Fada Madrinha (Fheluany Nogueira)

Fada Madrinha

 

— Nara, Nara Lúcia! Não acredito! Há quanto tempo… — uma voz máscula se aproximava. Olhando com mais atenção ela percebeu que já conhecia aquele homem, os traços eram familiares, o andar, os cabelos, os olhos.

— Raul! O que faz aqui? — o rosto da mulher se alargou em um sorriso ao reconhecer o amigo de infância.  Viu-se transportada para um passado distante. As lembranças que tinha eram de jovens felizes.

— Eu trabalho… E pelo que vejo, é você mesma que estou procurando… Diga-me que quebrou esta perna ontem na festa de Santo Antônio — indicando a perna com tala, puxou a cadeira e pedindo licença, sentou-se.

— Poxa! Um acidente ao fugir das bombinhas… Sou azarada, minha fada madrinha me abandonou. — falou, de manso e conformada.

— Meu trabalho é convencê-la a não processar o hotel, certificar-me de que tudo está correndo como esperado. Sou advogado — explicou-se com uma expressão debochada.

— Vai ser fácil ao doutor resolver a situação… É só começar a relembrar nossa época de escola — ela passou a mão pelo cabelo castanho e fixou nele os olhos curiosos e inteligentes. — É… minhas férias estão meio perdidas. Mas não ia mesmo mexer com nada. Chega de confusão!

Nara sempre foi bonita, cabelos semicompridos, com discreto cacheado, pele clara, sorriso realçando as covinhas. Adolescentes chegaram a um namorico, que não deu certo. Ela estava vivendo, no momento, uma fase complicada. Viajava procurando se recuperar de um difícil relacionamento em que foi considerada como mera ferramenta, boneca marionete. Queria paz, um lugar acolhedor para pensar e repensar. Sair da rotina, o trabalho estava perdido mesmo. E nada melhor que um lugar junto à natureza, por isso estava ali.

 Apesar de estar retraída, bastaram duas horas de conversa e uma garrafa de bom vinho tinto para aliviar as tensões de Nara. Raul se inteirou das amarguras da moça: o casamento fracassado, um marido que a usou para ter mais equilíbrio econômico. Não conseguira nem ter o filho que tanto queria; agora, com quase quarenta anos, era tarde. A vida dela era assim, uma existência que bem poderia ter sido mansa e despreocupada, não fosse sua incapacidade de adaptação e aceitação ao ponto em que chegara, comparada a outras mulheres, menosprezada. Reflexos de fraqueza a corroíam por dentro.

— Você tem ideia de como me sinto?  Fui traída e roubada na empresa que meu pai, praticamente, construiu. O safado simplesmente me disse “Quero ser feliz!” e eu me vi sozinha… Ficou o susto, o susto e um quarto vazio, uma cama vazia, eu sozinha no vazio, as mãos vazias. Foram dezenove anos de subordinação, atendendo desejos mesquinhos e particulares. Todo o jugo machista não fere as mulheres à superfície; explode lá dentro, bem no fundo sensível de nossa mais íntima consistência. Ficamos mortas por dentro. Essa consciência do sofrimento é o sinal mais certo de que vivemos um território estranho… — A expressão da mulher murchara como um balão sem ar. Ela desabafava com um aperto no coração, com impotência diante da decepção, o olhar atormentado… Cheia de marcas, cansada, resfolegante. E deixou-se ficar ali, muda de cansaço, os olhos tristes e apagados.

A atitude do homem era contrastante, exalava uma calma segura, transmitia confiança. Conversaram bastante.

— Tenho de me proteger, e de procurar facilitar minha cura. Basta de sofrer. Vamos deixar esse assunto para lá — e Nara passou a relembrar as loucuras da juventude na pequena cidade onde cresceram, falaram, ainda, sobre o que haviam feito desde então. Raul continuava solteiro, sem compromissos. Mais uma garrafa de vinho e Nara pediu que Raul a acompanhasse até o chalé. O andador não lhe inspirava confiança. Sentia-se frágil, física e moralmente, além, é lógico, do excesso alcoólico.

Aliás, foi necessário que ele a apoiasse para entrar no quarto e a levasse até a cama… Ao deitar-se, a saia rodou em revoada. Raul revelou-se espectador privilegiado — mesmo com o gesso recente, boa parte das claras coxas que não viam o sol das praias, encantaram-no. Eram firmes e roliças, brancas e tentadoras, quase fazendo-o solicitar qualquer coisa que a obrigasse a levantar-se para repetir o gesto.  Foi uma atitude tão natural, que ele surpreendeu-se tentando adivinhar qual a cor das calcinhas que ela usava. Conteve-se, policiando-se severamente. Porém, não conseguia impedir que sua mente arquitetasse aventuras. Uma inevitável luz brotou-lhe dos olhos castanhos.

De repente estacou, chumbado ao chão: num movimento automático, a mulher levou à nuca masculina sua mão e atraiu a cabeça para a blusa entreaberta, pedindo carícias. Ele sentiu a proximidade, a respiração acelerada, mergulhava num abismo de sensações. O fascínio da doce visão perturbou-o; decididamente, jamais poderia contar com cena tão inesperada e tentadora. Seus olhos fixaram-se por longos segundos naquele corpo elástico, perdeu-se naqueles braços. Sem atinar com mais nada, desfrutaram de todos os prazeres que a madrugada poderia oferecer a dois amantes. Entregaram-se àquele momento como se ele fosse o último. Todas as perguntas se calaram no instante em que se tocaram. Nenhuma palavra precisava ser dita, era como um encontro de almas. Apenas os dois, nada ao redor importava. A perna machucada em nada atrapalhou. Fada Madrinha considerava seu trabalho a meio caminho.

A noitada foi surpreendente! Ela sentia-se uma jovenzinha deslumbrada ainda com as novas sensações que a cercavam, povoou-se de sonhos ingênuos.  As únicas coisas que importavam era o som das risadas, o tom da voz sussurrante. Como era bom encostar – se em seu peito, e como tudo foi mágico. Concedeu-se aquela exceção, que, no fundo, acabava sendo uma forma espontânea com que recompensava as frustações trazidas pelo casamento.

Uma experiência controvertida, pois, Nara mal continha a vergonha na manhã seguinte — a separação recente, a educação que recebera conforme normas de conduta rigorosas no tocante ao controle das emoções e dos sentimentos:

— Pessoas civilizadas não se entregam a destemperos próprios de bárbaros, de selvagens sensuais e impulsivos. A verdadeira civilização, impõe que as pessoas sejam racionais e objetivas em todos os seus atos, não admite dramas nem comédias, sentimentalismos nem passionalismos — fora a lição sempre repetida.

Enrubescida até a raiz dos cabelos, a mulher sente algo que jamais sentira antes, tão espontâneo quanto incontrolável, mas que não teve a menor dificuldade em identificar como sendo uma independência, aguda e profunda. Fincou os olhos no homem nu ao seu lado. Apossou-se dela uma volúpia mal contida, sentiu-se homenageada em sua feminilidade; ela poderia sim proporcionar qualquer prazer que um homem quisesse experimentar. Então Nara pôde se libertar de pequenas amarras e violar o mágico, o desconhecido. Estava livre, inteira… Lugar onde o homem, de hoje, encontrou uma natureza intacta. A própria limitação forjava a audácia, não temiam mais nada, e se davam, de presente: um encontro essencialmente humano. Raul adivinhava o que ela sentia, estava escrito em letras garrafais na menina dos olhos da mulher.

Durante os dias seguintes estiveram sempre juntos, dias de claridade intensa, tátil, molente do ar estagnado. A música evolando a envolvê-los cálida. Entretanto… aproveitando que Raul fez uma pequena viagem de trabalho, Nara partiu sem se despedir, pensava que não deveria forçar nenhuma situação. Seu íntimo precisa se acalmar, refletir sobre os últimos acontecimentos, aonde chegara e para onde ir. Se ele quisesse, saberia onde encontrá-la.

E ele soube: na cidadezinha onde cresceram, rezariam o terço de São Pedro, depois a quadrilha, chá e biscoitos. Raul estava lá, caminhando entre os festejadores, ar ausente quase etéreo e o sorriso aberto, franco. Rojões e os faróis dos carros iluminavam a noite, mas a luz maior vinha dos olhos apaixonados. As lembranças fervilharam na cabeça de Nara que sentia todo o corpo tremer, as mãos frias, estática, paralisada. Ao encontrarem os olhos, compartilharam intensamente todas as memórias recentes e do passado mais distante.

Então, um momento de timidez, suspiros, expectativa no ar… Nenhum dos dois ousava falar, até por receio de que se quebrasse o encanto. Ela soube, naquele instante que poderia amar aquele homem, sem conter o sentimento, não seria perigoso começar qualquer coisa. Ligação definida, vibração em escala precisa:

– Onde você estava todo esse tempo?!

– Esperava o momento certo para voltar e ocupar meu lugar na sua vida, estava com saudade! – Raul responde.

Tudo ia muito rápido. O casal não se desorientou diante do tempo, esse tempo repleto de faces e de imagens resolutas, enxutas; dos caminhos que os levaram até um recomeço, até ao presente, feito de coisas, de semicores, de vida, de estranhas vivências. Sem mistificação, a vida os tomou e levou-os para um mundo recente, com suas tão recém-doçuras. O barulho do chuveiro. O café que descia pela garganta encalidecendo.  Nara, que já fora tão ferida, não queria fantasiar e nem fantasiava:

 — Podemos parecer frágeis, mas não mostramos nossa força. Melhor agir do que ficar falando mais da conta.

Realmente ela mudou, amadureceu e, sem ligar para as críticas, tornou-se uma mulher mais linda, só queria agradecer àquele homem por ter acreditado nela! No fim das contas, a sua fada madrinha, na verdade, fora ele que não transformou a abóbora em carruagem, nem a deixou mais bonita (nem precisava), mas a fez enxergar que não se deve dar ouvidos à opinião dos outros e, sim, acreditar em si mesma. Ele não usou uma vara de condão, mas usou seu coração e deu-lhe o que sempre mais desejou…

— Você está sentindo o tempo passar, querida?

— Pois é, não sei há quanto tempo estou assim, no ar. Sei que há dia e que há noite, mais nada.  É bom sentir o dia, a noite… As manhãs surgem com bater de sinos, as flores, ligeiramente orvalhadas, têm um doce sabor frio — Nara sentia o companheiro a seu lado, descobria-o de imediato, quase sempre em ângulos inesperados. E se vinham chegando…

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Nara entrou na sala do advogado. O ex a observou entre o espanto e a admiração:

— Você está grávida! Vamos ter um filho!? — a voz embargada soava rouca.

— Não, não é isso, você acha que estou louca, você não me julga, como se julga uma pessoa normal, no jogo normal, na vida normal? — impaciente. — Olha aqui: eu fiquei expulsando-o, todo, de minha cabeça, fiquei inventando casos, mas doeu, uma dor sobre o coração, tão contínua, machucando-me, não tinha jeito. E eu com a mão no peito, tentando estancar a dor, até que compreendi: a dor era você. A sua partida voltava a cada momento me ensombrecendo. O carro virava, tomava o asfalto, eu ficava esperando que voltasse, esquecida da irreversibilidade das direções.

— É, devo ser eu o louco! Talvez precise ser. Tem apenas seis meses que estamos separados, sabia? Não é questão de estar falsificando os fatos, ou imaginando coisas. Precisamos reatar — o homem estava cada vez mais agitado.

— Nunca magoe uma mulher… você não sabe o quanto ela pode mudar depois disso.  Até nisto você mentiu, levando-me a acreditar que eu era estéril. Descobri depois os seus exames. Não existem milagres. Esta criança tem outro pai. Você é o cara mais egoísta do mundo, acha que só existe você, mais ninguém! Agora tenho que sustentar essa conversa e rir e mal disfarçar as alegrias que encontrei afastada de você?

Nara respirou longamente. A calma fingida tinha essa capacidade, às vezes. Deixava-a tranquila, de verdade. Olhou para o ex-marido, atenta e tensa, incapaz de permitir que o sol muito inclinado da tarde fizesse seus olhos se cerrarem. Naquele momento, ele soube que não a conhecia, que não a conheceria nunca, que o que vira dela, do rosto às ideias — era um revestimento.

 —  Eu gosto deste sol inclinado assim, me dá uma sensação de tudo resolvido, de vida simples, de paz no passado — Nara sabia como exasperar o desejo dele, bastava confundi-lo, descrever sobre o inferno que haviam vivido e o rumo certo que tomara agora. Tinha que devolver às coisas a dimensão própria. Não se descobria mais tesa, muda, uma toalha perdida nas mãos perdidas. Raul a esperava lá fora. Perdera e ganhara coisas que a definiam, quem era como pessoa.

Era assinar os papéis e reconstruir a vida, encontrar um espaço para si, para Raul e para a criança, fruto dessa reconfiguração, onde ela se sentia não só valiosa, como valorizada. Música e luz retomavam o espaço, e aqueciam o coração. Seriam uma família, uma tão grande alegria que nascera de imprevisível reencontro.

Fada Madrinha considerou seu trabalho resolvido.

 

16 comentários em “Fada Madrinha (Fheluany Nogueira)

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  1. Que bom seria se todas tivéssemos uma fada madrinha para guiar-nos, rsrsrs.
    “Nunca magoe uma mulher… você não sabe o quanto ela pode mudar depois disso” – essa frase resume tudo.
    É até difícil comentar este conto, é tanta raiva desse “homem” que tanto mal fez à mulher. E, sinceramente, não acredito neste novo pretendente também não. Quero só ver se esse encanto perdurá quando a criança nascer e se ele tomará seu lugar de “pai” e não de “ajudante de mãe”. Mas o conto é lindo, mostra a redescoberta do amor de uma mulher depois de tanto sofrer. Eu é que não acredito mais no amor, rsrsrsrs.
    Abs ❤

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    1. Vanessa, aqui vai um puxão de orelha! Sempre acredite no amor: “Amar é saltar uma situação perigosamente viva, sem calcular nada de antemão” (Osho), mas vale a pena.

      Obrigada pela leitura e comentário. Você sempre me passa uma doce sensação de amizade. Beijos.

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  2. Uma história que nos faz querer apressar a leitura para descobrir o destino da moça da perna quebrada. O reencontro com um amigo/namorado do passado, a redescoberta do amor e a realização do sonho da maternidade parecem mesmo pedidos realizados por uma fada madrinha. Embora, eu ache que Nara foi responsável por toda a mágica de transformação de sua vida ao enfrentar seus medos e se dar uma nova chance. Narrativa boa de seguir, sem entraves ou grandes surpresas. 😀

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  3. Ah, amiga, eu li seu conto torcendo o tempo inteiro pela sua personagem tão sofrida, mas, por outro lado ainda aberta para um novo relacionamento! Eu estava meio desconfiada do advogado do hotel, parecia no começo que ele só queria resolver o problema e convencer a moça a não abrir um processo, mas logo vi que nem ela estava interessada e nem ele era um farsante, que bom! A gente vai lendo e acompanhando a vida de Nara Lúcia e se envolvendo com as vicissitudes, tendo raiva do ex marido e querendo que tudo desse certo para ela. Um conto envolvente, Fátima. Beijos!

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  4. Ahhh que conto fofo, Fátima!! Conta uma vida inteira em tão poucas palavras… Um recomeço, uma descoberta de si mesma, um desabrochar, um reviver. Tudo narrado com muito charme! Parabéns!!

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  5. Olá, Fátima!
    Seu conto nos traz um conto de fadas moderno que acaba de fato em uma segunda chance. todos a merecem. Confesso que no começo tive a impressão de o advogado ser um aproveitador interesseiro e que a protagonista estava fadada a nova decepção, mas me enganei. Felizmente. Encontros e desencontros. Eles realmente acontecem, não? Muito bom!

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  6. Querida Fátima,

    Seus contos sobre o amor revelam muito sobre a autora atrás da pena. Você acredita no amor. Eu diria até, dando uma de psicóloga, que você é uma pessoa que amou e foi (é) amada. 😉

    Sobre o conto em si, gosto desse poder que você tem de romper o tempo e espaço e em tão curto período conseguir contar todo o histórico amoroso da protagonista, com direito à vingança doce no final.

    Um belo conto de chick lit (acho que é assim que se escreve), muito agradável de se ler. A inusitada fada madrinha é o charme especial que torna o conto igualmente especial.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Chik list são escritos para mulheres, brinca e estraçalha ironicamente com seus problemas diários e suas inseguranças mais intimas. São relatos do mundo moderno. Sinto-me lisonjeada que você considere meu continho assim. Obrigada pela leitura e comentário tão gentil. Sou sua fã. Beijos.

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  7. Adoro esse seu estilo, Fátima. É um estilo de narrar muito feminino e encantador. Várias coisas me agradaram, uma em especial, o início do conto com um diálogo que não esclarece muito mas convida a uma imersão na narrativa. Sua história me soou como um conto de fadas moderno. Refere-se a uma fada madrinha mas nos apresenta uma personagem que, ela própria, reconfigura sua vida. Parabéns! Sou sua fã! Beijos.

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  8. Por favor, se encontrar por aí minha fada madrinha, mande-a de volta. Estou precisando dela para resolver algumas pendências. kkkkkk E que fofo o seu conto! Confesso que não vi passar a leitura. Talvez porque quisesse mesmo pular para o final e saber como é que seria isso.
    Parabéns!
    Um grande e carinhoso abraço!

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