Super mulher – Paula Giannini

Minha mãe sempre me disse… A vida inteira… Não case. Não se case! Ou, pelo menos, não se case cedo. Casamento é coisa de gente insana. Uma tediosa refeição, com a sobremesa no começo. Um submarino que pode até boiar, mas foi feito para afundar… E o que foi que a insana aqui fez? Casou. Não satisfeita em casar, casei cedo. Cedo e com um homem 3 efes. Feio, fo(piiii) e faminto…  Ai, como esse homem é faminto. Ele é capaz de comer qualquer coisa, come o que você colocar na frente dele. Inteiro. E ainda pede sobremesa. Dá para alguém explodir de tanto comer? Não. Eu digo que não. Se assim fosse… Se a gente explodisse… Eu já estaria viúva há anos. Muitos. Meu marido come. Come tudo… Tudo. Menos a mim. Não.

Menino! Olha essa bola! Olha, olha, olha a sua irmã, menino. Eu vou aí! Eu estou avisando. Eu, mico? Eu estou gritando? Garanto que você ainda não viu nada. Nada. Eu vou até aí e vou lhe dar uma coça para ficar na história. Você vai ficar uma semana sem conseguir sentar. Eu prometo.

Alô, mamãe… Não, mamãe… Sim mamãe… Ah, também acho! Não, não. Sim, sim… Hum, hum…. Não, mamãe, pode falar… Não. Eu não estou muito ocupada. Não. O quê?

Olha essa bicicleta, menino!

Esse menino tem o que no corpo? Meu Deus. Eu? Levá-lo para benzer? Vou levar, sim. Mas é para exorcizar. Eu juro!

Olha as minhas plantas, menino…

Vou fazer aquela torta que ele adora… A massa rende, dá para fazer umas cinco de uma vez. Ah… Não sei mamãe. Não sei de onde vem tanto apetite. Não sei onde ele encontra tanta disposição… Para a comida, claro. Por que para mim…  Só um minuto… É o celular… É, isso mesmo. Também acho… Só um minuto, mamãe… É o celular…

Alô. Sim, sou eu mesma. Ah, já enviaram o e-mail. Sim, sim, imediatamente. Olha, eu já aprovo e reenvio. É só um minutinho. É rapidinho. Não. Não, imagina. Será um prazer. Não. Eu não estou ocupada.

Parece que gostaram do meu artigo! Não. Aquele sobre o homem comum. Não, mamãe, eu não estou famosa. Eles vão apenas publicar em um site, uma revista, sei lá. Lembra? Você leu. Isso. Esse. O homem comum em contraponto com o homem perfeito em extinção… Isso. Não. Não seja maldosa, mamãe.

Ah, garoto, olha a sua irmã. O que eu lhe pedi? Para brincar com ela. Para ficar de olho nela. Ela é pequena. O que ela tem na boca? Esse garoto puxou ao pai.

Sim… Ah, boa ideia. Vou fazer. Coloco duas gotas de quê?

Abriu. Finalmente. Olha isso… Mudaram tudo o que eu escrevi. Por que é que essa gente não escreve o que quer e me deixa em paz? Para que é que essa gente fez faculdade, meu Deus?

Não, mamãe não precisa desligar, eu estou ouvindo… Vai com o verde, você fica linda, valoriza o seu olhar. Não mamãe, você não está velha. Está muito bem para a sua idade. Isso. Não? O quê? O que foi que eu disse? Eu chamei? Não. Não chora, mamãe…

Eu vou até aí… Olha a sua irmã, menino. Está toda roxa.

Não chora, mamãe…

Eu vou aí.

Ah, eu vou ter que mudar isso aqui. Eles que me perdoem. Não. Depois é com o meu nome que vão assinar… Olha o erro de concordância…

Não seja dramática, mamãe, para de chorar…

Não chora filhinha… Olha a mamãe. Olha a mamãe… Olha a…

Put(piiiii). Me queimei. Que ótimo. Meu braço vai ficar todo marcado. Ai, meu Deus, será que eu não salvei o artigo? Por que foi que nunca ouvi a minha mãe. Por que foi que eu me casei, que eu tive filhos? Por que foi mesmo que escolhi esta vida? Por quê?

Não, mamãe, eu não estou falando com a senhora. Estou. Mas não estou. Mamãe não chora… O celular… Só um minuto.

Alô! Alô! Ah, oi, Doutor Breno… Sim, eu estou bem. Não, nada de… Doutor, eu sei…

Que inferno!!!

Não, doutor. Não. Não está doendo… Não. O inferno é o meu filho.

Não, mamãe eu não estou reclamando da senhora… Não. É com o Doutor Breno.

Não, Doutor, o senhor não é um inferno.

Hoje não é o meu dia….  P(piiii), M(piiii), C(piiiii).

A massa murchou, mamãe…

Ah, está salvo, finalmente. Graças à Deus… O quê? Por que é que não envia? Odeio esse computador.

Odeio esse dentista, odeio o…

Carlinhos!

Não, mamãe. Eu amo o meu filho. Amo. Não. Eu não estava falando do meu marido. A senhora ouviu? É modo de falar… Não. Minha vida é um mar de rosas, eu não a trocaria por nada. Nada. Eu falei? Eu não devia ter me casado? A senhora falou? Eu sei… Não. Eu falei metaforicamente. A gente nem sempre fala o que pensa. O que quer. O que eu quero? Para mamãe, agora não é hora para isso.

Mas Doutor, por favor… Eu tenho que colocar aquele dente… Eu vou dar uma entrevista. Sim, é hoje.  O provisório? Claro que está. Não. Não. Está horrível. Eu não posso… Não. Desligou!

Não, mamãe eu não preciso de ajuda, está tudo sob controle. A torta no forno, o arquivo enviado. Acho. E a senhora? Está mais calminha?

Menino, vem tomar banho!

Quem disse que a senhora está nervosa? Eu? Eu não disse… Eu… Eu? Eu estou nervosa? Na TPM, sem motivo?

Venha para o banho, agora! Eu estou avisando…

Não, não. Imagina… Não há motivo para eu ficar nervosa…

Calma, Ana. Nada de pânico. É só você fazer a janta com calma, se vestir sem dente para a entrevista da sua vida com calma, esperar esse bando de analfabetos publicar o seu artigo sem erros… Sempre com calma. Dar banho nas crianças, servir a janta para o seu querido glutão, porque você não vai comer. Não. E se o provisório cair? Melhor não arriscar. Colocar as crianças para dormir, lavar a louça e sair linda para a entrevista. É só uma entrevista. Só isso. Ah, claro, eu já ia me esquecendo… Na madrugada ele acorda e quer fazer amor, como se nada tivesse acontecido. E de fato nada acontece. Ele dorme.

Eu falei que ele dorme? Não, mamãe. Eu falei metaforicamente. Está tudo ótimo, juro.

Acho.

Ai, meu Deus… Quem é que vai ficar com as crianças!

(*) Texto extraído de um trecho do espetáculo Super Mulher – A Comédia  de Paula Giannini

 

29 comentários em “Super mulher – Paula Giannini

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  1. Oi Paula, seu conto mostrou muito bem como nós somos multitarefas, sempre querendo dar conta de tudo, porque será que nós achamos que tudo é responsabilidade nossa? Não sabemos delegar, dizer não, pensar um pouco em nós também.
    Eu gostei muito, embora tenha ficado com dó da protagonista, pela visão pessimista do casamento, eu sou daquelas que ainda acredita no amor verdadeiro e no casamento como uma viagem maravilhosa. kkk sempre fui otimista.
    Um beijo, querida e parabéns pelo conto!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Priscila,
      Também acredito no amor e no casamento. Outra otimista. rsrsrsr
      Esse conto é um trecho de um espetáculo que escrevi em 2012, Super Mulher – A Comédia. 😉
      Beijos e obrigada pela Super Leitura.
      Paula Giannini

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  2. Bem divertido este conto sobre uma mulher multi tarefas com vários diálogos paralelos. O retrato da mulher moderna que se desdobra em mil papéis e acaba se despedaçando aqui e ali. Narrativa divertida apesar da ironia que encobre um tema até certo ponto dramático. E o marido comilão nem para dar um incentivo! Li com prazer. 😃

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Cláudia,
      Esse conto é um trecho de um espetáculo que escrevi em 2012, Super Mulher – A Comédia.
      Beijos e obrigada pela Super Leitura com prazer. 😉
      Beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

  3. Fiquei meio doida tentando encontrar uma sequência onde não havia, mas uma série de diálogos sobre a vida de uma escritora casada com um homem faminto. As partes com a mãe são ótimas, legal também quando ela interrompe o que está falando para brigar com os filhos, deu muita verossimilhança ao texto. Ri alto quando a personagem falou que o marido comia muito, comia de tudo, menos ela, hahahaha, cara, que frustrante! Hahaha

    Gostei do formato diferente e de eu ter tantas coisas parecidas com a mulher! Meio que vc descreveu comportamentos comuns a muitas de nós e por isso o conto soa tão verdadeiro, parabéns! A naturalidade é o que todos procuramos em nossas histórias, não é?

    Obrigada por ser minha amiga muito querida e por ser de boas, beijos!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Iolanda, querida,
      Esse conto é um trecho de um espetáculo que escrevi em 2012, Super Mulher – A Comédia.
      A ideia era retratar mulher em vários papéis. A doutora Ana, personagem principal (e única – pois era um monólogo), era uma antropóloga que buscava encontrar o Homem Perfeito, em extinção e, em uma forma de palestra, ia se desdobrando nos papéis.
      Beijos e obrigada pela Super Leitura.
      Obrigada por ser minha amiga, também. 😉 😉 😉

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  4. Fiquei cansada com a vida dessa super mulher, mas é assim mesmo, vida em família, mãe, marido, filhos, trabalho tudo igual, só muda o endereço, KKKKK, maravilhoso o texto

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  5. Oi, Paula!
    Amo sua escrita, você é ótima, tanto quando escreve temas sérios e até tristes, quando como escreve comédia: ri muito aqui, adorei a forma com que a rotina de uma mulher pode ser vista com todos os problemas e ainda assim, ser engraçado.
    Isso é saber fazer/escrever comédia, e voc~e exerce como sempre com maestria.
    Muitos parabéns, aliás, essa peça também tem tudo para ser um sucesso.
    Bjokas!!

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    1. Oi, Renata,
      Vocês Contistas me mimam demais! 😉 😉
      Sobre o livro… Eu tenho em pdf (e-pub), quer que eu lhe envie?
      Beijos
      Paula Giannini
      (11)982497839

      Curtido por 1 pessoa

  6. Muito dinâmico e divertido de ler, impossível não se identificar. O mundo está sempre exigindo que a gente seja super e nos deixa no máximo supercansadas. Me diverti muito com seu conto, parabéns!

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    1. Obrigada, Virgínia, pela leitura.
      Esse era um espetáculo de comédia que adaptei para postar aqui. Uma experiência. 😉
      Beijos
      Paula Giannini
      (11)982497839

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  7. Parabéns pelo supertexto, superdivettido e, ao mesmo tempo, superreflexivo e superverossímil. A vida das mulheres é assim mesmo… Obrigada por mais esta leitura prazerosa. Sua escrita é moderna e interessante. Gostei muito. Beijos.

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    1. Querida Fátima.
      Obrigada por seu comentário.
      Adorei o moderna e interessante. Estou feliz. 😉 😉
      Beijos
      Paula Giannini

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  8. Nossa, me deu até uma agonia aqui lendo este texto. O mais difícil ainda é quando cai a ficha de que passamos por esta situação todos os dias. Será que haverá um dia em que os homens se darão conta da sobrecarga que deixam para as mulheres e passarão a tomar iniciativas para ajudar? Sei não, hein?!
    Abs ❤

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    1. Oi, Vanessa,
      Muito está mudando, mas ainda temos muito chão pela frente.
      Esse texto faz parte de uma peça de teatro falando justamente sobre isso. Ele é de 2010, mais ou menos, mas pelo visto pouco mudou de lá para cá.
      Beijos
      Paula Giannini
      (11)982497839

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  9. Paula, parabéns pelo texto, leve, divertido, para não dizer trágico em relação aos muitos papéis que desempenhamos. Dias desses me peguei martelando das disparidades entre escritores e escritoras, e de tabela, para as demais profissões, o quanto eles dispõem de quase 100% do tempo para se dedicar à escrita, a carreira, parece que não há exigências em relação ao “ser homem” diante da carreira, a coisa já está incorporada. Nós, meninas, temos que ser mulher, esposa, profissionais, mães, e tempo pra escrever que é bom, sobra uns 5%. Aiii, que óidio. Bjs, parabéns!

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    1. Oi, Rose,
      Esse texto foi adaptado de um espetáculo meu, Uma comédia antiga, monólogo de 2010, acho. Pena que pouco, de lá para cá, tenha mudado.
      Ainda temos muito que caminhar para realmente conquistar nossos espaços, não?
      Beijos
      Paula Giannini
      (11)982497839

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  10. Ei Paula! Gostei muito do ritmo. Aprendendo com você. Já te falei que curto escrever dramaturgia, mesmo que ninguém leia ou monte minhas peças…. rsrsrsrs… Pelo que percebi, a peça é um monólogo. O tema, sempre pertinente e atual: nós mulheres e nossa sina multitarefas… Muito bom, querida! Beijos…

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    1. Oi, Elisa,
      Estou e dívida com você.
      Vou ler seu texto semana que vem, sem falta.
      Sobre montarem nossos textos… Bem… Só eu monto os meus. Mesmo com minhas peças lotando, já fiz várias tentativas com outros produtores mas, nada. Parece que esse ano vai, com uma versão mineira para o Casal TPM. Vamos torcer. rsrsrs
      Beijos
      Paula Giannini

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  11. Paulinha, querida! Dei muita risada aqui com seu texto! Eu, ao contrário de você, segui direitinho os conselhos de mamãe e não me casei, nem tive filhos. tenho gatos e eles me bastam. rsrsrs Mas eu tenho um monte de amigas que vi representadas no seu texto. quanto mais eu lia, mais eu ria. ria pra não chorar porque sei que às vezes essa confusão toda dá um tilte, uma vontade de sentar e chorar até o mundo se acabar. Mas realmente, o texto vai num crescendo até que a gente começa mesmo a rir, talvez de nervoso. Surpresa ao final em saber que faz parte de uma peça de teatro. gostaria de ter assistido, certamente eu ia curtir! Se puder, me manda depois o texto completo da peça? Adoraria ler inteira. Beijos!

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    1. Oi, Ju,
      Que bom que gostou.
      Vou procurar o texto completo da peça e mando, sim.
      É antigo, de 2010, mas será um prazer ter o privilégio de sua leitura.
      Beijos
      Paula Giannini
      (11)982497839

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  12. Que lindo isso! Ao mesmo tempo que ri, meio que chorei, porque a vida não é nada fácil. Tem uns lances bons, outros nem tanto, e no meio ficamos nós, ora sonhadoras, ora gladiadoras. Quem mais poderia entender esse conflito todo senão uma outra mulher, ou alguém que já tenha mergulhado no caos da vida doméstica? Parabéns pelo texto! Gostei demais. Um grande e carinhoso abraço!

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    1. Querida Evelyn,

      Deus!

      Não vi o seu comentário. Desculpaaaaa…. Estou me esforçando ao máximo para não deixar a peteca cair aqui, mas às vezes cai.

      Que bom que gostou.

      A vida de todas nós é assim e muito mais que isso. Há detalhes que não estão aí e que existem muito. Esse texto era uma comédia, um trecho dela, para o teatro… Então, falta muita coisa. Às vezes me pego pensando se a vida de certas mulheres que admiro também é assim. A gente vive na ilusão do super poder, mas somos de carne e osso, não é?

      Obrigada pelo carinho, Evelyn.

      Beijos

      Paula Giannini
      (11)982497839

      Curtido por 1 pessoa

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