ALICE E PLATÃO – Claudia Roberta Angst

Acordou assim, sem perceber direito o dia. Uma névoa bloqueava seus pensamentos. Sonhara novamente com a mesma cena. Sempre a mesma e lenta cena. Despertando suada e quase sem fôlego, encostou-se na cabeceira da cama e recobrou a consciência aos poucos.

No sonho, havia marcado o encontro, secreto como deveria e só poderia ser. Desistira das horas plausíveis para acertar local e humor. Vestida de Alice procurava por tocas mágicas, coelhos apressados e chapeleiros malucos. Nada achava, é claro.

No desenrolar da odisseia onírica, Mirna carregava rosas brancas, mas logo reconhecia o próprio sangue sobre elas.  As pétalas desfaziam-se em suas mãos como uma areia infindável na ampulheta. Espinhos ficavam cravados na sua palma como mistérios sem dias. Um deserto de intenções que simplesmente não aconteciam. Mirna esperava que as cenas agregassem, no momento certo, os primeiros acordes de uma música especial. No entanto, a cenografia falhava, o sonoplasta desistia de acrescentar aqueles compassos ao ritmo da sua vida e tudo se embaralhava novamente.

Acordada, Mirna precisava de respostas, não simples respostas, mas imediatas. Sentia que seus atos deveriam receber atenção como determinava a lei da Física: cada ação gera uma reação. No entanto, nem todas as reações eram visíveis, palpáveis ou verbalizadas. Havia a resposta no silêncio, no esperar entre as pausas, na respiração da dúvida. Mirna procurava compreender a resposta que estava ali entre os parênteses dos acontecimentos.

Naqueles momentos, a adolescente racional passava a tarefa adiante, parecendo ser regida por um maestro temperamental, daqueles que amedrontam tanto os músicos quanto a plateia. Os instrumentos surgiam como armas afiadas, granadas prontas para explodir em sua mente e varrer para sempre qualquer rastro de sensatez.

Pessoas desfilavam em sua vida como personagens em um trailer de filme. Seu andar coincidia com a música de fundo e arrastava consigo as últimas notas de uma melodia inebriante. Ela só tinha pressa, loucura e paixão como a juventude exigia. Em poças refletidas estavam suas expectativas, temendo atrair mais acontecimentos do que borboletas.

Acidentes suprimiam qualquer possibilidade de recomeço, como um furacão destruindo as ilusões e acelerando o desfecho. Ela pensava em tudo que lhe acontecera desde o último verão. Mas e se a música não tocasse? Se não houvesse mais nada, nem prazer, nem angústia, só o silêncio perturbador? Perguntava-se entre um bocejar e um espreguiçar.

Ainda preferia o desenrolar atrapalhado dos dias que se debatiam e eram empurrados contra o muro do acaso. Ainda escolhia os compassos sem harmonia, os contrapontos e as pausas momentâneas. Porque a vida era assim: música viva.

                                                           ♣♥♦♣♥♦♣♥♦♣♥♦

Bastaram os primeiros acordes de uma velha canção para levantar o véu das lembranças. Era um capítulo esquecido, abandonado à própria sorte, condenado à inanição e escravizado pelo tempo. Metodicamente dobrado em mil partes para caber em uma gavetinha lá no alto, longe de mãozinhas curiosas.

− Sabem de quem me lembrei agora? Do Antônio.

Mentia. A lembrança de Antônio não lhe chegara bem naquele momento. Viera com o sonho, a fuga sem alma, de uma paixão sem tréguas.

Falara assim, de rompante, sem pestanejar para surpreender. As outras três meninas arregalaram os olhos espantadas com a recordação. Sabiam de quem Mirna falava. Tinham sido todas informadas em detalhes sobre a sua existência, embora nunca o tenham conhecido pessoalmente. Nem elas, nem Mirna.

Em tempos de internet, esses encontros sem presença física, eram os mais comuns. Nada de envolvimentos presenciais. Movidos pela curiosidade e pela aparente segurança, os jovens privavam de privilégios estranhos tais como viver uma paixão platônica.

− Nossa, ainda se lembra disso? Minha mãe diria que isso é tão anos 80, criatura!

Para Mirna, assim como para o filósofo grego o amor deveria ser algo puro, livre de paixões cegas, fugazes e baseadas na atração física. O amor que Mirna buscava fundamentava-se em um interesse virtual, perfeito relacionamento criado na teoria do mundo das ideias de Platão. Se no mundo real, o perfeito não existia, a menina buscaria na memória a pureza que a fazia corar sem qualquer aviso. O amor à distância, sem a aproximação dos namorados, sem o toque físico, carregava a fantasia e idealização.

─ Não consigo esquecer.

 As três Marias: Maria Eduarda, Maria Cecília e Maria Laura entreolharam-se prevendo uma repetição dos fatos narrados anteriormente.

Mesmo com as facilidades do mundo virtual, a falta de respostas continuava a causar a mesma insegurança da mocinha da novela retrô. Um tempo de demora nas respostas, de ausências sentidas como se ela esperasse por cartas. Se pudesse escreveria cartas para ele. Tão donzela do século XIX, tropeçando na barra do seu vestido e se abanando com uma carta manuscrita.

− Ah, mas a Mirna sempre teve essa queda por carinhas misteriosos. ─  Maria Laura disse entre risinhos maliciosos.

Já a outra amiga, Maria Cecília, enrolando uma mecha de cabelo cor de cobre, parecia assistir a um filme da sessão da tarde. Suspirou como se recordasse de uma cena especialmente emocionante.

− E pensar que tudo começou naquele bate papo sobre surfe. Sei lá. Não parece que vocês combinam. Não são nem amigos, nem namorados, nem ficantes.  Ah, prefiro assim mesmo: será para sempre o seu desconhecido.

Mirna sorriu diante da definição caótica da amiga. Antônio não aparecia no chat há mais de duas semanas. Já era notícia velha no cotidiano montanha-russa da adolescente.

− Quando meu querido desconhecido olhar para a minha nova foto de perfil, vai acabar caindo na armadilha nem que seja só por curiosidade. Aposto que vai curtir e comentar elogiando.

Se Antônio não buscasse por notícias dela, Mirna sentiria que nada havia valido a pena. Nem os papos longos durante a madrugada, muito menos os beijos que imaginou em sonhos. Os dias voavam, e o desejo de menina fermentava ideias contraditórias. Envaidecida e curiosa, Mirna deixara-se convidar para uma festa de máscaras. As identidades baseavam-se em fotos que podiam não ser reais. Lembrava-se bem da relutância do rapaz em conversar usando câmera. Parecia quase uma birra  infantil. Mirna esperava que o seu príncipe viesse. Qualquer dia, ele apareceria. Esperou, mas ele não veio. Os amores platônicos nunca vêm. Isso é um fato.

− Mas trocaram algumas mensagens, não foi?

Com os silêncios de Antônio, Mirna aprendera a não esperar, a não se sujeitar à vontade do outro. Assim, quando agia, não contava mais com aplausos ou vaias. Ela não esperava nada. Não criava expectativas, não alimentava medos ou fantasmas. Dava, a si mesma, aprovação ou desagrado. Se houvesse uma resposta, um aplauso, um sorriso, recebia tudo com muito carinho. O momento tornava-se especial porque nascera sem ser arrancado, sem ser exigido.

− Trocamos algumas curtidas. Quer dizer, pouquíssimas da parte dele e um lote maior da minha. Vocês sabem: eu escrevo, mando e-mail, sms, o que for. Se ele responder, oba. Se não, normal.  Vai ser chato,  mas não vou cortar os pulsos por causa disso. .

− E que fim será que levou esse tal de Antônio?

Agora era Maria Eduarda que desenrolava a história sem fim.

− Sei lá, acho que desencanou, perdi a graça pra ele.  Nem uma linha ou chamada no celular. Às vezes, sinto tanta falta dele que chega a doer.

Mirna falava de uma brisa de nostalgia, da saudade de uma inocência que não me acompanhou…

− Gostaria de ter encontrado o cara?

Mirna balançou lentamente a cabeça. Não era um sim nem um não. Não teria uma resposta, uma reação positiva ou negativa. Aquela era uma pergunta que permaneceria sem resposta. Como ela havia sido deixada: no vácuo.

Quando em silêncio poderia entender possíveis contratempos, mas as pausas longas demais não se encaixavam em hora alguma. No entanto, Mirna tentava não dar atenção a sua urgência, ao seu suplicar desmedido, a sua apressada necessidade de preencher lacunas.

− Às vezes, me pergunto se algum dia, em algum lugar, a gente vai se encontrar. Aí, talvez, nossos olhos se encontrem e…. Acho que vou cair na risada, numa estrondosa gargalhada de tão ridícula a nossa não- história.

−  Parece coisa de novela, garota.

− E escreverão juntos um parágrafo de encerramento, que não seja “felizes para sempre”, mas “eternamente ligados pela impossibilidade do tempo e do espaço”. Finalizarão com um beijo, casto, claro. E serão felizes, sim, cada um pro seu lado, reescrevendo sua própria vida.

Os olhares encantados focaram-se em Maria Cecília que, mesmo tímida, deixara aflorar seu lado poético para dar um final tragicômico àquela narrativa embaralhada.

As quatro amigas então riram como há muito não faziam quando ao passado curto voltavam o olhar. Era uma bela história que lhes permitia compartilhar esperanças, sonhos inocentes e doces recordações adormecidas na memória. Eram cúmplices dessas lembranças, de um encontro nunca concretizado. Uma paixão platônica, coisa do milênio passado. Alice estava de volta à toca do coelho.

Bem-vindo, Chapeleiro Maluco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 comentários em “ALICE E PLATÃO – Claudia Roberta Angst

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  1. Olá, Cláudia!

    Mesmo uma não-história deixa suas marcas. Amores platônicos de adolescência estão mais em voga do que nunca em tempos de internet, de encontros virtuais que nunca se concretizam, em trocas que nunca se dão porque há que se proteger seu mundo. De ilusão. Da realidade. Da decepção. A linguagem primorosa é sua marca. Parabéns pelo conto.

    Curtido por 1 pessoa

  2. O universo adolescente com suas fantasias e decepções muito bem desenroladas pela escrita sem falhas de Claudia. O mundo muda mas as meninas ainda sofrem e se consomem de expectativas pelos meninos, a diferença é que hoje é tudo na velocidade de um clique. Um conto atual e eterno porque o amor nunca vai deixar de ser a força que move o mundo. Parabéns, Claudia, e tudo de bom.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Como diria uma adolescente de minha época: “Ah! Os grilos da galera!” Muito bem focados, com uma linguagem poética e realista ao mesmo tempo. Moderna ao trazer à tona as mudanças de comportamento depois da internet.

    Visto assim de longe, nos sonhos, nas conversas, os jovens parecem todos iguais, saídos,de uma produção de série. Parecem uma massa indefinida, pensam o mesmo, têm as mesmas ideias e os mesmos gostos. Ilusão! Cada um é cada um e aqui ganharam nome – as Marias – e linda referência ao clássico Alice no País das Maravilhas!

    Parabéns pela ideia e construção dessa cativante narrativa. Beijos. 👏👏👏👏😍

    Curtido por 1 pessoa

  4. Oi, Cláudia,

    Tudo bem?

    Ás vezes o que não foi, é mais forte do que o que foi. Talvez justamente por isso. O fato de não ter acontecido, permite que o amor permaneça no campo da imaginação, no platônico a paixão ainda queima, pois não se concretizou.

    Tenho percebido, aos poucos, que a paquera está migrando quase que totalmente para o virtual em nosso mundo. Digo isso, devido às minhas conversas com a plateia no Casal TPM. Há um novo modo de namorar, abordar o outro, flertar, escolher, enfim.

    Esse é o segundo conto que você traz com essa temática de possibilidades do amor virtual. Talvez até o terceiro. Vale a coletânea, hein?!

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Oi Claudia! O mundo muda, mas a essência permanece. Amigas adolescentes compartilhando suas inexperiências amorosas e suas não-história de amor. Aqui você nos fala dessa modalidade tão contemporânea de relacionamento virtual em que o contato físico muitas vezes não acontece, atualização do amor platônico que você tão bem reconhece no texto. Como sempre, a linguagem é encantadora. Beijos, querida!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Tudo aquilo que não é vivido permanece na ideia e semeia possibilidades na cabeça e no coração de quem não viveu. É assim, apesar de acontecer de forma diferente para cada uma de nós. Eu não sei se é próprio do universo feminino. Talvez seja igualmente vivido pelo masculino. O fato é que todo o afeto não vivido, todo o desejo não consumado, acaba batendo de frente conosco, alimentando nossas fantasias.
    É claro que, dependendo do sujeito, ficar no plano virtual, ou no plano ideal (das ideias) pode ser mais vantajoso do que no plano físico. Essa contemporaneidade é estranha, fugaz e, por vezes, mal entendida.
    Parabéns pelo texto
    Beijos!

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