Aos seis, um papagaio (Elisa Ribeiro)

Naquela época eu ainda achava que podia confiar nas pessoas mais velhas, que os mais fortes protegiam os mais fracos e que tios e tias  eram uma espécie de segundos pais.

Pensava também que pequenos animais silvestres existiam para ser aprisionados em gaiolas de onde eu podia tirá-los para brincar quando quisesse. Havia me tornado fazia pouco tempo praticamente a   dona de um casal de hamsters enjaulados depois do meu irmão mais velho, a dono inicial, mudar de fase.

Quando o vi, vistoso, pousado num galho alto na goiabeira, fiquei imóvel, hipnotizada. Eu já sabia do que um papagaio era capaz. Nossa vizinha de frente na casa da cidade tinha um que falava  bastante e andava para todo lado, a ponta de uma das asas cortada,  pousado no ombro dela.

Desci do balanço e chamei: “curupaco-paco-paco!”. Levantei o braço e fiz com o polegar e o indicador aquele gesto universal de chamar animal. Ele desceu obediente para um galho mais baixo.

Estava sozinha no quintal da casa dos tios. As outras crianças – meus irmãos, os primos  – provavelmente estavam distraídas com alguma brincadeira em outro lugar. Como eu era a mais novinha, às vezes eles costumavam me ignorar. Era janeiro, férias, o segundo ano que alugávamos as mesmas casas de praia, nada glamorosas, próximas e muito funcionais em dar sossego aos nossos pais que nos esqueciam entre nós a brincar. Eram outros tempos, sorte nossa.

Vi a cabeça da minha tia pela janela da cozinha. Chamei, sem gritar, só prolongando as vogais, para não espantar o papagaio. “Tia-a-a-a, vem cá-á-á!…”. Ela olhou na minha direção pela janela, sustentou o olhar apertando os olhos depois os baixou de volta na direção da panela.

Tive que ir até lá. Fui me afastando de costas, bem devagar.

“Tia, tem um papagaio ali na goiabeira… estava num galho lá em cima, já fiz ele descer”, falei, intuitivamente adivinhando os riscos, para deixar claros meus méritos naquela empreitada.

Ela veio até a porta, apertou de novo os olhos na direção da goiabeira. “Espera aí…”. Voltou do banheiro como uma toalha de banho fininha, talvez úmida ainda. “Vou lá pegar”, disse, e marchou na direção da árvore; eu, um passo atrás.

A captura foi covarde. Jogou a toalha em cima do pobre e o puxou do galho para o colo. Fez da toalha uma espécie de saco juntando as pontas e partiu de volta para dentro de casa. Soltou o bicho no quartinho do lado da cozinha, espécie de despensa e trancou a porta por fora.

“Precisa arrumar uma gaiola, né, tia?”, perguntei.

“Hu-hum….”

Pensei um instantinho e lembrei da gaiola dos hamsters.

“Pode ser…”, a tia ponderou e me deu as costas de volta às panelas.

Nossa casa ficava perto, cerca de trezentos metros rua abaixo. Entrei correndo, afobada. Tinha pressa em resolver a situação, resgatar o papagaio, trazê-lo logo comigo. Minha mãe estava ocupada; foi minha avó que deu a ideia de colocar os hamsters provisoriamente dentro de uma gaveta funda retirada do armário quando eu contei a ela sobre o papagaio. “É só pra você traze-lo para cá. Depois  a gente compra alguma coisa que seja apropriada”. Acho que a operação toda não durou nem meia hora. Tomei o rumo da casa da tia levando a gaiolinha dos hamsters nos braços.

Entrei pelos fundos chamando: “Tiaaaa!….”

Dei com o papagaio, preso, acabrunhado, dentro de uma gaiola grande, vistosa, pousada no chão da cozinha. Fiquei olhando sem entender, o peso da gaiolinha vazia dos hamsters cansando meus braços. A tia, ainda estava às voltas com o fogão e as panelas, olhou para mim com o canto olho.

“Ahhh…. Você saiu tão ligeira… nem deu tempo de dizer… lembrei que tinha visto essa gaiola guardada no quartinho de fora…”. O quartinho de fora era uma espécie de depósito externo, no quintal da casa.

Fiquei olhando do papagaio para a gaiola dos hamsters ainda na minha mão, pensando em como ia fazer para levar as duas de volta para casa.

“Vou dar pra Dedé o papagaio…  A coitadinha sempre sonhou ter um animal de estimação…”

A Dedé era sobrinha da minha tia, filha da irmã dela. Eu era sobrinha pelo outro lado. O marido da minha tia era irmão do meu pai.

“Mas tia, fui eu que vi…  eu que achei o papagaio…”

“…mas ele estava na minha casa… e fui eu que peguei!”, ela retrucou, os olhos arregalados, bem séria, quase malvada, as veias do pescoço começando a ficar inchadas.

Senti a garganta apertar, depois os olhos embaçaram. As palavras saíram engasgadas, aspiradas entre os soluços de ressentimento e raiva.

“… mas se eu… não tivesse avisado… você não teria pegado…”.

“Leve a sua gaiolinha e guarde seus hamsters de volta, Julinha. E depois vá brincar, porque o papagaio precisa descansar.”.

A combinação do tom ameaçador da voz com as veias do pescoço, agora muito dilatadas, e o facão sujo de sangue que ela usava para cortar a carne agregaram pavor à minha raiva. Sai que nem um raio, xingando sozinha – “desgraçada” – e soluçando até chegar em casa.

Mamãe e vovó escutaram minha história. Minha vó, cuidando de colocar panos quentes, dizia que ia comprar um casal de papagaios tão logo voltássemos para nossa casa oficial, assim que as férias acabassem. Minha mãe, indignada, preferiu partir para a guerra. Disse que ia na casa da minha tia tomar satisfação, que aquilo não era coisa que se fizesse com uma criança e etcetera. Tirou com impaciência o avental, jogou-o em cima de uma cadeira e saiu decidida porta afora. Fiz menção de ir atrás, mas minha avó não deixou. “Deixa que sua mãe resolve isso, minha filha. Vamos lá dentro comigo devolver os hamsters para a gaiola”.

Não sei o que aconteceu entre minha mãe e minha tia, só sei que não demorou muito ela voltou sem o papagaio. Nem mesmo sei se ela chegou a reivindicá-lo. O mais provável é que tenha desistido a meio caminho, diplomática como era, para evitar um conflito com a concunhada.

Dormi mal as noites seguintes. Despertava no meio da noite excitada com os planos de vingança que interrompiam meu sono sem que eu os invocasse. Enfiar uma faca na barriga da tia, apertar o pescoço da tal Dedé que eu nem sabia direito quem era. Até que o ódio acalmou e eu voltei um pouco antes do final das férias a frequentar a casa da tia. Visitas rápidas com a afetação de quem se sentia ameaçada. O papagaio já então não estava mais lá, ela já havia dado um jeito de despachá-lo para a sobrinha amaldiçoada.

Quando a tia  morreu, anos depois, precocemente, de enfarto, eu, uma adolescente então, até rezei, maquinalmente, uma ave maria e um pai nosso, pensando intimamente, entretanto,  que ela já ia tarde e que morria cedo como castigo por ser malvada.

Só fui entender a atitude da tia muitos e muitos anos mais tarde, meus próprios filhos já criados. Que não fora nada pessoal contra mim, mas apenas uma manifestação de prioridade pela sobrinha verdadeira, o mesmo sangue dela,  nada mais egoistamente humano, nada mais natural.

Sobre papagaios, fiz história no futuro com um outro, não aquele.  Mas isso é assunto para outro relato.

6 comentários em “Aos seis, um papagaio (Elisa Ribeiro)

Adicione o seu

  1. Olá, Elisa! Que história triste! Fiquei super com pena do papagaio e com raiva da tia cretina. Sei que a história não é verdade mas me fez lembrar de outra bem real e que me deixa com culpa até hoje. O primeiro apartamento que comprei era bem pequeno e ficava numa ruazinha que terminava em um bosque. O meu prédio era o último da rua e até chegar nele, havia dois bares, uma bodega e uma mulher que vendia lanches. Certa tarde de sábado eu estava sentada em um dos bares jogando conversa fora quando um papagaio veio voando e tentou pousar no meu ombro (os bichos gostam de mim), mas, no susto, eu o espantei. Mais tarde, estando em casa, vi o bichinho entrar pela janela da minha área de serviço. Quase em seguida tocaram a minha campainha. Era o dono do bar que havia seguido o pobre papagaio e viu que ele havia entrado em minha casa. Já vinha com um maldito pano e acabou pegando o pobre pássaro. Não sei o que me deu, deveria não ter permitido, deveria ter mentido dizendo que o papagaio havia fugido, ou que o queria para mim. Mas fiquei impassível vendo o homem ir embora com a ave nas mãos. Dias depois andei por lá e o vi empoleirado com uma correndo lhe prendendo um dos pés. Aquilo me cortou o coração. O homem nunca o soltaria e me senti, ainda me sinto, responsável por aquela dor.

    Não consegui mais andar naquele lugar. Passava em frente olhando para o outro lado. Depois me mudei para um apartamento muito maior numa rua bem movimentada. O máximo que vi foi um ou outro bem te vi pousando na minha janela.

    As pessoas são ruins e egoístas. Não sei como os animais conseguem viver conosco. Seu texto é tocante, Elisa. Beijos.

    Curtir

  2. Tadinho do papagaio! Querendo fazer amizade, a ave acabou enjaulada por uma bruxa. Pelo menos foi no que a sua descrição habilidosa me fez acreditar. A imagem da senhora com o facão sujo de sangue, veias saltando no pescoço, tom ameaçador, ficou bem real para mim.
    Um conto com ar de lembrança da infância, da inocência e da fantasia, que nos faz viajar por alguns minutos. Narrativa simples como um bom “causo” deve ser.
    Gostei!

    Curtir

  3. Que história cativante! Bichos, tias, preferências e mágoas sempre rendem boas tramas. Não há opção sem perda. Claro que sabemos disso. Mas, muitas vezes, pensamos que está tudo resolvido, que estamos preparados para novas emoções e experiências. Então aparece uma tia, que tem outras escolhas e critérios. As certezas acabam e ficamos perdidas…

    Estilo e assunto afinados, um texto impregnado do espírito indagador e inquieto de uma criança através de uma voz que a soube interpretar. Uma leitura agradável, que emociona e revolta , graças a essa voz que catou cada palavra para construí-la.

    Parabéns, Elisa! Um conto lindo, emocionante! Beijos.

    Curtir

  4. Oi Elisa,

    Não tem jeito. Sou sua fã. Gosto de tudo que você escreve. Você tem esse dom de tornar o cotidiano tão interessante.

    Uma vez um papagaio fugiu perto de minha casa e eu o vi (juro) gritar por socorro até o dono, que estava na parte de trás procurando, o encontrar.

    Para mim, seu conto fala justamente da pouca importância que as pessoas dão aos sentimentos daqueles que consideram “menores”, os bichos (que têm, sim, um sentimento), as crianças (que muitas vezes são atropeladas pelos quereres dos adultos), os idosos, enfim. Não sei o quanto há de autobiográfico aí, mas, seja como for, é muito bem escrito.

    Parabéns por mais um belo trabalho.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtir

  5. Olá, Elisa!

    Um texto triste que trata do desprezo aos sentimentos das crianças e os traumas que causam. E do desprezo aos animais. Uma história que nos toca porque fala diretamente conosco, quem nunca teve um familiar assim? Um conto escrito com muita sensibilidade, fluido e que nos comove pela força com que nos atinge. Muito bom!

    Curtir

  6. Um relato singelo de uma passagem na vida de uma criança. quando somos crianças, o mundo é realmente muito diferente do que quando somos adultos. E as coisas que acontecem na infância nos marcam pra vida toda. Mas a cada parágrafo que eu lia desejava que acontecesse uma reviravolta, que a menina entendesse que os animais merecem viver livres e jamais presos em uma gaiola, e que desse uma de rebelde e soltasse ramsters, papagaio e outros bichos… rsrs
    Beijos e parabéns pelo conto.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: