Las Contreras – Iolandinha Pinheiro

A família da viúva Anahy Contreras chegou no início da estação das chuvas, um mês depois de recebermos a carta do antigo morador da “Las Piedras” pedindo ao meu pai para aguardar as mulheres e mostrar tudo da propriedade vendida.

Como eu e Pedrito não sabíamos coisa alguma sobre as novas vizinhas, passamos todos os dias que antecederam a chegada delas ouvindo atrás das portas e conversando sobre detalhes inventados por nós mesmos.

Logo que descobrimos que a viúva tinha três filhas em idade de namoro, começamos a criar fantasias sobre como seriam. Imaginávamos as moças conforme nossos desejos: loiras e esbeltas como as atrizes das fitas de cinema. Até combinávamos sobre quem ia ficar com qual das namoradas fictícias: Pedrito queria a mais velha, dizia ele que o busto seria maior que o da minha.

No dia marcado o movimento na cozinha era intenso, mamá e tia Assunción quebravam ovos dentro das bacias para fazer pães de ló e batiam leite com açúcar para os cremes. Três galinhas mergulhadas no caldo de tomates, com milho e pimenta ferviam em uma grande panela.

Esperávamos o grupo para as doze horas, mas, à medida em que a tarde avançava, a comida esfriava nos grandes tachos enquanto o seu cheiro quente se dissipava pelos cômodos da casa.

Quando finalmente apareceram, a realidade da vida caiu sobre nós.

Eram quatro mexicanas fortes e bronzeadas. A Señora Contreras, e três novilhotas agitadas. Desceram da carroça desembarcando malas e trouxas, afogueadas e fedendo.

Naquele dia comemos na grande mesa na varanda. Os bolos não estavam mais frescos e os cremes haviam perdido a firmeza. Mamá sorria para as visitas mas eu sabia que estava triste com a comida quase fria que mandara servir.

A viúva comia calada enquanto papai explicava detalhes sobre os animais e a lavoura. Era uma coroa durona com as bochechas firmes e salientes. As outras mulheres tinham feições menos marcadas e sorrisos mais frequentes, mas comiam silenciosamente como se temessem a autoridade da matriarca.

Eu e Pedrito corríamos os olhos de uma para a outra procurando nossas beldades Hollywoodianas, mas só víamos garotas feias e uma delas cheia de espinhas inflamadas pelo rosto. Onde estavam as noivas caucasianas que havíamos encomendado?

Saí da mesa logo que pude, havia vivido a minha primeira decepção amorosa. Pedrito, por sua vez, fez amizade com as moças e sumia de vez em quando pelos caminhos entre as duas casas de braço dado com a Mariinha Contreras.

Em menos de um ano tiveram que casar e a filha da viúva pariu uma menina.

Depois de um tempo foram morar na capital. Sempre que sentia saudade eu ia olhar o álbum com as fotos deles. Num dos retratos a pequena Carmencita estava usando uma máscara da festa de Santa Muerte. Não podia deixar de rir: as demais Contreras apareciam na imagem sorrindo, e, minha sobrinha, a única Contreras bela, trazia o rosto coberto por um horrendo disfarce de caveira.

17 comentários em “Las Contreras – Iolandinha Pinheiro

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  1. Hahaha, que delícia esse conto. Bem coisa de menino, de quase adolescente, de interior, gosto doce do que é imaginado, proibido, explorado, escondido. Me transportei ao passado, a essa idade onde todos os futuros ainda são possíveis. A cara ou a caveira, a realidade, a imaginação por trás da máscara… Vc escreve tão bem e tem tanta criatividade, Iolandinha! Super te admiro! Beijos!

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    1. Não conta para ninguém mas o protagonista foi inspirado em mim. Tenho primos espalhados pelo mundo, um deles era apenas um mês mais velho do que eu. Quando soube que ele, a irmã e os pais estavam vindo, fiquei cheia de expectativas, e olha que eu tinha uns oito anos. No dia da chegada fomos visitá-los na casa da minha vó. Ele estava no jardim e veio se apresentar. Não acreditei que aquela criatura mirrada e menor que eu era o tal príncipe encantado, fui procurar pela casa para ver se havia outro e que aquele era engano. Não que eu fosse namorar, nem tinha idade para isso, mas eu idealizei uma criatura perfeita, e ele estava era longe disso, rsrs. Um beijo, querida e muito obrigada pela sua gentileza comigo.

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  2. Ah, as expectativas que criamos quando jovens! Os meninos cheios de hormônios fantasiavam com divas de cinema, loiras e esbeltas. Um deles nem se importou tanto com a realidade imposta – tratou de aproveitar o que a vida trazia. A menina que era a única bela entre as mulheres, escondeu-se atrás da máscara… brincando de morte, mas quem disse que a morte não pode ser também bela? Parabéns pelo conto tão bem ambientado e conduzido.

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    1. Pois é, menina Cláudia Roberta, a vida é um conjunto de expectativas frustradas, e a sabedoria é saber lidar com elas. O conto se torna familiar a cada leitor porque ninguém escapa de se decepcionar com a realidade, especialmente quando esperamos grandes coisas, deixamos nossa imaginação voar e criamos o mundo ideal, que não existe… Muito obrigada pelo seu atento e agradável comentário. Sempre é bom te receber nos meus escritos.

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  3. Você , Iolanda, é uma brilhante observadora do comportamento humano e, melhor ainda, contadora de histórias . Fui criada com muitos irmãos e primos, vivenciando várias tramas semelhantes a sua. Parabéns por mais essa narrativa instigante e inspiradora. A máscara na única bela foi uma ideia bem criativa. Beijos.

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    1. Acho que sou apaixonada por gente e o seu comportamento. Às vezes acho que sou uma espécie de et em missão aqui na Terra e por isso me interessa tanto como as pessoas agem. As pessoas são realmente maravilhosas e capazes dos mais lindos até os mais execráveis atos, daí a versatilidade de textos que podemos escrever sobre elas. Amiga Fátima, obrigada pela sua generosidade comigo. Vc é demais! Beijos.

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  4. ahahahahah Quando finalmente apareceram, a realidade da vida caiu sobre nós. Triste fim! ahahahah Eu ri muito com isso e imaginei a decepção dos guris. Um conto leve e envolvente. Parabéns! Gostei demais! Beijos e abraços carinhosos!

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    1. Moça linda, que bom recebê-la aqui neste nosso espaço! Sua opinião sempre é muito importante para mim. Afinal tenho uma veiazinha cômica, rs. Obrigada pelo carinho, adoro vc! E muito obrigada pela divulgação!

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  5. Olá querida Iolanda! Finalmente chegando aos contos de agosto… Encontro aqui um conto bem diferente dos que você habitualmente escreve: curto, leve, bem humorado, com um tom memorialista e anedótico. Embora não haja grandes descrições, senti-me dentro da cena e pude tanto ver as mexicanas feiosas como sentir a frustração do personagem narrador. Boa técnica, como sempre, minha amiga. O toque da máscara de horror encobrindo o rosto da única bela da família mexicana finaliza o conto com a sua assinatura autoral. Beijos querida!

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    1. Olá, Elisa! Obrigada pela leitura. O conto ficou curtinho assim porque fazia parte de um desafio que permitia contos de até 500 palavras baseadas numa imagem (que não é esta) Daí eu pensei em fazer algo assim levinho e engraçadinho. Pessoalmente eu sou uma pândega, a rainha das piadas de fim de festa, esse lance de escrever terror me deixa com uma pecha taciturna, rs. Que bom que gostou

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  6. Querida Iolanda,

    Tudo bem?

    Consegui enxergar cada detalhe de seu conto, o calor, os odores, o gosto da comida, o rosto de decepção dos meninos e o das guapas-nem-tão-guapas das meninas.

    Li acima sobre sua preocupação com a questão de ser definida (apenas) como uma escritora de terror. Não creio que tal preocupação se justifique. O terror é a sua assinatura, sua poética como autora, ainda que em contos que não tragam o gênero como premissa, sempre haverá algo de incômodo rondando como uma mosca.

    Se eu fosse você, juntaria meus contos de terror, e proporia à Editora Oito e Meio, que publicasse no selo Transversal. Você faz literatura de gênero. E das boas. E o terror é um dos gêneros preferidos dos leitores.

    Quanto ao conto em si, como já disse acima, é muito imagético, gostoso de se ler e traz um questionamento sutil nas entrelinhas. Quem é vida, quem morte? Quem belo, quem feio? Quem do bem, quem não?

    Como sempre, parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini
    (11)982497839

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    1. Caríssima Paula! Meus contos só ficam “no jeito” depois que são comentados por vc. É muito legal receber seu comentário cuidadoso, sensível, que, inclusive, enxerga além até do que planejamos, e isso é maravilhoso. Eu realmente queria melhorar os meus apontamentos e chegar perto deste seu nível tão certeiro, mas isso depende de um amadurecimento e tem que ser trabalhado a cada dia. Quanto à publicação, estou esperando ser descoberta por alguma editora que se disponha a pagar para que eu escreva (vai sonhando!) porque ando muito a perigo na questão financeira. Olha, um beijo bem grande para vc. Sorte no EC

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  7. Olá, Iolandinha!
    Acabei de ler seu conto, com um bom atraso, diga-se de passagem, mas me surpreendi pelo tom leve, memorialista, familiar e ao final, com uma certa ironia muito pertinente. O que é a vida não é mesmo? É nisso que refletimos ao ler seu saboroso conto, com gosto de família, com gosto de realidade e sonho que só uma mestre como vc sabe dar. Parabéns pelo texto. Bjos

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    1. Sandra, obrigada! Tenho um grupo que faz exercícios literários e um deles é escrever um conto sobre uma determinada palavra com um limite pequeno de palavras, este aí era para 500 palavras. Depois eu dei uma aumentada nele e o resultado foi esse. Contos curtos exigem muito de nós porque temos que criar uma história, desenvolver e dar um final decente em um espaço pequeno, que bom que vc gostou, linda. Beijos

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  8. Que conto gostoso, divertido, leve! Não é terror, mas adorei!!! Agora me pergunto, será que a menina é mesmo bela, ou é só pq ela tem o sangue do personagem? rsrsrs

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