Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)

A vida bolorenta nas vielas de barro e cheirando a chorume continuava, como sempre, a mesma merda, depois da morte de Julinho Esmola.

Miséria chama miséria e a necessidade de pobre é aquela coisa – nunca tem fim.

Quando depois de trinta meses de trabalho, bico, aperta aqui e esse mês paga-se a água, no outro paga-se a luz e vamos que vamos, “Deus vai ajudar, eu tenho fé!”, aí quando finalmente o puto do economicamente desfavorecido consegue adquirir o que precisava, e pobre de verdade sabe que supérfluo é só em sonho, e mesmo assim nem sabe direito o que é sonhar, vem uma chuva e leva tudo. Triste.

É. Nada é mole, todo mundo diz que não tem nada, mas quando vem a tragédia, diz que perdeu tudo. Perder tudo quando não se tem nada é rotina lá nos becos por onde caminhava a exuberante Magá – a Magali Batista – morena formosa de lábios de mil promessas e curvas perigosas, sonho de consumo da bandidagem local, e de fora também, e dos pais de família respeitáveis que não perdiam uma missa sequer, nos domingos pela manhã.

E também não perdiam o futebol à tarde, quando rolava um churrasco e a escola de samba reunia os moradores: oportunidade de ver as carnes suculentas de Magá e outras de menos categoria rebolar gostoso. E tudo isso gratuitamente, o que era melhor, porque como se sabe, Magali não era mulher de pensar pequeno. Não! para ter um qualquer mais íntimo com ela tinha que ter, tinha que ser – o que, na comunidade, significava ser da nata dos donos do beco e tinha que ter grana, muita grana.

Magá não era, ou pelo menos não se considerava, puta, mas sempre que saía com alguém cobrava unzinho, dizia que era para “manutenção do material”. Megahair, unha de acrigel, até aparelho nos dentes ela havia colocado. Fora as roupas, de uma boutique ali no Saara. Coisa boa mesmo.

A verdade é que depois do flagra de Julinho, o rolo todo com a notícia que vazou de que Magali Batista estava andando com dois caras ( muito bem casados, diga-se de passagem) e o barraco todo com as digníssimas primeiras damas, fora a “sociedade’ toda comentando, Magá repensou a vida.

 “Ah, mas que se foda! Ninguém paga as minhas contas.” Era o pensamento – até razoável – de Magá, que, para disfarçar um certo arrependimento pelo que aconteceu com o bunda mole cachaceiro e fumador de crack do Julinho Esmola, usava essa justificativa para se consolar.

E foi nessas idas e vindas e um “trabalhinho aqui, outro ali” que Magá acabou virando primeira dama do chefão da boca.

E nisso ela viu, com olhos de quem adora o pozinho branco, a chance de tirar definitivamente o pé cheio de calos de tanto sambar da merda.

“Caralho, é fazer meu pé de meia, arrumar uma ida pra Itália e quem sabe casar com um príncipe, um conde, sei lá…já tô com 32 anos e o corpinho não vai segurar muito tempo. E assim seguia a vida naquela pocilga, Magali aproveitando o que podia, cheirando o que podia e aguentava e ganhava depois de transar até ralar as partes com o chefão, Miro Vitiligo, alguns “amigos de fé” do cara, e de vez em quando com alguns agentes da lei que passavam por lá, para fazer a coleta e passar um tempo com Magá.

Servida por Miro Vitiligo a quem quer que interessasse, ela não ligava, já se achava até esposa do cara, e já que água lava tudo, comia e era comida por todo tipo de pão, torrada, porrada ou qualquer migalha pisada e esporrada pelo diabo. Achava que dava conta. Ou, pelo menos, pagava as contas.

Acontece que, tragédia sempre anunciada, os culhões traficantes e manchados de Miro entraram na lista de Cirilo Supérfluo, o dono da boca de uma pequenina comunidade em ascensão, recentemente pacificada. E foi aí que Cirilo começou a ampliar seus horizontes e botar para quebrar, queimar e fazer picado de quem atravessasse seu descaminho.

E verdade seja dita, Supérfluo era alcunha perfeita pro sujeitinho magro, desnutrido toda vida, um toco amargo desde que o pai tinha perdido casa confortável, quarto e sala, até banheiro tinha, na Zona Norte, por causa do maldito jogo.

Cresceu, se é que pode dizer que cresceu: 1,57m, com a idéia que nem entendia direito, de ser mau. Uns querem ser médico, outros artistas, há quem queira ser mendigo, até. Mas Cirilo Conceição queria ser bandidão. E pode crer, era.

Numa certa noite de farra, muita droga de tudo quanto era jeito, tipo, cor e modo de usar, muito sexo liberado, putaria à balde no cafôfo de luxo de Miro, os soldadinhos de chumbo às ordens de Cirilo invadiram a porra da zona largando chumbo, na base da covardia.

Geral virando peneira com as calças na mão, gente se cagando pra todo lado e o velho apelo: “Por favor, eu sou pai de filho!”. Bandido pode ser ruim, mas até os filhos da puta têm mãe. Acontece que ordens são ordens e Miro levou tanta bala que só teve tempo de pensar: “

Magali Batista, a Rainha da Quase Quase, amante de Miro, puta por opção, a filha de Maria Capenga, vendedora de croquete e pai desconhecido, estava nesse instante jogando lixo, resto de comida, camisinha, seringa e afins na vala que corria ao lado da janela da suíte master da residência do “grandão”. E foi ali, na vala, junto com os ratos, a merda daquela gente que ela considerava inferior, que ela se escondeu a noite inteira pra salvar a pele morena e já meio gasta dos tiros da quadrilha de Cirilo Supérfluo, que acabaram com todos os que estavam na rodinha da sacanagem.

Ali, ela rezou, nem sabia rezar, mas pediu, implorou, era jovem, não queria morrer…e ficou ali, na chuva, na lama, chorando e chuva misturada com lágrimas e nesse rodízio até bosta ela bebeu, porque depois soube que contraíra hepatite.

Magá saiu da toca dois dias depois. Parecia transformada. Olhos perdidos de quem adquiriu fé, da qual nem queria ouvir falar, até então.

Maria Capenga, a mãe, quase “teve um troço” quando viu a filha, viva.

E dava graças por isso e Magá juntou-se ao histérico coro de “aleluia, aleluia”. Magali Batista agora era mulher de fé, transformada. Jurou que se escapasse mudaria de vida.

E mudou. Largou o samba, comprou duas saias que iam até o pé, lembrou de usar calcinha e foi procurar uma igreja.

Passou a frequentar as reuniões três vezes por semana, levou muita porrada da vida até ser liberta do demônio, conseguiu uma bolsa de estudo pra cabeleireira no Centro Comunitário do Figo Fatal.

Vida que segue, Magali formou-se cabeleireira, engordou, estava feliz com seus cento e sete quilos. Incrível como se transformara. Na igreja encontrou vários amigos na mesma situação que ela. Eleitos que saíram da cova e das mãos do tentador para a Luz.

Um belo dia, na volta do trabalho, trem lotado, notou que um senhor baixinho, cabelo grisalho, não tirava os olhos dela. Bateu o pânico. E se fosse um daqueles que exterminaram a corja, digo, pessoal, todo?

Mas não…ele era diferente. Aproximou-se e perguntou se aquele trem era parador e engatou conversa. Chamava-se Basílio, era despachante aduaneiro, quase viúvo- dissera, envergonhado, dizendo que a mulher sofrera um acidente e vivia presa na cama. Tetraplégica. Magá não sabia o que era isso, mas entendeu que era grave.

E aí, pouco tempo depois e lá estavam Magali e Basílio vivendo um romance. Sério. Muito sério.

Ela aliviava a consciência dizendo para si que a mulher do bom homem era doente, fazer o que? Coitadinha.

Só que Basílio não era nada bobo, tinha seus segredos, suas tentações. Uma vida dupla. Basílio era giletaço e a mulher doente era um cara másculo pra cacete de 1,90m, atendia pelo nome de Ronaldão e mandava ver, dia sim, outro também, no Basílio, a quem chamava de Lia, carinhosamente, entre tapas nas fuças e toma, lindona! ( a linda era o Basílio).

Magali, entre igreja e salão de beleza – o Mayrrer – e encontros com Basílio, começou a sentir certos enjoos, uma fraqueza e tontura que jamais tivera.

Além disso fazia já dois meses que a desgraçada da monstra não vinha. Puta que pariu! Não é possível! – pensou, enquanto pedia perdão a Deus pelo palavreado e pelo pensamento de tirar a criança, caso estivesse prenha.

Passou na farmácia, comprou o teste, fez. Claro, as duas linhas estavam lá. Positivo. Magali seria mamãe, e Basílio papai.

Contou tudo pro cara e ele ali, cara de paisagem. Conformado. Vamos em frente, minha flor! Vai dar tudo certo (porra! – pensava, por dentro).

Magá já não ia muito bem, desde que passou aqueles dois dias bebendo H2O sabor esgoto na vala, estava com o fígado ruim. Péssimo. Drogas, biritas, hepatite. Gravidez de risco.

Um dia Magá exigiu conhecer a casa, a mulher e ousou perguntar quando Basílio ficaria com ela e a criança, afinal…Lia desconversou, por dentro estava num desespero só. Imagina a fúria de Rô, oh, meu Pai!

Nove meses passaram voando, Magá sofreu, achava que era pra pagar os pecados e vai ver que era mesmo.

A hepatite estava acabando com ela, mas ela era forte, a potranca ainda resistia dentro dela, trabalhava oito horas no salão e ia, regularmente, à igreja. Parou de dar pro Basílio, ficou sem tesão, grávida.

Voltando pra casa um dia, trem lotado, ninguém dando lugar, a bolsa estourou e ela entrou em trabalho de parto.

“Mas que dor dos infernos é essa?!” Magá não aguentou, perdeu a classe recém adquirida mesmo. E lá foi carregada para o hospital público, onde sofreu por quarenta e oito horas sem conseguir falar com o amante. Estava só com a mãe, Maria Capenga, mãe e amiga.

Depois de vários cala boca das enfermeiras, “na hora de fazer não gritou, né?”, Magali pariu. Uma menina. Linda. Parecia uma bonequinha de porcelana.

Voltou para casa, esperou o traste do Basílio aparecer e como ele não apareceu, foi, resoluta, criança no colo, até a casa dele.

Casa bonita, confortável, flores no jardim e carro na garagem – mas coitado, a mulher tão doente.

Tocou a campainha e quem atendeu foi Ronaldão, que já sabia da existência de Magá e nem se importava, mas da criança, não sabia.

Os dois, Magá e Ronaldão, sentiram-se traídos, cada um à sua maneira.

Esperaram até tarde Basílio aparecer. Enfim, o infeliz chegou e se deparou com aquela cena surreal: Magá, bebê, Ronaldão de braços cruzados: “Quero uma explicação, amor!”.

Tudo o que estava adormecido em Magá, a Rainha de Bateria da Quase Quase, amante profissional de Miro Vitiligo, garota que fazia uns por fora, só pra garantir, veio à tona com todo ódio.

Deu uns bons tabefes nos cornos de Basílio, tomou um café, se recompôs, beijou a filha, olhou pro casal e disse: “De agora em diante, vocês são a família dela. Chega dessa porra toda, cansei de ser babaca, pra mim não rola.”

E saiu batendo a porta, disposta a retomar a vida- só não fez sexo. Tinha que guardar resguardo, aí sim, voltaria com tudo!

E voltou pra Figo Fatal. E voltou a ser aquilo tudo que fingira esquecer, que jurara, por puro cagaço, que jamais voltaria a ser.

Tempos depois recebeu uma carta de Basílio, dizendo que ele e Ronaldão estavam bem, criando a filha “deles”, batizada de Penélope, nome que Rô amava.

Às vezes Magá lembrava de Julinho Esmola, da filha, de Miro…e se benzia, metia a calça collant e ia pra night de Copa.

Dessa vez ela ia acertar, tinha conhecido um italiano que estava caidinho por ela.

Olhou a cara pintada, os cílios postiços, o cabelo oxigenado, sorriu.

Ela seria alguém, longe daquele chorume, daquele raio de lugar, daquela podridão de vida.

Sim. Ela acreditava. Virou prostituta na Itália e morreu algum tempo depois, a hepatite, as drogas e a bebida acabaram com seu fígado de vez.

No Brasil, Maria Capenga agradeceu a Deus. O tormento de ambas tivera um fim.

13 comentários em “Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)

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  1. Olá, Renata!

    Uma história como tantas que ficam guardadas pelos becos e pelas vielas da vida. Embarquei na história desde o começo, bebendo das agruras da personagem, sofrendo com ela seus altos e baixos. Acho que a linguagem acompanhou o ambiente e personagem, adequando-se perfeitamente. Muito bom texto. Gostei dos trocadilhos e achei um trabalho maduro. Parabéns!

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  2. Adorei teu conto, Renata. Vc criou ótimos personagens e os nomes deles, kkk. O conto tem muita fluidez e a história é super envolvente. Afinal, Magali não traiu sua natureza. Mesmo sendo uma história trágica e muito brasileira, vc conseguiu fazer um texto leve, saboroso, usou as palavras com maestria para dar autenticidade a sua trama. Parabéns, miguilis! Beijos!

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      1. Boneca, vi umas besteirinhas, e depois vou ler de novo e te aviso. Seus contos têm uma marca muito forte sua, de marginalidade e loucura (esta última às vezes) que fica fácil identificar que são seus. Se virarem livro eu já quero que separe o meu autografado, viu? Também mandei conto para cá, mas vc já leu no CLTS. Beijos

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  3. Que talento para abordar temas e personagens marginais tão presentes no nosso cotidiano. Um mergulho no submundo real, levando o leitor a conhecer com outros olhos mulheres que se desviam dos padrões ditados pela sociedade. Há um tom melancólico, até mesmo triste, mas que ao mesmo tempo faz com que nos apeguemos a Magali. Ótima caracterização de personagens e ambientes. O que dizer? Parabéns!

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    1. Obrigada, Claudia! Como disse, é importante demais para mim esse feedback. Pretendo a curto prazo fazer um livro de contos sobre os “desajustados”, “discriminados”, “estigmatizados”, e conto com a opinião de vocês. Beijos!

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  4. Em abordagem livre de preconceitos são retratados os problemas, as expectativas, o tesão e a indignação de Magá, que representa um tipo de estigmatizado dentro da sociedade padrão.

    Um texto divertido para um assunto pesado; a linguagem direta e ousada, despojada, que o tornou descontraído e atraente. Pareceu-me, no dia-a-dia, já conhecer a protagonista com seus anseios, dúvidas, desculpas e preocupações, dada a verossimilhança com que foi construída. A pobre da mãe, com certeza, descansou depois de perder a “fuzarquenta” filha.

    Parabéns pelo trabalho! E, quando o livro sair, avise. Beijos.

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    1. Oi, Fátima! Obrigada pela leitura, fico feliz demais quando leio um comentário feito com tanta atenção e generosidade, ainda mais vindo de você. Esses contos com personagens problemáticos têm vida própria, por assim dizer, já me perguntaram de onde “tirei” tais figuras, mas da vida real não foi rs. É como uma voz que fala dessas vidas, não sei explicar. amos ver como fica o livro, são tantos projetos, tanta falta de tempo e foco, mas vou em frente. Bjokas!!

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  5. Oi Renata,

    Tudo bem?

    Sua marca como autora, já é a abordagem a temas e personagens (sobretudo personagens) que vivem à margem. Sua observação de mundo colocada no papel é muito boa. Há algo de natural no modo como você conduz essas narrativas que, facilmente passariam pelo piegas, pelo politicamente correto ou pelo estereotipado. Mas não, seus personagens são vivos.

    Magá é viva e aqui vemos um recorte de um grande período de sua vida, com mudanças, nuances, sofrimentos, viradas. Um conto que daria um ótimo romance.

    Parabéns pelo trabalho.
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Oi, Paula! Obrigada pela leitura sempre atenta, e pelo comentário, sempre generoso. Esses contos são todos interligados, estou pensando seriamente em fazer deles um romance….amadurecendo a ideia ❤
      Bjokas, linda!!

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  6. Oi Renata! Mais um conto com a sua assinatura. Na linguagem, na temática, nos personagens, na forma de narrar, você imprime seu estilo, sua marca, cada vez mais madura, me parece. O tom fica entre o cômico e o melancólico e a história flui valorizada pela voz desse narrador que fala a mesma língua dos personagens. Muito bom, garota! Beijos.

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