Agora ou Nunca – Vanessa Honorato

Eu estava lá, sentado na primeira fileira depois dos padrinhos, do lado do corredor, quando as portas da Igreja abriram-se e o noivo entrou. Ele usava smoking preto, camisa branca, gravata borboleta. Seus cabelos eram grisalhos e encontrava-se um pouco acima do peso. Ao seu lado estava sua mãe, já idosa, usando um vestido de seda longo, azul. Ele me notou e encarou-me por alguns segundos, pela sua expressão, pareceu não aprovar minha presença. Pararam no altar enquanto todos os padrinhos entravam e as portas foram novamente fechadas.

Assim que todos acomodaram-se em seus lugares, as portas abriram-se. O pajen e a dama de honra entraram com as alianças. Allana surgiu. Meu coração acelerou e minhas mãos ficaram trêmulas. Ela estava com um vestido branco, longo, todo bordado, com uma longa calda e um lindo buquê de rosas vermelhas nas mãos. Sua maquiagem era leve, realçando os olhos azuis. Seu irmão estava ao seu lado, também elegante, a conduzindo ao altar. Os cabelos negros e longos estavam encaracolados e havia uma espécie de coroa de brilhantes em sua cabeça. Ela estava linda. Realmente parecia uma princesa.

Meu estômago embrulhou quando seu olhar cruzou com o meu. O sorriso desapareceu do rosto de Allana, e por um segundo, pensei que ela fosse desmaiar, com certeza não esperava me ver. Seu irmão lhe puxou pelo braço e ela continuou caminhando. O noivo veio ao encontro e tomou para si o lugar do irmão. Mais uma vez nossos olhares se cruzaram e ela pareceu sentir a dor que eu carregava dentro de meu peito. “Ainda dá tempo, Allana…”

O Padre começou a cerimônia e Allana começou junto a chorar. Ninguém estranhou, já que toda noiva se emociona. Mas eu sabia o porquê ela chorava. Allana ainda me amava. Assim como eu a amo mais que tudo. Mais que a minha própria vida.

Quanto mais o Padre falava, mais Allana chorava. O noivo disse algo em seu ouvido, e ela tentou controlar-se. A mãe dela estava nervosa e girava o anel no dedo sem parar; também sabia porque a filha chorava.

Meu corpo parecia estar em outra dimensão. Realidade e fantasia se misturavam, estava leve, como se flutuasse. Não podia crer que aquela menina que eu beijei pela primeira vez, aquela jovem apaixonada que adormeceu por tantas vezes em meus braços, estava se casando com outro. Um outro que ela nem amava. Ele não era gentil. Ele não levava flores na cama. Ele não acordava à noite e ficava velando seu sono e admirando sua beleza. Um outro que não a amava, assim como eu amo.

A mãe de Allana olhava-me com ódio, como se seu olhar pudesse me teletransportar para fora da Igreja. Ela nunca me aprovou. Talvez porque sua filha era muito nova quando nos conhecemos, ou porque não sou um empresário da alta sociedade. Mas ela se esqueceu que fui eu quem segurou a mão de Allana quando perdeu o pai. Fui eu quem retirou todas as economias da poupança para que ela e os filhos não dormissem ao relento. Fui eu quem amou a filha dela acima de tudo nessa terra.

Allana ficou de frente para o noivo e lhe estendeu a mão. “Agora está tudo perdido…” O Padre começou com as perguntas e promessas, mas Allana não respondeu. Ela apenas olhou para mim. Por um momento o mundo parou de girar. Allana estava indecisa. “Ela ainda me ama”.

— Allana? — o noivo chamou sua atenção de volta.

Ela titubeou e gaguejou. O Padre repetiu:

— Allana Rodrigues Couto, você aceita Eduardo Campos Albuquerque como seu esposo, prometendo amá-lo, respeitá-lo, na alegria e tristeza, saúde e doença, por todos os dias de sua vida?

“Ainda dá tempo”.

Allana olhou para o noivo, que pingava suor de sua testa, transitou seu olhar para a mãe, que a recriminava por expressão, e depositou seu olhar em mim. Engoli em seco e balancei a cabeça, em sinal negativo.

Não precisou Allana responder para que seu noivo percebesse que ela não o amava. Ele soltou sua mão e sussurrou em seu ouvido, com os dentes cerrados:

— Você é só uma jovem idiota que acredita em príncipe encantado. Saiba que a vida real é dura e cruel, e um dia você se arrependerá amargamente por este momento.

O noivo virou-lhe as costas e saiu da Igreja, um de seus amigos correu para tentar pará-lo, mas ele o empurrou, irritado.

Todos os convidados levantaram-se e começou o burburinho. Allana, que agora chorava descontroladamente, ajoelhou-se em frente ao altar e colocou as mãos no rosto. Sua mãe aproximou, visivelmente aborrecida.

— Saiba que a partir de hoje você não tem mais casa.

E também retirou-se, amparada pelo filho e familiares do noivo.

O Padre foi para a Sacristia, mas antes colocou a mão sobre a cabeça abaixada de Allana e falou em seu ouvido:

— Seja feliz, minha filha. Não tenha medo.

Como se estivesse em um sonho, caminhei em direção à Allana. Abracei-a pela cintura e lhe beijei o rosto.

— Eu te amo. Venha comigo. Vamos viver nosso amor e desfrutar as belezas espalhadas pelo mundo.

Allana levantou o olhar, todo borrado pelas marcas do rímel derretido pelas lágrimas, e me deu o sorriso mais lindo que já vi na minha vida. Levantei-a do chão e saímos da Igreja abraçados, em meio a recriminação das pessoas, que não sabem o que é amar verdadeiramente, sem se importar com o amanhã, com o status social ou com o futuro. Amar é hoje, agora, antes que, talvez, seja tarde demais…

 

[Imagem:   Sarah Sabo]

 

11 comentários em “Agora ou Nunca – Vanessa Honorato

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  1. Opa! Outro conto de casamento que não se realiza! Eu gosto assim, quando o amor vence no final! Torci para que os dois jovens ficassem juntos, que ela desistisse de casar por interesse, que rompesse com tudo e seguisse o seu coração! Então eu adorei o final e a atitude do padre! Deus sempre abençoa o verdadeiro amor.

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  2. Oi Vanessa, confesso que até a última linha imaginei que haveria uma revelação surpreendente sobre a identidade do narrador, não sei.. imaginei várias possibilidades, até que ele seria um fantasma… Isso é ótimo, seu conto é instigante, bem visual e muito bem contado. Ainda prefereria uma reviravolta no fim… Kkkk mas isso é chatisse de leitora… Gostei muito! Parabéns!

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    1. Olá, Priscila. Você tem toda razão, este é um continho bem meia-boca, mas como não consegui escrever mais nada que fosse inédito, resolvi postar este, porque tenho um certo carinho por ele. Foi um dos primeiros contos que escrevi, anos atrás, quando ainda escutava Roupa Nova e acreditava no amor. Já pensei em reescrevê-lo assim como disse, com uma reviravolta, mas resolvi não, porque tiraria minha identidade e memória daquela época. Obrigada pela leitura e comentário. Bjs ❤
      [ainda ouço Roupa Nova, rsrsrsrs]

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  3. Vanessa, quando um conto instiga a curiosidade e nos leva a querer mais dele isso mostra que o conto é muito bom, não vi nada de meia boca!!! Eu também ainda acredito no amor e gostei mesmo do seu conto, mesmo sem reviravolta…kkkk

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  4. Amo romances bem sucedidos, muita emoção. Você está se tornando especialistas em surpresas dentro da igreja. Gostei muito: amor ou status social, dinheiro? O padre foi o único romântico da história…

    A escrita está muito boa, fluida e sem entraves. Tudo é bem narrado, desde o início até a reviravolta: as cenas levam o leitor a acreditar que era a noiva que abandonaria o altar. A história não ficou assim num plano mais comum de ação, inclusive com o final feliz. Um ponto alto é que o título combinou perfeitamente com a trama. Parabéns. Beijos.

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  5. Oi, Vanessa, tudo bem? Conto bem romântico, com os clichês deliciosos de folhetim. Eu curto!
    A única coisa que me incomodou foi Alana nåo ter fugido logo com o narrador. Tudo bem ter um leve e sutil tom de melodrama (eu gosto), mas aho que Alana é quem deveria ter largado a mão do noivo chato. 😀
    De resto, tudo muito gostoso de ler e acompanhar a vitória do amor. Sabrinesco, sim, com toques de drama latino, mas tudo muito envolvente. Beijos.

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    1. A Allana não largou a mão do noivo chato porque ela não tem a coragem necessária para isso. Se não fosse ele mesmo ter percebido que ela nunca esqueceria o ex, será que ela diria ‘não’? Se o narrador não tivesse aparecido na Igreja, provavelmente o casamento teria acontecido. Vi a Allana assim, não uma garota se casando por interesse, mas manipulada pela mãe e pelas circunstâncias da vida. E não é pouco o número de Allanas que temos no mundo, infelizmente…

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  6. Oi, Vanessa!
    Que forte e emocionante seu conto! Torci imensamente para que a protagonista tomasse a decisão antes que fosse tarde e ufa, que bom que ela o fez.
    gostei muito da forma que o amor do antigo namorado foi mostrado, tão real, tão próximo.
    Belo conto, final feliz. Amei!

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  7. Oi, Vanessa,

    Não concordo com você quando diz que seu coto é “meia boca”. Não é. Você é uma excelente escritora e nos trouxe uma bela história de amor, e que, em ambiente único, consegue passar ao leitor a história de toda ma vida (ou de várias). Mãe, filha (noiva), noivo largado e a do novo-antigo noivo.

    Li o conto há um tempinho e só estou comentando hoje, mas lembro bem de pensar. A Vanessa tem o dom de construir personagens muito coerentes e até “reais”. Mesmo em um pequeno conto como esse, um personagem antagonista, embora importante, por se tratar de um casamento, tem espaço para mostrar um pouco de sua personalidade e ter seu momento de brilho. O padre.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Uma história super romântica. Gostei de ler. Sua narrativa me prendeu e eu torci pelos personagens, para que o amor verdadeiro triunfasse sobre o casamento por conveniência. Tocou-me especialmente o seu sábio padre que abençoa a escolha de Allana. Lembrou-me um padre real que abençoou uma escolha bem pouco ortodoxa que também fiz na minha vida. Parabéns pela sensibilidade, Vanessa. Beijos.

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  9. E viva a coragem e tudo o que ela transforma. E aqui, para mim, a coragem tem mesmo o nome de amor, né? Uma coisa que move o mundo mesmo quando se pensa o contrário.
    Um conto dramático, mas de final feliz. Gosto de finais felizes.
    Um grande e carinhoso abraço!

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