Revelações de um Retrato Perdido – Virginia Barros

Sento na poltrona cor de vinho como se ainda fosse dez anos atrás. O risco sujo na parede de onde tiraram o quadro da minha infância me desafia, assim como os móveis errados, trocados. Levanto-me, inquieta; é pecado tomar o lugar dos mortos.

“Por que só deixaram a poltrona?”, pergunto-me, enquanto deslizo até a janela para tentar vislumbrar as flores vermelhas que minha falecida avó cultivava com tanto zelo. É claro que não estão mais ali. Tudo o que resta é a terra pisada e mato mal cuidado.

Estendo as mãos para agarrar as grades. Sempre estiveram ali, formando retângulos de ferro que sujam e mancham. São tudo que resta, além da poltrona. O que terão feito com o quadro? Volto-me para passear os olhos pelo quarto abandonado e com surpresa me deparo com a mulher de chapéu no rosto.

Quando era criança, pensava tratar-se de um retrato da minha avó na parede. Não lhe podia ver os olhos, apenas as roupas elegantes, o nariz reto e a boca, vermelha e séria.

Estremeço. Um minuto atrás, a parede estava nua e vazia como meu espírito. Eu me sentei na poltrona e a encarei, mas não havia mais para ver que um risco sujo, tenho certeza.

Estão brincando comigo, só pode. Mas quem? Subitamente, estou arrepiada, a saudade de outrora em pavor transfigurada. Contudo, o medo só me torna mais curiosa. Será este o mesmo quadro? A mulher está sorrindo. De resto, corresponde às minhas lembranças. Alguém o terá alterado? Aproximo-me, espremendo as pálpebras. Agora que estou frente a frente com seu rosto, quero continuar a vê-lo. Já que enfim me mostrou um sorriso, também desejo ver seus olhos. Sempre me perguntei como seriam…

Tento tirar o quadro da parede, mas está preso, de alguma forma mais forte do que eu. Penso em chamar meu pai para me ajudar, mas mesmo se chegasse até ele, o que poderia acontecer com a mulher de chapéu? Esforço-me em vão, a moldura está solidamente colada à parede. Sou mesmo uma inútil, é bom que minha avó não esteja aqui para ver o fracasso que me tornei.

Um súbito clarão me percorre a mente.

“Estúpida. A moldura agora é parte da parede, jamais poderias arrancá-la”

Recuo com um sobressalto, sentindo o sangue me subir ao rosto. Meu coração é uma bomba no peito, minhas mãos trêmulas largam a madeira envernizada. Ergo os dedos lentamente, afago o rosto da mulher; sempre a achei tão bela e doce. Já não há tela alguma entre nós. Acaricio as vestes de cetim rosado que aumentam seu corpo frágil. Há rugas em volta de seu sorriso. Como ela é macia, parece prestes a desmanchar sob meus dedos. Enfim chega o momento que aguardei por tantos anos; agarro o exagerado chapéu e o lanço fora, para olhar bem dentro de seus olhos.

8 comentários em “Revelações de um Retrato Perdido – Virginia Barros

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  1. Ah, eu me identifiquei muito com a sua personagem, também tenho nervoso de ver o que as pinturas não mostram. Fico tentando adivinhar o rosto da pessoa que está de costas, ou ver aquela parte que está coberta, pensei que era só eu. Gostei do seu conto, ele foge do comum. Um quadro que aparece e desaparece da parede onde costumava estar, talvez porque o vazio faça com que a imaginação da garota voe para um tempo onde a vó ainda era viva e a casa vivia cheia de pessoas e momentos. Obrigada pelo interessante conto.

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  2. Um conto confessional, curto, mas intenso, forte, bem próximo da crônica – as sensações, as emoções diante das transformações trazidas pela passagem do tempo representadas pelo retrato da avó.

    O mérito do texto está no ambiente construído, o mundo proposto, no clima de saudade e nas imagens apresentadas, tudo aliado ao foco narrativo de primeira pessoa que lhe confere maior credibilidade.

    Além disso, apresentou algumas passagens filosóficas e poéticas para aprofundar o significado da história. O tema “estamos vivos, mas vivemos como mortos” foi inspiração?

    Gostei bastante do último parágrafo, que conferiu mais força à personagem, e fechou bem a trama. Enfim, interessante na história mesmo são as ideias e cenários que podem gerar reflexões, mais que os acontecimentos e personagem. Parabéns pelo ótimo trabalho. Beijos.

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  3. Poxa, quero ver o que tem debaixo desse chapéu! Será que ela viu a si própria? Acho que sim…
    O conto me lembrou o filme ETERNAMENTE MANHATTAN, onde fico o tempo todo louca para ver a pintura que o artista faz e nunca vejo!
    Adorei o conto.
    Bjs ❤

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  4. Um conto curto, perfeito para exercitar uma narrativa densa e profunda. As lembranças escorrem pela parede vazia deixar pela morte da avó. Um risco que se transforma em quadro, uma moldura que faz parte da parede , de um mundo interior mágico. A mulher do quadro antes séria e distante transforma-se em companhia sorridente que convida a uma aventura além do racional. O conto dá margem a muitas interpretações como se fosse um jogo de desafios. Muito bom.

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  5. Gostei demais do seu conto. Para mim, soou como uma curta e densa história de fantasmas. Não arrisco qualquer interpretação, mas seu texto acendeu minha imaginação. Parabéns! Leitura mágica.

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  6. Oi Virgínia, lendo seu texto me veio na mente que sua protagonista sofre de alguma doença mental, posso estar errada, mas encaixa bem kkk
    O conto é bem visual e intrigante, quero saber mais… Isso é ótimo em um conto.
    Até mais!!

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  7. Olá, Virgínia! Um excelente conto de estreia. Quando perdemos um ente querido, as lembranças que trazemos dele nos alcançam e as imagens vão se sucedendo em nossa mente como um quadro, como vários quadros onde tentamos identificar aquele que se foi em matizes diversos. Assim interpretei seu belo texto. A voz narrativa contada em primeira pessoa aproxima o leitor ao vazio que então nos acomete. Muito bom!

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  8. Querida Virgínia,

    Tudo bem?

    Há pouco tempo assisti a um espetáculo de teatro, no qual narrativas curtas à semelhança de contos eram transportadas para a dramaturgia. O espetáculo chama-se Interiores e falava ao público, em um palco totalmente vazio, de espaços, casas, apartamentos, visitados após a morte daqueles que ali viveram. Eram os filhos, netos, corretores de imóvel, a percorrer o espaço nu e descrevendo, ocasionalmente, a antiga presena de um objeto no local. O modo como era feito, nos fazia vislumbrar aqueles móveis descritos em espaços vagos, como se ali ainda vivessem, em memórias dos personagens. Muito bom.

    Seu conto lembrou-me da peça. Igualmente muito bom. O pouco que já conheço de sua verve, já me admira bastante. Gosto do modo como você narra, com imagens muito vívidas, abordando temas que buscam (ao menos os que li) uma camada mais profunda e filosófica.

    Morte, saudade, desvelamento de si mesma, são todos temas que me atraem muito.

    Ponto alto para o fato de a protagonista não revelar o que havia sob o chapéu. Assim, a autora deixa espaço para que seu leitor imagine e crie.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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