” que a coloca no caminho. Que não será nada fácil, mas que promete ser agradável e frutífero.

    No entanto, a última frase. “Em busca de companhia”, parece derrubar minha teoria. Talvez ela busque o amor, talvez nasça realmente e busque outros, humanos como ela. Talvez. srsrs

    Vou citar aqui, Sabrina Dalbelo. “- Quem é você? – perguntou o leitor ao escritor.
    – Eu sou você, que lê o que precisa de mim.”

    Um belo conto, que coloca o leitor em movimento, faz pensar.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. ahhh seus cometarios maravilhosos!! Só por eles já dá vontade de sair desta floresta em busca da companhia dos leitores.. ^^ não da? dá sim! hehe
      Obrigadissima pela leitura e realmente a interpretação é sua mas tb é minha, pois a amei!! ❤
      Bjaços, baby

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  8. Oi Kinda, sabe como interpretei o seu conto? A garota era autista ou estava presa no seu mundo perfeito por algum trauma do passado e a voz era de alguém, um psicólogo, psiquiatra, que conseguiu entrar parcialmente nesse mundo e a estava guiando para fora. Certo ou errado, gostei dessa versão. .kkk
    Esse conto poderia ter uma parte 2 hein??
    👏👏👏💖😘

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  9. Eu não sei se entendi bem, mas me senti em outro universo. Também porque a imagem me remeteu a algo longe da realidade na qual eu vivo. Enfim, é um conto simbólico, eu acho, porque podemos interpretar de várias maneiras.
    Um grande e carinhoso abraço!

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