O plano B – Elisa Ribeiro

Marina chegou ao Café onde haviam combinado se encontrar com uns vinte minutos de atraso. Nisso, nos atrasos, ela persistia a mesma desde não sabia exatamente quando, na sua muito remota infância, percebera que chegar na hora ou atrasada, pra maioria das coisas, não fazia a menor diferença.

A porta do Café estava fechada. O mundo derretia do lado de fora no calor úmido, nauseante, do centro da cidade. Marina entrou afobada, úmida de suor por baixo da blusa branca de mangas três quartos que vestia apesar do calor. Esconder os braços convinha a uma octogenária. Dentro do Café a atmosfera era diferente: ar condicionado, luz suave, música ambiente. Num instante Marina sentiu-se outra, ela mesma de novo, naquele lugar agradável escolhido para o reencontro e um café antes da viagem.

Paulo reconheceu-a mesmo sem enxergá-la direito. A elegância sem afetação, a coluna ereta, o atraso. Nada além do tempo parecia ter passado. Marina examinou o lugar até avistá-lo sentado e sorrindo num canto

–  Oi,querido. Eu devia ter chegado um pouquinho antes. Retocar o batom, secar o suor… Estou desacostumada com esse calor …

– Você está perfeita, Marina, como sempre. E como sempre, também, está atrasada.

Os dois estavam de pé e trocaram um longo abraço. Depois sentaram-se, um de frente para o outro. Foi a vez de Marina perceber que apenas o tempo passara. Paulo, como quando haviam estado casados, não fez a gentileza de puxar-lhe a cadeira ou de oferecer-lhe o melhor lugar à mesa. Deixou-a sentar-se na passagem, de costas para o movimento e de frente para ele, que tinha ao fundo uma parede verde com um quadro sem interesse pendurado.

–  Então, está animado pra viagem?

–  Claro. Estou feliz de te ver. Você está uma velhinha muito bonitinha. De branco, toda empinadinha, como no dia do nosso casamento.

– É, eu me lembro, você disse que eu parecia uma pombinha… Dessas que empesteiam as ruas da cidade…

–  Você sabe muito bem que pra mim você não era uma pomba  vira-lata qualquer. Você era uma pombinha meiga, pura, toda bem feitinha.

– Entendi… Uma pombinha inexistente… – ironizou  – Você também está ótimo…

Os dois mentiam. Há cerca de três anos não se viam por puro desencontro de velhos. Ambos tinham parado de dirigir e moravam em cantos opostos da cidade. Paulo estava se recuperando de um derrame que o deixara quase cego de um olho. Marina se acostumava com a companhia de um Parkinson incipiente, quase sem sintomas, recentemente descoberto. Ambos sabiam um das mazelas do outro por isso ali estavam. Ambos, igualmente, disfarçavam.

– Totalmente recuperado?

– É um pouco de exagero falar em recuperação total. Mas estou bem melhor agora. Aos poucos minha visão está voltando mais ou menos ao que era.

– Ainda dá tempo pra um café?

– O navio só parte daqui a quarenta minutos. Até o cais são uns dez andando devagar. Claro que dá pra um café… Garçon, por favor, dois expressos.

– Você vai desistir? – Marina perguntou em tom de provocação.

– Claro que não, Marina. Desistir de uma viagem com você? Pois se é tudo que há quase quarenta anos eu mais quero…

– E o resto do nosso trato?

– Isso a gente resolve depois.

– Marina arqueou as sobrancelhas, sorriu e inclinou a cabeça, uma expressão da juventude que ainda lhe caia bem.

– Está bom. Em Salvador a gente resolve.

* * *

Haviam sido casados por quinze anos e há trinta e sete estavam separados. Um casamento feliz fora o deles, que ninguém acreditava que um dia se desfizesse. Separaram-se por motivos fúteis, um certo tédio persistente. Um casamento mantido por inércia, para eles, pareceu-lhes uma antítese do amor, e como não tivessem filhos ou bens de monta que justificassem permanecerem juntos, decidiram separar-se. Mas, por se amarem de fato e nutrirem um pelo outro um afeto mais que fraterno, o relacionamento entre eles persistiu apesar dos muitos namoros, nunca tornados compromissos mais sérios, que ambos tiveram.

Do casamento feliz que tiveram, uma das melhores lembranças que guardavam eram os demorados cafés da manhã, mais longos ainda nos finais de semana, em que, sem compromisso, depois de dormir o tanto que precisavam, conversavam horas sobre nada, bebendo café e comendo pão francês, biscoitinhos ou  torradas. Foi numa dessas manhãs de sábado ou domingo que traçaram o plano que ora realizavam.

O plano era um suicídio duplo, sincronizado.

Foi Marina quem começou, um pouco depois dos quarenta, com uma espécie de obsessão por velhice e morte. Dizia que a velhice era uma indignidade e que à decrepitude, preferia a morte, ainda que fosse necessário previamente decidi-la e planeja-la. Paulo não discordava, tampouco refletia profundamente sobre as estranhas ideias da mulher, mas nunca cortava a conversa que  maturou a ponto de estabelecerem o trato de,  ao se cansarem da vida, fazerem um cruzeiro e em alto mar se atirarem, ambos, no oceano, juntos, de pernas e mãos atadas. O trato tinha um quê de roteiro cinematográfico. Nele, imaginavam-se os dois, velhinhos, bem aparentados e elegantemente trajados, desfilando no convés de um transatlântico, diante de um porto qualquer em Ibiza, Barcelona ou no sul da Itália. Paulo fumando charutos e Marina portando elegantes brincos de ouro e pérolas rosadas. A outra parte da história eram as enormes dívidas que fariam com passagens, acomodações de primeira classe e inúmeras roupas chics e caras que usariam na viagem. Mortos, a dívida jamais seria saldada.

Ainda casados, toda vez que falavam sobre as sequelas que a velhice ia deixando nos seus pais, tios ou irmãos mais velhos, retornavam à fantasia macabra. Quando, depois de separados, comentavam as mazelas que os atingia a eles próprios, confirmavam bem humorados se o plano ainda estava de pé  e o reagendavam para o momento em que a senilidade verdadeiramente ficasse insustentável.

Havia chegado o momento. Não haviam feito as tais dívidas com roupas, jóias e charutos, tampouco o cruzeiro singraria o mar mediterrâneo, mas a costa brasileira. As cabines, contudo, eram de primeiríssima classe, não por esnobismo, extravagância ou para legar dívidas a terceiros, mas como um luxo merecido que anciões como eles mereciam e se davam.

* * *

Saíram do Café e atravessaram a praça caminhando até o cais. Ambos sorriram para o fotógrafo que registrava os passageiros no momento do embarque, relembrando de modo sincronizado, sem que qualquer um dos dois dissesse uma palavra, o primeiro cruzeiro que haviam feito juntos, quando ainda nem eram casados. Teriam comprado a foto também dessa vez, como da primeira vez a haviam comprado, mas se acharam muito velhos, seus rostos parecendo caretas de tão enrugados.

Viajavam em cabines separadas. O hábito da economia que os atormentava, quase uma doença de velhos, havia feito com que eles, por um momento, cogitassem compartir o mesmo aposento. Mas quando se imaginaram usando o mesmo banheiro, desistiram e reservaram cada um seu apartamento privado.

No jantar da primeira noite conversaram muito, absolutamente concentrados. Quem os observasse diria que flertavam. O assunto não era o plano ou como chegar ao desfecho imaginado, mas o passado, o que haviam vivido juntos e o outro, aquele em que haviam estado separados. Não que evitassem o primeiro assunto, nem que o plano já nessa altura tivesse sido adiado, apenas, naturalmente, o assunto que os interessava era o passado.

Velhos que eram, num outro ambiente, certamente passariam despercebidos, mas naquele navio, repleto de jovens, famílias e casais de todas as idades – exceto a deles – chamavam atenção por serem absolutamente incomuns. Diante de anciões que se comportavam como jovens enamorados, ninguém era indiferente. Quem não se enternecia, zombava. As pessoas que jantavam nas mesas próximas notavam o clima de romance que os envolvia, uma nuvem de amor sobre suas cabeças grisalhas, e comentavam.

No dia seguinte no convés, uns sorriam ao vê-los, outros discretamente os apontavam. Os que haviam acompanhado mais de perto o flerte da véspera torciam pra que o romance vingasse.

No segundo jantar, comportaram-se francamente como namorados, divertindo mais uma vez as mesas que os circundavam. Alheios ao interesse que despertavam, sorriram muito um para o outro, brindaram com espumante, afagaram-se as mãos e saíram do restaurante de braços entrelaçados. Novamente nada sobre o plano foi comentado. Em suas cabines, tarde da noite, os casais que assistiram ao namoro se perguntavam se fariam sexo os velhos ou se apenas dormiriam abraçados.

Na terceira noite Paulo e Marina já haviam feito algumas amizades. Houve até quem os convidasse a jantar juntos, mas eles educadamente recusaram. O romance evoluía e após brindarem com um Bourdeaux encorpado, antes dos pratos chegarem, Paulo ternamente beijou as mãos de Marina, depois seu rosto, e por fim, de leve, seus lábios. Os casais vizinhos, atentos, pensaram em aplaudir, mas felizmente se controlaram. Dormiram juntos nessa noite. Os olhos embaçados de Paulo o ajudaram a ter nos braços a Marina de antes, com seu perfume de flores que a passagem do tempo em nada alterara. Sobre o plano, contudo, nada falaram.

Amanheceram em Salvador. O momento, depois de uma noite de amor, talvez não fosse adequado, mas Paulo, numa súbita incontinência verbal, resolveu perguntar:

– Então, Marina, não era aqui que a gente ia resolver?

– Resolver o que, Paulo?

– Como o quê, Marina? O nosso trato. Não era aqui em Salvador que a gente ia combinar os detalhes?

– Trato? Que trato, Paulo? Do que você está falando?

A velhice tinha suas vantagens. Esquecer as coisas nem sempre era uma delas, mas poder fingir esquecer-se de coisas sobre as quais não se queria falar, sem dúvida,  era uma grande vantagem.

À noite, Marina atrasou-se para o jantar. Era a noite de gala do Cruzeiro, o jantar do Comandante. Surgiu linda vestida de seda clara com um conjunto de pérolas rosadas, o cabelo arrumado e o rosto maquiado. O Comandante havia pensado em convidá-los para sua mesa, o casal mais idoso, tão simpático e tão bem apessoado, mas desistiu ao ver Marina, parecendo uma noiva, indo ao encontro de seu varão apaixonado.

Paulo recebeu-a de pé, beijou-lhe as mãos e puxou-lhe a cadeira fazendo-a sentar-se no melhor lugar à mesa, de frente para onde os músicos tocavam. Durante o jantar, emocionou-se ao dizer que a viagem tinha sido o momento mais feliz de sua vida. Antes da sobremesa, perguntou com os olhos úmidos se ela aceitava casar-se com ele. Marina simulou surpresa, lembrou-se do vaticínio de uma certa vidente, que consultara aos quarenta, de que morreria depois dos noventa e sorriu satisfeita  pois seu plano “B” funcionara.

 

 

22 comentários em “O plano B – Elisa Ribeiro

Adicione o seu

  1. Oi, Elisa,

    Gostei tanto que publiquei no meu face.

    Seus últimos dois contos mostram sua maturidade crescente como autora. Muito bom.

    A trama é muito similar a um espetáculo que escrevi aqui para a atriz Rita Malot. Ela e o marido queriam montar uma comédia de Casal e a peça, ainda sem título, acabou virando uma grande brincadeira com um pacto do casal de morte, quando jovem, de não deixar o outro envelhecer, usar fraldas, etc. É uma comédia, mas a premissa é similar. 😉

    No mais, resta dizer que a narrativa prende o leitor. Os personagens são cativantes e o ambiente de entrono criado é perfeito.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini
    (11)982497839

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, Paulinha! Fui finalista de um concurso literário com esse conto o que me valeu um final de semana com tudo pago em Salvador! U-la-lá…. Te contei também que adaptei o conto para teatro também, por sugestão de um amigo. Ficaria muito feliz se fosse encenada um dia. Bom que gostou! Você é uma querida!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que doçura de conto, mulher! E que personagens deliciosos! Eu amei seu conto que está super bem escrito, envolvente, com descrições muito cuidadosas e uma trama sedutora! Tudo é muitíssimo crível e nem por ser tão real, menos encantador. A gente se pega torcendo para o casal voltar, torcendo para que desistam do plano A e se entreguem à evidente alegria que contagia todos tanto no navio, quanto quem está olhando para a tela. Um mimo de conto! Sempre gosto do que vc escreve mas este entrou para a galeria dos top 05, beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ioio, querida, sempre tão gentil. Esse conto reflete a minha visão pessoal da velhice. De que as cabecinhas continuam jovens por dentro dos corpos gastos. Beijos, querida!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Oi, Elisa!
    Vou dizer uma frase que sempre termino repetindo quando leio seus contos ou poesias – você sabe trabalhar com a emoção de uma forma única, mais uma vez estou aqui, em lágrimas de emoão.
    Lindo, doce, bonito e tão reflexivo, seu conto é uma pérola. Amei os personagens Marina e Paulo, muuito fofos, muito próximos, perfeitos em sua humanidade imensa.
    Parabéns!
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  4. Sem dúvidas, sempre deve haver um plano B. Este foi engenhoso, Marina pode conseguir uma segunda chance e não estar solitária nos anos restantes de vida. Parabéns pela ideia e pela construção feliz do cenário e de personagens tão carismáticos. Seu conto me conquistou: um amor que não morreu apesar da separação. A leitura foi prazerosa e instigante. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Um romance a la Titanic, com final feliz. Que velhinha engenhosa essa, cheguei a pensar que o pior seria consumado, tal minha surpresa que foi tudo armado, assim como as rimas bem colocadas no conto, dando um tom ainda mais poético à sua prosa. Parabéns, encantei-me com os dois bons velhinhos enamorados. Bjs.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Rose. Acabam restando essas rimas quando minha prosa assume um tom mais poético, não consigo evitar, mas tento. Obrigada!

      Curtir

  6. Uma linda história de amor! O casal entre encontros e desencontros, por fim acertaram o passo. O plano B da senhorinha funcionou perfeitamente e assim, teriam mais uns dez anos para aproveitar e reviver o romance.
    A narrativa é envolvente e nos faz pensar que tudo chegará a um final lindo, porém trágico, a entrega dos amantes ao mar. Leitura fluida, sem desperdício de palavras ou emoções. Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

  7. Malandrinha esta Marina, hein? De boba não tem nada, “faz de conta” que esquece o “plano” e logo inventa outro melhor! Um conto delicioso de ler e que aquece o mais frio dos corações…
    Abs ❤

    Curtido por 1 pessoa

  8. É difícil se imaginar daqui a anos. O que você acredita que estará fazendo? Quais serão suas necessidades no futuro? Assegurar a necessidade básica de segurança, amor e companhia foi a preocupação da protagonista… e, como foi esperta – plano bem bolado e bem executado. A alternativa para contornar a solidão mostrou controle da situação e o final feliz encantou essa leitora aqui.

    O texto está bem escrito e a leitura foi agradável, leve e surpreendente. Parabéns! Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  9. Hahaha que fofa!!
    As mulheres sempre tramando seus esquemas de amor, hein!! ❤
    Amei muito!
    Parabens pelo texto, Elisa!
    Um dos melhores por aqui!

    Curtido por 1 pessoa

  10. Muito legal a sua história. essa coisa do suicídio após uma certa idade é assunto que me fascina e interessa. Confesso q tb penso em algo assim na velhice. Mas é claro q se eu der a sorte de encontrar um grande amor antes disso… planos abortados imediatamente! rsrs Eu gostei demais, fiquei super curiosa sobre o q aconteceria no desfecho e isso me manteve atenta ao conto o tempo todo. Imaginei mil finais diferentes, mas o seu foi mesmo o mais redentor de todos! vida longa para o amor! Beijos e muitos parabéns!

    Curtir

  11. Que fofo! Eu torcendo para que o final feliz acontecesse e aconteceu! Afinal, nesses tempos de desesperança, o melhor final é aquele que nos deixa felizes. E foi impossível não associar essa viagem com o Titanic. Ainda bem que nada afundou, nem o sentimento! Parabéns!
    Um grande e carinhoso abraço!

    Curtir

  12. Olá, Elisa!
    Um conto terno que trata de vida e de morte e de como viver em equilíbrio entre esses dois pratos da balança. Com astúcia, um certo desprendimento, um certo jogo de cintura. e amor, acima de tudo. Parabéns pelo belo conto!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: