A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst

Algumas horas haviam escorregado pela ampulheta antes que Joana escolhesse aquele destino. Parecia-lhe muito pouco tempo, na verdade. Conversa de minutos, palavras estendidas como um tapete surrado pelas chuvas. Melhor teria sido calar, mas quando o silêncio vinha, pesava, condensando a instabilidade das possibilidades. Nada mais mutável do que uma pausa, uma brecha rasgada no turbilhão de acontecimentos.

Congestionava o entardecer com seus pensamentos. Havia neles todo tipo de devaneios tortuosos. Como se, de repente, ela visse tudo pela primeira vez.

− Chegou há muito tempo?

Alto, mais alto do que nunca. Com aquele andar de quem conhece o caminho de ida e de volta. Por um momento, Joana pensou em desistir de tudo e ficar. Ficar com ele, ali naquela página do romance, para sempre, escrevendo mais uma daquelas histórias felizes sem qualquer questionamento.

− Acabei de chegar. Difícil de estacionar por aqui.

O garçom aproximou-se solícito para pegar o pedido do casal. Ela quase dispensou o álcool, posto que estava comprometida com planos de dissolução. Ele decidiu-se por uma taça de vinho. Joana achou uma boa escolha, pois eles, de fato, precisariam de algo mais forte para desfazer o gelo. Pediu o mesmo para si.

Joana emudeceu por alguns segundos, antes de conseguir recuperar fala e raciocínio. O garçom não tardou com a entrega da garrafa de vinho e copos limpos. Afastou-se discretamente, pressentindo que o casal precisava conversar.

Diante do altar erguido à sua semelhança e dor, a esperança de Joana tornar aquilo simples desfez-se quase que de imediato. Em todas as possibilidades ofertadas revelava-se a inexplicável ausência que viria logo após aquela conversa.

− Disse que precisava falar comigo.

Ah, aquele olhar de quem já sabia de tudo. Duro, frio, sem delicadezas de culpado. Joana pôs-se a falar, do modo mais impreciso e dúbio. Enquanto explicava o que a incomodava, questionava os seus próprios temores. Expunha suas razões, certa de que nenhuma delas o satisfaria, ela já sabia.

De onde surgira a ideia de desgastar seu tempo e lapidar suas virtudes? Parecia tão crua, bruta e nua como nunca antes. Ele ali, quase espantado com a sua objetividade. Algum brilho de água nos seus olhos, no susto do finalmente dito.

Reparava nos olhares trocados pelos outros casais.  Eles também já tinham sido assim: apaixonados, ridículos em público e mais ainda no privado. Pétalas de esquecimento esvoaçavam pelo caminho do arrependimento. Sulcos precipitavam-se em depressões indefinidas. Onde estaria sua razão agora?

A postura de Arthur golpeava sua sensatez. Deveriam ter prestado juramentos. Sim, ela teria permitido uma mentira ou duas. Opaca, uma meia lua de sinceridade clareava agora o que nunca quisera ser revelado.

Pressentia. Hesitava. Colhia provas antes da verdade exposta. Abria as mãos, soberana e doce. Sossegava seus receios com beijos. Ou tentava. Matava. Dose fatal de verdade, muito bem digerida.

Aprovava toda a sua ira. Das maiores virtudes, enaltecia mais esta. era ainda mais belo do que quando o cobiçara. Não de uma beleza tácita, mas o enternecer de um crepúsculo em chamas.  Gostaria de ter conseguido recompensar a miséria de tantas palavras quase malditas.

Não o pouparia de seu próprio pesar. Tinha muito mais o que mostrar. Levantara suspeitas, desenhara planos, arquitetara desejos. Não havia mais como me negar tudo. Era muito mais cúmplice do que detratora. Muito mais primavera do que inverno hesitante.

Desejou deixar toda a verdade deslizar devagar pela mesa. Que tudo se rompesse como a intensa erupção de um vulcão despertado. A lava cobriria aquelas malditas expectativas. Já subia o calor, o vapor produzido pela impaciência do momento. Não era mais dele, mas do momento em si.

Já haviam reproduzido tantos passos que ninguém mais conseguia segui-los. Todos já estavam longe, sem levar em conta aquele casal. Por que agora ele fazia questão de audiência? Era real, tatuagem profunda que completava sua pele.

− Ah, não adianta insistir com isso! Não, eu não vou assumir nada. Nenhum erro, muito menos o seu. Eu já disse que não desconfiava de nada, que nunca imaginaria que você fosse capaz de algo assim.

O tom da voz era baixo, mas decerto ele queria estar aos berros. Controlado, senhor de si, Arthur não se permitiria escândalo nem por um minuto sequer.

Joana olhava para o vazio, desviando olhos e coração do moço a sua frente. Duvidava um pouco da veracidade da sua própria história. Fora só um descuido, um tropeçar no meio do relacionamento que, até então, ela julgava estar caminhando bem. Como se ele também nunca tivesse cometido seus deslizes!

− Pois bem, eu errei, não nego. Mas você viu o quanto eu tentei. Eu estava inteira, comprometida, apesar de todos os seus misteriosos planos. – alterou um pouco a voz, o que fez os olhos dele abrirem-se além do natural – E adivinhe… Você não guarda segredos tão bem assim! Quer que eu cite nomes?

Alagara tudo com suas palavras formando uma cachoeira de ressentimentos. Joana quase se afogara, pois não estava preparada para aquilo. Nada se comparava àquele momento, ao nada, ao silêncio que lhe rodeava querendo se aconchegar em seu colo.

Ele só escutava, sorria e alisava suas ameaças de abandono. Acenava tempestade, mas ficava. Queria ficar, mesmo sem entender os termos escondidos nas entrelinhas. Sorria sem qualquer cor e Joana soube, então, que tudo terminaria mal. Fazia parte do trato. Ou não fazia?

Sentia o peso daquele sorriso. Seus olhos já haviam lhe acusado de tanta coisa que resolveu ignorá-los. Melhor seria apagar todos aqueles pontos coloridos da sua mente. Buscaria outra cor, outra luz que lhe ofuscasse menos. Talvez o vermelho líquido contido nas taças à espera de bocas sedentas. Envelhecido, vinho curtido em noites insones.

Ela sabia que escalaria outros sonhos, que a levariam para além da fronteira do remorso. Se não desse certo, suportaria mais algumas desilusões. Era corajosa e preferiria voar com as águias a enfrentar os urubus. Era assim.

− Mas não fui eu que falhei aqui. Precisamos lidar com isso com clareza, Joana.– A voz de Arthur parecia arranhar sua garganta antes de sair pela boca. − A nossa situação não pode continuar assim.

Ela não queria, mas aceitaria qualquer traço de cumplicidade que ele oferecesse. Como quem aceita um doce para fugir do fel que sentia na ponta da língua.

No entanto, Arthur mantinha-se imóvel, sem tréguas. Suas últimas palavras azedaram o resto de ar que circulava entre eles. Joana ficara sem fôlego, tentando contar as estrelas prometidas. E mesmo sem ostentar culpa, estava presa às acusações no olhar do amado.  Por todo lado, amarras lhe prendiam. Suportaria o julgamento de Arthur se houvesse uma chance de transformar prisão em ponte.  Sem chance. Lia o desfecho do dia nos olhos dele: difícil, moroso, espinhoso.

− Foi você. Sim, você e suas escolhas intempestivas. Eu não sei lidar com as consequências que não provoquei. – Arthur inspirou fundo antes de continuar. − Você me deixou sem opções.

Ela, então, finalmente, falou o que pensava de fato. De modo calmo, como quem já partiu antes de abrir a porta.

− Faria tudo de novo, de novo e de novo.

Joana sacudiu a cabeça e deixou que as lágrimas enfim chegassem ao seu destino. Não aguentaria por muito tempo. O corpo já começava a tremer em desconexo sentir. Era o instinto de fuga a dominar mente e sentimento.

− Você fez sua escolha, Joana. – O olhar duro de Arthur cobriu suas palavras de sombras.

A porta fechara-se entre eles, quase em silêncio. Mais uma história por terminar sem um único intervalo para tomar fôlego. Nenhum suspense. O pano descia de forma brusca e repentina.

Arthur pediu a conta com um aceno. Deixou mais dinheiro do que o necessário como gorjeta e se levantou. Alto ainda, mas com vários centímetros a menos de seu orgulho.

Joana observou o homem afastar-se da mesa, dos seus olhos, do seu amor. Sem conseguir mais se conter, abaixou a cabeça e chorou sem reservas. Chamou a atenção dos outros casais que, por um breve momento, esqueceram suas próprias histórias.

Depois de um minuto ou dois, ela levantou-se ainda trêmula e sem saber o que fazer. Olhou para as cadeiras agora vazias e para os copos intocados sobre a mesa. A cor ali contida refletia o momento com perfeição: vinho, o vermelho embriagado. Procurou pela saída, desviando-se de cadeiras e olhares.

Alcançou a rua e caminhou carregando todo o peso do adeus.

8 comentários em “A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst

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  1. “Mas não fui eu que falhei aqui (…) Foi você. Sim, você e suas escolhas intempestivas” – Claro, eles nunca têm culpa de nada, não é? A culpa sempre é da mulher ‘louca’.
    O bom seria ler este conto e em seguida ler o da Fátima; hoje a mulher chora, amanhã ela sorri!!!
    Abs ❤

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  2. É o medo pela solidão. A despedida de um amor é sempre dura. Gostei muito: muito boa essa ideia de um encontro, que foi mais um desencontro. A personagem passou muita veracidade e a ambientação foi muito competente.

    A narração é simples e um curto espaço de tempo é explorado, mas os sentimentos, o estado de espírito são valorizados. Você, Cláudia, consegue pinçar o inusitado, aquilo para o que se dá pouca atenção, sem tentar mostrar o quanto é hábil nessa operação. Somente não gostei de uma coisa: o desperdício de um bom vinho (rsrsrsrsrsr).

    Parabéns por mais este trabalho de qualidade, obrigada pela leitura prazerosa. Beijos.

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  3. Olha, Claudia, por coincidência passei por um momento muito parecido em minha vida, tinha uma relação tóxica com uma pessoa, e me negando a fazer o que ele queria, acabei sendo deixada. Comecei a namorar outra pessoa com quem estou até hoje. Houve uma tentativa de reconciliação por parte do rapaz, mas eu não quis, e assim, sem emoções envolvidas, eu consegui enxergar exatamente como tudo era, e que não era bom. Insistir em coisas erradas sempre será um péssimo negócio. Se libertar de algumas pessoas dói, mas no fim vemos que foi a melhor escolha. Seu conto está muito bem escrito, beijos

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  4. Oi Cláudia, esse conto é intenso! Ele narra somente algumas horas, se muito, mas mostra uma gama de sentimentos, emoções, lembranças… Um término, com todas as suas nuances. Eu queria saber escrever assim, focar na profundidade e não na ação… Quem sabe um dia…
    Até mais!!

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  5. Olá Cláudia!

    Um texto de notável beleza poética, com palavras bem escolhidas e que remetem a belas metáforas. Há uma tensão que permeia toda a narrativa que transmite ao leitor todo o peso do momento da decisão irremediável. Um texto tecido em harmonia pura, ainda que o momento seja de desarmonia. Com sorte, provisória. Muito bom!

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  6. Oi, Cláudia,

    Tudo bem?

    Sua prosa sempre tem aquele toque de poesia que é próprio de sua verve. 😉

    A narrativa é interessante no sentido de conseguir traduzir ao leitor todo o “peso” do momento, a atmosfera densa do não dito ali, explicitamente, ao passo que é claro que tudo o que havia para ser falado, já o foi, anteriormente, e já se esgotou. Essa técnica, consciente ou não (creio que sim), é muito usada para se construir um roteiro. O momento é apenas um recorte de toda a história dos dois. Enquanto entrevemos na briga, nas “meias palavras” do casal, a separação eminente, a autora espalha outros casais figurante em meio ao salão, fazendo um contraponto muito interessante. Será que estão todos condenados ao fim? Ou, em meio a tantos, há os que resistirão em uma estranha matemática do amor?

    Belo trabalho.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini
    (11)982497839

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  7. Excelente a atmosfera que você conseguiu criar nesse conto. Para mim é um conto que, mais do que contar uma história, pretende descrever essa atmosfera cheia de nuances que envolve o rompimento sofrido de um relacionamento em que provavelmente houve um grande investimento e que, consequentemente, resultará em uma grande, mas inescapável, perda. Como não se identificar? Parabéns por mais esse ótimo trabalho, Claudia. Beijos.

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  8. Eita! Que final! Tenso. Triste. Porque, não adianta. Por mais que se pense, um adeus é sempre um adeus. Apesar de pensar que finais são sempre recomeços, esses recomeços levam tempo para assimilar e acontecer. A solidão, ou o medo dela, nos impede de deixar a intensidade do sentimento para lá. É assim mesmo. Querendo ou não.
    Parabéns!
    Um grande e carinhoso abraço!

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